segunda-feira, dezembro 24, 2007

Uns dias antes do natal…


Resolvi sair de casa hoje. Agarrei nalguma roupa, coloquei tudo num molho na velha mala castanha pequena que a avó de Lisboa deixou ficar no natal passado, porque era velha demais para andar em viagens. Calcei as minhas chancas e vesti a samarra aos quadrados pretos e brancos que o avô me comprou na feira, e fui de ferias para casa da avó Liva, a carregar a mala às costas. Gosto desta mala de cartão com correias de couro e reforços de chapa preta nos cantos, é a mala das minhas aventuras. Lembro-me que foi na última vez que a avó de Lisboa veio que a mala ficou. A avó trouxe-me uma prenda dentro dela, um revolver de fulminantes dourado, e também fez a mãe chorar. Fazia sempre a mãe chorar quando vinha de Lisboa ter connosco. E depois o Pai é sempre por ela, faz-lhe todas as vontades quando ela está cá esquece-se de nós, e saem os dois para a Vila todos os dias, a avó chama um carro de praça preto e verde para a levar e trazer porque a avó gosta de beber o seu chá na Nelia velha e de comer os seus docinhos à tarde. Tudo à moda de Lisboa. Eu já fui a Lisboa, é uma terra grande sem estrelas no céu e fica longe, e só lá sei ir de comboio. É uma terra que fica no fim do comboio. Mas a avó de Lisboa é uma avó pequenina, com um chapéu enfeitado, e pintura nos lábios que ficam muito vermelhos, e eu não gosto dos beijos que me dá, nem do perfume que usa porque me cheira ao mesmo cheiro da cruz do menino Jesus na Páscoa. Mas eu posso escolher as avós. Eu tenho 3 avós, quer dizer tenho duas e uma bisavó e acho que tive mais uma que a mãe diz ser a tetravó, mas essa lembro-me pouco, só a vi deitada a dormir numa cama preta na casa de cima, coberta com uma renda transparente, e tinha um terço nas mãos e estava vestida de preto e tinha o cabelo branco e sorria, era a Madrinha, e tinha morrido porque estava velha, e os velhos na minha família costumam morrer. Também tenho dois avôs, mas só conheci um, porque o outro é militar e musico e saiu de casa da avó de Lisboa porque naquele tempo era assim, diz-me o pai que não gosta de falar dessas coisas, e às vezes, quando eu passo ferias em Lisboa na casa da avó, que vive no quinto andar da Luciano Cordeiro ela fala do avó porque eu pergunto por ele, e porque eu ando sempre a descobrir papeis escritos que eram dele, nos esconsos da casa, mas eu não sei o que eram, mais tarde soube que eram papeis de musicas que ele escrevia, porque este avô que não conheci ainda é musico da Guarda e também tenho uma foto dele. Ele é grande, fardado, do tamanho do outro avô, mas com o cabelo preto e todo engomadinho como a avó de Lisboa diz, e ás vezes ela fala-me dele porque eu queria saber dele, e ela diz-me de como ele era, e de como não gostava dos relógios, e eu achava piada, e ria-me muito quando ela contava que ele quando chegava de tocar nos clubes de dança que eu não sabia o que eram e queria dormir, ficava incomodado com o tic tac dos relógios e dizia; – Se não te calas! Já te dou o tic tac! E como os relógios daquela altura ainda não sabiam falar ele pegava neles e atirava-os para rua do alto do quinto andar, e acabava-se o tic tac, e no dia seguinte comprava outro relógio e trazia para casa. E eu um dia descobri um desses, azul, que fazia tic tac e também o atirei da janela do quinto andar para a rua, a ver se o tic tac parava, e fiquei sem saber o que lhe aconteceu, mas ainda hoje o tic tac dos relógios me incomoda.
O pai tem um irmão que ficou maluco novo, e um dia apareceu em casa da avó para passar o fim de semana e metia-me medo, e um dia fui visita-lo ao hospital dos malucos ali próximo mas não gostei, porque todos tinham um olhar muito triste, e vestiam uns casacos cinzentos pesados por cima de uns pijamas às riscas, e andavam de chinelos por lá, e não falavam comigo. E o pai tem uma irmã que é enfermeira em Africa, e eu não sabia onde era essa terra mas depois soube o que era Africa. Um dia a tia veio visitar-nos à Berlenga e tinha vindo da tal Africa com o tio e trouxe os filhos, uma filha e um filho, que são meus primos que eu nunca tinha visto, e não gostei deles porque são mimados, com manias de serem superiores a mim e aos meus irmãos, e que ficaram com o meu prato dourado da sopa e o meu prato dourado de comer e os meus talheres e o meu copo, e eu reclamei que eram meus, mas o pai não ligou e passaram a ser deles, e quando foram embora atirei-os ao mar, assim se voltassem de Africa não iam pegar nas minhas coisas, e a mãe não ia ficar triste. Africa era uma terra em que os miúdos da minha idade, meus primos, que eu nunca tinha visto, ficavam com as minhas coisas. Nunca gostei dessa terra.

