domingo, dezembro 31, 2006

Hoje chove no cabo do mundo…


Hoje chove
Sinto a chuva a cair lentamente
Pequeninas gotas
Uma chuva suave
O dia é cinzento hoje
Chove
As gotas batem nos vidros e eu estou do lado de dentro contemplando o mar
É um dia bom para ler um livro no cabo do mundo
A minha praia de memórias agora que o ano termina
Estou só no carro mais o livro, a chuva, o dia cinza
Às vezes passam as gaivotas rumo a norte, mas não me ligam nenhuma
Os seus pensamentos são outros.
Estou só no carro e o tempo arrefece
Sinto o frio a subir em mim pelos pés
Espécie de torpor, de hipotermia suave
Chove lá fora, no chão espécies de charcos, lagos doces
Onde os pardalitos se banham em breves esvoaçares de asas
Perco-me da leitura que me trouxe até aqui
E queria estar recolhido longe do mundo, só
Aqui neste sitio mágico onde confessei o meu amor por ti
Já não sei quando
Lembro que nesse dia estava sol, um sol por bonito
E o mar calmo e o vento calmo e os nossos corações apressados em sobressalto
Mas hoje chove
E a chuva escorre no vidro como as lágrimas que sinto por dentro
Tu não sabes
Que venho aqui muitas vezes ao longo do ano
Que aqui fico como hoje tentando ler um livro
Mas que o olhar vagueia dorido da tua ausência.
E as folhas ficam paradas, sem virar a página
E tu também não sabes que comigo trago as músicas que me ofereceste um dia
E as repasso enquanto tento ler o livro que não consigo
Porque afinal
Hoje chove
E o livro é só o pretexto para aqui vir de novo
A este sitio deserto
No cabo do mundo
Encontrar-me contigo
A tua memória
A imagem de ti
No cimo da pedra em contra luz, o sol a pôr-se nas tuas costas
E eu, meio tonto, a estender-te as mãos e tu a sorrires
E o teu cabelo ondulando ao vento suave, e eu feliz por te amar.
E o livro é só o pretexto
A chuva as lágrimas que sinto por dentro
O carro vazio do teu perfume
Os meus pensamentos são outros…
Finda mais um ano
E eu findo em ti de novo
Encosto a face ao vidro e está gélido
Repete-se a tua música de novo, a nossa música
Bailam em mim as palavras…
Chove
E esta chuva calma é uma espécie de fronteira
Já não te toco, não te sinto, não te beijo ou te abraço.
E esta chuva é uma espécie de fronteira
Uma espécie de mar profundo onde me afogo na saudade tua.
Porque hoje chove
E eu vim mais uma vez
Reencontrar-me num equilíbrio precário da tua ausência.
Porque, meu amor me dói a tua ausência.
Me dói ainda este amor que guardo em cada respiração
E porque me sinto abandonado
Outra vez e outra e outra e sempre desde que partiste
E venho aqui sempre
Quando a saudade aperta e me sufoca
E aqui só, deixo que o soluço rompa de dentro
Ou as lágrimas se confundam com a chuva
E eu descanse, repouse o pensamento por breves momentos
Em que chegas e eu te sinto por inteira.
Então viro a página do livro que trouxe para ler e que era só pretexto para te ter
E continuo a olhar o mar e a chuva a cair lá fora
O dia escureceu já, agora negro, um cinzento negro.
Finalmente ganho a coragem de partir
Despeço-me de ti fechando o livro desligando a musica limpando a chuva no vidro.
Ligo o motor. Acelero, e esqueço-me que existes.
Volto para trás, o caminho de casa. A vontade outra.
O teu abraço que me faz falta…Tu não sabes
Mas virei ainda aqui mais vezes no ano que se aproxima
Nos dias de chuva
Ler o livro
Hoje amo-te ainda!

João marinheiro Dezembro 2006
Fotografia de Barcoantigo

terça-feira, dezembro 26, 2006

Três desejos no dia de hoje…



Eu sinto
Que tu sentes
Que eu sinto
E que sabes que eu sei
Que sabes
O que eu sinto…





Amanhã ou depois. Ou depois. Ou depois.
Um dia
Quem sabe quando me encontrar contigo
Numa rua qualquer de uma cidade qualquer.
-Dás-me as tuas mãos?
As tuas mãos pequeninas nas minhas mãos cansadas.
– Dás?
E vamos os dois passear como um par de enamorados…





Este é um desejo velho
Tocar-te os lábios
Desapertar-te a blusa
Beijar-te os seios
Perder-me em viagem por ti abaixo
Voltar
Este é um desejo velho
Como antigo é o mundo
Só tu te renovas amor em cada respiração
Na incerteza de me teres como todo o desejo inacabado
Este é um desejo velho
Como velho é o mundo
E o amor que o move.


João marinheiro 26/12/06
...E o teu rosto, o teu olhar não tem explicação.

Como eu costumo dizer existem coisas que não se explicam, sentem-se.

Não gosto de te explicar, gosto de te sentir o que é verdadeiramente mais reconfortante...

Nas tuas mãos...


Queria-te á distância das minhas mãos
Na lonjura do meu abraço
Na quietude do teu rosto
Na luz do teu olhar

Hoje!

Porque te queria ontem, e antes de ontem
E nos noutros dias atrás

Todos!

Como te quero no dia de hoje, e amanhã
E no dia de depois de amanhã

E nos outros que estão p´ra vir

Perto ou distante!

Queria-te á distância da minha voz
Para quando falares comigo te possa escutar
Porque me acalma a tua voz.

Queria-te á distância do meu corpo
Para aqueceres o frio que sinto ainda
És a lenha, a fogueira onde me aqueço.

À distância da minha pele, da tua pele nua
Onde me perco nos sonhos porque existes
Aqui e agora

Para te dar a mão
Um abraço com o coração
Nas tuas mãos…


João marinheiro 26/12/06
Fotografia Google

segunda-feira, dezembro 25, 2006

E, porque o tempo é um tempo de LUZ...


Existiu um tempo na minha vida em que se falava de luz…

E porque hoje neste dia que demora a passar, me recordo de ti MÃE.
Porque me ensinaste a LUZ verdadeira.

E porque tantas vezes aqui me sinto tentado a partilhar esses ensinamentos.

E porque acho que chegou a hora, quando todos partimos já…


SOBRE O PODER PSÍQUICO…

É um poder que provém da mente humana. Constitui-se de fluidos que são manifestações da energia cósmica (primária).
Através dele tudo se faz, tudo se transforma, tudo se muda.
Quem o souber utilizar é poderoso entre os homens.
Muitos são já os homens que o utilizam.
Uns para fins úteis a todos. Úteis à humanidade. Outros, utilizam-no só em proveito de uns quantos. Estes são maus utilizadores de uma energia, um poder, que afinal deve estar sempre ao serviço da humanidade, uma vez que é uma ínfima partícula do Cosmos (Deus) a quem tudo pertence (mesmo o simples ar que envolve o planeta).
Os homens, embora admitam para si que existe tal manifestação de energia, temem-na, e por isso, geralmente a negam, a ridicularizam. Brincam com ela.
É como brincar com o fogo, pois tal como ele, nunca se sabe o que pode acontecer (afinal o fogo é uma demonstração do cosmos).
Quando o homem utiliza essa energia deve saber o que está fazer, para assim a controlar. É como o homem que ateia uma fogueira no mato; terá de ter precauções; tudo sob controlo. Mas é difícil controlar aquilo que não se vê, não se sente, não se cheira, não se ouve.
Por isso se cometem tantos erros!...
Tu utilizas uma energia frequentemente. Muitas vezes, quando todos os teus sentidos humanos estão sintonizados na mesma onda, na mesma ideia, para o mesmo fim, etc. tu controlas essa energia. Porem, quando só parcialmente os teus sentidos, para alguma coisa que queres, se direccionam, parte da energia é desperdiçada.
E mais: essa energia vem do teu suporte físico, material: o teu corpo. Assim tu desgastas o teu corpo sempre que o utilizas. Isso a somar ao desgaste inerente à actividade do teu corpo para que se mantenha em funcionamento (vivo) faz com que envelheças. Inevitavelmente. Assim, não há, nem houve como dizem os teólogos, uma época possível para o homem em que viva no paraíso, quer dizer, imortal.
Para se ser imortal não se gasta energia. Pelo menos a “nossa” energia. Assim, muitos dos espíritos (mentes) daqueles que foram homens, alimentam-se da própria energia dos vivos (sugando-lhes a vida) acreditando serem assim imortais. Outro erro!...
É um erro tal pensamento! Serão imortais entre os homens e espíritos entre o cosmos, estando assim impedidos de ascender ao cosmos, reciclando a matéria primária. São estes espíritos, por isso, os verdadeiros desperdícios. Não têm lugar nem entre os homens nem entre a ENERGIA que os criou (Deus).
Tudo isto que te explico é, no cerne, mais complexo, pois a complexidade existe por não haver termos de comparação. Esses termos de comparação, são aqueles que entre os homens lhes permitem o conhecimento, a sabedoria, o código para a comunicação.

Vejamos o comunicar:

EMISSOR --------MENSAGEM----------RECEPTOR
(código)
(canal de comunicação ou Meio/Médium)

RECEPTOR-------Descodifica a mensagem de acordo com os termos de comparação: eles serão a linguagem, a simbologia, o abstracto ou o real. Mas sempre partindo daquilo que existe e se conhece.

Continuando:

Como os homens têm estes limites, é-nos difícil pôr por palavras humanas ideias e realidades que os homens nem sequer conseguem imaginar. Damos pistas, indícios para que essa parte (intelecto) do homem possa progressivamente recorrendo à fantasia, ao sonho, ao imaginar, ao recriar, reconstituir a mensagem original que nós enviamos aos homens. Por isso muito do que dizemos parece em teoria acessível e na prática uma utopia. E muito do que parte na mensagem original chega até vós deturpado. Mas acontece que o nosso propósito é apenas o de vos ensinar a controlar vossa energia fluídica, de modo a não a desperdiçar, por um lado garantindo a máxima longevidade de vosso corpo, dando assim tempo e espaço para vos enriquecer em sabedoria, e por outro, como consequência, uma vez atingida a sabedoria, (evolução) após o abandono do corpo regressais à energia original (cosmos/deus/pai) reciclando-a, em vez de como milhões entre vós, ficando como fantasmas assombrando os vivos para deles vos alimentardes, afinal na vossa ignorância de espíritos, acreditando serdes imortais, serdes únicos. Não sois. Sois sim pequeníssimas partículas de um todo. De um “Todo-poderoso”.
Na vossa evolução passais por muitos estágios, fases. Uns utilizando a sua energia são mais bem sucedidos do que outros. Porquê? Pois porque a controlam e a utilizam comedidamente, recuperando essa energia na forma de experiências enriquecedoras, sabedorias. Sois Homo Sapiens, o que significa homens sábios. Sabedores. De sabedoria. Pois sede-o. Enriquecei-vos. Não desperdiceis o que tanto vos faz falta. Nem espaço, nem tempo, nem energia. Vivei nos vossos limites, porque mesmo o sonho tem limites, o maior limite do sonho é o acordar para a realidade. Quando dizeis que não há limites para saber ignorais o limitado que é o próprio sonho. Que provem de vós mas não pode sair de vós.

Voltando à expressão:

“ Para se ser imortal não se gasta energia”

Perguntareis:

- Então como se “vive” se somos feitos de diferentes fontes de energia combinadas e que para se manterem combinadas se consomem umas ás outras?
(gastamos energia sempre que nasce ou morre cada célula, cada parte de célula, e assim progressivamente do infinitamente pequeno (célula) ao infinitamente grande (todo o nosso corpo).

-Ou: -Então que energia gastamos?

-Ou: - Seremos de facto imortais?


Respondo-te:

Quando a luz vem do sol, viaja milhares de quilómetros. Continua a ser luz e a ser um pedaço do sol. Mas não é o sol. É apenas luz. Não deixa de ter grandeza, e é insignificante se comparada com a origem.
Assim são todas as coisas, vivas ou inanimadas. Assim é o homem. Compara a metáfora. Repara:

Sol----Deus/Cosmos/Criador/Pai/ etc, etc, etc.

Luz---Homem/vegetais/animais/pedra/etc, etc, etc.


Dirás: Não serve o exemplo. A luz não retorna ao sol

Verdade: A luz não retorna ao sol.
O homem retorna a Deus.

Porquê?

Simples. A luz retorna é a deus. Faz parte do cosmos e é apenas mais uma manifestação como partícula. Tudo retorna ao pai. Tudo retorna na forma de energia, reciclando-se. A luz transformada em milhões de coisas diferentes, retorna ao pai juntamente com as coisas que a absorveram.

