sábado, abril 08, 2006

ESTA É A DESPEDIDA POSSÍVEL



Recolhidas que foram as palavras já mortas faz tempo despeço-me de ti
Assim em silêncio, eternamente só com a minha saudade
Foste a última esperança de vida
A minha vida por caminhos abandonados
Foste a última claridade no entardecer deste Inverno
As nuvens alvas ou o meu céu azul
A luz do olhar onde me perdia ao final da tarde
Esta é a despedida derradeira, uma morte anunciada faz tempo
Inevitável.
Já não sei quem és
Já não sei teu nome
Deixei de percorrer as ruas da nossa Lisboa na esperança inútil de te encontrar
Foste o meu segredo agora revelado
Tardiamente dei-me conta
As palavras que trocava-mos reparo com mágoa, escondiam todo um mundo por viver São como folhas do livro que queria escrever e não consigo
Estão sós
Terrivelmente sós!
Abandonadas ao sentimento ou à sua ausência
Tornam-se paredes frias, onde as lágrimas escorrem devagarinho meu amor
Permite que te chame ainda. - Meu amor
São as palavras com sentimento que me restam
Quando elas também se forem, iniciada que está, a despedida.
Tudo termina
Vou finalmente fechar os olhos e remeter-me, enfim, ao silêncio
Fico em paz.
Comigo.
Contigo.
Ou com o Deus que me guia
Esta é uma partida inadiável
Viagem sem regresso
Com bilhete só de ida
Tenho a plena consciência dos actos assumidos
Repetia a minha vida de novo contigo ao meu lado por companhia
Sei que tudo ficou por dizer e por fazer
Quando te recordo num esforço imenso, apagas-te mais um pouco na memória
Temos uma vida plena por caminhos opostos
No momento, somos completamente estranhos
Não existimos!
Tu não existes!
Eu não existo!
Mas existe uma parte de mim que incessantemente foge em tua busca
Será loucura? Será saudade?
Existe uma parte de mim abandonada pelo corpo
Existe uma parte de mim, o pensamento que é teu
E temos um mundo em luta permanente, iniciada que foi a despedida
Passaste a fronteira para lá do tempo presente
Já não escutas minha voz, te importas comigo, ou imaginas que vivo
Faz tempo que não te ouço
Faz demasiado tempo já
Só consigo conversar contigo em pensamentos, cada vez mais espaçados
São as palavras que nunca te direi, mas que guardo como tesouros
Os meus monólogos dedicados a ti
Em tua memória
Monólogos de surdo, ou de homem doido
Faz tempo que me acompanhas diariamente, meu anjo guardião
E mesmo em silêncio, sabendo que estás ai, porque te sinto
Ganho forças, para vencer mais um dia da jornada imensa
Tornas-te o meu anjo luz, sorris-me à noite nas estrelas
Finalmente no regresso a casa
Percorro a Alameda até ficar cansado, sempre a descer
Parto perpetuamente rumo ao sul, e chego ao Tejo
Sem a esperança, a luz, ou o segredo que foste e carrego comigo
Ali, frente à imensidão, aos sonhos
Não vislumbro já as velas das caravelas
Este será sempre o meu Tejo que amo, sulcado por fragatas e varinos de memórias Despido dos ideais, abandonado pelas Tágides, sem inspiração aos poetas
Viro a página em branco diária do caderno que me ofereceste
Enxugo as lágrimas das palavras feridas, com cuidado extremo
Porque te escrevo sempre?
Milhares de palavras reunidas, escolhidas a dedo, no sentimento
Todas mortas, moribundas
Retiradas em braços das águas. Náufragos nas lágrimas do rio que nos separa Escrever, sinto. É um acto de coragem ou de enorme lucidez
Perdi a minha!
Assim febril. Doente
Já não escrevo!
Tornam-se lamentos tristes os escritos
Gritos das entranhas ou das aves no céu
Lentamente, a voz enrouquece
Sem forças fecham-se a boca e olhos
Nossos lábios jamais se vão encontrar. Já não desejo teu corpo, o calor de tuas mãos Esqueci, faz tempo
A música do teu rir, o brilho do teu olhar, o perfume que ainda usas
Nunca te tive minha, desejei-te só, sem que disso te importasses
Vou em Paz
Finalmente liberto
Os olhos enevoados, marejados pelo sal das lágrimas escondem o amor saudoso
Foste embora assim
Nem teu nome me deixaste e eu esqueço-o na dor!
Fiquei de mãos vazias, e esta sensação forte da tua ausência
Hoje, porque partiste?
Partiste num repente
E em mim ficou o calor de teu corpo
A magia de teus seios de encontro ao meu peito desnudo
O teu perfume que me persegue e me excita
Foste embora de mim
E contigo foram as certezas de um amor forte. Imenso
As mil e uma noites intimas, partilhadas em rios de sémen gastos e de suores…
De cama desfeita e cabelos em desalinho
Carícias e beijos húmidos profundos
Lutas da junção de dois corpos que se amam e se completam
Partiste
Aventura de um dia, ou horas que valem pela vida fora na eternidade do mundo Marcada a fogo e sentimento
Saíste porta fora
Como ténue claridade raiando para lá das montanhas cobertas de neve alva
Como alva é a pureza de teu corpo
Ou a pureza de teus lábios, que fui descobrindo e violando
Numa ânsia febril de um consentimento consentido e ávido, húmido e lânguido Prazenteiro
De uma entrega a medo consentida, terna e violenta em simultâneo
O amor de dois corpos que se descobrem e se desfrutam…
Mas partiste
E atrás de ti fechas-te a porta!
Assim como surgiste na minha vida
Num repente!
Ou sonho, ou desejo guardado
Tu, meu amor!
Com toda a gentileza e a ousadia de teu corpo jovem, faminto de emoções
Partiste!
Ainda não me habituei
Já não te revejo…
Como me custa!
Como dói, esta dor estranha e nova que não sinto!
Esta ausência imensa de ti!
Este amargo de boca e este rolar na cama insatisfeito!
Como me dói, dou agora conta!
Partiste!
E na partida
Em mim ficou só à flor da pele, teu cheiro, teu perfume
E teu riso de criança grande e rebelde desvanecendo-se diariamente
Se nem teu nome me deixaste
Fiquei com as mãos vazias, e esta sensação estranha de ausência, que não finda…
…Espero um dia reencontrar-te por instantes
E então lembrar teu nome que gravei um dia a fogo no coração
E nas tábuas do nosso banco
No jardim público onde meus lábios encontraram os teus…
João marinheiro ausente

2 comentários:

amadis / pintoribeiro disse...

Gostei...um beijo de bom dia.

A. disse...

Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os beijos permitiam.
Palavras que não dizes...
que morreram,que em ti já não existem
- que são minhas,só minhas,pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas.
(Pedro Tamen)


Fiquei maravilhada com tudo o que por aqui se escreve.
lindo esse amor.

um abraço