Mas desta vez, no natal passado que a avó de Lisboa veio passar ferias a nossa casa e fez a mãe chorar, eu não entendia essas coisas, e um dia à mesa na cozinha onde comíamos disse que a ponte de Fão havia de cair para ela não passar para o lado de cá, e que o revolver devia de dar tiros a sério para matar os maus que faziam a mãe chorar, e o pai não disse nada, só olhou para mim com cara de mau, e a avó de Lisboa deixou de comer e disse: Oh! Oh! Oh! Três vezes, e depois não disse mais nada como o pai, e foi embora no dia seguinte, e o revolver desapareceu. E ficou a mala. E isto foi tudo no natal passado, e neste o pai foi a Lisboa montado no seu Moton branco, ter com a avó de lá que não quis vir cá, e não fez falta nenhuma, e eu resolvi ir de ferias para casa dos avós daqui pertinho da nossa casa outra vez, e hoje é sexta feira dia de cozer broa, e fui logo de manhã porque vou com os tios levar o gado para o campo e vou com eles aos tarrotes com a fisga que o tio João me fez, porque o avó gosta de comer um bolo com tarrotes apanhados pelo neto mais velho que sou eu, e depois o tio mais novo é o João, e depois o Fernando, e depois a Fernanda e por ai fora. Os avos tiveram 13 filhos e um morreu logo que nasceu, e dois emigraram para o Brasil com o avô quando fizeram 18 anos. O Alcídio que andava nos barcos e morreu quando eu estava na Berlenga. Eu lembro porque era o mais velho dos tios e a mãe falava muito dele e das saudades que tinha de o ver, e depois a mãe, ela, chorou muito na ilha durante uns tempos, e andou vestida de negro, e eu não gosto de negro nem de a ver chorar, e depois passou tudo e ela vestiu as roupas que eu gostava, porque a mãe é linda, a mais linda da ilha, e o outro, o Américo que conheci muitos anos depois e era igual ao avó mas mais novo, e antes do avô ter morrido, porque também era velho, tinha 78 anos e o cabelo branco, e não sei se sorria porque eu estava na tropa e não me deixaram ir despedir-me dele quando morreu…

Esta manhã apanhei quatro tarrotes gordos com a fisga, e fugiram-me uns quantos, e os tios apanharam mais tarrotes gordos, e dois melros, que vão dar um rico bolo de pardais com toucinho, e era já hora do almoço porque o sol estava a sul e não tínhamos relógio mas não fazia falta porque sabiam ver as horas no sol os tios, e trouxemos o gado para o eido, pelo Pinhal Careca que agora é um monte de prédios sem graça, e sem crianças para brincar. O avó tem quatro vacas e dois porcos, e um vai morrer este natal, e depois vamos a Barcelos à feira comprar outro para criar, e eu costumo ir a pé a Barcelos com a avó Liva e a tia Carolina e a tia Lores e mais umas mulheres das Marinhas e da Vila e vamos de madrugada em filinha e eu a correr e em passo miudinho atrás e à frente da avó e quando o dia clareia deixo de ter, assim, medo do escuro, porque é muito de noite e eu levo um candeio na mão com uma vela pequena que se apaga sempre que corro, e é escuro e a estada vai pelo monte às curvas e pelo pinhal alto e as arvores com o vento fazem barulho, e parecem os papões que a bisavó me conta nas historias, á noite, ao borralho, na cozinha a falarem comigo, e porque não passam carros para alumiar a estrada e demoramos duas horas e meia a andar sempre sem parar até chegarmos à feira de Barcelos que é enorme e bonita, e a avó conhece muitas mulheres como ela que vão vender as novidades, e fazer uns centos como ela diz. A avó não sabe ler nem escrever, mas sabe fazer contas de notas. Centos pra frente e centos pra trás, e às vezes também fala em cruzados, e um dia deu-me uma moeda de quatro cruzados, acho eu, porque a perdi muitos anos depois, um dia em que mudamos de casa e as minhas coisas, os livros, e as minhas colecções desapareceram. E ao domingo dá-me uma coroa que são cinco tostões e eu merco chupa chupas da tia Rosa na porta da igreja, que é ela que os faz e escolho sempre os chupas com feitios dos peixes que eu penso são os do rio, quando vou com o avô à missa, mas na missa não percebo o que o senhor padre diz, porque fala de costas para mim e fala numa língua que eu nunca ouvi, mas o avô explicou-me que é língua dos padres da missa e eu fiquei satisfeito, só ainda não compreendo porque é que o senhor padre Avelino que me baptizou e dá missa nas Marinhas e trás o menino Jesus na Páscoa a nossa casa, fala como o avô em vez de falar a língua dos padres da missa?

