terça-feira, abril 04, 2006

DUAS E TAL DA MADRUGADA



O silêncio impera na cidade grande
Ecoa o grito do cacilheiro despedindo-se
Vai na última viagem para a outra margem.
Deixo que o pensamento o acompanhe nas águas frias do Tejo…

Saboreio um whisky lentamente
Tenho o pensamento já vazio nesta hora, e o corpo cansado.
Tento descansar afundado neste sofá.
Hoje embebedo-me
Não me embebedo com qualquer bebida rasca
Eu gosto das coisas boas
Não me serve uma bebida qualquer
Bebo whisky de quinze anos preferencialmente
Com gelo, duas pedras. Nem mais nem menos!
Neste intervalo leio o Livro do Desassossego de Bernardo Soares
Leio em voz alta, para não estar só, o trigésimo texto
E fico espantado!
Em voz alta ganha vida!
Faço parte dele e assusto-me!
Sou todo o livro nas suas palavras
Como te compreendo companheiro de letras…

Entornei mais um copo
O terceiro
Duas pedras de gelo
Larguei o livro e arrependo-me!
Sinto-te aqui!
Arrependo-me de não te ter tomado em meus braços
Não ter roubado o sabor desses lábios rubros
Sentir a dureza quente desses seios encantados de encosto ao meu peito
Num abraço terno e rude
Desesperado!
Sentir-te tremer ofegante
E arrependo-me de não me ter perdido em teu corpo
Deixar passearem minhas mãos
Meus lábios,
E meus olhos
Por teus caminhos, descobrindo teus desejos carnais e íntimos
Meus desejos de sonhos tantas vezes, a realizarem sempre
Mas sempre
No amanhã.
A infância pura que se foi
O doce sabor a mel de teus lábios virgens...

Afundo-me no sofá!
Afundo-me em recordações
Estou a andar para trás no tempo
O meu primeiro amor… Orquídea de seu nome… Recordo-te hoje
Saudade lusitana! Saudade que dói sem se sentir…

Continuo só
O coração apertado numa dor que não se explica, uma insatisfação perene
É um facto. Triste e só. Não sei já que é feito de ti?
Dou por mim olhando a existência
E tudo não passam de sombras imprecisas na memória
Não existem raízes ou memórias…
Sou um imenso monumento memorial feito de lapsos
Momentos de luz
E espaços em branco...

A minha rudeza sensível, apurada pelo álcool
Está vindo ao de cima, qual maré negra peçonhenta. Qual “Prestige”
Afundado finalmente nas profundezas oceânicas
Afundado bem dentro de mim
Assim permaneço também, afundado no sofá
Saboreio o último trago da garrafa vazia
Já sem gelo
Assim estático…

Revejo mais uma vez, o teu amor por mim
Estás aí e aqui,
Sempre de roda de mim omnipresente
Com um inexplicável medo no olhar e nos actos
Ou se calhar no pensamento
Eu já não fujo
Perdi o momento, ou a causa deixou de ter efeito
Quando penso em virar costas sinto-me cansado
Deixei que o pensamento fosse na última viagem do velho cacilheiro
E quando reparo no caminho que faço diariamente, instituído e rotineiro
Tarde da noite, abandono-me e adormeço desfalecido
As mãos cansadas, o cérebro exausto, já não sonho
Assim repetitivamente, vou adormecendo e acordando em sobressaltos
Altas horas da madrugada, e desconheço-me
Perco-me do sítio onde estou
Então
Porque já te encontras ao meu lado dormindo tranquila, fico em paz.
Devagar
Lentamente, viro costas e fecho os olhos
Dentro de nada toca o despertador, e inicio mais um dia já cansado
Maquinalmente levanto-me, lavo a cara com água fria, estremeço
Enfrento mais um dia de luta, e envelheço!
joão marinheiro ausente

7 comentários:

Claudia_peixinha disse...

Gostei da descrição da ORQUÌDEA:)
Sente-se um carinho enorme:)


Boa noite:)

Lumife disse...

ENCONTRO DE BLOGS EM ALVITO NO PRÓXIMO DIA 22 DE ABRIL .

