domingo, dezembro 30, 2007

O meu amor por ti é simplesmente o meu mar.

segunda-feira, dezembro 24, 2007

Uns dias antes do natal…


Resolvi sair de casa hoje. Agarrei nalguma roupa, coloquei tudo num molho na velha mala castanha pequena que a avó de Lisboa deixou ficar no natal passado, porque era velha demais para andar em viagens. Calcei as minhas chancas e vesti a samarra aos quadrados pretos e brancos que o avô me comprou na feira, e fui de ferias para casa da avó Liva, a carregar a mala às costas. Gosto desta mala de cartão com correias de couro e reforços de chapa preta nos cantos, é a mala das minhas aventuras. Lembro-me que foi na última vez que a avó de Lisboa veio que a mala ficou. A avó trouxe-me uma prenda dentro dela, um revolver de fulminantes dourado, e também fez a mãe chorar. Fazia sempre a mãe chorar quando vinha de Lisboa ter connosco. E depois o Pai é sempre por ela, faz-lhe todas as vontades quando ela está cá esquece-se de nós, e saem os dois para a Vila todos os dias, a avó chama um carro de praça preto e verde para a levar e trazer porque a avó gosta de beber o seu chá na Nelia velha e de comer os seus docinhos à tarde. Tudo à moda de Lisboa. Eu já fui a Lisboa, é uma terra grande sem estrelas no céu e fica longe, e só lá sei ir de comboio. É uma terra que fica no fim do comboio. Mas a avó de Lisboa é uma avó pequenina, com um chapéu enfeitado, e pintura nos lábios que ficam muito vermelhos, e eu não gosto dos beijos que me dá, nem do perfume que usa porque me cheira ao mesmo cheiro da cruz do menino Jesus na Páscoa. Mas eu posso escolher as avós. Eu tenho 3 avós, quer dizer tenho duas e uma bisavó e acho que tive mais uma que a mãe diz ser a tetravó, mas essa lembro-me pouco, só a vi deitada a dormir numa cama preta na casa de cima, coberta com uma renda transparente, e tinha um terço nas mãos e estava vestida de preto e tinha o cabelo branco e sorria, era a Madrinha, e tinha morrido porque estava velha, e os velhos na minha família costumam morrer. Também tenho dois avôs, mas só conheci um, porque o outro é militar e musico e saiu de casa da avó de Lisboa porque naquele tempo era assim, diz-me o pai que não gosta de falar dessas coisas, e às vezes, quando eu passo ferias em Lisboa na casa da avó, que vive no quinto andar da Luciano Cordeiro ela fala do avó porque eu pergunto por ele, e porque eu ando sempre a descobrir papeis escritos que eram dele, nos esconsos da casa, mas eu não sei o que eram, mais tarde soube que eram papeis de musicas que ele escrevia, porque este avô que não conheci ainda é musico da Guarda e também tenho uma foto dele. Ele é grande, fardado, do tamanho do outro avô, mas com o cabelo preto e todo engomadinho como a avó de Lisboa diz, e ás vezes ela fala-me dele porque eu queria saber dele, e ela diz-me de como ele era, e de como não gostava dos relógios, e eu achava piada, e ria-me muito quando ela contava que ele quando chegava de tocar nos clubes de dança que eu não sabia o que eram e queria dormir, ficava incomodado com o tic tac dos relógios e dizia; – Se não te calas! Já te dou o tic tac! E como os relógios daquela altura ainda não sabiam falar ele pegava neles e atirava-os para rua do alto do quinto andar, e acabava-se o tic tac, e no dia seguinte comprava outro relógio e trazia para casa. E eu um dia descobri um desses, azul, que fazia tic tac e também o atirei da janela do quinto andar para a rua, a ver se o tic tac parava, e fiquei sem saber o que lhe aconteceu, mas ainda hoje o tic tac dos relógios me incomoda.
O pai tem um irmão que ficou maluco novo, e um dia apareceu em casa da avó para passar o fim de semana e metia-me medo, e um dia fui visita-lo ao hospital dos malucos ali próximo mas não gostei, porque todos tinham um olhar muito triste, e vestiam uns casacos cinzentos pesados por cima de uns pijamas às riscas, e andavam de chinelos por lá, e não falavam comigo. E o pai tem uma irmã que é enfermeira em Africa, e eu não sabia onde era essa terra mas depois soube o que era Africa. Um dia a tia veio visitar-nos à Berlenga e tinha vindo da tal Africa com o tio e trouxe os filhos, uma filha e um filho, que são meus primos que eu nunca tinha visto, e não gostei deles porque são mimados, com manias de serem superiores a mim e aos meus irmãos, e que ficaram com o meu prato dourado da sopa e o meu prato dourado de comer e os meus talheres e o meu copo, e eu reclamei que eram meus, mas o pai não ligou e passaram a ser deles, e quando foram embora atirei-os ao mar, assim se voltassem de Africa não iam pegar nas minhas coisas, e a mãe não ia ficar triste. Africa era uma terra em que os miúdos da minha idade, meus primos, que eu nunca tinha visto, ficavam com as minhas coisas. Nunca gostei dessa terra.