Ex.:
- Clorofila nos vegetais
- Calor
- Fotão
- Infravermelho
- Ultravioleta
- Espectro
- Etc.

Cada um destes elementos reage física e quimicamente nas coisas vivas e inanimadas, não é verdade? Após o ciclo próprio a cada espécie, família, género, retoma, transformada é claro, mas retorna. Continua a fazer parte do todo.

Também o homem retorna ao Pai. Mas transformado. Não leva o corpo. Este ficou na terra, entrando já logo após a morte, na reciclagem. A mente (espírito) essa ainda terá que se transformar em energia pura, em luz. Levará o tempo que for necessário.

Repara: um único fotão não se vê. Milhões vêem-se, medem-se, sentem-se. Reunidos são energia, separados um a um são partículas descaracterizadas.

O homem ao desencarnar continua na sua forma original (espírito/mente/pensamento) a estar vivo. Por isso ele é já desde o início do seu ciclo um imortal. Mas um imortal que não tem nada a ver com o homem que foi entre os humanos e as coisas vivas da terra. Ele é já uma parte do universo transformada:

Primeiro……………………………………foi homem
Depois……………………………………...espírito
A seguir……………………………………luz/energia
Finalmente…………………………………reuniu-se ao criador.

-Obs. Completou o ciclo: recicla-se, irá ser depois parte ou um todo de outra manifestação qualquer, mas não na terra. Neste planeta completou a sua 1ª etapa evolutiva.

Perguntarás: Então tudo volta ao original, mesmo as pedras? Os animais que tu comes?
Não. Não é assim. Se assim fosse, tudo o que conheceis no teu mundo seria 1º: coisa (como um esquema):

1º- Homem----pedra----coelho
2º- Espírito----00000----00000
3º -Luz----luz----luz
4º -Original de novo----original-----original

- Falta o espírito não é?

- Como vês é o espírito que te distingue de todas as manifestações de energia.
- Só os humanos têm esta faculdade de serem espíritos.
Faz parte da ORGANIZAÇÃO CÓSMICA

- Tudo o que existe está programado para uma tarefa específica. As pedras voltam a ser pedra. Os coelhos, coelhos. Só o homem é que, quando reciclado, não volta a ser homem. Vai antes, com toda a sabedoria que alcançou, ou seja, a poderosa energia que construiu, reunir-se ao Pai para entrando nele, sendo absorvido com todas as informações que transposta o tornar mais e mais poderoso.
Dirás que o Pai é a imagem de um gigantesco computador, vai acabar por estourar quando já não conseguir absorver mais informações.
Seria o contrário da explosão original. Seria a implosão. Do infinitamente grande voltava a ser infinitamente pequeno. E “do nada se fez tudo”e “do tudo se fez nada” são expressões bíblicas correspondem respectivamente ao Génesis (criação) e ao Apocalipse (destruição).
Não é assim.
Vai continuar a usar essas informações na criação. Vai continuar a criar. Afinal, não nascem todos os dias animais, plantas etc.?. não nascem todos os dias novos humanos? A “Natureza” não continua a nada morrer, nada criar, tudo transformar?

Medita sobre estas informações. São pistas. Nem sempre é fácil tornar o infinitamente grande em infinitamente pequeno para que o possas absorver…


Boa noite,

I.

Fotografia Google

domingo, dezembro 24, 2006

Ele disse-lhe:

- Isto é um jogo! Tu não existes! Eu de te querer tanto é que te imagino. Imagino-te tanto que te sinto quase real. Mas não existes. Eu é que insisto em que existas. Eu só!


- Isto é um jogo ouviste!


Ela não lhe respondeu

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Regresso ás memorias, é natal…

…É natal. Não se sente ainda o cheiro mas é natal. É natal na minha ilha. É natal nas ruas, é natal nas montras, é natal no frio que está chegando.
O natal, cada vez começa mais cedo, perde a graça. Nunca passei um natal na minha ilha, dou-me conta que nunca lá passei o natal. Hoje ao andar na auto-estrada pensei no natal, é por lá enquanto conduzo, que as palavras assomam ao pensamento, as memórias me assaltam de repente. Nunca passei um natal na minha ilha, mas tenho um que recordo todos os natais. Não é bem recordar, guardo-o no pensamento desde miúdo porque vivo com esse natal em mim. Quem sabe, hoje ao escreve-lo aqui nas minhas memórias avanço e me liberto desse natal…quem sabe…


Tinha seis anos e vivia na minha ilha, eu chamo-lhe a minha ilha mas de minha não tem rigorosamente nada, sou um estranho por lá, mas são as minhas memórias mais longínquas que por lá se perdem e se perdem de mim também. É a minha ligação umbilical no ventre da mãe à ilha porque ali podia ter nascido, ali fui gerado, ali se amaram os pais para que eu hoje aqui estivesse a recordar. Tinha seis anos e fazia sete no dia de início da escola. Nunca tive em pequeno uma festa de anos, calhava num dia mau, e também não tinha miúdos para fazer uma festa, viver numa ilha é muito reduzido em horizontes, éramos 5 crianças, eu o mais velho, as coisas não eram fáceis naquele tempo, assim porque o meu tempo se aproximava vim passar o verão de férias para casa dos avos no norte, o que para mim era óptimo, todo o dia no rio, conhecia cada pocinha, cada sitio das solhas, cada sitio das enguias, autentico peixe de água. O pai veio em Agosto três semanas, a mãe o mês todo. Depois foram embora com os manos, fiquei eu só. Custou-me a despedida, lembro-me como se fosse hoje. O pai não tinha carro, e foi numa carrinha ford transit de um senhor da terra habituado a levar pescadores. Fiquei sentado no portão da entrada na estrada a olhar o rio e o mar em frente, essa noite foi de silêncio interior em mim, um vazio enorme. Não me dei conta na altura mas as separações marcam. Senti-me abandonado.


O meu natal desse tempo. O natal que me faz falar de natal hoje foi o natal dos sete anos. Recordo esse natal na casa dos avos maternos, junto ao rio, mesmo na boca da barra, podia ser um natal como os outros, não foi, para mim não foi um natal igual.


O ano da ida a primeira vez para a escola. Antigamente não era como agora. Fui mas não sabia bem ao que ia, todos os dias com uma sacola verde ás costas e uma lousa onde escrevia as primeiras letras. tentava, que nunca tive jeito para aquela escrita na lousa…
Aguentei-me sem os pais, sabia que voltavam em Dezembro pelo natal, mas custava, lembro-me que acordava meio perdido de manhã e só queria morrer, uma tristeza imensa, um vazio, sentia-me abandonado e incompreendido. Depois a bisavó lá me corria porta fora p´rá escola…

O natal era único. A família vinha de muitos lados, os tios vinham da França e traziam as novidades, os brinquedos eléctricos e com comandos para os sobrinhos todos. Quer dizer, quase todos. Até hoje ainda não percebi porque se esqueciam de me trazer um brinquedo.


Mas o natal de antigamente era especial, tinha um cheiro especial, uma luz especial, um luar especial, uma magia que se perdeu. Os natais de agora são achinesados. Não tenho nada contra os chineses, nada mesmo, mas estou farto de luzinhas chinesas dois meses antes do natal nas montras, farto das árvores de natal chinesas, dos pais natais chineses, do espírito chinês para o nosso natal…adiante…


O natal de agora perdeu o brilho. Não acho piada ao natal que nos impingem. Não presto atenção ás prendas, à troca de presentes, nunca fui de receber prendas. Assim não são importantes as prendas para mim. Natal é quando um homem quiser. Para mim pode ser num dia qualquer, menos neste instituído. Cheira-me a falso, porque nos vendem já o natal embalado, cheio de fitas coloridas e de luzes de árvores plásticas, e reis magos chineses, e meninos Jesus chineses, tudo coisas sem vida, sem cheiros, sem aromas, sem calor humano. Uma correria nos shopping’s…


Gostava nesse tempo de sujar as mãos com o musgo, de as cheirar e elas cheiraram a terra orvalhada. De entranhar as unhas com terra. Fazer o presépio com os bonecos comprados na feira de Barcelos. De ir ás pinhas mansas e de as abrir á lareira enquanto a bisavó contava historias, ou o avó comigo sentado numa perna me descrevia as aventuras por Africa e pelo Brasil, e eu já nesse tempo deixava que o meu pensamento fosse a todo o lado, livre puro e inocente. O natal desse tempo tinha um tempo certo de rituais, de preparos. A matança do porco. O desmanche no dia seguinte, as fêveras que eu assava espetadas num pau de loureiro que a bisavó me ia dando. A preparação das carnes nas assadeiras. As toalhas de linho na mesa, as melhores loiças, a abertura do pipo com o vinho especial que o avo sempre todos os anos fazia. A confecção dos doces, o leite-creme, o arroz doce, a aletria amarela e docinha que a avó fazia fantástica que ainda hoje recordo como a melhor aletria que alguma vez comi.


A sexta-feira à noite era sempre o dia de se cozer o pão, a broa de milho feita algumas vezes com o milho que eu levava com a avó ao moinho na freguesia da abelheira e de que hoje só restam as paredes. Gostava de sentir a farinha na masseira, de a amassar com a avó, de a por a um lado a repousar e levedar, a massa marcada em cruz que a avó me deixava fazer com as minhas mãos pequenas a quererem agarrar tudo. O ritual do acender o forno, tarefa sempre do avó, o tirar as brasas, o limpar o forno a preparação da cora na soleira do forno para se coser o bolo de sardinha. A avó sabia fazer uns bolos fantásticos. Uma massa fininha estaladiça, impregnada pela gordura das sardinhas salgadas e demolhadas, a salgadeira sempre cheia de sardinhas amareladas e tão boas.
Ainda vejo a avó a voltear a massa no ar na pequena gamela e depois espalhar na pá de botar ao forno. Gostava de espalmar a massa do bolo do avô, ficavam os meus dedos pequenitos marcados na crosta tostada, dizia sempre: - deixa-me comer o bolo feito pelo meu neto…


Eu também tinha uma pá pequena de botar o pão ao forno, o meu avô tinha-me feito uma. Ele tinha sido carpinteiro enquanto andou imigrado, também tinha um banquinho para tirar o leite ás vacas, e um sacho pequeno para sachar o milho, e uma samarra aos quadrados brancos e pretos com gola de pelo como se usava na altura, e umas chancas compradas na feira de Barcelos. As chancas eram umas botas com a sola de pau, e uns socos como o avó, o avo andava sempre de socos todo o ano, só os tirava para ir á missa ou quando saia, mas era raro sair, dizia-me que já tinha saído demais…O avó era um sábio!


Até hoje não me tinha dado conta da palavra exacta para o que senti na altura, quando os pais se foram embora e me deixaram a chorar no meio da estrada, e isso andou sempre bailando em mim até hoje. Mudou-me o feitio, fechou-me por dentro. Os meus assomos de tristeza, a nostalgia que sinto, a saudade que escrevo vezes demais. O abandono que senti estes dias e me levaram a reflectir neste natal sempre igual em mim. Porque na minha cabeça existe um quadro velho, com um menino sentado na estrada e um carro que se perde na noite ao longe. No carro iam os pais…

…No carro iam os pais, e eu não tenho palavras ainda hoje para explicar o que senti, a dor que ficou gravada em mim. Fiquei ali não sei quanto tempo sentado no chão, lembro que depois me pus a correr atrás do carro pelo meio da estrada. Já não via as luzes mas sabia que para atravessar a ponte tinha que abrandar. Perdi os sapatos, feri os pés, o coração apertadinho, apertadinho, apertadinho. Tinham sido tão penosos os meses anteriores. Andava tão triste e saudoso do colo da mãe, dos mimos da mãe, das brincadeiras com os manos. Os adultos não sabem escutar nem ver o olhar das crianças.

O natal de 66 ficou em mim até hoje, com ele aprendi a saudade, com ele aprendi a ausência, com ele aprendi o abandono, com ele aprendi o ser só rodeado de gente…quem sabe este natal me liberto dele…

João marinheiro, natal de 2006

terça-feira, dezembro 19, 2006

O livro branco, em branco...


...Um destes dias chegou à caixa do correio um pequeno embrulho, dentro trazia um minúsculo livro em branco para pendurar ao pescoço e esta história que acho fantástica. É raro receber algo, nunca fui de receber presentes, que me lembre uma meia dúzia de livros na minha vida, mas compro muitos, gosto de comprar livros e perder-me nos labirintos que eles nos trazem. Confesso que um livro assim em branco nunca tinha recebido nem me lembrei de comprar porventura. É a historia que partilho hoje...

Obrigado.




...A história de um homem a quem poderíamos definir como um pesquisador.
Um pesquisador é alguém que procura, não necessariamente alguém que encontra.
É simplesmente alguém para quem a vida é uma busca contínua.

