quarta-feira, abril 05, 2006

MEU CÉREBRO


É um emaranhado de compartimentos ou prateleiras catalogadas
De dias ininterruptos que por mim passam lado a lado
Porque penso em ti
E ocupas oitenta por cento da actividade cerebral
Deixo de pensar em mim
Assim absorto, surpreso, dou por mim e desnorteio-me
Fico perdido na tua saudade
Como não existes em carne e osso
Não passas de um holograma
Ou milhões de pontos no computador que tenho por cérebro
Assim,
Quando domino esta técnica, e me canso do jogo
Fecho-te num dos compartimentos da memória, catalogada na prateleira dos sonhos
Quando me lembro
Ou a saudade me dá a mão num passeio pela beira-rio
Vou buscar-te, e revejo como num filme em câmara lenta
O teu andar
O teu riso
Ou simplesmente a tua presença
A companhia que me fazias nos dias longos do silêncio
Ou o olhar de interrogação que me dirigias
Quando eu desajeitado, não sabia onde vagueava, ou perdia o norte.
Assim meu cérebro
Obra-prima da engenharia humana, ou da procriação
De vez em quando tem falhas
Ou lapsos
Ou faltas de espaço na memória do disco da vida
E eu, grotesco, armado em adolescente
Continuo a escrever-te, ou a tentar insistentemente
Porque já não te falo.
Assim escrevo desta forma dolorosa
Um parto difícil, a conjugação das palavras e dos verbos
Ou o sentido do que te quero dizer
E não confesso, mas está explicito
Porque já não te amo, ou nunca amei
E só sonhei contigo
E se és um sonho, ou te imagino
Inevitavelmente continuas a ocupar oitenta por cento da actividade cerebral
O meu cérebro, é ainda um gigantesco motor eléctrico em serviço contínuo
Guarda todos os registos da tua memória
Um imenso ordenador
Metódico!
Catalogado e arrumado!
Em gavetas compartimentadas e estanques!
…Assim, passas a ser um imenso número
Simples código de barras, num simples registo, à distância de um clic
Recordo-te quando quero, e esqueço-te quando não quero
Aparte isso, caminhas sempre ao meu lado por Lisboa.
João marinheiro ausente

8 comentários:

lua branca disse...

O que ouviu os meus versos disse-me: "Que tem isso de novo?
Todos sabem que unia flor é uma flor e uma árvore é uma árvore.
Mas eu respondi, nem todos, (?.......... )
Porque todos amam as flores por serem belas, e eu sou diferente
E todos amam as árvores por serem verdes e darem sombra, mas eu não.
Eu amo as flores por serem flores, diretamente.
Eu amo as árvores por serem árvores, sem o meu pensamento.

Héctor Ojeda disse...

Qué capacidad tienes para escribir lo que te dicta el corazón...?. Saludos.

MAURA_ disse...

Con ayuda de Google lo reconozco...nostálgico tu poema ,hermoso.
Gracias por pasar por mi ventana.
Besos.

Arthur Saraiva disse...

Tanta nostalgia, no entanto os teus poemas são como música que baila e nos envolve completamente. Sonhar é bom, mas realizar os sonhos é ainda muito melhor. O que mais alimentará a nossa alma se não amores, paixões mesmo que mal resolvidos ou interpretados? Força amigo, um abraço.

Claudia_peixinha disse...

Hoje ao ler-te pensava :

"Mas porque raio ele não diz á miúda o que escreve aqui"...fica a questão no ar...Porque não lhe dizes o que te vai na alma?

Bjs:)

Pérola disse...

Este Marinheiro navega por águas muito turbulentas! E ainda dizes que já não a amas? Então o amor agora mudou de nome? Fica bem.

~*Vica*~ disse...

Achei lindo teu poema. Beijos.

Ana Luar disse...

Entrei...li, vou sair de mansinho...para não interromper o silêncio que gostas de te afundar.
Gosto de ti mar!