Mas desta vez, no natal passado que a avó de Lisboa veio passar ferias a nossa casa e fez a mãe chorar, eu não entendia essas coisas, e um dia à mesa na cozinha onde comíamos disse que a ponte de Fão havia de cair para ela não passar para o lado de cá, e que o revolver devia de dar tiros a sério para matar os maus que faziam a mãe chorar, e o pai não disse nada, só olhou para mim com cara de mau, e a avó de Lisboa deixou de comer e disse: Oh! Oh! Oh! Três vezes, e depois não disse mais nada como o pai, e foi embora no dia seguinte, e o revolver desapareceu. E ficou a mala. E isto foi tudo no natal passado, e neste o pai foi a Lisboa montado no seu Moton branco, ter com a avó de lá que não quis vir cá, e não fez falta nenhuma, e eu resolvi ir de ferias para casa dos avós daqui pertinho da nossa casa outra vez, e hoje é sexta feira dia de cozer broa, e fui logo de manhã porque vou com os tios levar o gado para o campo e vou com eles aos tarrotes com a fisga que o tio João me fez, porque o avó gosta de comer um bolo com tarrotes apanhados pelo neto mais velho que sou eu, e depois o tio mais novo é o João, e depois o Fernando, e depois a Fernanda e por ai fora. Os avos tiveram 13 filhos e um morreu logo que nasceu, e dois emigraram para o Brasil com o avô quando fizeram 18 anos. O Alcídio que andava nos barcos e morreu quando eu estava na Berlenga. Eu lembro porque era o mais velho dos tios e a mãe falava muito dele e das saudades que tinha de o ver, e depois a mãe, ela, chorou muito na ilha durante uns tempos, e andou vestida de negro, e eu não gosto de negro nem de a ver chorar, e depois passou tudo e ela vestiu as roupas que eu gostava, porque a mãe é linda, a mais linda da ilha, e o outro, o Américo que conheci muitos anos depois e era igual ao avó mas mais novo, e antes do avô ter morrido, porque também era velho, tinha 78 anos e o cabelo branco, e não sei se sorria porque eu estava na tropa e não me deixaram ir despedir-me dele quando morreu…

Esta manhã apanhei quatro tarrotes gordos com a fisga, e fugiram-me uns quantos, e os tios apanharam mais tarrotes gordos, e dois melros, que vão dar um rico bolo de pardais com toucinho, e era já hora do almoço porque o sol estava a sul e não tínhamos relógio mas não fazia falta porque sabiam ver as horas no sol os tios, e trouxemos o gado para o eido, pelo Pinhal Careca que agora é um monte de prédios sem graça, e sem crianças para brincar. O avó tem quatro vacas e dois porcos, e um vai morrer este natal, e depois vamos a Barcelos à feira comprar outro para criar, e eu costumo ir a pé a Barcelos com a avó Liva e a tia Carolina e a tia Lores e mais umas mulheres das Marinhas e da Vila e vamos de madrugada em filinha e eu a correr e em passo miudinho atrás e à frente da avó e quando o dia clareia deixo de ter, assim, medo do escuro, porque é muito de noite e eu levo um candeio na mão com uma vela pequena que se apaga sempre que corro, e é escuro e a estada vai pelo monte às curvas e pelo pinhal alto e as arvores com o vento fazem barulho, e parecem os papões que a bisavó me conta nas historias, á noite, ao borralho, na cozinha a falarem comigo, e porque não passam carros para alumiar a estrada e demoramos duas horas e meia a andar sempre sem parar até chegarmos à feira de Barcelos que é enorme e bonita, e a avó conhece muitas mulheres como ela que vão vender as novidades, e fazer uns centos como ela diz. A avó não sabe ler nem escrever, mas sabe fazer contas de notas. Centos pra frente e centos pra trás, e às vezes também fala em cruzados, e um dia deu-me uma moeda de quatro cruzados, acho eu, porque a perdi muitos anos depois, um dia em que mudamos de casa e as minhas coisas, os livros, e as minhas colecções desapareceram. E ao domingo dá-me uma coroa que são cinco tostões e eu merco chupa chupas da tia Rosa na porta da igreja, que é ela que os faz e escolho sempre os chupas com feitios dos peixes que eu penso são os do rio, quando vou com o avô à missa, mas na missa não percebo o que o senhor padre diz, porque fala de costas para mim e fala numa língua que eu nunca ouvi, mas o avô explicou-me que é língua dos padres da missa e eu fiquei satisfeito, só ainda não compreendo porque é que o senhor padre Avelino que me baptizou e dá missa nas Marinhas e trás o menino Jesus na Páscoa a nossa casa, fala como o avô em vez de falar a língua dos padres da missa?

E depois da feira feita, as coisas mercadas pelo meio dia, voltamos no camião Volvo cinzento, velho, do tio Ferreira que é marido da Lores, e é também velho e tem um bigode preto como o pai, e é uma aventura para mim andar no camião e vir sentado atrás nos bancos de pau aos saltos. E o camião nos dias de chuva tem uma cobertura de oleado cinzento. Tudo cinzento.