Um dia o pesquisador teve a forte sensação que devia ir até à cidade de Kamir. Deixou tudo e partiu. Depois de dois dias de marcha pelos caminhos empoeirados, e já perto da povoação, chamou-lhe vivamente a atenção uma colina atapetada de um verde maravilhoso com muitas árvores, flores e pássaros encantadores.

Uma porta de bronze convidava-o a entrar. Sentiu a tentação de descansar por um momento naquele lugar. Passou o portal e começou a caminhar lentamente por entre as pedras brancas que estavam dispostas ao acaso entre as árvores. Os seus olhos eram uns de um pesquisador, e talvez por isso, descobriu aquela inscrição sobre uma das pedras:

“ Abdul Tareg viveu oito anos cinco meses duas semanas e três dias”. Ficou surpreendido ao perceber que aquela perda não era apenas uma pedra, era uma lápide. Olhando à volta, apercebeu-se que a pedra do lado também tinha uma inscrição: “ Yamir Kalib viveu cinco anos, oito meses, três semanas e um dia” O pesquisador sentiu-se terrivelmente comovido. Aquele lugar encantado era um cemitério e cada pedra era uma campa. Começou a ler as lápides uma por uma. Todas tinham inscrições semelhantes: Um nome e o tempo exacto de vida.
Mas o seu maior espanto foi comprovar que aquele que tinha vivido mais tempo mal passava dos doze anos…

Paralisado por uma dor terrível sentou-se a chorar.

O encarregado do cemitério passava por ali e aproximou-se. Observou-o durante algum tempo em silêncio e perguntou-lhe se chorava por algum familiar.

-Não, não é por nenhum familiar…disse o pesquisador _ Que se passa nesta povoação? Porque é que há tantas crianças enterradas neste lugar? Que maldição pesa sobre estas pessoas que as obrigou a construir um cemitério de crianças?...

O ancião sorriu e disse:

- Não existe uma tal maldição. O que acontece é que temos um costume antigo.
Vou contar:

“ Quando um jovem completa quinze anos, os seus pais ofereceram-lhe um livrinho como este que tenho aqui, para que o pendure ao pescoço. É uma tradição entre nós que a partir desse momento, cada vez que alguém desfrute de alguma coisa, abra o livrinho e anote:

À esquerda o que foi desfrutado.
À direita quanto tempo durou o prazer.

Conheceu sua noiva e apaixonou-se por ela. Quanto tempo durou essa paixão?
Três semanas e meia? Uma? Duas? Meio minuto?
E a emoção do primeiro beijo?... E o nascimento do primeiro filho?...
E a viagem mais desejada?... E as bodas dos amigos?...
Quanto tempo durou o prazer dessas situações? Horas? Dias? Semanas?
Assim, vamos anotando no livrinho cada momento que desfrutamos…
Quando alguém morre, é o nosso costume abrir o livrinho e somar o tempo em que sentiu prazer para o escrever sobre a sua campa.
Porque para nós, é esse O ÚNICO E VERDADEIRO TEMPO VIVIDO

Autor desconhecido
Fotografia de Barcoantigo

domingo, dezembro 17, 2006


...as tuas ultimas palavras que guardo faz anos...


Se calhar não devia...
se calhar tenho tempo a mais para pensar afinal!
Ou teimas em ocupar-me o pensamento aos altos e baixos...

Dos altos rebusca as tuas memorias e ouve-me sussurrar -te ao ouvido...
Dos baixos...

O último intitula-se “memórias de um telefonema” e foi assim escrito em forma de lista de informação recebida. Pela noite dentro também ele aos altos e baixos depois de desligar e não ter sono.

Começa assim:

*vantagens de uma agenda – lembras-te de tudo!
*desvantagens de um caderno de apontamentos – lembras-te de tudo...
........................ ........................ ........................


Um dia gostava de te mostrar o meu caderno e rir-me contigo... porque pode ser que então faça sentido.


Agora continuo com sono...

beijo.

sábado, dezembro 16, 2006

Abstracções II...


Para ti TB, inspirado no teu abstracções

…Os pés nus na areia húmida. Um fim de tarde cinza e morno. O cheiro a maresia e os gritos das gaivotas ao longe rumando a norte, prenuncio de temporal no mar.
As palavras.
As palavras que já não chegam porque na areia os rastos que o mar apaga de mansinho são unos e as mãos ao longo do corpo estão vazias, faltam-me as tuas mãos…

João marinheiro ,Outono de 2006
Fotografia Google

terça-feira, dezembro 12, 2006

- Estou a morrer, sabes!


Estou a morrer, mas não me importo, não me importo de partir agora que a saudade me mata devagarinho. E esta não é uma morte igual ás outras. Tem que ser diferente, é uma morte de saudade.

-Sabes!

Fechei a casa onde habitavas em mim. Tranquei todas as portas, corri todas as persianas, puxei as cortinas, cobri os móveis, expulsei o sol de lá. Apaguei a lareira e certifiquei-me que estava realmente gélida. Despedi-me da minúscula sala pequenina onde te recebia. Foi o que mais me custou, estavas em todos os sítios e em todas as coisas.
Fechei-te no escuro.

- Sabes!

- Tapei o velho sofá com quatro mantas, mesmo assim ainda sinto o teu cheiro.
Ao dar a segunda volta no trinco da fechadura na porta da sala senti um golpe no peito e um calor por dentro de mim, acho que fiquei destroçado, morro por isso aos poucos. Noto que o sangue jorra em mim de uma forma estranha, volteia em pequenos eses que me parecem as letras a dizer saudade.
Estranho sangue me corre nas veias.

- Estou a morrer, sabes!

- Estou a morrer mas não me importo porque tu já não vens mais. Não te despediste. Fiquei com o livro que te queria ofertar e não posso olhar para ele, porque imagino as tuas mãos pequeninas a desfolhar pagina a pagina lendo como gostas de o fazer, e isso custa, acredita.

- Sabes!
- Arrumei também o livro que estávamos a ler os dois. Aquele livro imaginário. Guardei-o bem escondido para me esquecer dele rapidamente.
Também te escondi na memória para me esquecer rapidamente de ti.

És livre e eu queria-te minha, esse foi o meu engano, não se pode amar uma borboleta porque as borboletas são breves…

Agora vou.
Deixo as palavras porque já não as escuto e não me fazem falta.

...O último navio parte esta noite…


Outono 2006



Fotografia, Luis Cabaco/www.olhares.com

domingo, dezembro 10, 2006

Descobri perdidos mais alguns textos escritos nos anos 80, achei por bem dar-lhes a luz do dia. Um dia quando partir, de mim restam as palavras e as memórias…
e dizem assim as palavras...
Algures grita uma criança
Algures uma outra estende a mão magra
Algures uma outra ainda agoniza ao sol…
Ao longe num outro continente decorre uma festa
Ao longe come-se. Bebe-se. Divertem-se os inconscientes.
Ao longe planeia-se mais um fim-de-semana a dois.
Ao longe suas excelências os todos poderosos
Evitam falar nas crianças que estão algures morrendo
Distantes drogam-se os ociosos da vida
E eu?
Embriagado de angustias. Persistentemente lúcido até á exaustão
Demasiadamente vivo até ao último suspiro
Estremeço com tudo isto.


20/09/84
Fotografia Google

quinta-feira, dezembro 07, 2006

O tempo fora da lei…

O tempo é um fora da lei…O tempo que temos é um tempo bandido. Fugitivo. Disfarçado. Difícil de agarrar, não gosta de prisões, é livre. Solto.

Entre o nada vazio e o pouco prefiro o pouco. Tenho tão pouco, temo que esse pouco seja um quase nada. Quero-te e não posso querer-te. Porque te procuro sempre nunca te encontro, e quando te encontro, das raras vezes vejo-te de saída. Partes. Fico a olhar-te. É esse pouco que tenho de ti. O tempo é um bandido fora da lei. O olhar-te na ida. Mas nunca te olho na vinda. -Não vens! O tempo disfarçado…

- Espero. Mas espero!

Continuo a esperar. Espero que um dia possas vir e eu adivinhe que vens. Que regressas. O tempo aprisionado. Nesse dia vou ter o tudo de ti. - O tempo disfarçado.

- Espero!

Enquanto isso tenho de ti o pensamento perene como uma árvore que cresce com folhas verdes e viçosas. - O tempo ausente! Podes ser como uma árvore. Quero que sejas como um carvalho vagaroso no crescimento. Crias as raízes em mim e não te dás conta. Eu dou, mas nem tempo tenho de te dizer isso porque o tempo foge.

O tempo é um fora da lei…

João marinheiro 07/12/06
Fotografia Google

domingo, dezembro 03, 2006


...Somos resumidos a um acto de amor autónomo
Máquinas programadas.
Sabemos tudo um do outro,
Completamos o ciclo da programação,
Sem erros, sem falhas
Nunca dispara o som do alarme
Somos máquinas perfeitas na arte do amor
Escondemos as emoções
Temos um prazer frio unipessoal
Sei sempre quando queres
Sabes quando chego
Quando não apetece
Sabes tudo de mim…
Permaneces desconhecida…
João marinheiro, 2005
Fotografia Google

segunda-feira, novembro 27, 2006

Os dias da partida…


És uma espécie de não sei o quê na minha vida.
Estás em mim nas doze horas claras do dia e nas dozes horas escuras da noite
És uma espécie de prazer para o qual não encontro a definição
Porque me dás prazer, e nunca te dás conta.

És uma espécie de nada na minha vida
E as minhas mãos, os meus dedos não chegam para te agarrar ou te sentir
Porque foges como uma espécie de areia fina. Branca. Morna
E foges por ente os dedos como uma carícia breve
Coloco as mãos em concha, inútil tentativa de te aprisionar
Porque então és vento e soltas-te como pó e voas
Um voar gracioso. Porque toda tu és graça
Toda tu és harmonia. O desajeitado sou eu, e não me importo…

Espero-te a todas as horas
Amanheces em mim ao raiar da manhã
Enquanto escuto os pardais nas arvores e sinto o redondo dos teus seios nas mãos
E as minhas mãos não chegam
Para te agarrar por inteira
E ardem. Queimam. O redondo dos teus seios fica marcado como uma marca a fogo
E eu não sei que fazer
Verdadeiramente já não sei que fazer.
E toda tu és agora, por inteiro
A miragem que se esconde para lá do vidro fosco
A contra luz que anoitece.
Queria uma única vez. Uma única!
Olhar-te nos olhos. Tomar-te as mãos. Dizer-te
Que não posso esperar-te mais
Ficar acordado toda a noite esperando que amanheças
Que abras os olhos
Porque a essa hora para mim sou eu que durmo abandonado


João marinheiro ausente 27/11/06
Fotografia, KOTA/www.olhares.com

domingo, novembro 26, 2006

O valor de tudo...


Que valor tem tudo isto?
A moeda de troca, os cêntimos contados até à exaustão, afinal o que valemos hoje?
Tu não sabes. Não podias e não podes saber o valor de tudo isto.
As horas que passei acordado. O frio da sala vazia de ti.
A lareira consumida nas cinzas.
Afinal que te importa o valor das coisas simples.
O valor de um abraço.
O valor de um sorriso.
Um projecto comum. Uma luta comum.
E eu aqui só, pensando em ti. Porque nunca compreendeste que o projecto era nosso
Só validado a dois, partilhado a dois.
Mas és uma pessoa prática. E as coisas praticas para ti não permitem partilhas ou concessões. Afinal o que valemos hoje?
Qual o preço?
Tu não voltas mas fui eu que me fartei de esperar…
João marinheiro ausente 01/11/06
Fotografia de Fausto Cunha/www.olhares.com

quarta-feira, novembro 22, 2006

Não sei de ti…

As palavras tremem na garganta
As mãos estremecem no ar
O coração treme
O corpo vacila
E não é frio que sinto…

Hoje vou-me embora
Perguntei por ti ao vento
Não me respondeu…

Caminho de mãos nos bolsos
Os olhos no chão, não vêem…
Um frio invade-me os pés agora
Sinto-me a tremer hoje

Hoje vou-me embora
Perguntei por ti ao mar
Não me respondeu…

Esta avenida onde vim dar está despida hoje
As gotas de chuva colam-se no rosto
E sinto frio agora
Gélido deste vento que não me dá noticias tuas.

Hoje vou embora
Perguntei por ti ao tempo
Não me respondeu…

Que faço aqui?
Neste lugar secreto
Onde pergunto por ti
E sonho
E ninguém me diz...

segunda-feira, novembro 20, 2006

A todos os Merlins mágicos e não mágicos…


Sabes Merlin, desconheço por completo o tal poeta que é marinheiro.
O homem é outro...

E esta é uma primeira vez…

...O marinheiro enreda-se nas malhas de uma rede que suspensa continua a matar abandonada em qualquer fundo oceânico. E o homem sabe do que fala por experiência própria e dolorosa, quase um peixe emalhado e sem ar...

