terça-feira, agosto 28, 2007

De súbito desaba a trovoada…



De súbito


Desaba a trovoada neste dia abafado de um verão qualquer à beira mar. Junto do mar. E o vento em redemoinhos de pó chega, e encrista a superfície das águas salgadas. E eu aqui, deste pedaço de sítio, vejo o tamanho do mundo, para lá da janela onde me escondo do tempo que chega frio. O vento que é sempre um norte residente aqui, fugiu, e entra um sul abafado e quente que tinge as nuvens de cinza escuro, e os trovões chegam com ele, como que todos à uma a atropelarem as nuvens. A estourarem os tímpanos. Na casa ao lado uma criança grita, um choro aflitivo de medo. Escuto a mãe, deve ser a mãe, – Madalena! – Madalena! É a mãe. Deve ser, a criança deixou de gritar. Só a voz da mãe tem o poder de afastar os medos e curar os choros, assim era, assim será. De súbito as nuvens choram também. Abatem-se num choro imenso e quente e húmido. Estamos em pleno verão, e a chuva torna-se uma espécie de névoa no asfalto quente da estrada que bordeja o mar. Vejo daqui, da minha janela onde avisto um pedaço do mundo.


E ao fundo, um pequeno veleiro arreou as velas e navega rumo a sul. Aqui, todos navegam rumo a sul a afastarem-se da memória de ti. Parece que me lêem os pensamentos, ou que navegam por dentro da minha memória. E o vento agora roda. Observo o seu rodar como marinheiro velho habituado a sentir o medo, a partilhar o vento. A noite passada fizeste o mesmo, rodaste mais de 180º. Agora vens de terra. De terra dentro, e deverias trazer o calor do interior do fogo. E vens frio. Arrefeces a chuva, e eu aqui, de tronco nu, a sentir na pele e na face esta água fria a arrefecer os sentidos. Observo-te. És um vento manhoso, nada parecido com a nortada, ou o vento suão quente. Não és um vento deste tempo. O horizonte está demasiado carregado, espécie de electricidade pronta a explodir em raios de luz e trovões. Observo os pardais aflitos, a procurarem refugio nas palmeiras aqui próximas. As gaivotas pousadas na borda de água, recolhidas do vento. Olho a norte. O céu rasgado pelos gritos das andorinhas que voam alto, demasiado alto. Aflitas. Em círculos de acrobacias onde se vê o peito branco a luzir no dia cinza, e o negro a confundir as nuvens. Olho as andorinhas durante um bocado, aqui, neste pequeno palco onde vejo um pedaço do mundo e penso em ti. Um dia disseste-me que eras como uma andorinha, que ias e que voltavas na primavera. Já não sei. Porque o verão já vai a mais de meio, a primavera já foi. As andorinhas já construíram os ninhos e agora voam alto, e em nenhuma te reconheço. A verdade é que não sei de ti. E estas andorinhas, parece que voam assustadas com este fim de tarde que não é deste tempo. E o mar começa a crescer agora. As vagas a chegarem cadenciadas e fortes à praia, as gaivotas correm um pouco para cima, de asas abertas, a delimitar o seu espaço. Recolho-me. A tua lembrança em mim provocou um arrepio que não queria sentir. Visto uma roupa qualquer, assim protejo-me do frio, disfarço o pensamento. O olhar vai em busca das andorinhas de novo. Queria-te na distância do meu olhar hoje. E as andorinhas continuam a voar cada vez mais alto aos gritos assustadas.
Tu não és assim, não és uma mulher assustada. – Ou és?
O vento!

Em casa sinto o uivar do vento na chaminé. Pesado. Grave. Contínuo. Este vento não é deste tempo. Demasiado aflito, demasiado breve. A querer romper os sentidos. A estremecer a pele. A encrespar o mar. A rasgar as velas dos veleiros distraídos. Lembro-me de nós. Do tempo em que fui um marinheiro demasiado ausente. Ausente de ti. Ausente de mim. (Acho que verdadeiramente nunca te compreendi. Nunca soube ler por dentro do teu olhar a linguagem silenciosa que me dizias, sempre, com o teu sorriso suave nos lábios e a luz a incidir no teu rosto). As andorinhas nesses tempos eram andorinhas do mar, quando as avistava sabia que estava próximo de terra e logo te iria abraçar. Agora tudo é diferente. Mas o mar é o mesmo. Salgado, dócil e impiedoso. Misterioso e imenso. Só eu não. E as andorinhas hoje voam alto e demasiado assustadas e são andorinhas migratórias. Dentro em pouco reúnem-se em bandos nos fios dos telefones e partem rumo às terras quentes. E este vento que chega agora estranho a arrepiar os sentidos e a fazer-me lembrar de ti. Hoje demasiadas andorinhas se reuniram à minha volta.
– Voas!