Mas hoje é sexta-feira a ultima antes do natal, e vou ajudar a avó e a bisavó com a massa para fazer a broa e o avô a acender o forno. Gosto de ajudar o avó em tudo, porque o avó sabe das coisas do mundo, e gosto que ele me conte as coisas do mundo, e gosto das aventuras do avô por Africa e pelo Brasil, e por França e por Espanha, e por mais sítios que eu não sei onde ficam mas que devem ser importantes porque o avó lá andou a trabalhar. Depois de o avô me falar o que era Africa fiquei a gostar da Africa do avô que devia ser diferente da Africa da tia e dos primos porque o avó não me tirava as minhas coisas, o avó dava-me coisas o que era muito melhor. O avô era carpinteiro como São José, dizia ele, e agora já não é porque é agricultor, e tem uns campos grandes com vinhas, e campos de milho e de girassóis, e de batatas, e dois poços, um em cada campo. O avô quando o ajudo, trata-me por meu neto e por Paulinho que é o meu nome pequeninho, e mesmo quando eu já era grande, era sempre pequeninho para ele, porque os avôs são assim disse-me ele um dia, e explicou-me, sentados os dois no muro da avenida, ao lado do portão da eira vermelha que dava para o campo e a casa, a olhar-mos a foz do rio e o mar, que os filhos crescem e depois trazem os netos que também crescem, mas são sempre os seus meninos no coração, e eu naquele tempo não sabia das coisas do coração. Nem o que era o coração, só conhecia o dos porcos que matávamos, e o matador dizia que era como os nossos, mas eu desconfiava do que ele dizia, porque era um homem que vinha de madrugada, e trazia umas facas grandes embrulhadas num pano na bicicleta que era igual à do avô, e tinha uma voz grossa, e falava alto, e dizia muitos palavrões, e gostava de beber umas tigelas do nosso vinho. Não sabia muitas coisas que agora sei, e tenho pena de não ter aprendido mais com o avô. O avô era um sábio.

Um dia fomos os dois feirar na feira da Vila, o avô e o neto. O neto sou eu, e todas as pessoas lhe falavam, e ele às vezes tirava o chapéu quando cumprimentava uns homens bem vestidos de preto com ar sério, e ele nessa feira mercou-me umas chancas, que eram umas botas com sola de madeira e couro preto por cima pregado à madeira, que estavam penduradas a balouçar num cordel numa barraca de pano com um pau ao meio a segurar para não cair, a barraca era dum homem que o avô conhecia, porque o homem disse; – atão tio Américo como está vossemecê, veio à feira a mercar o quê com o seu neto? E o avô riu-se e fez-me uma festa na minha cabeça e no meu cabelo que era da cor do trigo. Loiro diziam as pessoas. Que eu parecia estrangeiro, mas eu não sabia o que era isso de ser estrangeiro e nunca me preocupou saber, e depois em casa o avô pegou nas chancas e calçou-as com umas tiras de pneu de bicicleta para eu não escorregar, e ficaram como as dele, e mercou-me uma samarra como a dele aos quadrados brancos e pretos e uma boina vasca como a dele, e quando a mercou, disse-me que já tinha sido em tempos contrabandista de boinas para Espanha, no tempo da guerra civil por lá, que as comprava numa fábrica que havia em Viana, e eu fiquei a saber o mesmo na altura, mas agora já não, porque sei o que foi essa guerra, e sei onde era a fábrica em Viana, e agora já não é porque a deitaram abaixo faz pouco tempo, porque estava abandonada, porque já não se usam boinas. E andamos às voltas na feira e depois fomos ver o gado, as vacas como as nossas, pretas e brancas chamadas vacas torinas holandesas, e outras grandes, com pelo castanho e uns cornos enormes que ele dizia serem piscas, mas eu hoje acho que não, que eram mirandesas, e os tourinhos e as tourinhas, e os porcos. O avô queria mercar outro porco porque o Ruço ia morrer estes dias para o natal. O Ruço era o porco, e era eu que dava os nomes aos animais, e na altura eram todos meus e o avô não se importava e dizia; – meu neto toma-me conta dos animais, e eu tomava conta. Também tive uma porca que se chamava dona Chica que também morreu e acabou em chouriças e presuntos.
Agora ainda uso uma boina como antigamente quando ando nos barcos e uns socos de madeira e couro. O avô andava sempre de socos no campo.

E um dia, antes da sexta feira antes do natal, aconteceu-me uma coisa com uma das vacas que o avô tinha, e que eu chamava de Preta, porque era toda preta, e era má pra mim, porque me olhava com olhos de poucos amigos, e eu gostava dela, e de lhe fazer festas como fazia às outras, e gostava de lhe tirar o leite como o avô me ensinou a fazer nas outras, mas às vezes dava-me cornadas e coices e dava-me com o rabo, e um dia pegou-me de lado pela roupa e voei, e cai na rigueira, e ia ficando afogado porque vi estrelas e terra e agriões de volta de mim, e fiquei todo molhado, e assustado, porque eu tinha a mania de me por às cavalitas das vacas, quando elas comiam dentro das rigueiras que traziam a água dos poços quando eles estavam cheios para o rio, e a Preta só me deixava fazer isso se eu fosse com a tal samarra aos quadrados, mas eu não sabia, mas descobri á terceira cornada, que foi a que vi as estrelas e os agriões na rigueira, e fiquei atordoado e ia morrendo, afogado porque fiquei tonto, e o avô deu com o cabo da enxada na vaca que a queria matar ali mesmo, e a bisavó veio aos gritos, e mais a avó, e mais as jornaleiras, e foi um burburinho, e eu todo molhado fui para casa no farol a correr, mas tive de voltar para a casa da avó, porque tinha saído de casa, e tinha levado a minha roupa toda que estava num molho, dentro da mala de cartão castanha que tinha feito a ultima viagem de Lisboa, o natal passado. Mas a mãe veio comigo. E o avô, neste entretanto deixou o trabalho do campo, pegou na bicicleta dele, uma Vilar de roda 28, e pedalou até às Marinhas a casa do Pastor, que era um homem que depois conheci, e que veio nessa noite buscar a Preta com um camião, e depois, uns dias depois, trouxe outra vaca pequenita que eu chamei de Tonicha, porque na altura havia uma cantora com esse nome e eu tinha visto na tv, porque o pai tinha comprado uma tv por trezentos escudos, o que era uma fortuna dizia a mãe. E o Pastor às vezes aparecia à sexta feira à noite, quando o bolo de sardinha saia do forno, e veio nesta sexta feira falar com o avô da troca das vacas, e comer bolo de sardinha, e foi quando eu fiquei a saber que a Preta tinha ido para o matadouro da Vila para morrer, e fiquei triste, só um bocado. Mas a Tonicha era mais bonita, e tinha uma estrela branca no meio da testa, que nas vacas é onde estão os cornos, e ficamos grandes amigos, porque ela não se importava que eu andasse às suas cavalitas, como via a moleira fazer à mula que trazia na sexta feira de manhã a farinha de milho à avó para cozer a broa.

