domingo, dezembro 30, 2007

O meu amor por ti é simplesmente o meu mar.

segunda-feira, dezembro 24, 2007

Uns dias antes do natal…


Resolvi sair de casa hoje. Agarrei nalguma roupa, coloquei tudo num molho na velha mala castanha pequena que a avó de Lisboa deixou ficar no natal passado, porque era velha demais para andar em viagens. Calcei as minhas chancas e vesti a samarra aos quadrados pretos e brancos que o avô me comprou na feira, e fui de ferias para casa da avó Liva, a carregar a mala às costas. Gosto desta mala de cartão com correias de couro e reforços de chapa preta nos cantos, é a mala das minhas aventuras. Lembro-me que foi na última vez que a avó de Lisboa veio que a mala ficou. A avó trouxe-me uma prenda dentro dela, um revolver de fulminantes dourado, e também fez a mãe chorar. Fazia sempre a mãe chorar quando vinha de Lisboa ter connosco. E depois o Pai é sempre por ela, faz-lhe todas as vontades quando ela está cá esquece-se de nós, e saem os dois para a Vila todos os dias, a avó chama um carro de praça preto e verde para a levar e trazer porque a avó gosta de beber o seu chá na Nelia velha e de comer os seus docinhos à tarde. Tudo à moda de Lisboa. Eu já fui a Lisboa, é uma terra grande sem estrelas no céu e fica longe, e só lá sei ir de comboio. É uma terra que fica no fim do comboio. Mas a avó de Lisboa é uma avó pequenina, com um chapéu enfeitado, e pintura nos lábios que ficam muito vermelhos, e eu não gosto dos beijos que me dá, nem do perfume que usa porque me cheira ao mesmo cheiro da cruz do menino Jesus na Páscoa. Mas eu posso escolher as avós. Eu tenho 3 avós, quer dizer tenho duas e uma bisavó e acho que tive mais uma que a mãe diz ser a tetravó, mas essa lembro-me pouco, só a vi deitada a dormir numa cama preta na casa de cima, coberta com uma renda transparente, e tinha um terço nas mãos e estava vestida de preto e tinha o cabelo branco e sorria, era a Madrinha, e tinha morrido porque estava velha, e os velhos na minha família costumam morrer. Também tenho dois avôs, mas só conheci um, porque o outro é militar e musico e saiu de casa da avó de Lisboa porque naquele tempo era assim, diz-me o pai que não gosta de falar dessas coisas, e às vezes, quando eu passo ferias em Lisboa na casa da avó, que vive no quinto andar da Luciano Cordeiro ela fala do avó porque eu pergunto por ele, e porque eu ando sempre a descobrir papeis escritos que eram dele, nos esconsos da casa, mas eu não sei o que eram, mais tarde soube que eram papeis de musicas que ele escrevia, porque este avô que não conheci ainda é musico da Guarda e também tenho uma foto dele. Ele é grande, fardado, do tamanho do outro avô, mas com o cabelo preto e todo engomadinho como a avó de Lisboa diz, e ás vezes ela fala-me dele porque eu queria saber dele, e ela diz-me de como ele era, e de como não gostava dos relógios, e eu achava piada, e ria-me muito quando ela contava que ele quando chegava de tocar nos clubes de dança que eu não sabia o que eram e queria dormir, ficava incomodado com o tic tac dos relógios e dizia; – Se não te calas! Já te dou o tic tac! E como os relógios daquela altura ainda não sabiam falar ele pegava neles e atirava-os para rua do alto do quinto andar, e acabava-se o tic tac, e no dia seguinte comprava outro relógio e trazia para casa. E eu um dia descobri um desses, azul, que fazia tic tac e também o atirei da janela do quinto andar para a rua, a ver se o tic tac parava, e fiquei sem saber o que lhe aconteceu, mas ainda hoje o tic tac dos relógios me incomoda.
O pai tem um irmão que ficou maluco novo, e um dia apareceu em casa da avó para passar o fim de semana e metia-me medo, e um dia fui visita-lo ao hospital dos malucos ali próximo mas não gostei, porque todos tinham um olhar muito triste, e vestiam uns casacos cinzentos pesados por cima de uns pijamas às riscas, e andavam de chinelos por lá, e não falavam comigo. E o pai tem uma irmã que é enfermeira em Africa, e eu não sabia onde era essa terra mas depois soube o que era Africa. Um dia a tia veio visitar-nos à Berlenga e tinha vindo da tal Africa com o tio e trouxe os filhos, uma filha e um filho, que são meus primos que eu nunca tinha visto, e não gostei deles porque são mimados, com manias de serem superiores a mim e aos meus irmãos, e que ficaram com o meu prato dourado da sopa e o meu prato dourado de comer e os meus talheres e o meu copo, e eu reclamei que eram meus, mas o pai não ligou e passaram a ser deles, e quando foram embora atirei-os ao mar, assim se voltassem de Africa não iam pegar nas minhas coisas, e a mãe não ia ficar triste. Africa era uma terra em que os miúdos da minha idade, meus primos, que eu nunca tinha visto, ficavam com as minhas coisas. Nunca gostei dessa terra.

Mas desta vez, no natal passado que a avó de Lisboa veio passar ferias a nossa casa e fez a mãe chorar, eu não entendia essas coisas, e um dia à mesa na cozinha onde comíamos disse que a ponte de Fão havia de cair para ela não passar para o lado de cá, e que o revolver devia de dar tiros a sério para matar os maus que faziam a mãe chorar, e o pai não disse nada, só olhou para mim com cara de mau, e a avó de Lisboa deixou de comer e disse: Oh! Oh! Oh! Três vezes, e depois não disse mais nada como o pai, e foi embora no dia seguinte, e o revolver desapareceu. E ficou a mala. E isto foi tudo no natal passado, e neste o pai foi a Lisboa montado no seu Moton branco, ter com a avó de lá que não quis vir cá, e não fez falta nenhuma, e eu resolvi ir de ferias para casa dos avós daqui pertinho da nossa casa outra vez, e hoje é sexta feira dia de cozer broa, e fui logo de manhã porque vou com os tios levar o gado para o campo e vou com eles aos tarrotes com a fisga que o tio João me fez, porque o avó gosta de comer um bolo com tarrotes apanhados pelo neto mais velho que sou eu, e depois o tio mais novo é o João, e depois o Fernando, e depois a Fernanda e por ai fora. Os avos tiveram 13 filhos e um morreu logo que nasceu, e dois emigraram para o Brasil com o avô quando fizeram 18 anos. O Alcídio que andava nos barcos e morreu quando eu estava na Berlenga. Eu lembro porque era o mais velho dos tios e a mãe falava muito dele e das saudades que tinha de o ver, e depois a mãe, ela, chorou muito na ilha durante uns tempos, e andou vestida de negro, e eu não gosto de negro nem de a ver chorar, e depois passou tudo e ela vestiu as roupas que eu gostava, porque a mãe é linda, a mais linda da ilha, e o outro, o Américo que conheci muitos anos depois e era igual ao avó mas mais novo, e antes do avô ter morrido, porque também era velho, tinha 78 anos e o cabelo branco, e não sei se sorria porque eu estava na tropa e não me deixaram ir despedir-me dele quando morreu…

Esta manhã apanhei quatro tarrotes gordos com a fisga, e fugiram-me uns quantos, e os tios apanharam mais tarrotes gordos, e dois melros, que vão dar um rico bolo de pardais com toucinho, e era já hora do almoço porque o sol estava a sul e não tínhamos relógio mas não fazia falta porque sabiam ver as horas no sol os tios, e trouxemos o gado para o eido, pelo Pinhal Careca que agora é um monte de prédios sem graça, e sem crianças para brincar. O avó tem quatro vacas e dois porcos, e um vai morrer este natal, e depois vamos a Barcelos à feira comprar outro para criar, e eu costumo ir a pé a Barcelos com a avó Liva e a tia Carolina e a tia Lores e mais umas mulheres das Marinhas e da Vila e vamos de madrugada em filinha e eu a correr e em passo miudinho atrás e à frente da avó e quando o dia clareia deixo de ter, assim, medo do escuro, porque é muito de noite e eu levo um candeio na mão com uma vela pequena que se apaga sempre que corro, e é escuro e a estada vai pelo monte às curvas e pelo pinhal alto e as arvores com o vento fazem barulho, e parecem os papões que a bisavó me conta nas historias, á noite, ao borralho, na cozinha a falarem comigo, e porque não passam carros para alumiar a estrada e demoramos duas horas e meia a andar sempre sem parar até chegarmos à feira de Barcelos que é enorme e bonita, e a avó conhece muitas mulheres como ela que vão vender as novidades, e fazer uns centos como ela diz. A avó não sabe ler nem escrever, mas sabe fazer contas de notas. Centos pra frente e centos pra trás, e às vezes também fala em cruzados, e um dia deu-me uma moeda de quatro cruzados, acho eu, porque a perdi muitos anos depois, um dia em que mudamos de casa e as minhas coisas, os livros, e as minhas colecções desapareceram. E ao domingo dá-me uma coroa que são cinco tostões e eu merco chupa chupas da tia Rosa na porta da igreja, que é ela que os faz e escolho sempre os chupas com feitios dos peixes que eu penso são os do rio, quando vou com o avô à missa, mas na missa não percebo o que o senhor padre diz, porque fala de costas para mim e fala numa língua que eu nunca ouvi, mas o avô explicou-me que é língua dos padres da missa e eu fiquei satisfeito, só ainda não compreendo porque é que o senhor padre Avelino que me baptizou e dá missa nas Marinhas e trás o menino Jesus na Páscoa a nossa casa, fala como o avô em vez de falar a língua dos padres da missa?

E depois da feira feita, as coisas mercadas pelo meio dia, voltamos no camião Volvo cinzento, velho, do tio Ferreira que é marido da Lores, e é também velho e tem um bigode preto como o pai, e é uma aventura para mim andar no camião e vir sentado atrás nos bancos de pau aos saltos. E o camião nos dias de chuva tem uma cobertura de oleado cinzento. Tudo cinzento.

Mas hoje é sexta-feira a ultima antes do natal, e vou ajudar a avó e a bisavó com a massa para fazer a broa e o avô a acender o forno. Gosto de ajudar o avó em tudo, porque o avó sabe das coisas do mundo, e gosto que ele me conte as coisas do mundo, e gosto das aventuras do avô por Africa e pelo Brasil, e por França e por Espanha, e por mais sítios que eu não sei onde ficam mas que devem ser importantes porque o avó lá andou a trabalhar. Depois de o avô me falar o que era Africa fiquei a gostar da Africa do avô que devia ser diferente da Africa da tia e dos primos porque o avó não me tirava as minhas coisas, o avó dava-me coisas o que era muito melhor. O avô era carpinteiro como São José, dizia ele, e agora já não é porque é agricultor, e tem uns campos grandes com vinhas, e campos de milho e de girassóis, e de batatas, e dois poços, um em cada campo. O avô quando o ajudo, trata-me por meu neto e por Paulinho que é o meu nome pequeninho, e mesmo quando eu já era grande, era sempre pequeninho para ele, porque os avôs são assim disse-me ele um dia, e explicou-me, sentados os dois no muro da avenida, ao lado do portão da eira vermelha que dava para o campo e a casa, a olhar-mos a foz do rio e o mar, que os filhos crescem e depois trazem os netos que também crescem, mas são sempre os seus meninos no coração, e eu naquele tempo não sabia das coisas do coração. Nem o que era o coração, só conhecia o dos porcos que matávamos, e o matador dizia que era como os nossos, mas eu desconfiava do que ele dizia, porque era um homem que vinha de madrugada, e trazia umas facas grandes embrulhadas num pano na bicicleta que era igual à do avô, e tinha uma voz grossa, e falava alto, e dizia muitos palavrões, e gostava de beber umas tigelas do nosso vinho. Não sabia muitas coisas que agora sei, e tenho pena de não ter aprendido mais com o avô. O avô era um sábio.

