terça-feira, dezembro 12, 2006

- Estou a morrer, sabes!


Estou a morrer, mas não me importo, não me importo de partir agora que a saudade me mata devagarinho. E esta não é uma morte igual ás outras. Tem que ser diferente, é uma morte de saudade.

-Sabes!

Fechei a casa onde habitavas em mim. Tranquei todas as portas, corri todas as persianas, puxei as cortinas, cobri os móveis, expulsei o sol de lá. Apaguei a lareira e certifiquei-me que estava realmente gélida. Despedi-me da minúscula sala pequenina onde te recebia. Foi o que mais me custou, estavas em todos os sítios e em todas as coisas.
Fechei-te no escuro.

- Sabes!

- Tapei o velho sofá com quatro mantas, mesmo assim ainda sinto o teu cheiro.
Ao dar a segunda volta no trinco da fechadura na porta da sala senti um golpe no peito e um calor por dentro de mim, acho que fiquei destroçado, morro por isso aos poucos. Noto que o sangue jorra em mim de uma forma estranha, volteia em pequenos eses que me parecem as letras a dizer saudade.
Estranho sangue me corre nas veias.

- Estou a morrer, sabes!

- Estou a morrer mas não me importo porque tu já não vens mais. Não te despediste. Fiquei com o livro que te queria ofertar e não posso olhar para ele, porque imagino as tuas mãos pequeninas a desfolhar pagina a pagina lendo como gostas de o fazer, e isso custa, acredita.

- Sabes!
- Arrumei também o livro que estávamos a ler os dois. Aquele livro imaginário. Guardei-o bem escondido para me esquecer dele rapidamente.
Também te escondi na memória para me esquecer rapidamente de ti.

És livre e eu queria-te minha, esse foi o meu engano, não se pode amar uma borboleta porque as borboletas são breves…

Agora vou.
Deixo as palavras porque já não as escuto e não me fazem falta.

...O último navio parte esta noite…


Outono 2006



Fotografia, Luis Cabaco/www.olhares.com

8 comentários:

mar... disse...

podes partir... porque em algum lugar saberemos que estas e em algum doce dia nos reaparecerá... mas não morras! porque já existes em alguns corações... juro à ti que já não é só!

algevo disse...

As palavras fazem-nos semopre falta. Mesmo que se ache que não as voltaremos a repetir, ou as voltemos a escutar ou as voltemos a proferir como se fosse uma outra 1ª vez...

reticências...

daqui de onde o rio se junta com o oceano, beijo.

I.

Morgaine disse...

Morrer.. morremos todos um dia, é a certeza que temos mesmo certa. Morrer de corpo. Mas nao morras de alma só porque amas ;)
O amor, mesmo que em ausência física é a unica coisa pela qual vale a pena viver.

bjs

Maria disse...

por muito que escondas na memória não se esquece rapidamente...
... olha que as palavras fazem sempre falta... como o amor, a solidariedade, a amizade...
... não vás... deixa o barco ir...

Mendes Ferreira disse...

e eu quase morro.............


nesta enorme tamanha nostalgia ...

... da vida... ou do amor
...da saudade que seja...


__________________

tão belo. tão dorido...
___________________



beijo.

A. disse...

...onde vais João?









Morro nas despedidas...morro na saudade.

É o que mais me faz sofrer...
sintir que se começa a deixar de existir...dolorosamente.

Claudia disse...

"Fazer sofrer é a única maneira de se enganar", dizia Albert Camus. Talvez seja isso. Talvez eu me ande a enganar. Não sei bem como. Mas me engane.

Mas a mim. Não a ti!

A ti não te engano. Não te enganei, não o faço, nem nunca o farei. Disso, não me podes acusar...É um dos defeitos que não vem na lista!

Não vou comentar directamente as tuas bonitas palavras. Não quero ou não consigo. Diz-me só uma coisa. Achas-me tão fria e distante como me retratas sempre?

Para mim é muito difícil ver-me assim, quando eu penso que sou exactamente o oposto... O que eu acho é que as nossas circunstâncias nos levam, ou melhor, não nos levam a percorrer tantos caminhos como gostaríamos. E talvez eu tenha mais consciência disso! Lembra-te que eu é que julgo as pessoas para ganhar a vida!!!

Não sei se há enganos ou não. Não sei de nada meu João. Sei que continuo cá. Do meu jeito.
Se me quiseres. Como sempre...

Beijo meu

tb disse...

...esperemos que não seja o último navio...