Mas hoje é sexta feira antes do natal e vou ajudar o avô a trazer lenha grande para acender o forno e ajudar a avó a amassar a farinha de milho e fazer bolos de sardinhas e de tarrotes, e um bolo que eu vou fazer é para ele, porque eu fico contente quando ele depois, de tudo feito, tira os bolos do forno e os coloca sobre uma toalha na mesa, e a bisavó os cobre para não arrefecerem enquanto a avó com a gamela, volteia a massa para fazer as broas, e a coloca em cima da pá de meter ao forno, e lhe faz com a mão em cutelo um corte ao comprimento e as benze em cruz, enquanto o avô, certeiro, num movimento rápido as coloca dentro do forno vermelho de calor, enquanto a cora de brasas na soleira, não deixa o calor sair, e eu espero para fazer a minha broa também, porque tenho uma pá feita pelo avô que era carpinteiro e agora não, mas tem as ferramentas e me fez uma, e um banco como o dele para tirar o leite às vacas, e um sacho, para o ajudar a sachar o milho, e um ancinho para o ajudar no campo e na eira a virar o milho. E no fim da broa toda botada ao forno e a porta em ferro selada com massa do pão, o avó arruma as pás e o esfregão de pano de limpar o forno e arruma as brasas da cora no borralho e senta-se na mesa e diz um Avé Maria, e depois passa a mão, grande, pelo cabelo com umas grandes entradas na testa como eu tenho, porque pareço-me com ele, dizem, e enche uma malga branca com riscas azuis de vinho da caneca que o tio Passos foi encher à adega e começa a refeição. Começamos todos, e começa pelo bolo que eu lhe faço, pequeno, fininho tostado, com quatro tarrotes colados na massa e umas tiras de toucinho entremeado da barriga do porco salgado, e depois da primeira dentada diz sempre que o mimo que o neto lhe fez sabe bem, e eu fico com os olhos brilhantes de alegria porque gosto destes mimos com o avô. E depois de comermos os bolos de sardinha e os bolos com os tarrotes, e de a avó ter mandado bolos de sardinha embrulhados numas toalhas brancas, que eram de linho, e eu não sabia para as irmãs, numa ceira que é uma cesta de junco de antigamente, pelos meus tios que vão e vem a correr nas bicicletas deles, ficámos ali ao calor do forno e do borralho da lareira, que é onde se cozinha, nas panelas grandes e negras do lume, e onde um pote de três pernas gordo, com tampa fumega sempre com água quente, que o avô e a avó e a bisavó usam para lavarem os pés quando vem do campo, e é a bisavó que trata do lume.
A bisavó é uma velhinha mais velha que os outros todos, mas muito rija, e que tem uma cara feia, mas é bonita por dentro, porque é muito minha amiga, e eu sou o bisneto mais velho cá, porque ela tem outros no Brasil, mais velhos que eu. Ela tem uma cara feia porque tem o nariz torto, de uma operação mal feita, porque neste tempo as operações nunca são bem feitas. Eu até achava que ela não tinha nariz, mas tem, porque eu muitas vezes dormia com ela, e às vezes de noite dava um peido fedorento e ela dava por ele, e dizia-me logo, Paulinho isso não se faz, atão que falta de respeito pela bisavó, e de castigo lá tinha eu de rezar o terço outra vez. Rezava sempre o terço com ela antes de dormir, às vezes até ela ficar a dormir de tantos terços rezados seguidos, e um dia pensei que eram terços a mais, porque ela tinha um terço preto pra rezar todas as noites, e resolvi esconder o terço, mas não deu resultado, porque ela sabia de cor a ladainha e continuava a rezar o terço e a dizer que não sabia onde tinha guardado o terço. A bisavó era sábia também como o avô. E tinha um cabelo muito bonito, muito comprido e preto que amarrava num picho na cabeça, e tinha uns brincos grandes em ouro, e andava sempre descalça, e um dia muito tempo depois era eu grande, morreu também, como morrem os velhos da minha família.

