quarta-feira, março 29, 2006

GRAFIA DESCONTINUA




As nossas mensagens
São como os sinais de Morse
Uma grafia descontinua
Feita de pontos e traços interrompidos
Embora o Morse esteja em extinção…
Assim as mensagens demoram a chegar
Espaçadas no tempo na distância
Escritas em grafia encriptada
Difícil de decifrar
As nossas mensagens diluem-se no tempo da distância
Que nos separa
Que nos faz esquecer que existimos e nos cruzamos um dia
E nessa encruzilhada que nos juntou
Paramos, ofegantes da corrida
Demos as mãos e nossos lábios famintos saciaram a sede e a fome
De beijos ternos de amor por descobrir, mas com sabor a saudade
Desta saudade que sinto, na tua falta de mensagens
Espaçadas no tempo, resumidas à grafia essencial
As nossas mensagens perderam o calor cúmplice
Dos escritos encriptados, difíceis de decifrar
Porque sentidos no coração e no olhar
E em beijos espelhados no amor que sentíamos no peito
Peito cansado, coração dorido, olhos rasos de água
Esforço imenso para encontrar a saída
Desta encruzilhada que nos juntou um dia, e na qual me sinto só
Porque passaste qual cometa num rasto de luz
Que me cegou no brilho da passagem ou no deslumbramento da tua existência.
Assim minhas mãos cansadas continuam vazias pela tua ausência
Embora numa primeira instância fossem tuas mãos que buscavam as minhas
Eu assim reconfortado, assim amado e assim seguro
Fechei os olhos, deixei-me repousar adormecido no teu regaço
Inebriado pelo teu perfume e o calor de tuas mãos na minha face gélida
Perdi a noção do tempo ou do espaço, o meu espaço, o meu silêncio
E ao acordar deste sono reparador ou deste sonho
Não te reconheci nem me reencontrei, ou ao nosso amor
Assim teimosamente
Continuo a enviar mensagens
Como os sinais de Morse
Em grafia descontínua, que demoram a chegar
E neste intervalo de idas e vindas
Espero
E envelheço!
João marinheiro ausente
Fotografia de Barcoantigo

3 comentários:

Arthur Saraiva disse...

Sempre gostei de ler nas entrelinhas, adoro a grafia encriptada que por ser difícil de decifrar se torna mais aliciante. Nos dias de hoje, com a evolução das tecnologias da informação tudo é decifrável e desencriptável, mesmo com algoritmos de chave secreta... No entanto concordo contigo, assim existe uma maior cumplicidade e esse amor será mais difícil de ser interpretado aos olhos de pessoas menos atentas, e depois o que tem os outros a ver com um amor que é só vosso? Nada... Continuo a gostar imenso dos teus textos, desse teu amor... Um abraço.

Mendes Ferreira disse...

e continuadamente venho aqui. para te ler.

e onde é bom aportar.





boa tarde marinheiro das palavras.

Ana Luar disse...

Por vezes pergunto-me que só não vê quem não quer
essa tua cumplicidade com as palavras...
sejam encriptadas ou não serão sempre belíssimas, em forma de poema.
Quando escreves não és apenas caligrafia...
É aqui que te encontro na esquina da
saudade onde as palavras, são soletradas na intimidade do silêncio.
És umapessoa especial mar...e tudo o que é especial, guardo no interior do meu abraço. Beijo eterno...