Um dia fomos os dois feirar na feira da Vila, o avô e o neto. O neto sou eu, e todas as pessoas lhe falavam, e ele às vezes tirava o chapéu quando cumprimentava uns homens bem vestidos de preto com ar sério, e ele nessa feira mercou-me umas chancas, que eram umas botas com sola de madeira e couro preto por cima pregado à madeira, que estavam penduradas a balouçar num cordel numa barraca de pano com um pau ao meio a segurar para não cair, a barraca era dum homem que o avô conhecia, porque o homem disse; – atão tio Américo como está vossemecê, veio à feira a mercar o quê com o seu neto? E o avô riu-se e fez-me uma festa na minha cabeça e no meu cabelo que era da cor do trigo. Loiro diziam as pessoas. Que eu parecia estrangeiro, mas eu não sabia o que era isso de ser estrangeiro e nunca me preocupou saber, e depois em casa o avô pegou nas chancas e calçou-as com umas tiras de pneu de bicicleta para eu não escorregar, e ficaram como as dele, e mercou-me uma samarra como a dele aos quadrados brancos e pretos e uma boina vasca como a dele, e quando a mercou, disse-me que já tinha sido em tempos contrabandista de boinas para Espanha, no tempo da guerra civil por lá, que as comprava numa fábrica que havia em Viana, e eu fiquei a saber o mesmo na altura, mas agora já não, porque sei o que foi essa guerra, e sei onde era a fábrica em Viana, e agora já não é porque a deitaram abaixo faz pouco tempo, porque estava abandonada, porque já não se usam boinas. E andamos às voltas na feira e depois fomos ver o gado, as vacas como as nossas, pretas e brancas chamadas vacas torinas holandesas, e outras grandes, com pelo castanho e uns cornos enormes que ele dizia serem piscas, mas eu hoje acho que não, que eram mirandesas, e os tourinhos e as tourinhas, e os porcos. O avô queria mercar outro porco porque o Ruço ia morrer estes dias para o natal. O Ruço era o porco, e era eu que dava os nomes aos animais, e na altura eram todos meus e o avô não se importava e dizia; – meu neto toma-me conta dos animais, e eu tomava conta. Também tive uma porca que se chamava dona Chica que também morreu e acabou em chouriças e presuntos.
Agora ainda uso uma boina como antigamente quando ando nos barcos e uns socos de madeira e couro. O avô andava sempre de socos no campo.

E um dia, antes da sexta feira antes do natal, aconteceu-me uma coisa com uma das vacas que o avô tinha, e que eu chamava de Preta, porque era toda preta, e era má pra mim, porque me olhava com olhos de poucos amigos, e eu gostava dela, e de lhe fazer festas como fazia às outras, e gostava de lhe tirar o leite como o avô me ensinou a fazer nas outras, mas às vezes dava-me cornadas e coices e dava-me com o rabo, e um dia pegou-me de lado pela roupa e voei, e cai na rigueira, e ia ficando afogado porque vi estrelas e terra e agriões de volta de mim, e fiquei todo molhado, e assustado, porque eu tinha a mania de me por às cavalitas das vacas, quando elas comiam dentro das rigueiras que traziam a água dos poços quando eles estavam cheios para o rio, e a Preta só me deixava fazer isso se eu fosse com a tal samarra aos quadrados, mas eu não sabia, mas descobri á terceira cornada, que foi a que vi as estrelas e os agriões na rigueira, e fiquei atordoado e ia morrendo, afogado porque fiquei tonto, e o avô deu com o cabo da enxada na vaca que a queria matar ali mesmo, e a bisavó veio aos gritos, e mais a avó, e mais as jornaleiras, e foi um burburinho, e eu todo molhado fui para casa no farol a correr, mas tive de voltar para a casa da avó, porque tinha saído de casa, e tinha levado a minha roupa toda que estava num molho, dentro da mala de cartão castanha que tinha feito a ultima viagem de Lisboa, o natal passado. Mas a mãe veio comigo. E o avô, neste entretanto deixou o trabalho do campo, pegou na bicicleta dele, uma Vilar de roda 28, e pedalou até às Marinhas a casa do Pastor, que era um homem que depois conheci, e que veio nessa noite buscar a Preta com um camião, e depois, uns dias depois, trouxe outra vaca pequenita que eu chamei de Tonicha, porque na altura havia uma cantora com esse nome e eu tinha visto na tv, porque o pai tinha comprado uma tv por trezentos escudos, o que era uma fortuna dizia a mãe. E o Pastor às vezes aparecia à sexta feira à noite, quando o bolo de sardinha saia do forno, e veio nesta sexta feira falar com o avô da troca das vacas, e comer bolo de sardinha, e foi quando eu fiquei a saber que a Preta tinha ido para o matadouro da Vila para morrer, e fiquei triste, só um bocado. Mas a Tonicha era mais bonita, e tinha uma estrela branca no meio da testa, que nas vacas é onde estão os cornos, e ficamos grandes amigos, porque ela não se importava que eu andasse às suas cavalitas, como via a moleira fazer à mula que trazia na sexta feira de manhã a farinha de milho à avó para cozer a broa.

Mas hoje é sexta feira antes do natal e vou ajudar o avô a trazer lenha grande para acender o forno e ajudar a avó a amassar a farinha de milho e fazer bolos de sardinhas e de tarrotes, e um bolo que eu vou fazer é para ele, porque eu fico contente quando ele depois, de tudo feito, tira os bolos do forno e os coloca sobre uma toalha na mesa, e a bisavó os cobre para não arrefecerem enquanto a avó com a gamela, volteia a massa para fazer as broas, e a coloca em cima da pá de meter ao forno, e lhe faz com a mão em cutelo um corte ao comprimento e as benze em cruz, enquanto o avô, certeiro, num movimento rápido as coloca dentro do forno vermelho de calor, enquanto a cora de brasas na soleira, não deixa o calor sair, e eu espero para fazer a minha broa também, porque tenho uma pá feita pelo avô que era carpinteiro e agora não, mas tem as ferramentas e me fez uma, e um banco como o dele para tirar o leite às vacas, e um sacho, para o ajudar a sachar o milho, e um ancinho para o ajudar no campo e na eira a virar o milho. E no fim da broa toda botada ao forno e a porta em ferro selada com massa do pão, o avó arruma as pás e o esfregão de pano de limpar o forno e arruma as brasas da cora no borralho e senta-se na mesa e diz um Avé Maria, e depois passa a mão, grande, pelo cabelo com umas grandes entradas na testa como eu tenho, porque pareço-me com ele, dizem, e enche uma malga branca com riscas azuis de vinho da caneca que o tio Passos foi encher à adega e começa a refeição. Começamos todos, e começa pelo bolo que eu lhe faço, pequeno, fininho tostado, com quatro tarrotes colados na massa e umas tiras de toucinho entremeado da barriga do porco salgado, e depois da primeira dentada diz sempre que o mimo que o neto lhe fez sabe bem, e eu fico com os olhos brilhantes de alegria porque gosto destes mimos com o avô. E depois de comermos os bolos de sardinha e os bolos com os tarrotes, e de a avó ter mandado bolos de sardinha embrulhados numas toalhas brancas, que eram de linho, e eu não sabia para as irmãs, numa ceira que é uma cesta de junco de antigamente, pelos meus tios que vão e vem a correr nas bicicletas deles, ficámos ali ao calor do forno e do borralho da lareira, que é onde se cozinha, nas panelas grandes e negras do lume, e onde um pote de três pernas gordo, com tampa fumega sempre com água quente, que o avô e a avó e a bisavó usam para lavarem os pés quando vem do campo, e é a bisavó que trata do lume.
A bisavó é uma velhinha mais velha que os outros todos, mas muito rija, e que tem uma cara feia, mas é bonita por dentro, porque é muito minha amiga, e eu sou o bisneto mais velho cá, porque ela tem outros no Brasil, mais velhos que eu. Ela tem uma cara feia porque tem o nariz torto, de uma operação mal feita, porque neste tempo as operações nunca são bem feitas. Eu até achava que ela não tinha nariz, mas tem, porque eu muitas vezes dormia com ela, e às vezes de noite dava um peido fedorento e ela dava por ele, e dizia-me logo, Paulinho isso não se faz, atão que falta de respeito pela bisavó, e de castigo lá tinha eu de rezar o terço outra vez. Rezava sempre o terço com ela antes de dormir, às vezes até ela ficar a dormir de tantos terços rezados seguidos, e um dia pensei que eram terços a mais, porque ela tinha um terço preto pra rezar todas as noites, e resolvi esconder o terço, mas não deu resultado, porque ela sabia de cor a ladainha e continuava a rezar o terço e a dizer que não sabia onde tinha guardado o terço. A bisavó era sábia também como o avô. E tinha um cabelo muito bonito, muito comprido e preto que amarrava num picho na cabeça, e tinha uns brincos grandes em ouro, e andava sempre descalça, e um dia muito tempo depois era eu grande, morreu também, como morrem os velhos da minha família.

Gostava de me sentar ao colinho da avó e depois quando estava cansado e com sono passava para o colo da bisavó que me levava para dormir com ela na casa de baixo. Mas antes de dormir nas sextas-feiras em que se cozia o pão, o avô contava histórias da África, e eram histórias com leões gordos, e homens pretos que eu nunca tinha visto e viagens de barco, uns barcos grandes que tinham de sair de Lisboa chamados Paquetes, e a mim metia-me confusão, porque o Paquete que eu conhecia era um pescador da Vila que tinha um barco parecido com o barco vermelho que o avô tinha para ir ao sargaço na praia de Fão, ou à botelha nas pedras do rio, para dar aos porcos. Depois ele explicou-me que não eram a mesma coisa, e fiquei a perceber. O avô explicava-me sempre muitas coisas. Gostava das histórias do Brasil, o avô trabalhou na construção de barragens no Brasil e falava-me das cobras enormes que lá havia que podiam comer um homem. Eu sabia de uma grande que andava no poço de cima e tinha a toca no meio das lousas, deixei de ir ao poço de cima não fosse a cobra comer-me também. Mas o avô um dia explicou-me que aquela cobra não fazia mal, que era uma cobra de água inofensiva que só crescia um metro e meio no máximo, mas mesmo assim já era maior que eu, e que as cobras do Brasil eram jibóias gigantes com mais de vinte metros, que andavam nos rios de lá, fiquei assustado com aquilo, eu gostava de andar no rio aos irões, e se me aparecesse uma cobra daquelas em vez de um enguio. Durante uns tempos deixei de ir só ao rio aos irões, e depois vi na tv em casa que aquelas cobras grandes não existiam por cá e deixei de ter medo de ir aos enguios nas poças do rio.