Gostava de me sentar ao colinho da avó e depois quando estava cansado e com sono passava para o colo da bisavó que me levava para dormir com ela na casa de baixo. Mas antes de dormir nas sextas-feiras em que se cozia o pão, o avô contava histórias da África, e eram histórias com leões gordos, e homens pretos que eu nunca tinha visto e viagens de barco, uns barcos grandes que tinham de sair de Lisboa chamados Paquetes, e a mim metia-me confusão, porque o Paquete que eu conhecia era um pescador da Vila que tinha um barco parecido com o barco vermelho que o avô tinha para ir ao sargaço na praia de Fão, ou à botelha nas pedras do rio, para dar aos porcos. Depois ele explicou-me que não eram a mesma coisa, e fiquei a perceber. O avô explicava-me sempre muitas coisas. Gostava das histórias do Brasil, o avô trabalhou na construção de barragens no Brasil e falava-me das cobras enormes que lá havia que podiam comer um homem. Eu sabia de uma grande que andava no poço de cima e tinha a toca no meio das lousas, deixei de ir ao poço de cima não fosse a cobra comer-me também. Mas o avô um dia explicou-me que aquela cobra não fazia mal, que era uma cobra de água inofensiva que só crescia um metro e meio no máximo, mas mesmo assim já era maior que eu, e que as cobras do Brasil eram jibóias gigantes com mais de vinte metros, que andavam nos rios de lá, fiquei assustado com aquilo, eu gostava de andar no rio aos irões, e se me aparecesse uma cobra daquelas em vez de um enguio. Durante uns tempos deixei de ir só ao rio aos irões, e depois vi na tv em casa que aquelas cobras grandes não existiam por cá e deixei de ter medo de ir aos enguios nas poças do rio.

E nesta sexta feira também brinco com os tios às escondidas, e vamos até à praia até perto de rio de moinhos pela beirada da água, porque ás vezes encontramos pranchas de madeira grandes, que caem dos navios dizem eles, e cabos e bóias, e às vezes vemos se o rio trouxe gravalha para o lume, que é uma espécie de lenha miudinha, feita de ramos partidos, e de pedaços de vinhas e de juncos que seco arde muito bem.


E um dia cresci e fui embora como o avô me tinha dito que os filhos tinham feito, e quando voltei o avô já tinha morrido de velho, e a bisavó já tinha morrido de velha, e a avó já tinha morrido de velha, e a mãe também morreu, e o campo já não existe, e a casa já não existe, nem o forno nem nada, e esta historia já foi há mais de quarenta anos e eu não sei se aconteceu...



João marinheiro Natal 2007
Imagem da net

quinta-feira, dezembro 20, 2007

V carta...


Estou desesperado. Demasiado velho já. tremem-me as mãos, a vista está enevoada. Definho. Espero por ti. Tantos anos. Desisto de te amar. Só o mar me consola sempre, só ele foi fiel, e esteve sempre aqui, meu confidente e companheiro de lágrimas. Só ele porque é salgado e eu por vergonha só no mar chorava por ti para confundir as lágrimas no sal.
Corri mundo. Atravessei oceanos, conheci terras e gentes. Mulheres. Procurei-te tantas vezes. Já não sei de ti. Não faz mal, acabou. Estou desorientado. O nevoeiro sufoca-me, faz-me lembrar quando andava na Terra Nova a fazer pela vida. Nevoeiro intenso e perigoso. Húmido pegajoso. Espesso. Não sei de ti. Já não sei de ti. O coração está cansado de te amar assim em silêncio. Em segredo. Desesperado o coração. Definha. Morre. Só o sangue é ainda rubro de paixão.

Agora tenho tempo. Perco-me a pensar enquanto aproveito o pouco de sol que espreita nas nuvens e me aquece. É triste ser velho, estar só abandonado. Não tenho família. Qualquer dia é outra vez natal. Já não sei mas deve ser, a luz nas ruas não engana. Agora tenho tempo. Faz tantos anos que não recebo um presente. Faz tantos anos que não dou um presente. Aqui onde estou agora a viver já tudo anda numa correria, mas eu sou um mundo à parte. Trago comigo o cheiro a salitre, a porão de navio velho, a minha pele é escura, negra, queimada do ar do mar e do sol. Sou um estranho!
Tu não sabes que tenho aqui no meu pequeno quarto uma janela onde vejo mundo, e o mundo para mim é o mar que vejo da minha janela. Já não tenho família, já ninguém me visita e eu mato o tempo em mim a olhar as ondas cadenciadas e certas a morrerem na praia. A praia é um pedaço de areia que avisto da minha janela. Tinha-te dito que precisava de ir para um sítio onde não adormecer só, aqui durmo só mas existe sempre alguém que vigia a noite. Na minha casa pequena não. Gostava de poder dizer a nossa casa pequena, mas não é, não foi, Era a minha casa onde vinhas por vezes mas é a tua casa se voltares.

Daqui deste pedaço de praia imagino-te. Procurei uma casa, um lar perto do mar, demorou, tive de vir para longe porque só longe encontrei um quarto com janela e mar e um pedaço de mundo meu que contemplo enquanto te escrevo outra carta. Esta será qual? Que numero lhe dou? Quantas cartas já te escrevi eu? Não faz mal, tenho sempre alguma coisa a dizer-te, a segredar-te ao ouvido, a imaginar-te. Às vezes não sei de que forma te posso imaginar mais, porque já te imaginei de todas as possíveis, e em todas, cada vez és mais tu. O meu amor. Achas isto possível? Eu acho que deve ser da minha idade avançada, que devo estar a ficar senil também. Velho rezingão a dar trabalho, e eu não quero dar trabalho a ninguém, prefiro fechar os olhos de uma vez, e ir embora. Por isso cada carta que te escrevo é sempre uma carta de despedida, como se fossem as ultimas palavras a ti. Se um dia leres alguma das cartas que te escrevo, algum dia.

