sexta-feira, abril 07, 2006

ESTOU AQUI



Sentado neste jardim deserto a esta hora tardia sem um pensamento definido
Não penso em nada no momento
Descanso
Tudo o que pensei manhãzinha
Ao recordar-te enquanto conduzo nesta estrada da minha vida
Vem sempre dar ao mesmo sítio
Sou uma imensa rotunda com vias em sentido único que desaguam em mim
Qual foz de um rio imaginado em lágrimas
Onde me sinto um barco sem leme ou governo
E os mastros partidos pelo peso das velas e da força do vento
Repousam sobre o convés num acto de destruição e amor
Como o que sinto por ti e não confesso
Por isso escrevo
Poesia sem graça
És a minha eterna namorada de todos os dias
E eu
Ciclicamente, manhãzinha
Dou-te os bons dias e digo-te adeus despedindo-me
Até que regresses de novo em força, na saudade
E eu aqui sentado sem um pensamento definido
Esperando que as horas passem depressa
E te extingas como o brilho do cigarro que tinha esquecido entre os dedos
Porque confesso, tenho medo de pensar ou de sonhar
Porque se penso, sou como o rio que corre sempre para o mar
E tu és o meu mar salgado
Feito em prantos, onde me afogo
Envolto no abraço terno das sereias
Que povoam os oceanos e os sonhos dos marinheiros
E eu, por assim me sentir marinheiro, mas ausente
Deixo que elas me conduzam no sonho
Para mais tarde ser arrolado a terra numa praia qualquer
À mistura com o alcatrão negro e as aves mortas, petroleadas
O argaço putrefacto, e os peixes esventrados
Mais tarde, quando me recompuser desta viagem imaginária e então acordar
Vou despertar na nossa praia de rochas e búzios no cabo do mundo
Um lugar mágico onde se escuta o canto das sereias
Vou então regressar à estrada e conduzir novamente em direcção a uma rotunda
Um dia encontro uma saída que me leva até ti…
Não sei se lá estarás à minha espera
Mas tenho a esperança. De te encontrar, minha eterna namorada
E assim surpresos, vamos inevitavelmente ficar parados
Vamos escutar o murmúrio dos nossos corações batendo descontrolados
E então sorrimos vencida que há-de ser a timidez inicial
Nossas mãos tocam-se
E de mãos dadas regressamos a casa
Lentamente, levo-te ao colo como uma primeira vez
E então beijo-te
Sacio a fome que sinto de teus lábios
Mostro-te a casa que comigo partilhaste no sonho
A cama onde dormias ao meu lado, a minha cama vazia
A tua almofada
Com a forma da tua cabeça impregnada do teu perfume inconfundível
A jarra com as flores que um dia te ofereci
Desculpa por as ter deixado morrer
Desculpa-me também, por te ter deixado ir no sonho
Ou nas asas das andorinhas do mar
Ou por te ter amado um dia, com o lado errado do coração
Continuo aqui sentado neste jardim deserto, é quase noite
A humidade fria está chegando, sinto-a nos pés gelados
Lentamente as árvores despedem-se das suas folhas castanhas
Os bandos de pardais já não se ouvem
As pombas, tantas outrora, já não existem
E eu aqui surpreso ao me dar conta da sua falta tardia descanso da jornada
Procuro na madeira do banco o teu nome que gravei faz anos, e não encontro.
Andei perdido. Se calhar
Quem sabe, não me dei conta
João marinheiro ausente

3 comentários:

Ana Luar disse...

O facto de admitires que andas-te perdido é sinal que tb te deste conta disso.
Deixo um beijo polvilhado de ternura mar.
E quero que saibas que gosto de ti!

© Piedade Araújo Sol disse...

... Tudo vazio de ti...

Tudo cheio de ti...

As sms que nao leio e imagino...

E apago sem apagar...

Tudo vazio de ti...

Tudo tao cheio de...

João... beijo salgado envolto no mar....

Anónimo disse...

João Marinheiro porque és do mar ou apenas porque amas o seu azul...Ou com ele comparas o teu amor por tão profundo...

E o amor ou a sua ausência te consomem. E do que li apenas senti que em tua alma sempre haverá um lugar muito maior para a tristeza que para o sorriso. Por isso te peço... abre o teu coração e deixa que nele entre o SORRISO da vida.
cericaia