Nostalgia quem não tem. O primeiro que disser que não, mente com quantos dentes tem na boca, ou não tem coração, inclino-me para a primeira hipótese...

Sabes Merlin, tens, adoptas, nome de mágico, não gosto de coisas mágicas porque me ultrapassam, e serem então um nada.

Se conhecesses o poeta que habita por aqui não consideravas doentes os seus amores, porque são vários, de varias cores e formas e aromas, e no princípio são todos brancos. O branco é puro, portanto não existe a doença, a doença existe em nós enquanto seres em mutação e impuros, egoístas qb.

O poeta é puro. Eu que te escrevo que sou o homem que deixa o poeta aqui verter as emoções, já há muito tempo me dei conta da sua pureza. E sou impuro. Não o questiono. Ás vezes troco-lhe as voltas. Tiro-lhe a palavra, arrumo-o a um canto como uma coisa inútil, fora de moda.

Pergunto-te a ti Merlin que assumes o nome do mágico prodigioso, será inútil o amor? Será?

Não concordo que o amor dure enquanto dura. Amor não é isso. Não devemos usar a palavra amor a esmo, voltamos a outra palavra que também usamos a esmo e que não é isso, e o isso, é redondo. Usamos a palavra deus como quem fuma um cigarro ou cospe para o chão, e deus como eu o concebo também não é isso, amor também não é isso. (Por isso como diz a APC temos no nosso vocabulário a palavra saudade que não se diz em inglês por não saberem o que é saudade, e saudade também é amor, um amor estagiado, como um vinho antigo envelhecido em cascos de carvalho num lugar fresco e húmido para que o sol não o perturbe…)
Amor não é isso. Não pode ser restrito a quatro simples letras que vistas de um lado e de outro, de cima para baixo e de baixo para cima nada nos dizem. Amor não é isso!
Se eu que sou homem, soubesse o que é o amor era um felizardo, rico, luminoso…

E já vou por aqui a divagar. E não devo…

…As amarras do marinheiro já há muito se partiram de encontro ao cais. Naufragou o velho navio. Nada existe já que não a memória e os locais de atraque. Poucos, que a paisagem muda. O betão dá lugar ás pedras centenárias. O aço ocupa o lugar da madeira na couraça que nos envolve como um casco trincado. A ossada já não existe por dentro. Como vamos ter coração dócil assim duros por fora?

Quem somos?

Para onde vamos?

Também eu me interrogo. Questiono o poeta. Desespero porque não me dá respostas concretas. E gosto das coisas concretas. Mensuráveis aqui hoje ou amanhã ai.

Hoje apeteceu-me responder-te a ti Merlin, e a todas as outras PESSOAS, assim maiúsculas, grandes, porque ainda acredito nas pessoas, e existe sempre uma primeira vez para tudo na vida, pode é o momento não ser o certo. É o risco que se corre pelo facto de estarmos vivos, sermos seres pensantes, termos um coração que bate e outras coisas mais. É o risco que corro ao ocupar o lugar que não é meu, mas do poeta que habita aqui, merecedor ou não, das palavras, dos elogios ou das acusações. Porque as palavras são isso só, símbolos que o homem perpetua e que ficam juntas com o poeta ou proscritas. Amadas, veneradas, recordadas ou, apreendidas, queimadas, amordaçadas. Alguém disse: - Mandai calar os poetas! E eu digo que no dia que isso acontecer, no dia em que o último poeta se calar, exala-se o último suspiro da vida e tudo acaba, e então, o tal amor que o poeta aqui fala e que motivam as minhas palavras neste momento, o tal amor branco deixa de existir, e o negro das trevas envolve-nos como uma veste, espécie de Burca, e o século que é XXI regride para a idade das trevas, espécie de idade media onde o amor se conquistava pelo vigor da lâmina da espada empunhada, e em nome de um Cristo que não o é, se faziam as matanças, se queimavam nas fogueiras inquisidoras as vozes e as palavras dos poetas e por ai adiante…

Depois não querem que aconteçam os cataclismos, os fogos divinos, os tsunamis…

O poder da palavra…

O poder da Musica…

Hoje está de novo por ai o novo álbum dos Beatles, Love de seu nome, um hino ao amor, ao amor que dura… Um dia conto como recordo a primeira musica que escutei deles num rádio a pilhas em cima de um carrinho dos gelados quatro décadas atrás. Mas presente como se fosse hoje. Não será também isto um amor? Não? Para mim é um amor com cores, sons, aromas…

…Deixo que o poeta por aqui navegue mesmo ausente, os poetas são assim, incompreendidos, mal amados, odiados. Ás vezes escrevem aquilo que queremos ler, aquilo que precisamos ler. Uma palavra de carinho, um incentivo, um abraço, então nessas vezes em que se lêem são uma espécie de anjos por quem as mulheres principalmente, se apaixonam, porque na verdade Merlin, o que existe mesmo é um enorme défice de amor entre os humanos…

Abraços aos viajantes com memórias mesmo virtuais…

PS:

Palavras recomendadas para estes dias:
“O amor é fodido”, de Miguel Esteves Cardoso

Musica:
“Escritor de canções” do Sérgio Godinho
João

domingo, novembro 19, 2006

Anda comigo a ver o Tejo agora...


Anda comigo. Mostra-me o Tejo!
Lisboa é uma cidade mágica, e eu não sei.
Anda comigo a ver o Tejo agora.
Hoje estive lá, a ver o Tejo junto à torre de Belém. Os barcos modernos vogavam ao vento, velas de saudades e de sonhos e eu ali.
E eu ali preso. A vontade imensa o pensamento longe.
Volto as costas ao rio porque me dói olhar o Tejo ainda…
Lisboa é mágica e transforma-nos.

Percorro a Baixa deslumbrado. Lisboa Pombalina.
Os prédios esguios envolvem-me
As estrelas escondem-se lá no alto
Uma névoa estranha e espessa paira
Fecham-se na minha cabeça. A noite como sombra.
E eu só, sinto-me pequeno em demasia.

Lisboa é uma cidade mágica e envolve-nos
Falta-me o teu abraço quente.
As ruas são frias e são íngremes
Luzem os trilhos dos eléctricos
Uma luz metálica e também gélida
Pouso o pé a medo passo a passo nestas ruas do Chiado
Fico na dúvida se piso os teus passos
Ou por aqui caminhaste ao meu lado
E rua abaixo me foste mostrar o Tejo…
João marinheiro ausente 19/11/06
Fotografia Google

quarta-feira, novembro 15, 2006

São duas e tal da madrugada e tenho medo
Tu já não estás comigo.
Hoje deito-me só. Levanto-me só
Quero dormir não consigo, sinto a falta de ti na distância do meu abraço.
Tu sabes que gosto de te sentir.
Descansar a minha mão em ti
Beijar-te pela madrugada enquanto dormes sorrindo.
Olhar-te
Tu sabes e já não estás.
E sinto frio o teu lado da cama
E sinto esta cama tão grande sem ti.
E tu não estás!
E eu amo-te.
É mais forte que eu.
Este sentir amordaçado…

segunda-feira, novembro 13, 2006


…Por um instante dei-me conta que todas as palavras não chegam para dizer que te amo. E que eu não sei já que palavras usar. Estremeço quando te olho. Quando acordas. Quando me sorris pela manhã. És o meu amor proibido hoje. Vejo-te mas não te toco. Desejo-te mas não te tenho. Escrevo-te e não lês. Foste o meu amor proibido ontem. E com certeza vais ser o meu amor proibido amanhã. E agora já não sei que mais fazer ou dizer-te para que percebas de uma vez por todas que eu sou teu e tu és minha, e que os dois nos completamos, somos felizes. E que sem ti por perto de mim me sinto só, e que eu só sem ti continuo a ser só, e estou farto de te dizer repetidamente que para amar temos de ser os dois, e somos. Mas tu! Tu não sei se me amas, e fico aflito, como se tivesse acordado numa cidade grande, cinzenta, escura, sem gente, quer dizer com pouca gente, mas que não dá por mim, porque eu é que sou o estranho ali, e nem sequer falo inglês, porque a língua deles é essa, e é também a língua que tu falas agora. Por isso com toda a certeza, já não lês o que te escrevo por a minha língua não ser uma língua na moda, mas não me importo e já não tenho cabeça para aprender essa língua nova que falas, prefiro ficar a olhar-te, e se te olho não preciso de falar contigo, porque tu tens uns olhos do tamanho do mundo. Assim tens de ver o que os meus dizem e os meus olhos são como duas montras em época de saldos com dois letreiros grandes escritos a letras maiores ainda, e não dizem saldos, dizem AMO-TE e se não conseguires ler desta vez, então definitivamente é porque já não tenho palavras para te dizer o que sinto, e então desisto ou vou aprender a falar inglês…
Este texto foi publicado originalmente no blog: http://porquexistes.blogspot.com
Fotografia: www.olhares.com

domingo, novembro 05, 2006


…Só a memória enriquece e alimenta. Não há pedra que mais sangre nem asa que mais nos liberte. Talvez por isso os saberes da memória respirem um tempo e um espaço muito próprios. A morte que tudo transfigura pratica as artes supremas da imprevisibilidade. E, nesta imprevidência se compraz, irremediavelmente, a nossa condição humana…

Manuel Lopes. Amigo que já partiu. Prefácio do livro: O barco Poveiro de Octávio Lixa Filgueiras

Às vezes tenho que parar. Fazer uma espécie de limpeza no disco. Arrumar o sótão das ideias. Arrumar os sentires. Dar uma forma ao sentimento que se torne mais fácil. Ás vezes sinto-me tentado a partilhar as aflições que sinto. As duas ultimas fotos nestas memórias são o testemunho disso mesmo. Mas sei que não visitam este blog para verem desgraças ou lerem lamentos destes…Quem se interessa por um monte de tábuas que um dia foi barco com homens dentro e historias de vida sofridas. Quem?
Quem se interessa por este país pequenino que foi de marinheiros audazes. Admirado e respeitado lá fora. Situação que eu nas minhas viagens a congressos de património marítimo ou encontros de embarcações tradicionais, escuto falarem com admiração e respeito, porque na realidade tivemos uma história que fez historia no mundo do mar.
E agora?
Quem se interessa pelos barcos de trabalho, as antigas embarcações tradicionais que desapareceram quase todas, mercê da ignorância dos legisladores e do encolher de ombros dos cidadãos. Aquilo que os olhos não vêem o coração não sente…

...A política de redução da frota pesqueira por parte da CE, incentivou o abate indiscriminado de embarcações. Conhecida como “lei do abate,” a troco de uma recompensa monetária ao proprietário da embarcação, sem salvaguardar as embarcações de trabalho com interesse histórico e tradicional

A partir de 1986, para Portugal ingressar como membro da Comunidade Económica Europeia de pleno direito, foi-lhe estipulado um prazo de 10 anos para a reconversão da frota pesqueira, a alfabetização dos inscritos marítimos e a sua reconversão através da formação profissional, intenções reforçadas com o abate das unidades de pesca de pequena dimensão (todas as menores de 25 toneladas de TAB[1]. entre os 7 e os 12 metros).

Em 1996 o quadro do sector pesqueiro era assustador: o número de embarcações tinha sido reduzido a menos de metade, Portugal foi o país europeu que mais embarcações abateu à frota de pesca, Atrás vinham a extinção das fábricas de conserva, redes, fundições, serralharias marítimas, fábricas de plásticos para a pesca e outros aprestos navais.

...A montante e a jusante do barco coabitam uma infinidade de artes e ofícios que se interligam e se completam e que se extinguem pura e simplesmente com a extinção do próprio barco....

Ficam-nos por vezes as fotos. O testemunho mudo e possível da inculta cultura ou do desmazelo ou em última análise do deixar andar…

[1] TAB tonelagem de arqueação bruta

Fotografia de Dionisio Leitão 2006

sábado, novembro 04, 2006

terça-feira, outubro 31, 2006

De barcos e de outras memórias...

...e ficamos aqui moribundos
a morte entranha-se em nós
leva-nos a alma e as memórias
pobre o país que assim trata o seu património...

Fotografia de Barcoantigo


terça-feira, outubro 24, 2006

A tua janela

…E eu perco-me nos dias de chuva miudinha.
Olho a tua janela, e as gotas escorrem como lágrimas...
Porque tens cortinas novas? Assim não te vejo nunca
E fico resumido a um vulto na noite à esquina da rua onde moras...
Ás vezes vejo-te no meio da tal chuva miudinha, é uma chuva de verão esta.
Tem que ser.
Porque ao teu lado caminha o arco-íris e tu volteias qual bailarina em pontas.
Então a rua amanhece e eu vejo-te à janela...

domingo, outubro 22, 2006

Divagação de ti…


Na minha cabeça passam muitas histórias ao mesmo tempo. Chamo-lhes histórias para não dar outro nome qualquer. A minha cabeça já não é o que era antigamente.
Ás vezes deixa-me ficar mal. Está a deixar-me ficar mal muitas vezes seguidas. Ou então sou eu que confundo as histórias e as omito ou as guardo. Uma espécie de cofre com chave e código secreto de alta segurança. Tanta que até eu me perco da história ou a própria história não existe fora da minha cabeça.