Daqui desta praia rectangular sem cortinas imagino-te. Mas já não vou até à areia contigo, caminhar na beirada da água, as minhas pernas já não aguentam. Lembras-te? Já não lembras. Não lembras que eu existo ainda. Não faz mal. Já nada faz mal, porque o mal está feito e não tem remédio. Envelheci, é isso, e agora estou para aqui entretido, a olhar o mundo da minha janela e a pensar em ti e a escrever para me distrair de ti. Para me distrair de ti. Como se isso fosse possível.
Amei-te. Amei-te como amo o mar. Intensamente. Um amor fiel e puro, feito de sacrifícios, de lutas diárias. Só o amor puro fica para sempre. Nós não. Tenho medo de continuar a amar-te para lá da morte.


Queria deixar-te um poema e já não sei imaginar um poema para ti, que seja belo. Digno de ti. Ficam as palavras estas tentativas de poema que não são:

...Sento-me frente ao mar
E tudo faz sentido…


João marinheiro, Dezembro 2007
Fotografia Barcoantigo 2006

quinta-feira, dezembro 13, 2007

A falta que me fazes...



Está um frio imenso e dói-me a cabeça e o corpo e eu continuo aqui na velha sala minúscula que me parece demasiado grande sem ti e está frio cá dentro e lá fora e eu neste domingo em que me apeteciam as tuas mão nas minhas tão cansadas a tua voz na minha voz tão rouca de te falar baixinho ao ouvido as tuas palavras nos meus ouvidos tão exaustos os teus olhos nos meus olhos tão secos dos ventos e das maresias salgadas fico aqui a alimentar-me de saudades e destas pequenas bolachas salpicadas de chocolate porque eu sei que gostavas de comer chocolate e assim em cada uma é como se aqui estivesses tu a comer e agora já não sei e penso nisso enquanto bebo um chá porque está frio e me apetece esperar pela noite aqui a olhar a porta a imaginar que chegas vestida de mãe natal e vens ajudar-me a fazer a arvore minúscula como no ultimo natal que passamos juntos os dois enquanto o amor existia em nós e a estrela polar que continua no mesmo sitio nos indicava o norte e o caminho de casa e éramos felizes e agora só sou meio feliz porque te penso feliz lá para além das estrelas todas que ainda vejo nas noites que passo sem sono em claro a ver se cai uma cadente a quem possa pedir um desejo pequeno possível de realizar porque só os pequenos desejos se podem realizar eu sei porque todos os outros são sonhos e os sonhos são desejos impossíveis e eu enquanto bebo a ultima chávena de chá no mesmo serviço velho que é o único que conservo penso em ti e em mim e dói-me a cabeça e está frio e sinto a falta que me fazes…

João marinheiro Dezembro 2007
Fotografia de Barcoantigo 2007

sábado, dezembro 08, 2007

Encruzilhadas...

Respondendo ao desafio lançado aqui está o resultado árduo de juntar as palavras...Com todos os imprevistos acontecidos estes dias...