E nesta sexta feira também brinco com os tios às escondidas, e vamos até à praia até perto de rio de moinhos pela beirada da água, porque ás vezes encontramos pranchas de madeira grandes, que caem dos navios dizem eles, e cabos e bóias, e às vezes vemos se o rio trouxe gravalha para o lume, que é uma espécie de lenha miudinha, feita de ramos partidos, e de pedaços de vinhas e de juncos que seco arde muito bem.


E um dia cresci e fui embora como o avô me tinha dito que os filhos tinham feito, e quando voltei o avô já tinha morrido de velho, e a bisavó já tinha morrido de velha, e a avó já tinha morrido de velha, e a mãe também morreu, e o campo já não existe, e a casa já não existe, nem o forno nem nada, e esta historia já foi há mais de quarenta anos e eu não sei se aconteceu...



João marinheiro Natal 2007
Imagem da net

quinta-feira, dezembro 20, 2007

V carta...


Estou desesperado. Demasiado velho já. tremem-me as mãos, a vista está enevoada. Definho. Espero por ti. Tantos anos. Desisto de te amar. Só o mar me consola sempre, só ele foi fiel, e esteve sempre aqui, meu confidente e companheiro de lágrimas. Só ele porque é salgado e eu por vergonha só no mar chorava por ti para confundir as lágrimas no sal.
Corri mundo. Atravessei oceanos, conheci terras e gentes. Mulheres. Procurei-te tantas vezes. Já não sei de ti. Não faz mal, acabou. Estou desorientado. O nevoeiro sufoca-me, faz-me lembrar quando andava na Terra Nova a fazer pela vida. Nevoeiro intenso e perigoso. Húmido pegajoso. Espesso. Não sei de ti. Já não sei de ti. O coração está cansado de te amar assim em silêncio. Em segredo. Desesperado o coração. Definha. Morre. Só o sangue é ainda rubro de paixão.

Agora tenho tempo. Perco-me a pensar enquanto aproveito o pouco de sol que espreita nas nuvens e me aquece. É triste ser velho, estar só abandonado. Não tenho família. Qualquer dia é outra vez natal. Já não sei mas deve ser, a luz nas ruas não engana. Agora tenho tempo. Faz tantos anos que não recebo um presente. Faz tantos anos que não dou um presente. Aqui onde estou agora a viver já tudo anda numa correria, mas eu sou um mundo à parte. Trago comigo o cheiro a salitre, a porão de navio velho, a minha pele é escura, negra, queimada do ar do mar e do sol. Sou um estranho!
Tu não sabes que tenho aqui no meu pequeno quarto uma janela onde vejo mundo, e o mundo para mim é o mar que vejo da minha janela. Já não tenho família, já ninguém me visita e eu mato o tempo em mim a olhar as ondas cadenciadas e certas a morrerem na praia. A praia é um pedaço de areia que avisto da minha janela. Tinha-te dito que precisava de ir para um sítio onde não adormecer só, aqui durmo só mas existe sempre alguém que vigia a noite. Na minha casa pequena não. Gostava de poder dizer a nossa casa pequena, mas não é, não foi, Era a minha casa onde vinhas por vezes mas é a tua casa se voltares.

Daqui deste pedaço de praia imagino-te. Procurei uma casa, um lar perto do mar, demorou, tive de vir para longe porque só longe encontrei um quarto com janela e mar e um pedaço de mundo meu que contemplo enquanto te escrevo outra carta. Esta será qual? Que numero lhe dou? Quantas cartas já te escrevi eu? Não faz mal, tenho sempre alguma coisa a dizer-te, a segredar-te ao ouvido, a imaginar-te. Às vezes não sei de que forma te posso imaginar mais, porque já te imaginei de todas as possíveis, e em todas, cada vez és mais tu. O meu amor. Achas isto possível? Eu acho que deve ser da minha idade avançada, que devo estar a ficar senil também. Velho rezingão a dar trabalho, e eu não quero dar trabalho a ninguém, prefiro fechar os olhos de uma vez, e ir embora. Por isso cada carta que te escrevo é sempre uma carta de despedida, como se fossem as ultimas palavras a ti. Se um dia leres alguma das cartas que te escrevo, algum dia.

Daqui desta praia rectangular sem cortinas imagino-te. Mas já não vou até à areia contigo, caminhar na beirada da água, as minhas pernas já não aguentam. Lembras-te? Já não lembras. Não lembras que eu existo ainda. Não faz mal. Já nada faz mal, porque o mal está feito e não tem remédio. Envelheci, é isso, e agora estou para aqui entretido, a olhar o mundo da minha janela e a pensar em ti e a escrever para me distrair de ti. Para me distrair de ti. Como se isso fosse possível.
Amei-te. Amei-te como amo o mar. Intensamente. Um amor fiel e puro, feito de sacrifícios, de lutas diárias. Só o amor puro fica para sempre. Nós não. Tenho medo de continuar a amar-te para lá da morte.


Queria deixar-te um poema e já não sei imaginar um poema para ti, que seja belo. Digno de ti. Ficam as palavras estas tentativas de poema que não são:

...Sento-me frente ao mar
E tudo faz sentido…


João marinheiro, Dezembro 2007
Fotografia Barcoantigo 2006

quinta-feira, dezembro 13, 2007

A falta que me fazes...



Está um frio imenso e dói-me a cabeça e o corpo e eu continuo aqui na velha sala minúscula que me parece demasiado grande sem ti e está frio cá dentro e lá fora e eu neste domingo em que me apeteciam as tuas mão nas minhas tão cansadas a tua voz na minha voz tão rouca de te falar baixinho ao ouvido as tuas palavras nos meus ouvidos tão exaustos os teus olhos nos meus olhos tão secos dos ventos e das maresias salgadas fico aqui a alimentar-me de saudades e destas pequenas bolachas salpicadas de chocolate porque eu sei que gostavas de comer chocolate e assim em cada uma é como se aqui estivesses tu a comer e agora já não sei e penso nisso enquanto bebo um chá porque está frio e me apetece esperar pela noite aqui a olhar a porta a imaginar que chegas vestida de mãe natal e vens ajudar-me a fazer a arvore minúscula como no ultimo natal que passamos juntos os dois enquanto o amor existia em nós e a estrela polar que continua no mesmo sitio nos indicava o norte e o caminho de casa e éramos felizes e agora só sou meio feliz porque te penso feliz lá para além das estrelas todas que ainda vejo nas noites que passo sem sono em claro a ver se cai uma cadente a quem possa pedir um desejo pequeno possível de realizar porque só os pequenos desejos se podem realizar eu sei porque todos os outros são sonhos e os sonhos são desejos impossíveis e eu enquanto bebo a ultima chávena de chá no mesmo serviço velho que é o único que conservo penso em ti e em mim e dói-me a cabeça e está frio e sinto a falta que me fazes…

João marinheiro Dezembro 2007
Fotografia de Barcoantigo 2007

sábado, dezembro 08, 2007

Encruzilhadas...

Respondendo ao desafio lançado aqui está o resultado árduo de juntar as palavras...Com todos os imprevistos acontecidos estes dias...



Só tu.
Só tu me fazes escrever-te vezes e vezes e vezes sem conta as mesmas palavras repetidas até à exaustão dos sentidos. À exaustão dos dias. À exaustão do amor que te tenho ainda, guardado no coração ferido. Sim tenho um coração ferido, com cicatrizes que sangram de tempos a tempos como um vulcão adormecido, que hiberna, que finge.
Da última vez que te escrevi foi uma carta de despedida, ou uma carta ridícula, ou nem sei já. Ando confuso e velho, demasiado velho para te amar, porque na minha cabeça ainda és a minha miúda sem tempo presente, só passado e conservo-te da mesma forma como te recordo quando foste embora. Tenho medo que o meu amor por ti seja um amor mumificado no tempo, que seja uma espécie de sobrevivência do sentir, algo de petrificado em mim que me entope as artérias e calcifica o sentir, não sei. Sobrevivo à extinção pura e simples e inglória. Só a memoria perdura no tempo, só a memoria perdura para a eternidade. Para lá das palavras, para lá das cartas escritas, para lá de ti e de mim. Só a memoria é em ultima analise a sobrevivência de nós. A sobrevivência do amor que eu já não consigo dizer em palavras, que eu já não consigo demonstrar em gestos, que eu já não consigo dizer nos actos. Que eu, é verdade, já não consigo sonhar. O meu sonho de ti é uma amálgama confusa de rostos e de cores e de brumas. Invento um mundo sem tamanho ou margens para te ter, uma invenção cada dia mais e mais e mais difícil de inventar com nitidez com a clarividência dos dias claros. A minha vista tolda-se de um negro que me parece um luto, e tenho medo de cegar lentamente, de deixar de te ver mesmo assim desta forma insuficiente. Peço que me perdoes a falha física mas sou humano, com todos os erros que cometo. O corpo envelhece, consequência dos dias. Perdoa-me. Nos últimos tempos só sei pedir-te perdão. Nunca sei se efectivamente me perdoas a falta cometida. Haja o que houver serás sempre o meu amor. Livre, completamente livre. Só assim eu te posso ter como uma andorinha, livre, em branco e negro as cores das tuas vestes. As cores das tuas asas, que me parecem braços, os teus braços dos quais tenho uma saudade imensa. Que me rodeavam o peito. Que me abraçavam, me protegiam do frio nas noites de Inverno. Estas noites de agora são noites de Inverno de novo, um Inverno que chega com nevoeiro e frio e chuva miudinha, e eu lembro-me do teu abraço e do meu abraço a ti, do felizes que éramos nesse tempo cúmplice em nós. Até as gaivotas na praia se riam das nossas brincadeiras de crianças grandes na beira-mar. Quando posso e o corpo me leva vou até à beira mar recordar-me de ti.
Às vezes os velhos companheiros dos barcos lembram-se de mim, e convidam-me para ir longe a falar de barcos e de memórias. Vou. Gosto de contar historias. Faz-me bem recuar no tempo, ao tempo de menino ao serão nas noites de Inverno de roda da lareira e da masseira e da saia da bisavó e da avó e de andar com o avó a preparar a lenha para acender o forno para cozer o pão de milho que a moleira trouxe na quinta feira pela tardinha montada numa mula castanha dócil, a quem eu fazia festas no pescoço enquanto ela, com os seus enormes olhos me fitava serena, e escutava com as enormes orelhas de burra, as minhas perguntas sem resposta. Depois ia embora rumo a Rio de Moinhos, rumo a Outeiro. Nesse tempo o tempo tinha outro valor, era mais intenso, acho que mais verdadeiro. Este de agora é demasiado rápido supérfluo, artificial, falso. É isso! – Um tempo falso este de agora.
Faz tempo. O nosso tempo verdadeiro escrevi-te uma carta. Segunda carta a ti. Começava assim: …Tenho tantas saudades tuas. E cada dia que passa é mais um a juntar ao sonho…
É verdade. Tenho tantas saudades tuas. Demasiadas saudades que me prendem, me enredam como os peixes emalhados numa rede tecida de fios de algodão invisíveis. Tanta saudade que dói. Até quando? Até quando eu vou conseguir amar a tua memória só. Porque já só amo a tua memória breve. Tão breve. Tão breve.
No tempo que estive fora. Sem ver o oceano atlântico. Sem te ver nas ondas de espuma branca, sem te sentir no cheiro da maresia, andei aflito. Quis dar-te noticias minhas, não fosse tu regressares e andares a passear na beira mar e eu não estar na nossa praia do cabo do mundo à tua espera, e te sentires só e pensares que eu te esqueci e te troquei por outra. Confesso que às vezes o tento fazer, o faço num momento breve. Mas não resulta, não são perfeitas como tu. Não encaixam no meu coração como o teu encaixa. Porque o teu foi feito à medida do meu, em peça única. Sem substituição possível. Agora já sabes que és insubstituível. Que o meu amor é PARA SEMPRE.
Escrevi-te pela madrugada a passar o tempo a matar o tempo da única forma possível, pensando em ti. Foram noites longas de insónia e de desejo teu, do teu corpo. Do teu amor. Dos teus beijos e carícias. Da tua pele na minha pele. Desejo de sexo contigo. É isso, sexo louco contigo. Perdoa o meu pensamento assim desta forma a dizer sexo ao amor que fazíamos, mas por vezes nem sei se te deveria ter amado com este amor todo que me ficou entranhado na pele e sinto nas mãos, ainda, a latejarem no desejo de te tocar, ou te deveria ter amado de outra forma indolor – só sexo! Os dois de olhos fechados, estranhos, sem marcas no tempo. As marcas no coração que se ressente hoje de novo.
Tenho medo. Medo de ter que o substituir e te perder definitivamente. Medo de ter que usar um coração diferente, que não encaixe na memória do teu, e acorde diferente, estranho, sem memória, desmemoriado de ti e de mim. E não te reconheça, nem os lugares da memória, nem os lugares onde fiz a peregrinação de ti estes anos todos. Prefiro que doa. Que me faça doer o peito, me faça ficar aflito, sufocado, sem ar. Me faça desfalecer cada vez mais. Mas não o troco. – É teu!