Mas hoje estou feliz. Soube de ti. Porque me parecias já, mais uma história na minha cabeça e não quero que sejas. Pelo menos tu. Não quero que sejas mais uma história na minha cabeça, daquelas a que nem eu já tenho acesso. Porque a minha cabeça já não é o que era dantes. Acho que entre o dantes e o agora presente em que soube de ti, e te escrevo, se passou alguma coisa. Alguma coisa que está dentro de mim escondido. Mas é culpa da minha cabeça mesmo, eu acho, porque já não sei o que é, mas se passou. Os anos passam. Os dias passam. As horas passam. Os minutos passam. Acordo e adormeço todos os dias, e as historias, ou serão estorias? Não sei. Qualquer coisa se passa, porque a minha cabeça regista e depois guarda e depois eu já não sei onde ficou guardado e fico aflito.
Por vezes tudo isto é uma espécie de filme. Eu estou no cinema. No ecrã passa um filme com som surround, efeitos especiais. Luz, cor. E tu estás lá. És a personagem principal. Adoro a tua interpretação. Venero-te. Admiro-te. E tu estás lá. Eu é que sou anónimo e mero espectador. Nem te posso oferecer um ramo de flores. Nem posso esperar um autógrafo à porta do teu camarim porque és uma artista de cinema. Ainda se fosses uma artista de teatro. Tinha a remota possibilidade de ir aos camarins e descobrir o teu nome na porta em letras douradas, ficar esperando para te oferecer as tais flores. Seriam rosas vermelhas. Gosto delas vermelhas porque significam paixão. Mas assim não sou capaz. Volto à minha cadeira na sala escura deste cinema onde te contemplo. Agora estou a escolher a sala, a minha cabeça processa a informação que existe como um computador. É mais lenta porque é antiga, do tempo das válvulas. Pesada portanto, em contradição aos modernos portáteis com não sei quantos gigas de velocidade e uma memoria de dúzias de elefantes pelo menos. Definitivamente eu não sou assim. Ouço Brel no momento, não vem ao caso, mas ele é ainda mais antigo que eu e canta, coisa que eu não faço. Canta e eu escuto as suas palavras e deixo-me ir na sua voz. Sou um apaixonado pelas canções francesas, gosto da sonoridade da Edite, do Leo, do Brel, sei lá. Gosto. Não se explica. Sente-se.

Ainda estou a processar a informação que tenho escondida no cérebro. Escolho a sala de cinema. Socorro-me das minhas memórias, dos meus tempos de cinéfilo. Acho que devo escolher uma sala emblemática para te contemplar no ecrã. Mundial, Monumental, São Jorge, Tivoli, Lettes, Batalha, eu sei lá. Algumas salas já não existem, outras são centros comerciais outras não sei o que são. Olho-te então numa pequena sala estúdio intimista, com as paredes a negro. Umas luzinhas vermelhas nos degraus e números a branco brilhantes, espécie de marcas de uma pista de aviação de emergência. As colunas estão dispostas ao redor em 5.1 este moderno sistema já ultrapassado pelo 7.1 ou outro que surja por ai. E a tua voz, o teu riso entoam por dentro dos meus ouvidos em ondas sonoras que são vagas de um mar ora calmo ora violento, e eu como sou um homem do mar sinto-me como em casa, não interessa a tempestade ou se hoje chove. O teu riso, a tua voz, são o alimento para os meus ouvidos. E o teu rosto, o teu olhar não tem explicação. Como eu costumo dizer existem coisas que não se explicam, sentem-se. Não gosto de te explicar, gosto de te sentir o que é verdadeiramente mais reconfortante. E esta sala não existe.
Estou ainda no cinema. Alheio-me do enredo do filme, só de ti quero saber, espero que dure mais de quatro horas, numa realização do Manuel Oliveira pelo menos. Assim tenho tempo de me abarrotar de ti, de saciar a vista. Conhecer a tua arte de representar. Espero que possas sair do ecrã e vires então sentar-te à minha beira a assistir ao resto do filme. Sabes, já vi isto uma vez no São Jorge, um filme do Woody Allen: Star dust memories, se não me falha a lembrança. O artista principal saiu do filme e foi uma confusão. Também me lembro de uma outra história passada na Fuzeta no cinema Topázio, mas não vem para o caso esta lembrança.

Vês! A minha cabeça a misturar as histórias. Já não sei onde ia eu. Tenho de parar e fechar os olhos uns momentos para que regresses. Espero que regresses, porque eu confesso que não sonho, pelo menos a dormir. Descobri um mecanismo em mim que se desliga completamente. Fico ausente. Por isso sou um marinheiro ausente. Por vezes dou-me conta que ando ausente mesmo acordado e não me apercebo das coisas diárias. Os testes nucleares na Coreia do norte, os assassínios dos jornalistas na Rússia, os massacres em África, os atentados suicidas em Israel, os Palestinianos à pedrada uns contra os outros, uma espécie de intifada santa portanto eterna como o Cristo. As mortes no Iraque, os atentados no Afeganistão, a loucura do Bush, espécie de Deus moderno e visionário. As mentirinhas do nosso primeiro-ministro. O Portugal cada vez mais pequenino que somos. Uma espécie de monarquia ibérica que querem que sejamos e se calhar tem razão. (Afoguem os velhos do Restelo todos de uma vez. Afundem as caravelas e as naus que partiram do Tejo à descoberta do novo mundo, porque já não existem a não ser na memória. Esqueçam a língua porque ela pertence à Galecia portanto não é nossa…) Ás vezes ando ausente, mas acho que é uma espécie de protecção pessoal, um anti vírus que aprendi dos computadores. E já me desviei de novo de ti. A minha memória é assim como um vento que se desvia ou como um rio selvagem em busca da foz. Como já não temos rios selvagens não encontro nunca a foz e ando meio perdido para não dizer ausente.

Pronto acabou o filme. Foste embora. Agora sei que te posso encontrar numa sala de cinema qualquer, daquelas onde se comem pipocas e se bebem coca colas ao verdadeiro estilo americano enquanto no ecrã se desenrola a trama da vida. Gosto destas coisas modernas e vazias. Quando abandono a sala nem sei já o nome do filme, mas isso é um defeito meu, não do filme. E tu? Tu não és um filme ou és? E tu? Olha as histórias que invento para te fazer esta pergunta simples. Tu quem és?
Gosto tanto de ti nos momentos breves em que sorris. Gosto tanto de ti quando sei que me esperas. Eu é que nunca chego. E invade-me uma tristeza difícil de explicar por palavras porque é uma tristeza interior que não sinto em palavras. Mas passa como passam os dias e os anos e as horas ou os minutos que antecedem as horas, ou os segundos que antecedem os minutos. A vida é um anteceder de coisas que acontecem no futuro próximo, porque no presente estou eu e tu és a minha estoria presente, para a qual ainda não encontrei um final feliz ou uma continuação capaz de te prender ao guião. É difícil portanto este meu papel de artista das palavras, não poeta, que não o sou, mas criador de palavras, criador de sonhos, porque tenho já a plena consciência que as palavras que escrevo não são meras palavras, encontram sempre o tal porto de abrigo no coração de quem lê e sente o que elas querem dizer, mesmo que não digam ou passem só, de uma simples criação especulativa do cérebro em movimento atando as pontas das histórias que sucedem, construindo assim uma espécie de rede onde vão emalhar os sonhos misturados com os peixes cor de prata.

Hoje soube de ti. Coisa breve. Um relâmpago da memória. Não és uma história inventada. Invento a tua ausência para te sentir próxima, isso invento, porque não te posso ter por perto. Mas também não tem importância, isso. Assim posso criar a tal obra do artista, uma espécie de escultura perpétua no tempo. Chamo-te de minha deusa, parece uma coisa pagã. Minha deusa. Mas não é. Não sei ainda é outro nome para denominar esta escultura. Dou-me conta que não precisas de ser real. Dou-me conta que não precisas de ter um corpo físico belo e perfeito, preciso só que existas em mim, a minha criação de artista e assim posso dedicar-te os meus pensamentos, as minhas palavras, a minha admiração silenciosa, o meu querer, quando fecho os olhos na esperança que chegues e me faças uma festa no cabelo, ou me brindes com o teu sorriso maravilhoso, ou me olhes de olhos nos olhos, o teu olhar que mais parece o sol. Perdoa-me o não olhar-te de frente, de olhos nos olhos, é que o sol é muito forte e a minha vista já começa a dar sinais de fadiga, tenho que a proteger com uns óculos grandes, escuros para que tu ao fitares-me, não possas ler e assim saberes o que o meu olhar revela e eu por timidez não tenho a coragem de te falar. Escrevo-te. É outra forma de te falar. Escrevo-te e as palavras escritas ficam. Se guardares as folhas onde escrevo, se fizeres um print como se diz agora, ficas com as palavras escritas, porque as palavras ditas quando se soltam pertencem ao passado e são breves, escassas, por vezes têm um eco que se prolonga por segundos, mas para isso teria eu de estar a chamar por ti num vale propicio a essa faculdade para o eco se propagar. Como de certeza não te encontro num vale, não te chamo, fica em mim essa dúvida. Se existes também num vale montanhoso onde eu te possa buscar. É mais simples e menos cansativo escrever-te. Podia ligar-te mas acho que mudas-te de número, nunca atendes, e as mensagens que eu te mando também não obtêm respostas. Tenho uma função activada no telemóvel que se chama relatório e que quando te mando uma mensagem diz sempre: entregue. O meu problema aqui e que me leva já a desistir, é que não sei a quem é entregue a mensagem. Não obtenho resposta, não obtenho um eco, não obtenho nada. Assim escrevo-te. Ás vezes cartas, mas também essas já rareiam por não saber mais o que te escrever. Acho que estou a ficar sem palavras, resumido ás memórias, apagado dos sonhos, acordado ausente do sentir. Não sinto nada já. E isto é outra história que começa e não sei quando acaba, ou se me importo em que tenha de acabar, porque ainda não descortinei onde começa o principio ou se me encontro a meio de algo. Tudo é bastante confuso em mim, sombrio como as paredes da tal sala de cinema intimista que falei atrás. Não sei se existem salas assim. Na minha cabeça existem e tu estás lá. E tu destacas-te no fundo da tela. E tu és luz branca. E tu és. E tu és. Tens que ser o amor. Só podes ser o amor. Porque para mim o amor é branco e tu és branca na tela, portanto por associação simples de ideias tu és…eu é que não sou nada. Não existo. Tenho de ter cuidado para que não confundam e pensem que eu existo. Eu não existo fora de ti. Não sei viver fora de ti. Tu és a luz. Tu és a vida. Eu sou só a terra árida onde se plantam as sementes na esperança que germinem. E esta já começa a ser uma outra história. Tenho de ter imenso cuidado, uma atenção redobrada para não me perder. Porque hoje nos tempos modernos em que vivemos, já não faz sentido que me perca. Se existem gps, que dão a localização quase exacta. Se existem satélites que focam todos os lugares da terra com uma precisão que até custa a crer. Se Internet dá a possibilidade de navegar por dentro de tudo até das entranhas onde corre o sangue. Para que me vou eu perder. Até parece que não sou deste tempo. Sou. Mas sou muito ausente. Essa é a verdade que descubro aos poucos em mim. Restam-me as palavras a ti. Não te digo que te amo. Estaria a mentir. Porque para amar temos que ser dois, esta é uma constatação que observo. Temos que ser dois no mínimo e eu não existo. E tu és uma artista na tela da tal sala do cinema com as paredes negras e o som surround.
E tenho no momento uma janela de onde observo a rua torta e deserta. O céu meio cinza porque hoje choveu. Quatro rosas tardias numa cor rosada e lavada pela chuva. Um diospireiro quase sem folhas e sem frutos. E este é o mundo que observo no momento, o mundo real. E na rua, ás vezes, mas raramente, passa um carro com pessoas dentro, que são outros mundos e outras histórias que não quero nem posso nem devo conhecer, porque são de outro tempo, o tempo delas. E o meu tempo é teu. Hoje é por inteiro teu. Hoje só tu existes em mim. És tu que bates ritmada no meu coração, o músculo grande e vermelho como as rosas de paixão que te falei és tu. E andas por dentro de mim. Descobres-me todo na plenitude. Vais a cada poro do corpo, a cada vaso capilar, à ponta dos dedos. Até à ponta dos meus cabelos já grisalhos. Descobres-me totalmente. Fico sem roupa, nu. Completamente nu aos teus olhos. E não sei se me excite ou me tape com as mãos num gesto de pudor desnecessário porque estás por dentro de mim, e sabes tudo de mim. Os meus segredos não revelados, os sonhos ainda por sonhar, as histórias por contar que andam bailando no meu cérebro, baralhadas por excesso de informação, e eu ter um processador lento e pesado. Sabes tudo de mim. As chaves secretas, as passwords de acesso aos ficheiros guardados não sei onde um dia. Sabes tudo mas tudo de mim. Eu é que não sei rigorosamente nada de ti, e tu não fazes rigorosamente nada para que eu saiba e deixe de não existir, e passe a existir com vida própria fora das palavras escritas, e possa ir ter contigo aonde te encontres. Possa entrar nessa tela gigante do filme que vi, e onde tu eras a personagem principal, e posso estar como adereço no cenário onde tu vais pisar. Isso me chega porque o importante és tu, e eu sem ti continuo a não ser nada e a ser inútil, porque sem ti não vivo, porque me alimentas o sangue e me fazes bater o coração.

