sábado, novembro 10, 2007

Terceira carta a ti…


Já faltam poucos dias para fazer o caminho de volta, atravessar outra vez a península, e depois, se tiver forças, vou avistar o mar atlântico na nossa praia. Preciso de me reencontrar outra vez. O mar aqui a esta distancia é tão diferente e sem o brilho. Preciso de ver o brilho do nosso mar no sol poente, no acejo da noite e ficar ali a imaginar as catraias barra fora rumo a norte em busca da sardinha prateada. Os reflexos nas ondas frias lembram-me o teu olhar como um farol na noite a iluminar-me. Deixo-me ficar até ser noite fechada, espero as estrelas, a polar que me saúda novamente no esplendor da sua cintilação. Aprendi, com o tempo, a amar a madrugada, o frio da noite, a humidade do mar, a névoa que se levanta traiçoeira, a luz das estrelas, o nascer do sol a leste de mim. Mas é o brilho do teu olhar que recordo, que guia o pequeno barco onde vou ao leme, como um mestre à moda antiga, porque eu depois de o ver uma última vez já posso matar a saudade… morrer neste mar tão cheio de mágoas e de partidas.
Somos assim, pessoas sempre em partidas uns dos outros, inevitavelmente, e eu sinto-me sempre uma espécie de ser raro, a água de um rio represado a querer saltar e sair rompendo margens e barragens até á foz. Estranho. Deslocado aqui nesta cidade grande, e os conhecidos dos barcos de tempos antigos, são breves, porque são de mundos diferentes, de tempos diferentes, só os barcos nos unem verdadeiramente quando desfraldamos as velas e vamos no correr do vento contra a corrente ou ao correr da vaga, ai sim, somos todos iguais, homens, marinheiros, humanos no sentir, e quando regressamos, trazemos a felicidade no rosto. Os barcos têm uma alma própria pela qual nos enamoramos de forma avassaladora. Às vezes penso que tinhas ciúmes do meu amor pelos barcos, que te deixava, e ia ter com eles, assim uma espécie de amor secreto, uma amante em silêncio, que só precisava que dela se cuidasse com carinho para não sucumbir de vez. Os barcos não morrem. São como as pessoas, pertencem à família como mais um elemento, só morrem quando naufragam, quando o mar se revolta e se vinga da imprudência dos homens, só morrem quando não restar a ultima tábua com serventia. Nessas alturas, quando alquebrados pela espinha, de quilha partida, abandonados, tem morte inglória e terminam em labaredas muitas vezes, a alimentar a fogueira dos homens nas noites de São João e São Pedro. Recordo, quando era rapaz, de fazermos uma grande fogueira na rua e à vez, todos rapazes da rua e os das vizinhança saltarmos a fogueira, e depois irmos rua em rua aos gritos e correrias a saltar as fogueiras do São João, queríamos lá saber dos barcos que ardiam debaixo dos nossos saltos de gigantes.

Hoje não tinha tema de conversa para te falar, já me rareiam as palavras, me falha a memória das conversas que tivemos. Tenho medo de me tornar monótono, demasiado repetitivo, de te estar sempre a falar as mesmas coisas, uma e outra vez. A verdade é que já não me lembro, eu sei que só consigo falar de barcos, mas correm-me no sangue como espécie de glóbulos vermelhos, e sem eles não sou nada. Não vivo, sobrevivo.

Também não aprendi as falas do mundo, estas falas modernas, estranhas, frias, rápidas. O mundo a correr.
O que eu gosto mesmo é de estar sentado à roda de uma mesa na velha taberna com os companheiros a recordar. Dou-me conta que, cada vez somos menos. Já rareamos também, e as mesas vão ficando vagas, as cadeiras vazias, a sala em silêncio. As prateleiras esvaziadas das garrafas de aguardente e anis e ginja e licores que íamos bebendo nos dias frios pela manhã. Os copos alinhados meios velhos, as canecas secas escanadas, algumas sem asa, irremediavelmente feridas, sem poderem voar para as mesas, demasiado pó. As pipas de tinto e branco a deixarem cair os restos do vinho em gotejos nas torneiras de madeira gastas. Vejo também algumas aranhas recolhidas a um canto das teias que me parecem redes que já não pescam. As aranhas são pacientes contentam-se com pouco, sobretudo esperam…

Impera o silêncio a estremecer por dentro o corpo. O silêncio também assusta. Não te dás conta do vazio que fica em nós.
O silêncio.
Assusta-me já a ideia de falar, de escrever.
Dou conta que repito e repito as palavras. Mas se já não me escutas, se não lês o que escrevo mesmo a repetir-me, que me resta então senão o silêncio?

João, Barcelona 2007
Fotografia Barcoantigo 2005

5 comentários:

Maria disse...

Às vezes penso que os barcos podem ter alma, e o mar também. Vida têm com certeza, mas eu nem sei onde se encontra a alma que dizem que temos....

Um abraço daqui, em dia não...

Andreia Ferreira disse...

Resta o recomeço João...

Beijinho grande!

M. disse...

Lindíssimo..
E tu és mesmo raro sabes?

*

Su disse...

gostei de ler.t

jocas maradas...sempre

Aninhas disse...

Resta-te o mar e a praia e os barcos e os novos sonhos que se podem construir em qualquer ocaso ou madrugada.

Desta janela sobre o rio.