PROGRAMA

10h30 - POSTO DE TURISMO
Recepção aos Participantes

11h00 - AUDITÓRIO CENTRO CULTURAL
-HOMENAGEM A RAÚL DE
CARVALHO-
-Poeta natural de
Alvito.
Intervenção do Escritor
Antonio Rebordão Navarro

- CONFERÊNCIA BLOGUISTA
Temas defendidos pelos
seguintes oradores:-

-Luis Lança Silva -
(TV ALENTEJO)
-João Espinho-
(PRAÇA DA REPÚBLICA EM
BEJA)

13h00 - QUINTA DOS PRAZERES
Almoço regional

15h30 - Passeio guiado pelo
Concelho de Alvito

17h30 - Visita à Sede do Grupo
Coral

18h00 - Concerto na Igreja Matriz
(Alunos do Conservatório
Regional do Baixo Alentejo)

Valor da refeição 18€ (Dezoito euros) (crianças até 4 anos não pagam, dos 4 aos 10 anos pagam 50%)

PAGAMENTO: Deverão efectuar o pagamento até ao dia 16 de Abril, através de transferência bancária para a conta com o NIB: 0035 0084 0000 3930 700 26 da Caixa Geral de Depósitos e indicar-nos os dados que lhe são solicitados no formulário que enviamos aquando da sua inscrição .

-Desculpem a insistência e o espaço roubado mas não queremos que falte informação sobre o ENCONTRO DE BLOGS EM ALVITO A REALIZAR NO PRÓXIMO DIA 22 DE ABRIL .

As nossas saudações e os nossos agradecimentos

Claudia_peixinha disse...

Vim só ver como está o "teu mar".

Bom dia pra ti:)

Ana Luar disse...

São memórias de uma vida mar...a unica coisa que nos resta, quando nos sentimos envelhecer...sem que os nossos sonhos se perdessem na imensidão do prazer.
Tens tudo para ser feliz mar....porque não o és?
Gostei do poema, mas és muito mais do que escreves...ou será que eu é que te vejo além das palavras?
Tanta pergunta que te faço mar...as respostas virão nos próximos posts...aguardo.

alice disse...

querido amigo,

vim aqui depois de almoço deleitar-me com a sobremesa das tuas palavras...

agoro tomo um cafézinho e fico de sorriso estampado todo o dia...

muito obrigada pela tua madrugada

um grande beijinho,

alice

Menina_marota disse...

O teu poema, recordou-me a Poesia de alguém, cuja poesia gosto de ler. Deixo aqui um Poema de que gosto muito...

"O cigarro aceso
consome-se no cinzeiro de aço.
O fumo azulado gera
nuvens brancas nos meus olhos.

Os meus olhos não são de aço
quando se debruçam
sobre o teu corpo desnudado
quando acariciam
os teus mamilos rosados.

A minha boca nasce nos teus lábios
docemente murmurando desejo
percorre o vale dos teus seios
querendo saltar as margens
desce zigazeando lambendo
e finalmente desagua na floresta húmida
existente no meio das tuas côxas.

Nasce um rio em ti
viscoso salgado
e sentindo o teu medo de mulher
aminha boca lança-se para as nuvens
e o meu corpo aterra no teu trémulo
e com ais e suspiros
a minha carne entra na tua
aberta ansiosa por me receber.

Vagarosamente
percorro as tuas entranhas
recuando para voltar a sentir
o prazer louco de voltar a entrar.

Cheguei ao fundo do teu íntimo
e com um grito de triunfo
lancei as sementes
na tua terra fértil.
O teu corpo estremeceu loucamente
agarrando-se ao meu
e num instante mágico
suavizou-se no prazer da agonia.

Os meus olhos beijaram os teus
brilhantes em lágrimas inesquecíveis
e a tua boca nasceu nos meus lábios . "

( in COPOFONIA EM AMOR-MAIOR
Jorge d'Além-Mar / 1996 )

Um abraço e boa semana

Mendes Ferreira disse...

beijo oh marinheiro presente....



até____________________
_______________________volto .