Agora já sabes porque te escrevo. Agora já sabes o porquê das minhas cartas cada vez mais longas e longas e inúteis. Agora já sabes porque deixei de escrever poemas. E te escrevo cartas. Porque o tempo urge. Porque o tempo escasseia. O meu tempo para te amar aqui ainda. Porque te irei amar na eternidade quando o mar me levar para adormecer definitivamente nos seus braços. Peço-te que nunca, mas nunca, tenhas ciúmes, porque eu não tenho e o mar completa-me contigo e fecha o círculo da minha vida aqui. Agora já sabes. Estou velho, se um dia passares por mim e eu não te reconheça, passa devagar para me dares tempo a reconhecer-te ou então não passes nunca. E fica o silêncio, foi assim que terminei a minha terceira carta a ti. …Impera o silêncio a estremecer o corpo por dentro...Este silencio em nós tão louco e disforme e sem sentido. Já nada faz sentido neste Dezembro, neste dia 8 feriado que era o dia da mãe no meu tempo de menino e agora não porque o trocaram também. E agora porque o escrevi, recordo a mãe, e os olhos humedecem com uma névoa salgada. Ficam os restos do amor e a solidão. Só ela e o silêncio aqui na pequena sala onde te escrevo sôfrego do que te queria dizer e não consigo, porque as palavras não falam a expressão do rosto, o brilho dos olhos, a entoação da voz, as palavras não são nada de nada, só os caracteres, o código possível da nossa existência breve. O registo futuro para memória futura, o testemunho de acusação ou de absolvição, as provas, o material de trabalho para os juízes inquiridores me julgarem pelos pecados cometidos, as palavras omissas, os gestos reprimidos. O amor trocado no corpo de outras mulheres a ver se te esquecia, ou, em desespero, o coração delas se assemelhava ao teu e encaixava no meu, mesmo com arestas vivas a ferirem a pele por dentro, mesmo assim. Tenho frio, precisava que cuidasses de mim agora, me desses uns mimos, espécie de mãe a quem não é preciso pedir porque dá do coração, sempre, disponível e atenta. Espécie de mãe…que não és, nunca foste. Não poderias ter sido. Só eu inconscientemente procurei em ti as qualidades dela, só isso. Inconscientemente.
Ando louco, sem paciência para o mundo que gira demasiado veloz a destruir o sentir. Demasiado ruidoso demasiado ruidoso, e eu preciso do silêncio para conversar contigo, para te escrever as palavras que já não escutas da minha voz sem som, amordaçada pela ausência. Porque nunca mais me deste uma noticia tua? Será que morreste e eu não o senti? Sei que não que vives algures por ai e que és feliz, quero crer que sim que és feliz algures. Para triste basto eu aqui a definhar só. Era esse o motivo da minha última, quem sabe definitivamente ultima carta, dizer-te que já não consigo estar só, que vou procurar um lar, um asilo onde me acolham como náufrago dos barcos e da memória e do amor teu. Que vou deixar a nossa rua em paralelo torta, a casa, tudo. Levo a tua foto amarelecida e desmaiada do tempo. Já não consigo ver a cor dos teus olhos lá nem o brilho nem a cor do teu vestido, nada. Só me emociono sempre que paro a olhar a parede onde habitas. Não sabes mas nessa parede só tu habitas, como uma casa ampla. Recordo que me dizias gostar das paredes livres, as salas amplas com luz natural, as casas a respirarem. Nunca consegui satisfazer o teu desejo. Só a parede é grande e tua. Tudo o resto da casa é pequeno e velho e não tem luz natural e não respira, é um mundo secreto onde permanece o teu odor. Não te vou repetir nem descrever de novo a nossa sala. Deixei tudo como está também parado no tempo. Espécie de museu a minha casa, museu de ti. Agora já sabes o motivo da minha quarta carta a ti. Das minhas duvidas os meus receios os meus pensamentos.
Vou procurar um sítio onde se escute o mar para morrer… Venho hoje despedir-me de ti. Termino esta carta. Outra carta à laia de desafio desta vez com algumas palavras de um livro que alguém. Amiga, muito amiga me ofereceu, e que fala também ele o diário de um velho marinheiro…

...Desespero por nem conseguir imaginar a forma como me olhavas!
Roubaram-me os sentidos e a memória.
Estou vencido.
No meio de uma sala ou no meio do oceano?
Que importa?
Abandono-me.
Os brandais da vida partem-se e o corpo oscila solto como um mastro tremulo quando os brandais cedem.
Resta deixar-me cair na espuma que me rodeia.
Estarei já morto?
E que diferença faz o tempo nestas condições?
Estou cansado…muito cansado…

Vêem-lhe a palidez?
Devolvam-lhe a memória ou deixem-no em paz
Morto, se possível. E lancem-no ao mar… *



* Jayme velho, Quando os brandais cedem

João marinheiro, 8 de Dezembro de 2007

quarta-feira, dezembro 05, 2007

Computador....


Esta recebi por mail e não resisti a partilhar aqui neste dia de chuva e nevoa...


SÓCRATES COMPRA UM COMPUTADOR E... TELEFONA VÁRIAS VEZES AO MARIANO GAGO PARA O AJUDAR A USÁ-LO:

* Mariano? É o Zé Sócrates. Oh, pá, ajuda-me aqui. Comprei um computador, mas não consigo entrar na Internet! Estará fechada? Aquilo fecha a que horas?
* Zé, meteste a password?
* Sim! Quer dizer, copiei a do Freitas
* E não entra?
* Não, pá!
* Hmmm....deixa-me ver... qual é a password dele?
* Cinco estrelinhas...
* Oh, Zé!...Fo...-seeeeee....Bom, deixa lá agora isso, depois eu explico-te. E o resto, funciona?
* Também não consigo imprimir, pá! O computador diz: "Cannot find printer"! Não percebo, pá, já levantei a impressora, pu-la mesmo em frente ao monitor e o gajo sempre com a porra da mensagem, que não consegue encontrá-la, pá!
* Fooo .... -seee....Vamos tentar isto: desliga e torna a ligar e dá novamente ordem de impressão. Sócrates desliga o telefone. Passados alguns minutos torna a ligar.
*Mariano, já posso dar a ordem de impressão?
* Olha lá, porque é que desligaste o telefone?
* Eh, pá! Foste tu que disseste, estás doido ou quê?
* Fooo .... -seee...Dá lá a ordem de impressão, a ver se desta vez resulta. Dou a ordem por escrito? É um despacho normal?
* Oh, Zé...Fooo....Eh, pá! esquece....Vamos fazer assim: clica no "Start" depois...
* Mais devagar, mais devagar, pá! Não sou o Bill Gates...
*Se calhar o melhor ainda é eu passar por aí...Olha lá, e já tentaste enviar um mail?
*Eu bem queria, pá! mas tens de me ensinar a fazer aquele circulozinho em volta do "a".
* O circulozinho...pois.... Bom...vamos voltar a tentar aquilo a impressora. Faz assim: começas por fechar todas as janelas.
* ok, espera aí...
* Zé?...estás aí?
* Pronto, já fechei as janelas. Queres que corra os cortinados também?
* Foo....Senta-te, OK? Estás a ver aquela cruzinha em cima, no lado direito? *
* Não tenho cá cruzes no Gabinete, pá!...
*Zé, olha para a porra do monitor e vê se me consegues ao menos dizer isto: o que é que diz na parte debaixo do écran?
* Samsung.
* ...
* Mariano?... Mariano?...Desligou...