E de súbito – agora!

A chuva é desalmada e fria e escorre na vidraça e o ar abafado. O dia um misto de calor amarelecido, um por do sol que teima em afastar o vento, e as nuvens negras, pesadas de água, e os redemoinhos, e o ruído que assusta na chaminé desta casa frente ao mar, juntinha ao mar, onde me recolho a imaginar-te, sempre na eternidade do tempo, enquanto tento por todos os meios enganar as horas e os dias. Outro dia e eu aqui, os olhos fechados a tentarem disfarçar o tempo das horas.
Deito-me. abandono-me nesta cama que já foi tua. Onde fizemos amor a primeira vez. Amortalho o pensamento, esqueço-me de mim próprio. Quando me deito fico numa espécie de êxtase, narcotizado. Uma espécie de torpor bamboleante, como se estivesse a bordo a dormir no meu pequeno beliche e o som da água de encontro ao casco a adormecer-me como uma canção de embalar. Finjo que o vento que uiva na chaminé é essa canção. A criança está de novo a chorar. A mãe grita – Margarida! – Margarida! Calou-se. A voz da mãe. Tem que ser a voz da mãe assim curativa. Balsâmica nos ouvidos. Até eu me sinto mais aconchegado, menos ausente. Abraçado. Um abraço precioso e desejado. (fazia-me falta o teu abraço, Mãe). Fecho os olhos, ardem salgados por dentro das orbitas agora. Quero adormecer e afastar-me de ti. Vou na boleia do veleiro que arreou as velas há pouco, e rumo a um sul sempre demasiado a sul de ti, e de mim.
Amanhã.

O dia será outra vez com vinte e quatro horas, e no alvor, os barcos lançam as redes em busca da sardinha cor de prata. E o sol vai nascer a leste de mim, por detrás das montanhas, e das hélices enormes na serra que aproveitam o vento a gerarem a energia limpa. O campo de milho vai estar lá, ali junto ao sopé da serra, separado pela estrada negra, e os carros vão passar para um lado e outro, rápidos. E por vezes, as ambulâncias com toda a aflição dos tempos correm contra o tempo escasso. Os minutos que marcam a salvação ou a morte.
Amanhece.

Queria perguntar-te pelo sol.


Queria saber se o sol está junto de ti hoje. Sinto que sim. O dia amanheceu a chorar aqui junto a mim. Os telhados a pingarem a água que os céus reuniram na noite onde me abandonei nesta cama que já foi tua. Aqui tudo já foi teu. E eu sou uma espécie de guardião da memória tua nesta casa. E a casa é demasiado grande e fria e vazia. Quase um museu dos sentires. Um museu dos afectos. Os museus não tem sentimentos, pois não? Nem seres vivos, pois não? Nem sentires, pois não? Nem alma, pois não? Espécies de depósitos de trastes e coisas velhas inúteis…
As palavras a ti.

Queria perguntar-te pelo sol nos teus olhos e já nem sei as palavras a ti. A falarem ao teu coração. A saberem de ti. Já não faz mal. Sou mesmo uma espécie de marinheiro tolo e doido, alucinado do sal no corpo. É o tempo que me faz assim, estranho também. Incompreendido. Incompreensível, sem tempo deste tempo. Coisa estranha esta. A tempestade no pleno Agosto a chuva forte. O vento que geme na chaminé, o grito da criança na noite e a voz. A voz da mãe. Tem que ser a voz da mãe.
Fico sem saber se o sol está junto de ti hoje. Mas também não sabia ontem, ou antes de ontem, ou no futuro. O futuro é sempre a minha angústia por não saber de ti, adiada. E quando adormeço nunca sei se acordo á tua beira ou se te invento para me sentir lúcido e vivo. Porque o que queria era sentir-me amado por ti. E já não és nada. Por fora de mim. Existes por dentro só, num lugar secreto onde existe o sol sempre, e o teu sorriso nos lábios, e os olhos brilhantes, e a tua pele, as tuas mãos, o teu perfume. Porque me dizes que não usas perfume? Não és a mesma pessoa que amei um dia? Mas o teu cheiro perdura em mim e no tempo. O teu olhar na noite quando me fitavas a quereres entrar por dentro de mim.
Que nos aconteceu?