Na minha cabeça continuam a passar histórias, e eu continuo a chamar-lhes histórias porque efectivamente não sei que outro nome lhes dar, porque não são amor, nem desejo, nem paixão, nem outra coisa parecida. Mas o que sinto quando sei de ti. As noticias poucas que chegam. É um estremecimento interior forte. E então sinto-te acelerada em mim. Um calor que se espalha ao corpo. O sangue aquece porque és tu a responsável pelas batidas do coração que tenho.

E isso não é amor é sobrevivência.

Outono de 2006

quarta-feira, outubro 18, 2006


Vou por esta rua, esta cidade escura e fria
As sombras são a companhia.
O som dos passos, a musica que ouço
Chove.
Uma espécie de lágrimas doces e suaves
Um choro de menino baixinho
Vou abandonado e ausente
De olhos fechados. Vou só
Sou o homem que transporta os sonhos guardados
Nos bolsos vazios
Espécie de Lisboa

A cidade.

terça-feira, outubro 17, 2006

Berlenga no sinal sonoro. Aqui escutava o barulho do mar na barriga da mãe...

domingo, outubro 15, 2006

Tu não sabes…

Tu não sabes o efeito das palavras em mim
Tu não sabes
Não podes saber
O efeito devastador da ausência das palavras em mim
Tu não sabes
Não imaginas
A dor da ausência das palavras
As tuas palavras em mim
Tu não sabes
E eu não sei como fazer para que entendas
Que elas são a minha linha de vida e que sem ti não sou nada
E que o tempo que tenho já não é um tempo de esperas
Porque esperei demasiado tempo e o meu tempo passou
E que agora não sou nada
Porque estou ainda esperando as tuas palavras que já não chegam
Porque tu já não existes…
E então
O porque existes deixou de ter sentido
E assim termina por ora esperando que o Outono passe
O Inverno chegue
E cheguem as neves e o frio
E a terra cumpra o ciclo da renovação
E eu que aqui estou esperando
Sentindo a ausência
Já me dei conta não sei quando
porque lhe perdi o tempo do tempo da tua ausência
Porque tardas
E quando chegas verdadeiramente não chegas
Avivas o meu sentir
E é um sentir doloroso porque sei que existes mas verdadeiramente não existes
Portanto o que me mata não são as horas mas a tua ausência
Porque te queria mesmo sem as palavras mas a ti presente
Porque verdadeiramente só estamos presentes os dois
Quando me olhas de olhos nos olhos, de frente
O mais é invenção ou puro devaneio da escrita
E as palavras que te escrevo não são palavras mas invenções a ver se chegas
Mas tu tardas de novo
Eu é que vou
Porque me habituei à ausência de notícias
À ausência de palavras
Me habituei a esperar em silêncio, que é como fico
Quando tardas
Ou depois que partes por te ter visto por um breve momento num clarear do sol
E nesta altura da vida em que já não espero nada
Que arrumei os sonhos
Arrumo as memorias e as partilho para que fiquem como uma recordação de mim
Despeço-me de ti
E vou
Porque nunca vais saber o efeito das tuas palavras em mim
E eu não digo
Porque nunca o perguntaste
Porque na realidade não existes para além das palavras que gostas de ler
E me trazias para eu ler
E já não trazes
E eu que sou de hábitos rápidos, adapto-me como um camaleão de vida curta
Solitário
Que é como sou nas palavras
Portanto já não vou tentar dar-te a mão para não me sentir só
Porque só, tem sido a minha escrita
Uma escrita de saudade
Sabes lá o que isso significa em mim
Uma escrita de ausência
Sabes lá o que isso dói em mim
Uma escrita de silêncio
Sabes lá o barulho que faz em mim
Uma escrita de esperas
Espero faz tanto tempo que já perdi o tempo
O tempo que tenho ainda
Até fechar os olhos e abandonar de vez a espera
Porque não me quero lentamente a morrer de amor
Morro de outras coisas ou de morte natural
Ou deixo-me ir no meu mar que amo
Ou então não vou
E fico aqui esperando as notícias que tardam
As palavras que não chegam
A ausência que é
E volta tudo de novo num ciclo ao princípio de ti
E porque existes
E eu não

Tu não sabes o efeito das tuas palavras em mim…

João marinheiro ausente, 14 de Outubro de 2006

sábado, outubro 14, 2006

Berlengas...


O pai torceu um pé a jogar futebol com os marinheiros da vedeta. A Dourada que já não existe. Foi a primeira vez que estive a bordo de um barco em ferro, um barco da marinha, pela primeira vez vi e toquei num motor marítimo. Um enorme motor marítimo de um barco de guerra. Gostava de ir a bordo com o pai, a todos os navios. Dos que mais gostava eram os Russos. Não nos entendiamos a falar mas por gestos dominávamos o mundo. Ficaram por cá as memórias de uma dessas visitas…
Um dia encostou ao socairo da ilha um enorme navio cinzento, de madrugada. Uma cidade cheia de luz como eu pensava sempre. De manhã o pai e o chefe, vestidos com as suas fardas e os chapéus com os amarelos reluzentes foram a bordo, fui com eles e soube que era um navio fábrica. Os russos arranhavam o inglês e o francês, mais gesto menos gesto, mais cigarro, menos copo, umas quantas palmadas nas costas, uns apertos de mão, o comandante, homem impressionante, com uma calma no rosto que eu nunca tinha visto lá nos disse que tinham uma avaria num gerador. Um anel do colector estava partido. Na altura não se podia ir a terra, eram comunistas e os comunistas estavam no forte em Peniche. Lembro de ver alguns trabalharem a limpar as bermas da estrada enquanto os guardas de espingarda na mão os vigiavam… Os russos eram portanto gente perigosa, estranhos, diferentes.
Afinal não eram, os russos que eu conheci eram como o pai. Sorriam, fumavam, bebiam, falavam alto, gargalhavam e tocavam umas músicas dançando uns com os outros. Gostei daqueles russos comunistas que deviam de estar presos como os comunistas portugueses, mas não estavam.
Levaram o pai a ver as máquinas e eu também fui, fiquei abismado, não eram máquinas, eram dezenas de máquinas reluzentes, potentes motores. Pensava eu que os 12 motores que tínhamos na central na Berlenga eram já muitos motores, que enganado estava. Mostraram ao pai a avaria no gerador, o pai dizia: - No problem. No problem. Ok! Ok! Um inglês de doca como ele dizia…acho que os marinheiros tem uma linguagem secreta…entendem-se. Os russos não tinham um torno grande para tornear um anel suplente, mas tinham o bronze para fazer a peça, o pai trouxe a peça defeituosa e o bronze para a ilha, veio um chefe de máquinas com ele arriscando-se a ser preso por estar em terra estrangeira sem autorização. Mas alguém queria saber, estávamos ali abandonados à nossa sorte no Inverno. O barco ás vezes nem sequer atracava na ilha devido ao mau tempo. Gostava desse tempo de maresias, de ventos fortes, do mar cinza e branco da espuma das ondas, dos gritos das gaivotas, do troar das ondas nas grutas… Uma altura estivemos quinze dias sem que o Berlenga atracasse. Foi o melhor tempo, cozemos o pão no forno que existia para esse efeito. Tínhamos rações, que o chefe distribuía se necessário. Éramos auto-suficientes para um mês… Volto ao pai e aos seus trabalhos. Num dia maquinou a peça, torneou, frezou e furou. Na montagem funcionou à primeira. Já não existem homens assim nos faróis, também já não existem faróis assim…hoje caem aos pedaços. Sem alma, automatizados…
Os russos ficaram agradecidos, tanto que nos encheram o barco de marisco, nunca tinha visto lagostas tão grandes nem lavagantes. Trouxemos não sei quantos maços de tabaco, um tabaco forte de fumo espesso, e vodka, uma quantidade de garrafas enorme, não trouxemos mais porque o barco não aguentava a carga. E eles lá foram. Levantaram ferro deram 3 buzinadelas e lá foram mar adentro. Mas tarde soube que os russos também tinham um foguetão chamado Sputnik que era para irem à lua…Não foram eles mas foi uma cadela a bordo. Estranha gente…

...Memórias d`um menino…

Memórias d`um menino...

quinta-feira, outubro 05, 2006

Uma história...O final possível

Este é o final possivel para uma história que um dia postei aqui no memórias virtuais.Porque este blog tem esse proposito, fazer jus ao nome. As minhas memorias virtuais agora, porque não passam de memorias espaçadas no tempo, espessas no tempo, láminas no tempo...
Obrigado a quem tem a paciência, o trabalho de ler. Gosto de escrever admito, quando escrevo sou outro, como quando navego. Quando sinto o vento e o sabor do sal na boca, sou livre, fora disso deixo de ser o marinheiro ausente que sou...
VIII

Vou até ti…

Quero ir até ti. Em tua busca. Estou farto de olhar os números do telemóvel que ficaram e não tenho a coragem de premir. Pareço um puto de volta do brinquedo. E estou exausto acredita. Chego a um ponto, uma espécie de promontório ventoso de onde não sei sair. Acho que estou viciado. Viciado em ti, nem sei se é um vício o que sinto já, não sei, sei que me fazes falta, és uma espécie de presença que existe mas não se toca. Tentei substituir-te, como uma peça de um carro que avaria, mas tu és demasiado especial, peça única valiosa, nem te dás conta do valor que tens em ti, não consigo substituir-te, fico com o carro cheio de defeitos…
Tentei escrever-te, não sei se recebes as minhas palavras, porque agora que já passaram todos estes anos e eu me sinto mais triste, acho que já não vale a pena escrever-te. Também acho que já não tenho a coragem para te procurar, para dar os passos que me levem até ti. É o que mais desejo acredita. Para recomeçar ou matar de vez o amor que sinto. Porque, dou-me conta, não é um amor bonito este que sinto. Existe uma espécie de véu que me tolda o olhar, sempre, e me impede a amar de novo completamente outra mulher. Assim sobrevivo e o teu amor mata-me lentamente. O mais grave é que tu já não me amas, então tudo isto não passa de uma teimosia minha ou uma loucura. Enlouqueço aos poucos, fecho os olhos para não te ver, mas tu vens, vens profundamente. Assim, construo um outro mundo paralelo onde vivo e escondo o teu para que não se saiba que é doloroso e obscuro, um lugar construído em silêncios e paixão. Quero ir até ti. Mas vou só no tal mundo paralelo de ruas estreitas. Tenho medo. Parece que te encerrei numa masmorra com porta espessa e paredes de metro onde o sol não entra e o barulho da vida não existe. Não consigo olhar-te de frente. Ou libertar-te.
Que me adianta ir pelo meio da rua, que me adianta olhar as pessoas. Sabes, deixei de olhar nos olhos de frente, deixei de olhar os olhos de outra mulher com medo de me apaixonar, o medo de revelar um amor que existe encerrado e em segredo em mim. Tu não sabes. Tu não imaginas. Não é importante o pormenor. Mas, as lágrimas assomem aos meus olhos quando te escrevo. Porque a tua saudade mata-me aos poucos, tira-me as forças, sangra-me. Por isso tento não te lembrar para não morrer de amor por ti. Mas hoje não resisti. Olha o resultado. O que acontece. Como fico extenuado…
Acho que errei em algo na minha vida, já te escrevi a dizer isto mesmo, que o meu amor por ti padece de algum mal misterioso. Ficamos a meio de nós, e eu pareço o vagabundo doido a meio da ponte pênsil em dia de ventania. Balanço ao sabor dos ventos que me esfriam o corpo, mas vou sempre seguindo mesmo a medo para o outro lado de mim. E tu não estás para me dar a mão.