domingo, novembro 18, 2007

Quarta carta…


Já voltei a casa, aos dias longos de esperas aqui, sentado no beiral junto da estrada em paralelo que te afastou de mim. Espero. Os dias ainda tem sol por dentro e humidade fria ao entardecer. As horas agora mudaram, são horas de Inverno, por dentro e por fora do corpo. Queria ler um livro e não tenho vontade. Vivo numa espécie de apatia, como um peixe num aquário redondo, sinto-me redondo, não sei se a palavra descreve o que sou no momento. Contemplo as mãos, os dedos defeituosos já, as cicatrizes, as unhas roídas, esse é um vício de infância. (Disseram-me um dia que isso foi falta de afecto na infância, não sei, tive todo o afecto do mundo e algumas separações, nada de anormal). As mãos tremem, ressentem-se da artrite que avança em silêncio como a noite, aqui na rua frente à minha porta. Lá dentro tenho uma sala pequena, com uma televisão em silêncio, e uma parede com fotos amareladas, e uma mesa em madeira preta, e quatro cadeiras, e uma jarra sem flores, as últimas morreram secas. Acho, já não tenho a certeza. Às vezes não tenho a certeza de nada, nem de mim próprio, se existo, se não sou uma criação literária como se diz agora. Tenho também um rádio, velho como o tempo, a válvulas, com um olho mágico verde, que ilumina a noite na sala, quando eu, cansado, aquecido do dia ao sol me deixo ficar ali. No velho sofá onde me lias um livro. Prostrado. Os olhos fechados à espera. Ultimamente estou sempre à espera de algo. Não sei precisar, espero só, de olhos fechados. A rua é uma rua em silêncio. Velha. Estreita e escura, com gatos e alguns cães vadios como os meus pensamentos. São os cães que vigiam na noite a rua que eu gosto, é a minha rua, pequena, escura, mal iluminada, sem nome. Tenho também na sala minúscula, a um canto da parede da frente, um relógio velho com um cuco que já morreu faz muito tempo. Só dá as horas certas, timbradas, espécie de trovões, pancadas na parede que me estremecem o sono e me despertam por momentos, os momentos lúcidos onde me dou conta que o tempo que tenho, ainda se torna mais curto de hora a hora certa. Lembro-me quase sempre de um poema do Pessoa que li um dia, quando a vista era uma vista plena, e não esta de sombras, a enganar-me, a confundir-me, a deixar-me desesperado. Estou a cegar aos poucos também. O medo que tenho é de não conseguir reconhecer-te, nem de olhar o teu olhar, e já não me perder no mar, todo, nos teus olhos. Tenho medo de navegar em ti, que o oceano nos teus olhos seja um oceano seco já.
Tenho medo. Volto ao poema do Pessoa, e já não sei dele, onde pára, em que sítio da minha cabeça o guardei. Dou-me conta que guardo as coisas e as emoções e as perco depois. O meu coração já não treme quando penso em ti, nem sinto frio nem calor, as minhas mãos já não suam, nem acelero o passo para mais depressa te encontrar. Dou-me conta que muitas coisas já não são como as imaginei, estes anos todos quando andava no mar a fazer pela vida. Dou-me conta que o mais importante era a minha vida contigo, e não foi, e agora já não tem remédio ou cura possível. E hoje que é mais um domingo estou aqui ao sol, calço as velhas meias de lã branca feitas à mão a aquecerem os pés, e as velhas alpergatas de pano, e a samarra puída nos cotovelos cinzenta, e aquela camisa de flanela ao xadrez castanha, e as calças de fazenda que me picavam quando eram novas, e agora já não porque como eu estão demasiado velhas. Ainda uso o mesmo relógio de dar corda todos os dias, só o mostrador amareleceu por dentro do sal do mar, e os números se tornaram ilegíveis, mas sei a posição dos ponteiros, e o tempo para mim já não tem o mesmo valor que tinha quando era novo, e andava ao mar a fazer pela vida, e o contava para chegar a ti o mais depressa possível. Cada minuto perdido era um minuto sem ti, e hoje já não conto minutos ou horas ou dias, porque os anos avançam sem mim.
Na madrugada, quase sempre, escuto a rádio e as noticias que me trazem o mundo à sala. A maioria dos dias durmo aqui. Ainda conservo o velho serviço de chá com duas chávenas e o bule. Já não tem asa perdeu-a uma noite, assim também já não pode voar, sem asas não voa. Também já não bebo chá. Eras tu que me trazias as saquitas bonitas perfumadas com as infusões para saborearmos na noite, às vezes vinhas no pleno do verão beber um chá pela madrugada e ler um livro, deixaste ficar um ou dois que guardo, ainda tem as folhas marcadas, ainda tem as frases bonitas sublinhadas, aquelas que sentíamos e relíamos, gostavas de me ler em voz alta, como que a representar, sempre achei que andavas no teatro, nunca me disseste se sim, se não, rias só, e os teus olhos cresciam, tornavam-se estrelas cintilantes quando de livro na mão me lias e rodopiavas sobre o tapete vermelho. Perdia-me sempre no teu olhar. Tu eras toda a graça da sala, o recheio, a mobília, a decoração, o perfume, a luz. Eu o espectador atento, rendido à beleza, ao amor. Só dele soube mais tarde. Demasiado tarde. Comecei a pedir-te que me lesses uma e outra vez cada passagem. Assim admirava-te no esplendor dos teus trinta anos. Tiravas o casaco comprido que te escondia e revelavas-te. Tu em contra luz, os seios redondos a quererem saltar da blusa, o corpo perfeito, escultura de artista, e eu afundado no sofá, e o rádio a cantar baixinho na madrugada, e o chá a dizer que arrefecia com um fiozinho de aroma no bico do bule, e as pequenas bolachas salpicadas de amêndoa e açúcar. Tudo era perfeito. Só eu não. Deixaste de aparecer. Começaste por espaçar as vindas, e depois eu também parti novamente para o outro lado do mundo no navio velho. Quando regressei não te encontrei, mas fui à tua procura. Ainda hoje te procuro. Ainda hoje. E ainda hoje me perco aqui no medo. Inevitavelmente dirijo-te a palavra, um monólogo de louco alucinado que é o que sou, no que me estou a tornar, um velho louco e alucinado em tua busca. Tenho urgentemente de procurar um refúgio. Um daqueles sítios onde se depositam os velhos pra morrer, uma espécie de lar, de casa de loucos sem esperança, onde nos drogam para dormir. Mas tenho medo. De ter pesadelos, de acordar a meio da noite e não saber de mim, de não encontrar a minha sala pequena, não escutar as badaladas do relógio na parede, de não escutar os gatos na janela, os cães na rua vigilantes, a rua não existir.
E depois tenho pavor que voltes e eu não esteja aqui em casa para te abrir a porta e te dar um abraço. É que podes voltar a qualquer momento. Espero. Sobretudo espero o momento. Às vezes também parto, mas são momentos breves de ida e vinda, quando vou, aproveito para te buscar pelas ruas, avenidas, pelas praias volto sempre de mãos vazias e um monte de sonhos guardados nos bolsos sem valor, só sentir.
Fui e voltei.Voltei, de ter ido falar das memórias. Memorias com barcos. Da alma dos barcos. Do amor pelos barcos. Eu disse-te que ia ao outro lado da península e que aproveitava para te encontrar na cidade grande, não estavas. Nesse tempo pensei que pudesses ter regressado a casa, a chave está no mesmo sítio debaixo do tapete que diz bem-vindo em letras gastas, estava no mesmo lugar exacto, tu não vieste, e eu agora fecho os olhos aqui na sala, são duas e tal da madrugada e já gastei o lápis e as folhas todas onde te escrevo esta espécie de carta, chamemos-lhe assim, uma carta, mais uma a ti. Mas não é uma carta, são palavras na noite a fazerem-me companhia para me sentir lúcido e conservar a memória dos dias. Só isso. Tudo o mais é invenção. Invenção a matar o tempo. O tempo que já não temos. Ficam-me no pensamento palavras, uma espécie de voos, com gaivotas e maresias e ventos que me embalam entoadas que recordo de Eugénio ...

As gaivotas. Vão e vêm. Entram pela pupila.
Devagar, também os barcos entram.
Por fim o mar
Não tardará a fadiga da alma
De tanto olhar, tanto olhar.

João 2007

Fotografia de Barcoantigo 2007

sábado, novembro 10, 2007

Terceira carta a ti…


Já faltam poucos dias para fazer o caminho de volta, atravessar outra vez a península, e depois, se tiver forças, vou avistar o mar atlântico na nossa praia. Preciso de me reencontrar outra vez. O mar aqui a esta distancia é tão diferente e sem o brilho. Preciso de ver o brilho do nosso mar no sol poente, no acejo da noite e ficar ali a imaginar as catraias barra fora rumo a norte em busca da sardinha prateada. Os reflexos nas ondas frias lembram-me o teu olhar como um farol na noite a iluminar-me. Deixo-me ficar até ser noite fechada, espero as estrelas, a polar que me saúda novamente no esplendor da sua cintilação. Aprendi, com o tempo, a amar a madrugada, o frio da noite, a humidade do mar, a névoa que se levanta traiçoeira, a luz das estrelas, o nascer do sol a leste de mim. Mas é o brilho do teu olhar que recordo, que guia o pequeno barco onde vou ao leme, como um mestre à moda antiga, porque eu depois de o ver uma última vez já posso matar a saudade… morrer neste mar tão cheio de mágoas e de partidas.
Somos assim, pessoas sempre em partidas uns dos outros, inevitavelmente, e eu sinto-me sempre uma espécie de ser raro, a água de um rio represado a querer saltar e sair rompendo margens e barragens até á foz. Estranho. Deslocado aqui nesta cidade grande, e os conhecidos dos barcos de tempos antigos, são breves, porque são de mundos diferentes, de tempos diferentes, só os barcos nos unem verdadeiramente quando desfraldamos as velas e vamos no correr do vento contra a corrente ou ao correr da vaga, ai sim, somos todos iguais, homens, marinheiros, humanos no sentir, e quando regressamos, trazemos a felicidade no rosto. Os barcos têm uma alma própria pela qual nos enamoramos de forma avassaladora. Às vezes penso que tinhas ciúmes do meu amor pelos barcos, que te deixava, e ia ter com eles, assim uma espécie de amor secreto, uma amante em silêncio, que só precisava que dela se cuidasse com carinho para não sucumbir de vez. Os barcos não morrem. São como as pessoas, pertencem à família como mais um elemento, só morrem quando naufragam, quando o mar se revolta e se vinga da imprudência dos homens, só morrem quando não restar a ultima tábua com serventia. Nessas alturas, quando alquebrados pela espinha, de quilha partida, abandonados, tem morte inglória e terminam em labaredas muitas vezes, a alimentar a fogueira dos homens nas noites de São João e São Pedro. Recordo, quando era rapaz, de fazermos uma grande fogueira na rua e à vez, todos rapazes da rua e os das vizinhança saltarmos a fogueira, e depois irmos rua em rua aos gritos e correrias a saltar as fogueiras do São João, queríamos lá saber dos barcos que ardiam debaixo dos nossos saltos de gigantes.

Hoje não tinha tema de conversa para te falar, já me rareiam as palavras, me falha a memória das conversas que tivemos. Tenho medo de me tornar monótono, demasiado repetitivo, de te estar sempre a falar as mesmas coisas, uma e outra vez. A verdade é que já não me lembro, eu sei que só consigo falar de barcos, mas correm-me no sangue como espécie de glóbulos vermelhos, e sem eles não sou nada. Não vivo, sobrevivo.

Também não aprendi as falas do mundo, estas falas modernas, estranhas, frias, rápidas. O mundo a correr.
O que eu gosto mesmo é de estar sentado à roda de uma mesa na velha taberna com os companheiros a recordar. Dou-me conta que, cada vez somos menos. Já rareamos também, e as mesas vão ficando vagas, as cadeiras vazias, a sala em silêncio. As prateleiras esvaziadas das garrafas de aguardente e anis e ginja e licores que íamos bebendo nos dias frios pela manhã. Os copos alinhados meios velhos, as canecas secas escanadas, algumas sem asa, irremediavelmente feridas, sem poderem voar para as mesas, demasiado pó. As pipas de tinto e branco a deixarem cair os restos do vinho em gotejos nas torneiras de madeira gastas. Vejo também algumas aranhas recolhidas a um canto das teias que me parecem redes que já não pescam. As aranhas são pacientes contentam-se com pouco, sobretudo esperam…

Impera o silêncio a estremecer por dentro o corpo. O silêncio também assusta. Não te dás conta do vazio que fica em nós.
O silêncio.
Assusta-me já a ideia de falar, de escrever.
Dou conta que repito e repito as palavras. Mas se já não me escutas, se não lês o que escrevo mesmo a repetir-me, que me resta então senão o silêncio?