Só tu.
Só tu me fazes escrever-te vezes e vezes e vezes sem conta as mesmas palavras repetidas até à exaustão dos sentidos. À exaustão dos dias. À exaustão do amor que te tenho ainda, guardado no coração ferido. Sim tenho um coração ferido, com cicatrizes que sangram de tempos a tempos como um vulcão adormecido, que hiberna, que finge.
Da última vez que te escrevi foi uma carta de despedida, ou uma carta ridícula, ou nem sei já. Ando confuso e velho, demasiado velho para te amar, porque na minha cabeça ainda és a minha miúda sem tempo presente, só passado e conservo-te da mesma forma como te recordo quando foste embora. Tenho medo que o meu amor por ti seja um amor mumificado no tempo, que seja uma espécie de sobrevivência do sentir, algo de petrificado em mim que me entope as artérias e calcifica o sentir, não sei. Sobrevivo à extinção pura e simples e inglória. Só a memoria perdura no tempo, só a memoria perdura para a eternidade. Para lá das palavras, para lá das cartas escritas, para lá de ti e de mim. Só a memoria é em ultima analise a sobrevivência de nós. A sobrevivência do amor que eu já não consigo dizer em palavras, que eu já não consigo demonstrar em gestos, que eu já não consigo dizer nos actos. Que eu, é verdade, já não consigo sonhar. O meu sonho de ti é uma amálgama confusa de rostos e de cores e de brumas. Invento um mundo sem tamanho ou margens para te ter, uma invenção cada dia mais e mais e mais difícil de inventar com nitidez com a clarividência dos dias claros. A minha vista tolda-se de um negro que me parece um luto, e tenho medo de cegar lentamente, de deixar de te ver mesmo assim desta forma insuficiente. Peço que me perdoes a falha física mas sou humano, com todos os erros que cometo. O corpo envelhece, consequência dos dias. Perdoa-me. Nos últimos tempos só sei pedir-te perdão. Nunca sei se efectivamente me perdoas a falta cometida. Haja o que houver serás sempre o meu amor. Livre, completamente livre. Só assim eu te posso ter como uma andorinha, livre, em branco e negro as cores das tuas vestes. As cores das tuas asas, que me parecem braços, os teus braços dos quais tenho uma saudade imensa. Que me rodeavam o peito. Que me abraçavam, me protegiam do frio nas noites de Inverno. Estas noites de agora são noites de Inverno de novo, um Inverno que chega com nevoeiro e frio e chuva miudinha, e eu lembro-me do teu abraço e do meu abraço a ti, do felizes que éramos nesse tempo cúmplice em nós. Até as gaivotas na praia se riam das nossas brincadeiras de crianças grandes na beira-mar. Quando posso e o corpo me leva vou até à beira mar recordar-me de ti.
Às vezes os velhos companheiros dos barcos lembram-se de mim, e convidam-me para ir longe a falar de barcos e de memórias. Vou. Gosto de contar historias. Faz-me bem recuar no tempo, ao tempo de menino ao serão nas noites de Inverno de roda da lareira e da masseira e da saia da bisavó e da avó e de andar com o avó a preparar a lenha para acender o forno para cozer o pão de milho que a moleira trouxe na quinta feira pela tardinha montada numa mula castanha dócil, a quem eu fazia festas no pescoço enquanto ela, com os seus enormes olhos me fitava serena, e escutava com as enormes orelhas de burra, as minhas perguntas sem resposta. Depois ia embora rumo a Rio de Moinhos, rumo a Outeiro. Nesse tempo o tempo tinha outro valor, era mais intenso, acho que mais verdadeiro. Este de agora é demasiado rápido supérfluo, artificial, falso. É isso! – Um tempo falso este de agora.
Faz tempo. O nosso tempo verdadeiro escrevi-te uma carta. Segunda carta a ti. Começava assim: …Tenho tantas saudades tuas. E cada dia que passa é mais um a juntar ao sonho…
É verdade. Tenho tantas saudades tuas. Demasiadas saudades que me prendem, me enredam como os peixes emalhados numa rede tecida de fios de algodão invisíveis. Tanta saudade que dói. Até quando? Até quando eu vou conseguir amar a tua memória só. Porque já só amo a tua memória breve. Tão breve. Tão breve.
No tempo que estive fora. Sem ver o oceano atlântico. Sem te ver nas ondas de espuma branca, sem te sentir no cheiro da maresia, andei aflito. Quis dar-te noticias minhas, não fosse tu regressares e andares a passear na beira mar e eu não estar na nossa praia do cabo do mundo à tua espera, e te sentires só e pensares que eu te esqueci e te troquei por outra. Confesso que às vezes o tento fazer, o faço num momento breve. Mas não resulta, não são perfeitas como tu. Não encaixam no meu coração como o teu encaixa. Porque o teu foi feito à medida do meu, em peça única. Sem substituição possível. Agora já sabes que és insubstituível. Que o meu amor é PARA SEMPRE.
Escrevi-te pela madrugada a passar o tempo a matar o tempo da única forma possível, pensando em ti. Foram noites longas de insónia e de desejo teu, do teu corpo. Do teu amor. Dos teus beijos e carícias. Da tua pele na minha pele. Desejo de sexo contigo. É isso, sexo louco contigo. Perdoa o meu pensamento assim desta forma a dizer sexo ao amor que fazíamos, mas por vezes nem sei se te deveria ter amado com este amor todo que me ficou entranhado na pele e sinto nas mãos, ainda, a latejarem no desejo de te tocar, ou te deveria ter amado de outra forma indolor – só sexo! Os dois de olhos fechados, estranhos, sem marcas no tempo. As marcas no coração que se ressente hoje de novo.
Tenho medo. Medo de ter que o substituir e te perder definitivamente. Medo de ter que usar um coração diferente, que não encaixe na memória do teu, e acorde diferente, estranho, sem memória, desmemoriado de ti e de mim. E não te reconheça, nem os lugares da memória, nem os lugares onde fiz a peregrinação de ti estes anos todos. Prefiro que doa. Que me faça doer o peito, me faça ficar aflito, sufocado, sem ar. Me faça desfalecer cada vez mais. Mas não o troco. – É teu!