Queria navegar até ti. Encontrar-te uma última vez na nossa praia do cabo do mundo. Dar-te a mão. Não precisas de me dizer nada. Basta que estejas ali tu, com a tua presença o teu perfume, o brilho do teu olhar. Basta-me isso. Já te disse que me contento com pouco e a tua presença já é mais que muito, já é tudo para quem não tem nada. E eu de ti não tenho nada. Só a saudade e o pequeno livro com dedicatória que me ofereceste um dia lá no sul junto ao Guadiana. Mas já o li não sei quantas vezes, preciso que me ofereças outro urgentemente. Preciso de ti. De te olhar, mesmo que já não olhes para mim da mesma maneira. Quem sabe assim não me curo de vez. Não tenho uma imensa desilusão, e assuma que tudo não passa de um labirinto confuso que eu construo dentro de mim para me sentir vivo. Quem sabe. Temos de fazer a experiência pois só experimentando se sabe e se aprende.
Existe um problema que é grave em tudo isto. É que o beijar-te não foi uma experiência. Ás vezes, nas noites onde me sinto perdido, envolto nos pesadelos, agitado, tu chegas e beijas-me de novo, eu sinto os teus lábios, a tua boca pequena em mim, o calor dos teus seios junto ao meu corpo, então sereno dissipam-se os pesadelos, finalmente descanso.
E isto é muito grave, porque não sei se imagino já, ou acontecemos os dois um dia. Assim vivo sempre num dilema desde que foste embora. Se te perpetuo na memória ou te renegue. Mas és tu que me acalmas nas noites de temporal, nas noites de sofrimento quando me sinto com o corpo dorido, as minhas dores de costas que não passam, são uma espécie de hera trepadeira que me envolvem. Tu tens o dom de me acalmar. A tua voz serena-me. As tuas mãos que afagam são um linimento milagroso nas minhas costas. Toda tu és um milagre de amor que acontece, e eu que já não acreditava em milagres sinto as dores passarem pela imposição do calor das tuas mãos pequeninas.

Possivelmente esta é a ultima vez que te escrevo. Já não vale a pena, sinto que já não vale a pena confessar o meu amor por ti.
Este que é um amor puro. Branco. O amor puro é sempre branco, os outros podem ter todas as cores. Ás vezes são negros, mas isso não é amor verdadeiro, os amores negros são perigosos. Este é um amor branco verdadeiro, da cor do linho puro. Um amor que perdura para alem da distância ou da saudade. Não envelhece. Eu sim. Desfaleço todos os dias. Imagino-te sempre perfeita. Ficaste parada no tempo, não envelheces, o teu riso tem ainda o mesmo timbre, o olhar o mesmo brilho, os cabelos o mesmo perfume, os teus gestos de manhã são os mesmos. Gostas de acordar devagarinho, eu observo-te ao acordar, gosto de passar os meus dedos nos teus cabelos espalhados na brancura dos lençóis, gostamos do branco os dois. Gostas de ficar frente ao espelho na casa de banho lavando lentamente o rosto. Eu gostava de te agarrar e beijar no pescoço. De envolver os teus seios redondos nas minhas mãos grandes. Estremecias sempre, e eu queria-te ainda mais…Gostava de ver como espalhavas o creme, para evitar as rugas dizias a sorrir. Ficas parada nesse tempo na minha memória. E hoje nem sei se vale a pena alterar esse tempo sublime e breve porque sei que não estamos mais iguais ou se nos iríamos reconhecer.
Estou a escrever-te neste computador que me tem acompanhado ao longos dos anos, também ele se ressente, mas vou trocando as peças, acrescentando memória, gravando e apagando no disco, em mim não consigo fazer isso. Ás vezes tenho vontade de carregar no reset e iniciar tudo de novo, na esperança vã que o tempo ande para trás e voltemos ao início. Sei perfeitamente que isso nunca vai acontecer por ser impossível, assim vivo com o possível no momento e com este computador por onde espero que surjas on-line, mas não surges nunca, ou se surges não é aqui no meu computador. Acho que também já não é importante isso.
Tenho medo de não te reconhecer, de seres uma estranha para mim. De eu ser um estranho para ti. Sei qual é a sensação de ser estranho na nossa terra. Sei por experiência pessoal porque o tenho sentido ao longo da vida. Já não me reconheço na terra onde nasci. Tenho medo que sintas isso por mim e eu por ti. Que já não sejas a mulher que amei um dia e que habita em mim num lugar secreto. Por mais que se estude o coração, a máquina fabulosa que é, nunca se chega a compreender o seu sentir. Dizem que se guarda o amor no coração, eu não sei onde guardo o teu amor, acho que és um todo em mim. O amor tem de ser inteiro não pode ser aos bocados, interrompido, isso não é amor, pode ser paixão ou outra coisa qualquer mas amor não é de certeza, pelo menos da forma como eu o concebo, grande, pleno, puro. Envolvente. O nosso amor foi assim, durou foi pouco tempo, foi breve mas forte, gravado a fogo, perdura escondido no meu corpo num lugar de acesso difícil. Sente-se, é isso. Sinto-te como um movimento perpétuo em mim.