João, Barcelona 2007
Fotografia Barcoantigo 2005

quinta-feira, novembro 08, 2007

Segunda carta a ti…Ou não sei...


Tenho tantas saudades tuas
E cada dia que passa é mais um a juntar ao sonho.
Estou aqui, altas horas da noite em vigília, como sempre faço, quando tenho saudades e o sono não chega, e o corpo demasiado desperto do desejo teu. Olho o telefone e afasto a vontade de te ligar. Nunca atendes e eu já não sei se o número que guardo religiosamente é o teu ou ainda existe fora da minha agenda telefónica.

Esta é uma cidade grande, estranha nos primeiros dias, e eu tenho dificuldade em a compreender, e compreender a correria a que vive esta cidade. Esta noite é uma noite cheia de irlandeses bêbados, seguidores do Glasgow Rangers, amanhã há jogo com o Barça, e eles acompanham o clube, chegaram mais de 20.000 de avião. Sequiosos, ruidosos, libertos. O futebol tem destas coisas. Pena que eu não goste de futebol e goste de barcos. Velhos, antigos, abandonados. Sem multidões, sem espectáculo. Cheguei, faz pouco ao hotel. Fui andar a caminhar nas Ramblas, desisti do passeio e de me afastar de copos vazios e de latas de cerveja abandonadas e de gritos que mais parecem brados de guerra, de guerreiros vestidos de azul e pele branca e demasiado gordos a cheirarem a cerveja. Fico a pensar até onde vamos ter de chegar. Afasto o pensamento, estas reflexões enquanto caminho distraem-me de poder ver, poder olhar. Alheio-me também do cheiro intenso a batatas fritas e hambúrgueres, e das miúdas latino americanas que me dão o braço a convidar a uma noite de sexo fácil e rápido. Indolor, digo eu. Não sei se a vida é um negócio demasiado breve?

Desço ao metro, movimento-me nas entranhas da cidade demasiado apressada, aqui tudo é organizado, é fácil perceber como funciona. As pessoas correm, algumas sobem de dois em dois os degraus das escadas rolantes, sempre a correr, os minutos contados. O dia não deveria ter só vinte e quatro horas, porque decididamente não chegam. Aqui, no metro, enquanto ele rápido e frio avança estação a estação, eu olho as paredes do túnel, demasiado negras, escuras. Fora das estações tudo é negro. Não sei porque pintam assim as entranhas da cidade. Sentado junto a uma janela que é negra, olho as pessoas à minha volta. As pessoas não. Alheias á cor das paredes, são de todas as raças, e cores e sorrisos. Escutam música nos ouvidos, compacta, em formato mp3, falam ao telemóvel línguas estranhas, outras dormem, o sono que lhes foge na noite. Conversam. Os grupos de jovens com os seus risos contagiam, multiplicam-se os sorrires nos rostos diferentes. Eu observo maravilhado, e às vezes, dou por mim a olhar o rosto de uma mulher que por qualquer motivo me leva a ti. Imagino-te ao meu lado, sentada, enquanto o metro avança de encontro à próxima estação. O pensamento é demasiado breve, dois, três, quatro minutos no máximo, só o tempo da mulher que eu olhava e me fazia recordar de ti sair na estação desejada. Pestanejo. Acordo. Saio porta fora sem olhar para trás. Fico com o pensamento interrompido e sem querer, acho que é sem querer, começo de novo a procurar outra, onde possa pousar o olhar, a descansar a memória. Um retrato. Um rosto a imaginar que és tu. Sei que não és, que nunca és, descubro, passado que são, os breves momentos em que fixo os olhos e me lembro do teu rosto, por comparação com o rosto que vejo agora. A forma dos lábios não é igual, os teus são mais bonitos, a forma das sobrancelhas não são iguais, as tuas eram um risco a negro bonito, os brincos nas orelhas também não são iguais, tu usavas uns pequenos brincos discretos, e a tua pele brilhava de pura, e esta não, brilha do creme usado a disfarçar a idade penso eu.
Dá por mim a mulher e sorri, e eu, descoberto, desvio o olhar. Invento-te, e são estas pequenas invenções da memória, forçada, na comparação com o rosto de outras mulheres, que me permitem saber de ti, em detalhes, que só eu sei e percebo.
Desta vez, atravessei meia península para te inventar nesta cidade que fervilha de vida e de gente que sorri. Só não encontro o teu sorriso, porque já não me lembro dele. Podes perdoar-me um dia esta falta da minha memória?

E tenho tantas saudades tuas.
E cada dia que passa é mais um em que te invento cada vez menos. E depois ando na rua a olhar as pessoas, mas é como se não andasse, e que não estivesse aqui tão longe da nossa praia onde fui feliz com a tua companhia. Tão longe do por do sol e do cheiro do mar.
Aqui não consigo ver o por do sol, nem o mar como no nosso tempo. Acreditas que tivemos um tempo que era só nosso?
Ainda não fui ver o mar, e os barcos estão todos, quase todos, de velas içadas na esperança que chegue o vento e a água. Mas não navegam aqui, e deixam que as mãos curiosas das pessoas, os toquem, para que os sintam, e as crianças sobem a bordo, e são marinheiros, e piratas, e corsários por breves momentos, nos sonhos secretos que povoam a sua imaginação inocente e pura ainda. E os barcos contam-nos as histórias, revelam a alma, e às vezes, eu, conto a história dos barcos e das gentes dos barcos, porque lhes entendo a alma e a fala secreta. É por isso que estou aqui hoje com os barcos. A tentar contar a história para que não se perca a memória, já me basta perder a tua memória.
Tu, um dia, disseste-me que me conhecias como o homem do património marítimo. Que era assim que me ias recordar sempre. Lembras-te? Já não sei. Será que ainda gostas dos barcos que eu gosto, velhos, a desmantelarem-se. Poucos já, demasiado poucos na beirada do mar.
Aflige-me não saber e ficar com esta dúvida aqui, a minar, como a ferrugem mina o aço do costado do meu navio onde corri mundo.
Também já não sei para que escrevo a tentar falar-te. A inventar uma conversa contigo. Um dia escrevi para ti. Uma carta ridícula. Acho que era ridícula pois que era uma carta a disfarçar o amor de ti. As cartas de amor tem de ser ridículas dizia o Poeta, acredito nas suas palavras ainda. Era uma carta a falar-te da minha lembrança de ti, porque nessa altura também estava só, também demasiado longe, mas via o mar e o por do sol e sentia o vento e cheirava a maresia. Atravessava o atlântico, uma das minhas ultimas viagens a comandar o navio. Reformou-se. Tu não sabes. Estava demasiado velho, e lento, e obsoleto. O casco, demasiado carcomido do sal vertia demasiadas lágrimas de ferrugem. O progresso condenou-o, já não era rentável. Agora, depois de derretido e fundido, quem sabe, é parte de algum destes carros que aqui andam velozes e modernos, e eu, como não me pude fundir para reciclar, para algo mais moderno, fiquei junto ao cais da reforma, que é uma espécie de morte dos homens que já não fazem falta por terem sido ultrapassados pela idade o único tesouro que guardamos está na memória do saber-saber, aquele saber que não se aprende na escola mas com os dias que a vida nos ensina. Não quis governar um navio sem roda de leme, sem alma para o sentir, sem lhe ver a proa e o mar. Os navios de agora governam-se, com um joy-stick, uma espécie de jogo computorizado. A minha cabeça já não dá para essas modernices.

Estava em casa à espera dos dias monótonos. Falaram-me de vir aqui a falar dos barcos antigos. Aceitei. Afinal estava com todo o tempo do mundo e na nossa cidade já não te encontro. Gostavas de viajar, gostavas de Barcelona, de passear pelas Ramblas, vim à tua procura, um dia disseste-me que vinhas aqui muitas vezes, e que quando deixasses de leccionar era aqui que querias viver. Vim à tua procura. Agora já sabes. Não sabes, mas estou aqui meio perdido no Bairro Gótico a ver se te encontro. Por vezes passa uma mulher que me lembra o teu andar, mas ela não és tu, só uma semelhança, e eu que estou velho e lento deixo o poeta escrever estas coisas, porque imagino que vais ler um dia as minhas memórias póstumas.

A cidade é demasiado grande sem ti e eu confesso que me sinto perdido.


João marinheiro

Barcelona Novembro de 2007
Fotografia de Barcoantigo

terça-feira, novembro 06, 2007

Extinção


...Num barco, as diferenças são muitas entre estar como tripulante ou como passageiro. Ao primeiro exige-se conhecimento técnico e experiência pessoal, ao segundo apenas a vontade de lá estar. E é aqui que reside o maior problema para a extinção. Quando um barco pára, poucos se dão conta, mas o tripulante, esse, sofre as consequências da perda do seu barco. Aqui a mudança não dá lugar a novas formas de continuidade. Quando um barco “tradicional” pára não é para ser substituído, é para morrer. Por isso o tripulante também pára. Quase sempre também definitivamente. Afinal, perdemos com este parar os últimos 2500 anos de informação histórica, tecnológica, empírica e cultural...
Texto em versão integral aqui:
Excerto conferencia Feira Nautica de Barcelona/ Marina tradicional novembro 2007
Foto de arquivo

terça-feira, outubro 30, 2007

Sobrevivência…




...Aquilo que nos escapa frequentemente é que os barcos não existem sem as comunidades humanas que lhes deram origem e identidade, e que essa relação é recíproca.
Esse é o elemento da sobrevivência...
Ivone Magalhães
Fotografia de Barcoantigo 2004

sexta-feira, outubro 26, 2007

Invento...



Invento um mundo sem tamanho ou margens
e aqui sou eu que vivo encerrado na muralha
as palavras são um tempo paralelo onde existo
O facto importante é que tenho demasiada saudade tua
e só a mágoa a disfarça


João 2007
Foto de Barcoantigo

terça-feira, outubro 23, 2007

venho hoje despedir-me...


Venho hoje despedir-me de ti
Trouxe um braçado de flores do campo que colhi enquanto caminhava
Despeço-me para morrer
Vou para longe
Um sítio onde as feras me façam a companhia e os abutres esperem a refeição
Deixo de existir porque já não existes em mim


João 2007
Fotografia Balazs Borocz

quinta-feira, outubro 18, 2007

Haja o que houver...


Sinto-me cansado. Muito cansado. A espera é longa. Demasiado longa.
Não voltas. Já li todos os livros. Escrevi todas as palavras. Abandonaste-me. Agora vou por esta rua da cidade, as mãos nos bolsos, vou desamparado. Sou um estranho aqui.
Não sei se te amo ainda, ou o pensamento que tenho de ti, me tem cativo, do amor que imagino. Já não sei. Sinto-me terrivelmente cansado.
É já noite, e a rua mal iluminada cai em mim, como o negro do luto carregado nas vestes das mulheres, do mar da Póvoa.
Queria dizer-te. Queria olhar-te. Queria tocar-te as mãos. Percorrer a tua face. Sentir a tua pele, e já não sei rigorosamente nada de ti – Não existes por fora da minha cabeça pois não? – Sou eu que te imagino pois sou? Olho-te se fecho os olhos. Os teus olhos negros a rirem de mim. Da minha fragilidade.

