sábado, março 18, 2006

POEMA ESTÁTICO















As botas desfilam cansadas
Milhares em uníssono, máquinas autómatos de matar.
...Chegaram
Grandes fumos matinais
Doenças pulmonares nas cidades também elas grandes
E cheiros, todos, menos de vida.

...Um coitado foi passear o cão
Foi tão grande a aflição
Morreu de congestão......... (fim)!
...Uma flor ia nascer, mas não!
P`rá quê nascer e morrer logo?
Ficou sempre botão...

...Um casal de namorados de mãos dadas
Passeavam mudos estáticos por entre os escombros... (Embora os olhos brilhassem...)
O sol tinha nascido azul, ficou cinzento
Filtrado na nuvem radioactiva
A cidade fantasma parada no tempo
Finita no tempo. Ah, Ah, Ah...!
Algures goteja um corpo quente
Vêem-se espalhados p`lo chão restos duma farda
Vêem-se pedaços rubros desse corpo...
Algures um botão lançou a ogiva redentora
Fim da discussão!!!
(Leia-se agora de novo)
O sol tinha nascido azul, ficou cinzento
Filtrado na nuvem radioactiva
A cidade fantasma parada no tempo
Finita no tempo. Ah, Ah, Ah...!
... (Lapso para meditação)...

Pequenos negros, negros de fome lutam!
No entanto há sol
E armas mais ogivas nucleares
E dinheiro gasto nisso
Mais uma inquietação que me persegue.

Desprezo!!!
Desprezo-vos cientistas loucos!
Odeio-vos a todos assim como ao urânio
Ouçam!?
Inventem a fome e a dor permanentemente
Nos vossos alucinados cérebros.
No entanto há sol...
Por mais quanto tempo? Digam-me!
Quanto mais tempo posso viver? Vá digam-me!

...Sinto que mais um condenado expirou
Desdobro-me
Sentado em cima de não sei o quê observo-me
Ridículo!
(Roubei as ideias ao poeta)

...Aquela criança que me sorriu na rua ontem
Lembras-te?
Era poeta!
Tinha toda a graça da poesia expressa no rosto lindo.... E sem palavras.

As rosas que floriram no roseiral eram poetas,
Sabias?
Tinham toda a cor da poesia do sangue rubro...

Aquela bomba que caiu...
Seis de Agosto de quarenta e cinco...

ERA POETA!!!
Não sabiam?!
AH, ah, ah! Transformou toda a cidade num lindo poema
Macabro.
Surrealismo à bomba!
Somente a poesia estática de uma cidade fantasma
Um quadro rasgado...com pó...

...O sol tinha nascido azul, ficou cinzento
Filtrado na nuvem radioactiva
A cidade fantasma parada no tempo
Finita no tempo...

Continuamente!!!

Mas estas palavras, são um compasso de esperas angustiante.
São um dardejar no peito incomodativo.
Um exagero à força do sentir.
São algo de termo certo, exacto. Recto e directo.
Qual tiro!...
São algo de revolta. Louca e alucinada...

A minha loucura é inventar-me. Infinitamente!
Um invento em excesso. Já à muito inventado.
A minha loucura sou eu, são os meus pesadelos.
A minha loucura é o meu mundo. Ah! O meu mundo!
O mundo meu que desconheço!
Eu que fui a agressão, o marginal e a lei.
Eu que fui o Zé soldado, ordenança de estrelas e galões.
Eu o recruta de quinhentos paus por mês. Naquele altura.
Eu o dissidente. Perdão! O dirigente patronal.
Eu o cantor de gritos. De dor e humilhação.
Eu a saudade em viagem, num imenso 'inter-rail'
Eu parado no tempo...Ridículo...Doente...
Agradeço do coração a toda a tropa, a experiência,
A maravilha que vivi...
Agradeço os trinta e tal meses de controlo...
(Eu... fui uma guerra de papeis dentro da tropa...)
Agradeço hoje ao regulamento de disciplina militar,
O evitar que desertasse.
...O suicídio é uma deserção punida pelo regulamento...
(..." A Pátria honrai que a Pátria vos contempla...")
Dois metros pelo chão adentro. Herói desconhecido...
Monumento a ti soldado. Morto... desesperadamente morto!
Além numa guerra qualquer...
Mas eu hoje quando ouço:
"Vive o presente, o futuro é amanhã!" Sinto algo de inquietação.
Amanhã? Tão simples?!
O futuro são vinte e quatro horas adiante da angústia.
O presente é a angústia dolorosa.

No entanto...

(Há três anos que sinto uma dor no peito...
Ah, o meu presente doloroso...
Da tropa temos boas ofertas, boas recordações...
Eu que o diga! Tudo agradeço.
Já não me suicido num feriado. Não deserto desta vida.
Que se marimbe o RDM!...)


Excerto de um livo por editar:
" Das vezes que não posso ser quem sou 1984".
1ª parte poemas sem tempo 11/04/83

João marinheiro ausente





1 comentário:

Ana Luar disse...

A minha loucura João é querer acreditar que um dia essas dores deixarão de se fazer sentir. Não te percas dentro das tuas dores mar. Sei que gritas meio ao silêncio, onde ninguém te ouve...onde ninguém se apercebe das tuas lágrimas...lágrimas que ao ler-te passam a ser tb minhas.
Cruel mundo que nos beija e abraça.........é pura perda de tempo as lágrimas derramadas em seu favor. Beijo eterno João.