De súbito desaba a trovoada e o céu chora neste Agosto ausente de ti.
Eu fico aqui, junto ao mar, como faço sempre. A envelhecer. Abandonado como uma carcaça de um velho barco. Na praia. A envelhecer de saudade. A envelhecer de amor. Nem eu sabia que o amor nos torna velhos e abandonados como os barcos que amo. Espécie de alma que os barcos já não tem…

João, praia de Fornelos 2007 Fotografias de Barcoantigo 2007

13 comentários:

Maria disse...

De súbito... acabei de ler um texto lindíssimo...
O último parágrafo ficou-me colado. À pele.
Sabes às vezes pergunto-me como é possível sentir desta forma o que outros escrevem...
Até a noite dia da tempestade veio ajudar, em Agosto, trinta e oito anos depois...

Um abraço, daqui, a choviscar...

*Marta* disse...

Meu grande amigo marinheiro, como gosto de ti e da tua nobre prosa que lida sem cansaço soa tão forte. Inspirada numa citação de Neruda, digo-te que me é indiferente onde te encontras, na tua prisão, nos caminhos ou na morte,porque nem os carcereiros,nem os guardas, nem os assassinos poderão apagar a tua voz já ouvida, a voz que tanto gritas nesta tua escrita.

beijo meu

Berta Helena disse...

Olá!
Naveguei até aqui. Foi por acaso. E não me arrependo. Como poderia com um texto tão bonito? Deixei-me cativar pela tempestade, "de súbito". Escrita bonita, sentimentos fortes tão bem passados à palavra, para saborear devagar, devagarinho.
Tenciono passar por aqui com frequência. Posso?
Um abraço
Berta Helena

Maria disse...

João

Indiquei o teu poema intitulado DA TUA AUSÊNCIA para o "PRÊMIO CANETA DE OURO – POESIAS 'IN BLOG' 2007", idealizado por ANDRÉ L. SOARES e RITA COSTA. Para conhecer as regras deste evento vê o link no meu blog. Participa, faz também as tuas indicações e, juntos, vamos construir um dos maiores eventos relacionados com a poesia, em blogs de idioma Português!

Um abraço, daqui...

Ana Luar disse...

Ai meu querido João... se o amor envelhece... desejo ser a mais velhinhas das mulheres.
Porque nada se iguala ao amor.

Deixo-te beijos, carregados dessa ternura que me inspiras.

maria carvalhosa disse...

Belíssimo post, João. Um dos teus melhores textos que já li. Ainda estou sob o efeito que o todo que aqui deixaste provocou em mim...

Talvez volte mais tarde, ainda que não comente, para te reler.

Beijos.

© Piedade Araújo Sol disse...

João

Belissimo texto.

Beijo da

Pi

tb disse...

E é assim que se alia sentir com a arte de o transmitir...
abraço daqui destas águas que nos maitigam saudades.

Catia disse...

Textos lindos e acho que tens plena noção disso ;)


beijinhos*****

M. disse...

Belíssimo!

APC disse...

(Chiiiuuu!... Não te incomodes. Este leve arrasto que escutas só sou eu que por aqui passo e já me vou).

Venho aqui colher o teu texto. Vou levá-lo comigo. Hoje de noite lerei. Amanhã de dia relerei. Depois, é claro, voltarei. É assim!

:-)

APC disse...

... E que sentida trova de vento e voo e chuva e frio... De um hoje que busca o ontem num amanhã que tarda e empardece o tempo.

"Aqui, todos navegam rumo a sul a afastarem-se da memória de ti".
(e)
"Eu fico aqui, junto ao mar, como faço sempre. A envelhecer. Abandonado como uma carcaça de um velho barco. Na praia. A envelhecer de saudade. A envelhecer de amor. Nem eu sabia que o amor nos torna velhos e abandonados como os barcos que amo".

! ! !

João, é difícil deixar palavras na troca das que se levam!...

Um abraço amigo!*

Mag disse...

Ah João, eu aqui de novo me encantando com tuas belas poesias..queria saber tb como está o céu de meu amor, q tão longe está de mim..e já não nos falamos a tanto tempo! sinto saudades!
Um beijo para vc, e ótimo final de semana!(ficarei mais um pouco pra te ler.)