Haja o que houver vou sempre esperar por ti. Só tu não. Já não esperas. Já não chegas. Já não vens. Já não voltas. Só eu fico aqui, exposto ao tempo a enferrujar como uma máquina velha obsoleta.
Ás vezes as lágrimas escorrem por dentro, são lágrimas de saudade, mas tu nem sabes o significado, nem o sabor das lágrimas. Nem sabes que eu aqui fico sempre à espera das notícias que não chegam. As cartas vêm devolvidas, perdi a tua direcção, o teu endereço postal.

Há dias fui em tua busca até à foz. Fui em vão.
Fui em tua demanda até à nossa praia. Viagem inútil. As memórias são só minhas agora. Escrevo uma invenção da memória, a ver se coincide com a tua memória minha, e te lembras de mim, um dia, e então regresses à minha memória de hoje, em que me sinto angustiado e terrivelmente cansado.

E o tempo agora é um tempo de Inverno que vai chegar aqui, junto a mim.
E eu para me aquecer, para me sentir reconfortado precisava de um mimo teu. Queria dar-te um abraço hoje, um abraço grande. Com os braços a envolverem-te toda. As mãos a agarrarem-te toda. Uma espécie de laço forte feito de amores e de afectos. Com o sentir, todo, à flor da pele arrepiado. Enquanto o tempo, esse, se reúne no céu, a decidir se há-de deixar cair as lágrimas em bátegas de chuva, ou nos ensurdecer os sentidos com o ruído dos trovões a fingir que nos atemoriza.
Sou eu que me assusto, só, com o vazio da tua ausência em mim.
A falta que me fazes.

João 2007
Fotografia Barcoantigo 2007

quinta-feira, outubro 11, 2007

Da ultima vez...


Da última vez, quando vim embora. Regressei triste. Despediste-te de mim. Sabia que ias partir. Vi nos teus olhos nublados a tua partida breve, e eu, impotente, não tinha palavras para te convencer a ficar, aqui, na distância das minhas mãos, no calor do meu corpo, no estremecer dos sentidos.
Da última vez, o beijo breve fugidio que demos na face, foi um beijo de despedida, ácido, a queimar por dentro, e todo eu tremia, um arrepio frio no corpo.
Não deste por isso, porque tu, lentamente, também fechaste a emoção no quarto escuro do coração. E depois olhamo-nos longamente. Como que, a querer ver a eternidade possível que ainda resiste em nós. Segurei a tua mão durante um momento que me pareceu demasiado breve. Deste-me um abraço. Como só tu me sabes dar. Um abraço pleno a aninhar-me em ti, de encontro ao teu peito. Quase não falamos… Já não consigo olhar-te de olhos nos olhos como me ensinaste a fazer, quando eu te dizia, que tinha medo de olhar, olhos nos olhos a revelar-me. Já não consigo. E tu partes. Vais pela pequena rua deserta da tua cidade demasiado grande em mim. Fiquei aqui a ver as águas do braço da ria que escorrem. Dentro em pouco tomo o rumo da estrada para me afastar de ti e nem consigo dizer-te adeus.
Nem sei porque vim
Não sei para onde vou agora, assim, triste.
Já não sei de nós.
Só esta tristeza a minar o corpo. A entorpecer os sentires.
Da última vez, sabes, fui a medo ter contigo. Sentia-me estranho em mim e em ti, o medo de não te reconhecer. De não me quereres.
Não deveria ter ido.


João Outono 2007
Fotografia de Barcoantigo 2007

segunda-feira, outubro 08, 2007

Só tu...


Tinha saudades nossas.
Fui à foz ver o Douro
Só tu não estavas reflectida nas águas planas…
João 2007
Fotografia de Barcoantigo

quarta-feira, outubro 03, 2007

De um sonho...



Algumas pessoas aqui chamam-me poeta…
Não é isso que sou. Sou um marinheiro velho com sonhos por cumprir.
É isso que sou…
A história de amor e desamor de José Belchior aqui, para quem não conhece:


João 2007

Foto José Belchior

domingo, setembro 30, 2007

Outra vez...!



Sobre o silêncio, ou a liberdade de expressão.
Para pensar aqui...
E divulgar

http://videos.sapo.pt/clCTCzNteFNugzBg3DDa
Apetece dizer outra vez!


ACORDA AMÉRICA!

Restam-me as palavras, América
As palavras que a alma guarda
Quando o momento se aproxima
Porque nós, América, que amamos a vida, a nossa e a de todos os outros
Pensamos em como tem sido possível calar a revolta que se sente
Por tamanha, demente e perversa hipocrisia.

Desencadeaste os motivos, os longínquos e os próximos
Vês em cada esquina um inimigo
Inventa-los à dimensão dos teus interesses
Trespassas as leis, violas as convenções
Serves-te do teu poder militar para calar
E do financeiro para comprar
Os submissos, os covardes e os fantoches.
Serás uma nação rica
Apesar da ignorância que tolhe o teu povo
Figurinhas sorridentes de um filme mudo
Pateticamente intoxicadas por campanhas e slogans
Sob o efeito dos meios mais avançados de conhecimento
De amolecimento

Onde passa a constante ameaça ao sei modo de vida
Que usas sempre com Deus do teu Lado
Como se Deus fizesse parte do teu projecto
Justificaste esta guerra
Fosse uma patente por ti registada
E fizesse fretes aos mais espertos:
Mas Hollywood é assim
O rato Mickey é assim
Os cowboys foram uns heróis e os ameríndios uns bandidos
O que dá jeito desde os bancos de escola.

Procuras petróleo, eternamente mais petróleo
Mais energia poluente lucrativa
Ambicionas dominar toda a produção possível
Guardar muito para ti
E dominar os preços da distribuição do restante
Dirás que é o preço que este mundo livre tem de pagar
Sob o peso da tua liderança vigilante
Da tua farsa democrática
Da defesa da liberdade que cultivas em estátua gigante
Petrificada.

O terrorismo que agora acenas
Não nasceu espontaneamente, tem causas
Firmadas pelas tuas constantes e hediondas agressões:
Onde a América achar que a sua segurança nacional está em risco
Sentir-se-á o estrondo severo do seu braço armado
Às vezes disfarçado
Descaradamente imperialista
Implacável e mortífero
Levas o sofrimento onde for preciso
E como todo o monstro arrogante
Viras as costas
Justificas os raides, os assassinatos, os golpes de estado
Os bloqueios do FMI
E ignoras
Porque gente-gente, só há a tua.

Quantos governos e governantes tens suportado
Financiado e protegido
Se for caso conveniente na tua politica?
Quantos fantoches torcionários promoveste
Enquanto os povos sofriam
Os opositores morriam, desapareciam
Sob o peso vergonhoso dos direitos humanos violados
Que urras defender
Como se isso valesse a pena defender
Quando os interesses das tuas corporações industriais
Exigem mais lucro, mais exploração
Mais dividendos, maior controlo.

Estás perigosa, América
E para o dizer não preciso de ser comunista
Nem fanático nem profeta.

A tua constituição simples e humanista
Vive hoje golpeada por normas e decretos avulso
Justificados por abusos que não passam de mistificações
Porque falharam as sombras dos espiões
Colheste a sombra dos terroristas
E em toda a encenação
A história da indústria militar continua.

Que actos podem levar homens à loucura de 11 de Setembro?
Os homens tornam-se fanáticos
Quando, depois de tudo extorquido, só lhes resta
A visão de um Deus superior, exclusivamente do seu lado
Que santifique o desespero e as acções que o desespero produz
Quando só lhes resta a causa última da vida
Que é uma morte ambígua à luz do profeta escolhido.

É agora, América
Agora, depois da noite da Segunda Grande Guerra
Que assistimos à erupção desenfreada dos fanatismos:
O mundo sempre dividido
Contra a força da razão
Ao sabor do xadrez dos tratados
Na ganância e na vaidade dos blocos
Políticos, religiosos, penosos por tanta falha de inteligência
Neste mercado livre dos pobres cada vez mais pobres
E dos ricos tão obscenamente ricos que enoja
Vê-los regatear que a lei da vida é esta, a tua lei.
A corrida industrial e o consumismo exigiram
Mais energia e mais matérias-primas
Que tu, América, laboriosamente
Rapinaste onde foi e é preciso
A bem ou a mal
Sob o peso da bala
Justificando as acções da forma mais desgraçada
Para manteres o teu povo na miragem
De um nível de vida sem paralelo.

Em ti, América, tudo é grande
Como um culto uma cultura
Barrada de estupidez:
Os carros, as auto-estradas, as casas
Os jogos da bolsa, o sexo e as falências
Os milionários, os empresários, os generais
Os tribunais, as prisões, os quartéis
É tudo tão grande
Que o desdém impera ao olhares em redor
Há um mundo em menor
Onde se morre de fome sem se saber o que foi comer.

Preparas-te para nos dares uma nova guerra
De consequências desconhecidas
E nesse albergue espanhol que é a sede da ONU
Usas e abusas dos critérios mais miseráveis
Das informações mais disparatadas
Da chantagem para impor ao mundo os desígnios
Dos teus cabos de guerra
Servos da tua classe politica
Homens de mão de Wall Street.

Não sei se o proclamado Amargedão se aproxima
Mas a tua severa ganância
Acabará por colocar
Todo o mundo de Alá contra o Ocidente.

Porventura nós merecemos
Esta nova guerra santa que se anuncia
Nós que vivemos agachados
Às tuas ordens e agradecidos
Disfarçando o compromisso natural
De cada homem com a paz.
É por tudo isto, América
Que me destino ingénuo
A escrever-te uma carta
Pelo supremo bem do amor
Que une todos os homens
De todos os credos
De todas as raças por que só há uma espécie -humanos seres
Sensíveis e inteligentes

Portugal -17 Fevereiro de 2003

Poema de António Manuel Ribeiro vocalista dos UHF

Extraído do livro: «Se o amor fosse azul que faríamos nós da noite»
Edição de Garrido Editores, Outubro 2003

As palavras demasiadamente actuais...
Foto da net

sábado, setembro 29, 2007

Por dentro...

Hoje só me apetece o silêncio para me estremecer dentro. - Por dentro!

segunda-feira, setembro 17, 2007

Na madrugada lenta...


O facto é que me faltam as tuas palavras aqui na madrugada a corrigirem os erros, a provocarem a explicação. A crescerem por dentro de nós.
Às vezes regressas.
Encontro-te na madrugada lenta e ficas aqui a contar histórias a falar histórias. As nossas vividas. A tentar perceber e separar o sentir do viver, – como se isso fosse possível!

Depois estás sempre a mandar-me sonhar, e tas sempre a dizer-me isso. E eu?
Na maioria do tempo parece que vivo na porta ao lado deste tempo. Se pudéssemos escolher, sonharíamos sempre com aquilo que queríamos na realidade mas não podemos!