Já não sei que faça. Dói-me a cabeça. Hoje acordei com a necessidade de te escrever. De saber de ti. De te querer. De te ligar. Tenho dias assim, acho que estou a ficar doente pois os dias assim são cada vez mais. Mais uma vez não o faço. Sei que não atendes por saberes qual o meu número. Podia ligar de um número privado, não o faço. Não o faço porque me parece mal fazer isso. Espero que um dia me atendas se eu ganhar a coragem para te ligar. Passar dos pensamentos aos actos. Não olhar só para os números mudos e frios no mostrador. Tenho de arranjar um telemóvel inteligente, que me leia os pensamentos e que por iniciativa própria te ligue, e que te diga o que já deves imaginar e eu não disse. Sabes. O que existe é uma falta de comunicação em nós, isso é o que existe. Mas respeito a tua opção o teres saído da minha vida sem uma despedida sem um adeus. Eu também não me despedi de ti. Ficamos a meio de nós, entendes, uma espécie de história interrompida. Falta-nos o fim. Fico sempre esperando que voltes, que a tua ida tenha sido um até mais logo, um até breve. O breve tornou-se longo e o longo tornou-se distante. A distância dilui-se no tempo o tempo já não existe em nós. Um dia escrevi sobre o tempo, umas palavras de que recordo só o nome: “O tempo que temos” acho que nunca leste o que escrevi. Tenho a impressão, quase a certeza que nunca lês o que escrevo. Eu também já não te envio nada do que escrevo. Faz anos que não te mando nada, que não partilho os meus escritos contigo, mas todos os dias quase como uma rotina diária ao abrir o pc o teu endereço aparece em primeiro lugar, já tentei apaga-lo mas arrependo-me. Pode ser que um dia me queiras escrever, ou possas de novo aparecer no msn, esta coisa nova que dá para teclar à distância e mascarar as saudades. Sei que estou bloqueado no teu pc, só pode. Um dia falaste disso, uma das últimas conversas que tivemos já a magoar os sentidos. Disseste e fizeste, não te sabia tão determinada. Mas admiro isso em ti, essa força que tens de não te amarrar a nada, de não teres saudades, de não olhares para trás para o passado. De seguires sempre em frente. Tu tens razão. Admiro-te por isso. A tua força. Eu já não sou assim. Tenho andado em busca de uma explicação para isso, para este meu sentir, para a dor que sinto, as saudades que incomodam, deve ser coisa da infância, só pode. Tive uma separação que me marcou em menino. Deve ser disso, as saudades que sinto devem vir dai. Hoje falo-te nisso. Quer dizer, não te falo, escrevo, e ao escrever liberto-me de mim, de ti, da memória conjunta. Tenho já dificuldade em recordar o teu rosto nítido. Tenho de fechar os olhos para te ter plena, abstrair-me do mundo ao redor. Mas isto é a evolução natural do tempo. O tempo tudo cura, tudo patina com a capa da distância dos anos. O envelhecimento é lento e progressivo, chegamos ao auge e depois definhamos. O tempo é o melhor remédio para tudo, e eu, à medida que vou tendo mais tempo para mim vou deixando de ter tempo para ti. Queria saber parar o tempo por uns tempos e ter-te de novo, fazer o tal reset milagroso. Depois deixava-te ir como uma andorinha que parte no início do Outono. Reparo que as que por aqui faziam os ninhos já partiram, estamos no Outono, nem me dou conta do tempo. Eu vivo, não existo. Deve ser isso, esta falta de atenção ao que me rodeia. Escrevo-te enquanto escuto musica do Leo Ferré, “Cette Blessure”, gosto de escutar as musicas do Leo, falei nisso um dia, dizias que não eram musicas para a tua idade, eu sei, temos uma diferença de idade que se nota mas não é importante. Gostavas de me oferecer as musicas que gostas de ouvir, agora não sei se gostas das mesmas, ensinaste-me a conhecer novos grupos, novos estilos. Durante não sei quantos meses só tocaram os teus cds, sentia-te assim mais próxima. Mas afastaste-te, até porque eu comecei a saber de cor cada faixa de cada cd. A coisa começou a tornar-se repetitiva, e na música como no amor não podemos ser repetitivos sob pena de definharmos, de entrarmos num círculo rotineiro e perigoso que tende ao extermínio do amor e á abolição da música. Assim mudei os cds, fui ás compras, escolhi alguns dos mesmos grupos, penso que tu também gostas destes que comprei, fica a duvida e a impossibilidade de saber a resposta. Também comprei novos livros que leio. Livros diferentes dos que costumava comprar e ler, já não leio livros que falam dos barcos antigos e do património que permitiu o nosso reencontro, lembras? Agora compro livros de autores da moda, alguns que falam do amor, alguns que nem sei do que falam mas também isso não é importante, o importante é que leia e me distraia de ti. Dou-me conta que tudo o que te escrevo, tudo junto parece um livro. Pena eu não ser um escritor famoso, se o fosse dedicava-te um livro, escrevia para ti um livro com dedicatória, e isso seria o motivo para ir em tua busca, para te oferecer o livro, seria um motivo mais que suficiente para fazer isso. Como não sou escritor, não te escrevo o tal livro em tua memória com dedicatória, nem vou em tua demanda. Como vês tenho quase tudo contra mim…Digo quase porque não desisto. No dia que desistir deixo-me afundar juntamente como o navio dos meus sonhos e afogo-me de vez, afinal o mar corre-me no sangue e é lá o meu último lugar, no mar profundo. Não sei se gostas do mar, acho que nunca falamos disso em pormenor, gostavas de me acompanhar na beirada da praia no cabo do mundo e apanhar beijinhos, aquelas conchas pequeninas e mágicas. Mas isso não quer dizer que gostes do mar da mesma forma que eu, ou o sintas como eu. Mas também não é importante saber isso de ti. Dou-me conta que não sei nada de ti. E isso assusta-me. Assusta-me não saber nada de ti, e assusta-me o já não ser importante o saber algo de ti. Parece uma contradição tudo isto. E é, somos uma enorme contradição, assim anulamo-nos, não nos queremos, não nos amamos. Aqui discordo. Eu ainda amo, não me adianta é rigorosamente nada, o que é outro universo bem diferente do universo onde te guardo e habitas em mim. Já te falei disso no início das minhas palavras.
Acho que estou a ser extremamente monótono. Repetitivo, acho que mesmo estúpido. Mas peço-te desculpa por te maçar com estas palavras que escrevo, não é uma carta, não tem o propósito de ser uma carta, é mais uma história nossa, à qual eu tento dar um final feliz como todas as historias de amor que se prezem. Não vou é terminar com a frase: E foram felizes para sempre…Porque não corresponde à verdade. Ainda estou a tentar descortinar um final para nós, um final onde eu não me sinta vencido ou impotente. Porra! Na lei dos homens, os homens ganham sempre, ou não é assim. No amor e na guerra, devíamos ganhar sempre, afinal somos o sexo forte. Quer dizer, sei de alguns que ganham sempre, ás vezes leio isso nos tais livros que comprei, mas fico com a impressão que não falam de amores brancos, falam de amores com outras cores, e para mim o amor é branco, não vou repetir de novo o que já te disse atrás e penso ainda recordas. Tu ganhas-me em matéria de amor. Mas também não deve ser um facto importante a esta distância. Eu não vivo, existo. Lembras? Na maioria dos dias sobrevivo, o que já é uma enorme vitória pessoal, assim também sou feliz, pode ser pouco, mas para mim já é muito. Sobrevivo sem ti. Aprendi a não te buscar em cada rosto de mulher. A não olhar nos olhos directamente., A não olhar o céu sempre que escuto um avião, já me habituei porque moro num sitio onde eles passar regularmente. Também cresci por dentro e envelheci por fora, mas não me importo. Tu é que estás igualzinha para mim. Não tenho uma foto tua para comprovar isso, as que tinha perderam-se um dia, uma história que não quero recordar. Até porque a minha memória ao contrário do computador não dá para acrescentar. Noto que está em movimento decrescente a esvair-se, fica só a memória antiga, a memoria presente é fugaz, como clarões que passam e isso traz-me muitas dificuldades no dia a dia. Acho que também isto se deve ao facto de ter abusado em novo do mergulho em profundidade, as minhas apneias prolongadas ao limite do folgo, durante anos, os anos intensos que vivi no Algarve, agora o cérebro ressente-se da falta de oxigénio desses tempos…a cabeça não tem juízo e o corpo paga. Pode ser mais tarde mas paga, dou-me conta que paga. Adiante que não quero falar-te de mim, ainda se fossem coisas bonitas, agora estas coisas que não são importantes. Se calhar é porque já não sei o que te dizer mais, além de dizer quer me apetecia ir até ti hoje. Mas é uma tarefa impossível eu sei. Vou de memória como tenho feito estes anos todos. E tu estás em casa sitio onde pouso o olhar. E ás vezes descanso o olhar em ti. Tu não estás é certo, mas é como se estivesses, és como eu queria que fosses. Perfeita. Ao redor o mundo é que é imperfeito, e eu como faço parte desse mundo também sou, cheio de arestas vivas que cortam ao toque, por isso foste embora, com medo de te cortares. Eu sou uma espécie de vidro reciclado grosseiramente, daqueles cheios de bolhas de ar prisioneiras por dentro. Tem graça que é assim que me sinto muitas vezes. Prisioneiro desse mundo paralelo, encerrado numa bolha de ar. A diferença é que por lá o ar está rarefeito, perigoso, pouco, e eu noto a arritmia em mim, o desfalecimento, a vertigem, a embriaguês da narcose. Vou ao fundo. A custo liberto-me do lastro como tenho feito muitas vezes e subo à superfície, quase a sucumbir, os pulmões a arderem, a quererem sair do peito. Queimam por dentro. Nunca faças uma coisa destas por favor, eu fiz por sobrevivência, para me testar, para saber os meus limites, agora não faço porque tenho já medo, e, descobri que afinal não tenho um coração perfeito, as batidas que sentia lembras, eram prenuncio de algo. Faz tempo despedi-me do mergulho. agora vivo das lembranças, da liberdade que sentia, do prazer que era. Já não é, porque a vontade ainda é muita de ir de novo para o silêncio azul. O mar puxa-me para ele porque ele sabe que o amo e principalmente o respeito, pronto! Revelo-te, não sei se alguma vez desconfiaste deste meu amor pelo mar. Não existe ciúmes, ele está sempre lá, eu, é que sou um marinheiro muito ausente mesmo. Não te vou dizer para que não tenhas ciúmes deste meu outro amor, seria extremamente ridículo dizer-te isso. Até porque tu já não me tens amor, que eu sei, eu sinto essa verdade, estou quase como uma balança defeituosa, de dois pratos mas só com um, portanto inútil. Não pesa, finge, e os pesos estão errados por lhe faltar a tara. O meu amor de respeito pelo mar não faz concorrência desleal com o que sinto escondido por ti. São diferentes. Um de existência, outro de sobrevivência. Sobrevivo sem ti. Vê lá a imensidão deste amor. Aqui ele toca-se, as tais linhas paralelas que ás vezes falo, aqui tocam-se finalmente. A imensidão do meu amor por ti confunde-se com a imensidão do mar que amo. Ás vezes, ao olhar o horizonte és tu que vejo caminhar sobre as ondas lá onde o sol se põe, na linha do horizonte, e vens resplandecente, é por isso que me farto de fotografar o por do sol, a ver se de uma vez por todas fico com uma foto tua mesmo distante, uso um zoom de dez vezes mais o digital, e a máquina no máximo das definições possíveis e impossíveis, mas nunca apareces na foto, só os meus olhos te vêem. Assim não posso provar nada. Que te vejo a caminhar sobre o mar. Passo por louco. Mas só o Cristo tinha o dom de caminhar sobre as águas, e acalmar os mares, e multiplicar os pães, e transformar a água em vinho, e ressuscitar os mortos. Estou meio moribundo dou-me conta. E não era isto que eu queria hoje, queria ir até ti com todas as forças, no máximo do meu vigor. O mais alerta possível nos sentidos. Excitado até, tu sabias como me dar a volta, ou me excitar…Às vezes ainda me dizem para não me prender ao passado. Como pode ser possível não me prender. Se não me prendo fico vazio, sem nada, será isso viver? Um homem vive vazio de nada? Eu não vivo, vivo com pouco, não sou de muitos gastos, a tua memória alimenta-me, não será um manjar, será um pão ázimo, sem fermento, uma espécie de pão da última ceia, portanto respeito este pão que me alimenta o suficiente para me manter vivo e lúcido. E quando penso em ti, tu renasces porque o meu espírito que é livre te visita e vela por ti para que nada te falte, para que te sintas feliz. Porque se estiveres feliz eu também estou. Amor é isso. O meu amor de branco, como gosto de o ver é isso. Uma dádiva de partilha sem algemas, sem prisões, livre como o pensamento. Confesso que por momentos te queria prender nos meus braços como antigamente, mas isso sou eu a cometer um pecado egoísta. Tu és livres de voar. Não voaste, foste de avião, eu fui levar-te ao aeroporto. Nunca mais lá voltei àquele aeroporto, dizem que já está diferente, as tuas pegadas na porta de embarque já não existem, substituíram o piso do chão e diariamente lavam com uma máquina que põe o chão a brilhar. Perdi portanto o teu rasto. Não sei efectivamente por onde te procurar. Na tua rua ninguém sabe de ti, só lá passei recentemente. As janelas estavam com os estores cerrados. Tu não estavas. Mas se estivesses era como se não estivesses. Vieste uma vez pelo natal lembras. Quando ligaste a dizer que me querias ver e eu fui, fui demasiado depressa acho que em excesso de velocidade. Excesso de amor por ti. Vim embora devagar. Lentamente. As separações a mim custam-me muito. Não gosto de me separar de nada mas separo, as coisas acabam naturalmente, são como as flores colocadas na jarra viçosas no momento, depois murcham e deitamos fora. Desculpa eu ter deixado morrer as flores que te ofereci. Mas foi impossível fazer com que elas vivessem eternamente. Foram cortadas do tronco da roseira, a partir desse momento tinham o destino traçado e efémero. Perdoa-me por isso. Podia ter guardado e seco as rosas envoltas num jornal, como fazia nas aulas de ciências quando estudava as plantas. Não me lembrei e deitei-as ao lixo. A saída mais fácil. Afinal tu não estavas e as rosas já estavam todas caídas, as pétalas secas no chão. Deu uma trabalheira limpar tudo. Também já escrevi sobre este episódio que se passou. Não sei porque recordo tudo isto agora, quando o que eu queria hoje era ir até ti. Mas tu foges sempre, parece que estás do lado de Matosinhos e eu do lado de Leça, e temos a ponte móvel aberta permanentemente. Assim não consigo chegar à tua beira. Já viste a volta que tenho de dar. Quando chegar tu já não estás á minha espera por pensares que eu não vou. Eu vou, demoro é muito tempo porque vou a pé pela ponte nova, e demoro-me a olhar os navios no porto a descarregarem. Fascinam-me os navios. Sonho com viagens que nunca fiz. Mas posso sonhar. Ainda posso sonhar. O problema que verifico no sonhar é que me perco de ti, já não estás em sitio nenhum. Não devia sonhar com barcos e partidas. Devia sonhar contigo a todo o momento. Mas isso era privar-te da tua liberdade. És livre como o pensamento. Quero-te livre para cresceres, porque em mim ainda és como naquele tempo, a mulher perfeita na plenitude da beleza, não envelheces. Estás numa cápsula do tempo, uma espécie de épave, como as que encontro nos mergulhos arqueológicos, onde os destroços permanecem incólumes há séculos, e assim podemos reconstituir a história. Só não reconstituímos o sentir dos esqueletos que por vezes encontramos, os ossos não falam, são o testemunho só. Lembro-me da Papoa em Peniche. Esse é um testemunho que ficou, foram uns amigos que estudaram o naufrágio. Amigos que não revejo, faz anos. Mas tudo isto são fugas minhas a ti. Tudo são pretextos para te prender, para que te interesses pelas palavras que escrevo, sei perfeitamente que não é uma área que te interesse. Te apaixone. Eu é que tinha a leve esperança que tu gostasses do que eu gosto. E gosto de poucas coisas acredita. O mais vou convivendo delicadamente com elas, uma espécie de fio da navalha. Também escrevi um poema com este nome; O fio da navalha. Já nem sei porquê, mas as coisas saem sem que eu me dê conta, acho que as palavras não são minhas. São de alguém que me usa para as alinhar na escrita para que se percebam. Fico muitas vezes com essa impressão, por não me reconhecer nas palavras escritas. Por não me lembrar delas depois, por não conseguir de memória dizê-las num acto de declamação, como o que assisti um dia, num almoço, o dia que passei perto da tua casa como já falei atrás. Podia ter tocado á campainha. Mas já não sei o andar nem o número nem nada. A minha memória atraiçoa-me muito. Sei que escrevi num papel a direcção certa, mas também não sei onde o guardei. Um dia aparece amarelecido pelo tempo e fora de prazo…
O tempo de hoje era para ir até ti. Em tua demanda. Uma espécie de Dom Quixote em demanda dos monstros que rodopiavam. A imagem não vem a propósito, mas à tempos, numa das minhas viagens ao mediterrâneo, vi os geradores eólicos alinhados a girarem nas suas rotações certas e lentas, e lembrei-me disso, o susto que o Sancho Pança, o fiel escudeiro teria para convencer o seu amo a não investir contra aqueles monstros…Mas o Dom Quixote era um cavalheiro sonhador, gostava de defender as donzelas. Eu também sonho, só já não encontro as donzelas daqueles tempos, e nem tenho escudeiro, nem ando a cavalo. Mas sei como são os moinhos de vento, isso sei. Porque em pequenino levava o milho com a avó para moer. Mas isso também já não interessa. O importante és tu de novo, e esta é certamente a ultima vez que te escrevo desta forma pública. Sabes, tenho a secreta esperança que te disponibilizes a ler o que te tenho escrito ao longo destes anos. Que o teu coração se enterneça e possa receber noticias tuas a dizeres que te encontras bem, mesmo que já tenhas envelhecido como eu, mesmo que tenhas um corte de cabelo diferente, ou tenhas mudado de perfume, por o que eu gostava já não ser o que gostas actualmente.
Acho que a dor de cabeça se dissipa aos poucos. Vês o que me fazes ainda, mesmo à distância. Basta-me pensar em ti com desejo, com amor, para as dores desaparecerem. Para me sentir vivo, para esboçar um sorriso, acho até que o olhar fica mais brilhante quando penso em ti. Só não sei se será mesmo amor o que sinto ainda, porque, dou-me conta, não vai a lugar nenhum isto que sinto. É uma espécie de dependência, uma droga desconhecida que cria habituação. Uma obsessão. Tenho rapidamente de encontrar uma clínica onde me interne e cure de ti. Levar uma transfusão de sangue completa para que o coração não descubra o caminho até ti, um sangue frio, impessoal, sem sentimentos. Uma espécie de plasma sintético. Uns glóbulos brancos pouco brancos, e uns vermelhos pouco vivos. Pode ser que seja a cura, porque o que sofro é uma doença rara, não vem nos livros de medicina. Não se estuda na faculdade. Sente-se só. Tão simples como isso. Sente-se só. E porque para amar são precisos dois, eu não amo porque estou só.
O mais nem sei que escrever, queria só que soubesses que hoje acordei com a vontade estranha de ir em tua demanda, chegar a um cais onde tiveste um veleiro, soltar amarras, içar o pano e atravessar o atlântico em tua demanda. Queria fazer isso. Não o faço porque deixei o veleiro faz anos. Não é importante que o saibas. O importante és tu. O importante és tu. O importante és tu.
A primeira vez que te vi…
O telefone está mudo e neste pc tu já não habitas, eu é que persigo a tua memória, porque hoje ao acordar queria-te comigo e estou só. E agora vou de novo, já te escrevi esta longa carta de despedida. Já terminei a história, dei-lhe mais um capítulo. O oitavo. Não é o final que queria, entende, é o possível na tua ausência. O final perpétuo. Se voltares um dia então terminamos a história. Eu só não sou capaz.

PS: Não é importante que saibas que te amo ainda.
Não é. É importante que te sintas feliz, isso me basta para ficar feliz também. Até sempre meu amor…

João marinheiro ausente, Outubro de 2006