quinta-feira, abril 06, 2006

JÁ ME HABITUEI À TUA AUSENCIA...


Ao silêncio do telefone
À caixa de mensagens vazia de notícias tuas
Aos poucos vai a tua imagem desvanecendo-se
Não sei se fico feliz ou triste…
Já me habituei a sintetizar as palavras
Deixei de falar ou escrever-te
Sempre que te recordo faço um esforço, cada vez és mais difusa e distante
Resumida a um nome que soa estranho
Quero lá saber que não te importes de mim
Quero que te sintas feliz onde te encontras
Tudo o mais são reflexões ou pensamentos ténues. Nunca fizeste parte de mim Renasci quando te encontrei, mas disso só eu me dei conta
Um dia escrevi que nos tínhamos encontrado na encruzilhada da vida
Uma linha em curva descendente ou em cruz
Hoje não sei quem és
E teimosamente porfio em que sejas sonho, e esqueça o sabor de teus lábios suaves
O brilho de teu olhar,
O perfume de teus cabelos
A tua voz
A leve tremura de teu corpo quente
Deixo de emoldurar o teu rosto com minhas mãos
Já não nos fitámos de olhos nos olhos
O importante que era escutar a tua voz!
Não o murmúrio constante no vento, imaginando que és tu
Não uma espera de noticias do outro lado da linha
Esta é, dou-me conta, uma linha paralela em todo o comprimento…
Jamais nos vamos encontrar…
Teimosamente
Guardo-te com religiosidade assumida
Num dos compartimentos do cérebro onde a ciência não chegou ainda
Assim este lugar mágico é só meu, unipessoal, sem número de contribuinte
Virgem
De neurónios em alvoroço ou nervos à flor da pele
Pouco me resta já, que não este desabafo
Estás diluída na luz e no tempo meu amor
E confesso, este não é o meu tempo
Pois que passo pela vida sem me dar conta ou me importar
O meu cérebro treinado vai ciclicamente apagando os registos dolorosos
Espécie de ordenador onde um anti-vírus, de vez em quando
Faz as reparações necessárias
Guardo só em lugar de acesso com password, a confissão do que sinto
Foste o meu anjo luz, que me ofuscou com a frescura da novidade
O renascer
Não foste a cura da ausência, mas o unguento que atenua a dor que sinto
Tudo o mais são palavras escritas disfarçando o sentimento…
Eu, estúpido!
Teimosamente sinto-me triste e escrevo em tua memória
Não sei se mereces que te guarde na memória
Tu não tens memória
Não és nada dentro e fora de mim
Afora isso és todos os desejos que sinto
Todas as pulsões do sexo e da lascívia Imaginadas
Numa viagem por mares de gelo e ventos frios
Ai sim!
Teus cabelos finalmente soltos
Podem espalhar o perfume e suavizar a agrestia do lugar
Já não sei se cheiram a jasmim, ou ao feno dos prados
Não sei se habitas um bosque ou uma cidade em betão
Mas diz-me!
Que eu ainda assim, quero mudar-me
Para um sítio onde sinta o cheiro de teus cabelos
Ou em última instância, um lugar onde o cheiro me leve até ti!
Sabes que gosto das planícies disse-te ao ouvido um dia
Sabes que gosto dos lugares distantes e de ouvir os grilos no calor do verão
De colher cerejas ou apanhar castanhas no Outono
Sabes mas não te importas, por estes gostos simples não fazerem parte de ti…
És uma espécie de monumento em granito e bronze na minha vida
Feito de materiais nobres. Portanto eterna. Acompanhas-me em todos os momentos
Já te deste conta do importante que és!
Não paras um minuto sequer para pensares ou me dedicares o momento
Não sou nada
Dentro e fora de mim
Como diz o Poeta…”Aparte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”…
Mas meu amor, nunca eu fui poeta
Nem ouso ser, estou portanto em desvantagem
Mas sinto como Ele. O seu amor por Ofélia contido
O seu amor desespero. O Amor suicídio.
Pena não te chamares Ofélia. Ou eu não ser guarda-livros...
No momento invento as palavras. Sintéticas. Não te amo
Mas sinto a tua ausência confesso
Acusas-me de andar constantemente a repetir-me no que sinto
Penitencio-me
Tenho de pedir desculpa
Não encontro sinónimo para o amor, ou a sua ausência, ou o que sinto
A sua dolorosa ausência, pois o que tenho pleno, não me chega por não ser o teu
Tenho eu culpa de não encontrar palavras?
És, sabes disso, já to disse ao ouvido, a minha eterna namorada
Assim escrevo-te estas letras, quando quero desabafar
Uns dias triste, outros alegres
Na maioria dos dias acompanhas-me nas viagens que faço Porto-Lisboa-Porto Quilometro após quilómetro
Eu deixo-me ir abandonado neste lugar de segunda classe
Desperto em sobressalto, pelo som sempre igual das rodas em aço nos carris
Este é o comboio Diesel que me tem levado em viagem
Um imenso inter-rail sempre em direcção ao sul…
Dou-me conta tardiamente que o comboio me afasta de ti
Vai na direcção errada
Mas tu não te importas, ou não te dás conta, ou disfarças a lágrima…
Já não sei verdadeiramente quem és
E interrogo-me?
Porque continuas a ocupar os outros trinta por cento do meu corpo?
E eu aqui!
Teimosamente de roda das palavras procurando disfarçar o que sinto
Escrevendo-te este monólogo que nunca vais ler, por ser um monólogo
Interrogo-me?
Porquê tu?
Já não sei teu nome
Por onde andas. Quem amas
Porquê tu?
Espécie em extinção. Aventura dos livros ou dos sonhos.
Pintura de artista anónimo em nu artístico
Onde reconheço as curvas de teus seios e o azul do teu olhar…
Estranha ausência de mim…
João marinheiro ausente

5 comentários:

Ana Luar disse...

Descobriste o mar nos olhos de alguém mar,...imagino que não seja fácil voltar para terra...deixo-te beijos eternos.

Poesia Portuguesa disse...

…”Aparte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”…

... e, o sonho comanda a Vida...

... não o percas, nunca!
Abraço e bom fim de semana :)

Nylda disse...

OLá...
O que seria de nós se não podessemos sonhar?
Bom fim de semana. deixo um beijo e um sorriso.

hala_kazam disse...

a vida é cheia de perguntas...
podemos encontrar varias respostas...
espero que encontres a melhor!

*beijos*

© Piedade Araújo Sol disse...

....A qualidade a que nos habituou, comentarios para quê?..