João 2007
Fotografia de Cristina Funes

terça-feira, agosto 28, 2007

De súbito desaba a trovoada…



De súbito


Desaba a trovoada neste dia abafado de um verão qualquer à beira mar. Junto do mar. E o vento em redemoinhos de pó chega, e encrista a superfície das águas salgadas. E eu aqui, deste pedaço de sítio, vejo o tamanho do mundo, para lá da janela onde me escondo do tempo que chega frio. O vento que é sempre um norte residente aqui, fugiu, e entra um sul abafado e quente que tinge as nuvens de cinza escuro, e os trovões chegam com ele, como que todos à uma a atropelarem as nuvens. A estourarem os tímpanos. Na casa ao lado uma criança grita, um choro aflitivo de medo. Escuto a mãe, deve ser a mãe, – Madalena! – Madalena! É a mãe. Deve ser, a criança deixou de gritar. Só a voz da mãe tem o poder de afastar os medos e curar os choros, assim era, assim será. De súbito as nuvens choram também. Abatem-se num choro imenso e quente e húmido. Estamos em pleno verão, e a chuva torna-se uma espécie de névoa no asfalto quente da estrada que bordeja o mar. Vejo daqui, da minha janela onde avisto um pedaço do mundo.


E ao fundo, um pequeno veleiro arreou as velas e navega rumo a sul. Aqui, todos navegam rumo a sul a afastarem-se da memória de ti. Parece que me lêem os pensamentos, ou que navegam por dentro da minha memória. E o vento agora roda. Observo o seu rodar como marinheiro velho habituado a sentir o medo, a partilhar o vento. A noite passada fizeste o mesmo, rodaste mais de 180º. Agora vens de terra. De terra dentro, e deverias trazer o calor do interior do fogo. E vens frio. Arrefeces a chuva, e eu aqui, de tronco nu, a sentir na pele e na face esta água fria a arrefecer os sentidos. Observo-te. És um vento manhoso, nada parecido com a nortada, ou o vento suão quente. Não és um vento deste tempo. O horizonte está demasiado carregado, espécie de electricidade pronta a explodir em raios de luz e trovões. Observo os pardais aflitos, a procurarem refugio nas palmeiras aqui próximas. As gaivotas pousadas na borda de água, recolhidas do vento. Olho a norte. O céu rasgado pelos gritos das andorinhas que voam alto, demasiado alto. Aflitas. Em círculos de acrobacias onde se vê o peito branco a luzir no dia cinza, e o negro a confundir as nuvens. Olho as andorinhas durante um bocado, aqui, neste pequeno palco onde vejo um pedaço do mundo e penso em ti. Um dia disseste-me que eras como uma andorinha, que ias e que voltavas na primavera. Já não sei. Porque o verão já vai a mais de meio, a primavera já foi. As andorinhas já construíram os ninhos e agora voam alto, e em nenhuma te reconheço. A verdade é que não sei de ti. E estas andorinhas, parece que voam assustadas com este fim de tarde que não é deste tempo. E o mar começa a crescer agora. As vagas a chegarem cadenciadas e fortes à praia, as gaivotas correm um pouco para cima, de asas abertas, a delimitar o seu espaço. Recolho-me. A tua lembrança em mim provocou um arrepio que não queria sentir. Visto uma roupa qualquer, assim protejo-me do frio, disfarço o pensamento. O olhar vai em busca das andorinhas de novo. Queria-te na distância do meu olhar hoje. E as andorinhas continuam a voar cada vez mais alto aos gritos assustadas.
Tu não és assim, não és uma mulher assustada. – Ou és?
O vento!

Em casa sinto o uivar do vento na chaminé. Pesado. Grave. Contínuo. Este vento não é deste tempo. Demasiado aflito, demasiado breve. A querer romper os sentidos. A estremecer a pele. A encrespar o mar. A rasgar as velas dos veleiros distraídos. Lembro-me de nós. Do tempo em que fui um marinheiro demasiado ausente. Ausente de ti. Ausente de mim. (Acho que verdadeiramente nunca te compreendi. Nunca soube ler por dentro do teu olhar a linguagem silenciosa que me dizias, sempre, com o teu sorriso suave nos lábios e a luz a incidir no teu rosto). As andorinhas nesses tempos eram andorinhas do mar, quando as avistava sabia que estava próximo de terra e logo te iria abraçar. Agora tudo é diferente. Mas o mar é o mesmo. Salgado, dócil e impiedoso. Misterioso e imenso. Só eu não. E as andorinhas hoje voam alto e demasiado assustadas e são andorinhas migratórias. Dentro em pouco reúnem-se em bandos nos fios dos telefones e partem rumo às terras quentes. E este vento que chega agora estranho a arrepiar os sentidos e a fazer-me lembrar de ti. Hoje demasiadas andorinhas se reuniram à minha volta.
– Voas!

E de súbito – agora!

A chuva é desalmada e fria e escorre na vidraça e o ar abafado. O dia um misto de calor amarelecido, um por do sol que teima em afastar o vento, e as nuvens negras, pesadas de água, e os redemoinhos, e o ruído que assusta na chaminé desta casa frente ao mar, juntinha ao mar, onde me recolho a imaginar-te, sempre na eternidade do tempo, enquanto tento por todos os meios enganar as horas e os dias. Outro dia e eu aqui, os olhos fechados a tentarem disfarçar o tempo das horas.
Deito-me. abandono-me nesta cama que já foi tua. Onde fizemos amor a primeira vez. Amortalho o pensamento, esqueço-me de mim próprio. Quando me deito fico numa espécie de êxtase, narcotizado. Uma espécie de torpor bamboleante, como se estivesse a bordo a dormir no meu pequeno beliche e o som da água de encontro ao casco a adormecer-me como uma canção de embalar. Finjo que o vento que uiva na chaminé é essa canção. A criança está de novo a chorar. A mãe grita – Margarida! – Margarida! Calou-se. A voz da mãe. Tem que ser a voz da mãe assim curativa. Balsâmica nos ouvidos. Até eu me sinto mais aconchegado, menos ausente. Abraçado. Um abraço precioso e desejado. (fazia-me falta o teu abraço, Mãe). Fecho os olhos, ardem salgados por dentro das orbitas agora. Quero adormecer e afastar-me de ti. Vou na boleia do veleiro que arreou as velas há pouco, e rumo a um sul sempre demasiado a sul de ti, e de mim.
Amanhã.

O dia será outra vez com vinte e quatro horas, e no alvor, os barcos lançam as redes em busca da sardinha cor de prata. E o sol vai nascer a leste de mim, por detrás das montanhas, e das hélices enormes na serra que aproveitam o vento a gerarem a energia limpa. O campo de milho vai estar lá, ali junto ao sopé da serra, separado pela estrada negra, e os carros vão passar para um lado e outro, rápidos. E por vezes, as ambulâncias com toda a aflição dos tempos correm contra o tempo escasso. Os minutos que marcam a salvação ou a morte.
Amanhece.

Queria perguntar-te pelo sol.


Queria saber se o sol está junto de ti hoje. Sinto que sim. O dia amanheceu a chorar aqui junto a mim. Os telhados a pingarem a água que os céus reuniram na noite onde me abandonei nesta cama que já foi tua. Aqui tudo já foi teu. E eu sou uma espécie de guardião da memória tua nesta casa. E a casa é demasiado grande e fria e vazia. Quase um museu dos sentires. Um museu dos afectos. Os museus não tem sentimentos, pois não? Nem seres vivos, pois não? Nem sentires, pois não? Nem alma, pois não? Espécies de depósitos de trastes e coisas velhas inúteis…
As palavras a ti.

Queria perguntar-te pelo sol nos teus olhos e já nem sei as palavras a ti. A falarem ao teu coração. A saberem de ti. Já não faz mal. Sou mesmo uma espécie de marinheiro tolo e doido, alucinado do sal no corpo. É o tempo que me faz assim, estranho também. Incompreendido. Incompreensível, sem tempo deste tempo. Coisa estranha esta. A tempestade no pleno Agosto a chuva forte. O vento que geme na chaminé, o grito da criança na noite e a voz. A voz da mãe. Tem que ser a voz da mãe.
Fico sem saber se o sol está junto de ti hoje. Mas também não sabia ontem, ou antes de ontem, ou no futuro. O futuro é sempre a minha angústia por não saber de ti, adiada. E quando adormeço nunca sei se acordo á tua beira ou se te invento para me sentir lúcido e vivo. Porque o que queria era sentir-me amado por ti. E já não és nada. Por fora de mim. Existes por dentro só, num lugar secreto onde existe o sol sempre, e o teu sorriso nos lábios, e os olhos brilhantes, e a tua pele, as tuas mãos, o teu perfume. Porque me dizes que não usas perfume? Não és a mesma pessoa que amei um dia? Mas o teu cheiro perdura em mim e no tempo. O teu olhar na noite quando me fitavas a quereres entrar por dentro de mim.
Que nos aconteceu?

De súbito desaba a trovoada e o céu chora neste Agosto ausente de ti.
Eu fico aqui, junto ao mar, como faço sempre. A envelhecer. Abandonado como uma carcaça de um velho barco. Na praia. A envelhecer de saudade. A envelhecer de amor. Nem eu sabia que o amor nos torna velhos e abandonados como os barcos que amo. Espécie de alma que os barcos já não tem…

João, praia de Fornelos 2007 Fotografias de Barcoantigo 2007



...Ao largo demasiado longínquo
A silhueta do navio carregado
Contentores de sonhos…
João 2007
Fotografia de Barcoantigo

terça-feira, agosto 21, 2007

Resta-me a ilusão da tua existência


Resta-me a ilusão da tua existência.
Tenho de forçosamente que apagar-te da minha memória. Lentamente. Aos poucos. Cada dia. Cada gesto teu. Cada palavra tua. Cada beijo teu.
Apago-te.

Off!
Delete!
Como se isso fosse possível.
Fui à nossa cidade em tua busca. Os lugares, as ruas, os sons, os cheiros. A luminosidade do teu olhar em cada janela. Tão difícil de te decifrar já. Passa mais um ano na minha memória que queria esquecida de ti. É o mês das ferias e voltaste estranha. Demasiado estranha, a ires embora da tua breve ausência. Por onde andaste para ficares assim. Que te aconteceu? Deixei de saber de ti. Senti, sabes, aquela sensação amarga e fria por dentro, que te ias embora no teu regresso.
Resta-me a ilusão da tua existência.
Fomos um amor imperfeito, – não! Eu é que me convenci.
Não fomos amor nenhum! Eu é que me convenci que podíamos ser uma espécie amor-perfeito e colorido e redondo e grande. Eu, só! Acho que me iludi. Me perdi às voltas numa qualquer rotunda a imaginar-te e agora achei a nossa cidade invicta sem encanto. Faltas tu! Não sei porque me encantas ainda. Vejo-te a sorrir, o teu sorriso grande em cada montra, em cada grande vidro da cidade. O que me encanta em ti ainda? Porque me encantas tu? Verdadeiramente nunca soube quem eras. Se existes com alguma verdade por fora da minha memória, se as minhas mãos tocaram as tuas, se o meu corpo tocou o teu, se o olhar se encontrou agora que fico aqui nesta cidade demasiado grande sem ti. As ruas perdem a graça. As pessoas passam e não dão por mim. Não te reconheço em nenhuma delas.
– Imagino-te! – Imagino-te sempre!
Foste embora. Não deixaste nada. Uma palavra. Um gesto.
Não restou nada teu em mim.

Só este silêncio que me assusta.
João Praia de Fornelos 2007
Fotografia de Alina Andrei