Agora já sabes porque te escrevo. Agora já sabes o porquê das minhas cartas cada vez mais longas e longas e inúteis. Agora já sabes porque deixei de escrever poemas. E te escrevo cartas. Porque o tempo urge. Porque o tempo escasseia. O meu tempo para te amar aqui ainda. Porque te irei amar na eternidade quando o mar me levar para adormecer definitivamente nos seus braços. Peço-te que nunca, mas nunca, tenhas ciúmes, porque eu não tenho e o mar completa-me contigo e fecha o círculo da minha vida aqui. Agora já sabes. Estou velho, se um dia passares por mim e eu não te reconheça, passa devagar para me dares tempo a reconhecer-te ou então não passes nunca. E fica o silêncio, foi assim que terminei a minha terceira carta a ti. …Impera o silêncio a estremecer o corpo por dentro...Este silencio em nós tão louco e disforme e sem sentido. Já nada faz sentido neste Dezembro, neste dia 8 feriado que era o dia da mãe no meu tempo de menino e agora não porque o trocaram também. E agora porque o escrevi, recordo a mãe, e os olhos humedecem com uma névoa salgada. Ficam os restos do amor e a solidão. Só ela e o silêncio aqui na pequena sala onde te escrevo sôfrego do que te queria dizer e não consigo, porque as palavras não falam a expressão do rosto, o brilho dos olhos, a entoação da voz, as palavras não são nada de nada, só os caracteres, o código possível da nossa existência breve. O registo futuro para memória futura, o testemunho de acusação ou de absolvição, as provas, o material de trabalho para os juízes inquiridores me julgarem pelos pecados cometidos, as palavras omissas, os gestos reprimidos. O amor trocado no corpo de outras mulheres a ver se te esquecia, ou, em desespero, o coração delas se assemelhava ao teu e encaixava no meu, mesmo com arestas vivas a ferirem a pele por dentro, mesmo assim. Tenho frio, precisava que cuidasses de mim agora, me desses uns mimos, espécie de mãe a quem não é preciso pedir porque dá do coração, sempre, disponível e atenta. Espécie de mãe…que não és, nunca foste. Não poderias ter sido. Só eu inconscientemente procurei em ti as qualidades dela, só isso. Inconscientemente.
Ando louco, sem paciência para o mundo que gira demasiado veloz a destruir o sentir. Demasiado ruidoso demasiado ruidoso, e eu preciso do silêncio para conversar contigo, para te escrever as palavras que já não escutas da minha voz sem som, amordaçada pela ausência. Porque nunca mais me deste uma noticia tua? Será que morreste e eu não o senti? Sei que não que vives algures por ai e que és feliz, quero crer que sim que és feliz algures. Para triste basto eu aqui a definhar só. Era esse o motivo da minha última, quem sabe definitivamente ultima carta, dizer-te que já não consigo estar só, que vou procurar um lar, um asilo onde me acolham como náufrago dos barcos e da memória e do amor teu. Que vou deixar a nossa rua em paralelo torta, a casa, tudo. Levo a tua foto amarelecida e desmaiada do tempo. Já não consigo ver a cor dos teus olhos lá nem o brilho nem a cor do teu vestido, nada. Só me emociono sempre que paro a olhar a parede onde habitas. Não sabes mas nessa parede só tu habitas, como uma casa ampla. Recordo que me dizias gostar das paredes livres, as salas amplas com luz natural, as casas a respirarem. Nunca consegui satisfazer o teu desejo. Só a parede é grande e tua. Tudo o resto da casa é pequeno e velho e não tem luz natural e não respira, é um mundo secreto onde permanece o teu odor. Não te vou repetir nem descrever de novo a nossa sala. Deixei tudo como está também parado no tempo. Espécie de museu a minha casa, museu de ti. Agora já sabes o motivo da minha quarta carta a ti. Das minhas duvidas os meus receios os meus pensamentos.
Vou procurar um sítio onde se escute o mar para morrer… Venho hoje despedir-me de ti. Termino esta carta. Outra carta à laia de desafio desta vez com algumas palavras de um livro que alguém. Amiga, muito amiga me ofereceu, e que fala também ele o diário de um velho marinheiro…

...Desespero por nem conseguir imaginar a forma como me olhavas!
Roubaram-me os sentidos e a memória.
Estou vencido.
No meio de uma sala ou no meio do oceano?
Que importa?
Abandono-me.
Os brandais da vida partem-se e o corpo oscila solto como um mastro tremulo quando os brandais cedem.
Resta deixar-me cair na espuma que me rodeia.
Estarei já morto?
E que diferença faz o tempo nestas condições?
Estou cansado…muito cansado…

Vêem-lhe a palidez?
Devolvam-lhe a memória ou deixem-no em paz
Morto, se possível. E lancem-no ao mar… *



* Jayme velho, Quando os brandais cedem

João marinheiro, 8 de Dezembro de 2007

quarta-feira, dezembro 05, 2007

Computador....


Esta recebi por mail e não resisti a partilhar aqui neste dia de chuva e nevoa...


SÓCRATES COMPRA UM COMPUTADOR E... TELEFONA VÁRIAS VEZES AO MARIANO GAGO PARA O AJUDAR A USÁ-LO:

* Mariano? É o Zé Sócrates. Oh, pá, ajuda-me aqui. Comprei um computador, mas não consigo entrar na Internet! Estará fechada? Aquilo fecha a que horas?
* Zé, meteste a password?
* Sim! Quer dizer, copiei a do Freitas
* E não entra?
* Não, pá!
* Hmmm....deixa-me ver... qual é a password dele?
* Cinco estrelinhas...
* Oh, Zé!...Fo...-seeeeee....Bom, deixa lá agora isso, depois eu explico-te. E o resto, funciona?
* Também não consigo imprimir, pá! O computador diz: "Cannot find printer"! Não percebo, pá, já levantei a impressora, pu-la mesmo em frente ao monitor e o gajo sempre com a porra da mensagem, que não consegue encontrá-la, pá!
* Fooo .... -seee....Vamos tentar isto: desliga e torna a ligar e dá novamente ordem de impressão. Sócrates desliga o telefone. Passados alguns minutos torna a ligar.
*Mariano, já posso dar a ordem de impressão?
* Olha lá, porque é que desligaste o telefone?
* Eh, pá! Foste tu que disseste, estás doido ou quê?
* Fooo .... -seee...Dá lá a ordem de impressão, a ver se desta vez resulta. Dou a ordem por escrito? É um despacho normal?
* Oh, Zé...Fooo....Eh, pá! esquece....Vamos fazer assim: clica no "Start" depois...
* Mais devagar, mais devagar, pá! Não sou o Bill Gates...
*Se calhar o melhor ainda é eu passar por aí...Olha lá, e já tentaste enviar um mail?
*Eu bem queria, pá! mas tens de me ensinar a fazer aquele circulozinho em volta do "a".
* O circulozinho...pois.... Bom...vamos voltar a tentar aquilo a impressora. Faz assim: começas por fechar todas as janelas.
* ok, espera aí...
* Zé?...estás aí?
* Pronto, já fechei as janelas. Queres que corra os cortinados também?
* Foo....Senta-te, OK? Estás a ver aquela cruzinha em cima, no lado direito? *
* Não tenho cá cruzes no Gabinete, pá!...
*Zé, olha para a porra do monitor e vê se me consegues ao menos dizer isto: o que é que diz na parte debaixo do écran?
* Samsung.
* ...
* Mariano?... Mariano?...Desligou...