E depois da feira feita, as coisas mercadas pelo meio dia, voltamos no camião Volvo cinzento, velho, do tio Ferreira que é marido da Lores, e é também velho e tem um bigode preto como o pai, e é uma aventura para mim andar no camião e vir sentado atrás nos bancos de pau aos saltos. E o camião nos dias de chuva tem uma cobertura de oleado cinzento. Tudo cinzento.

Mas hoje é sexta-feira a ultima antes do natal, e vou ajudar a avó e a bisavó com a massa para fazer a broa e o avô a acender o forno. Gosto de ajudar o avó em tudo, porque o avó sabe das coisas do mundo, e gosto que ele me conte as coisas do mundo, e gosto das aventuras do avô por Africa e pelo Brasil, e por França e por Espanha, e por mais sítios que eu não sei onde ficam mas que devem ser importantes porque o avó lá andou a trabalhar. Depois de o avô me falar o que era Africa fiquei a gostar da Africa do avô que devia ser diferente da Africa da tia e dos primos porque o avó não me tirava as minhas coisas, o avó dava-me coisas o que era muito melhor. O avô era carpinteiro como São José, dizia ele, e agora já não é porque é agricultor, e tem uns campos grandes com vinhas, e campos de milho e de girassóis, e de batatas, e dois poços, um em cada campo. O avô quando o ajudo, trata-me por meu neto e por Paulinho que é o meu nome pequeninho, e mesmo quando eu já era grande, era sempre pequeninho para ele, porque os avôs são assim disse-me ele um dia, e explicou-me, sentados os dois no muro da avenida, ao lado do portão da eira vermelha que dava para o campo e a casa, a olhar-mos a foz do rio e o mar, que os filhos crescem e depois trazem os netos que também crescem, mas são sempre os seus meninos no coração, e eu naquele tempo não sabia das coisas do coração. Nem o que era o coração, só conhecia o dos porcos que matávamos, e o matador dizia que era como os nossos, mas eu desconfiava do que ele dizia, porque era um homem que vinha de madrugada, e trazia umas facas grandes embrulhadas num pano na bicicleta que era igual à do avô, e tinha uma voz grossa, e falava alto, e dizia muitos palavrões, e gostava de beber umas tigelas do nosso vinho. Não sabia muitas coisas que agora sei, e tenho pena de não ter aprendido mais com o avô. O avô era um sábio.

Um dia fomos os dois feirar na feira da Vila, o avô e o neto. O neto sou eu, e todas as pessoas lhe falavam, e ele às vezes tirava o chapéu quando cumprimentava uns homens bem vestidos de preto com ar sério, e ele nessa feira mercou-me umas chancas, que eram umas botas com sola de madeira e couro preto por cima pregado à madeira, que estavam penduradas a balouçar num cordel numa barraca de pano com um pau ao meio a segurar para não cair, a barraca era dum homem que o avô conhecia, porque o homem disse; – atão tio Américo como está vossemecê, veio à feira a mercar o quê com o seu neto? E o avô riu-se e fez-me uma festa na minha cabeça e no meu cabelo que era da cor do trigo. Loiro diziam as pessoas. Que eu parecia estrangeiro, mas eu não sabia o que era isso de ser estrangeiro e nunca me preocupou saber, e depois em casa o avô pegou nas chancas e calçou-as com umas tiras de pneu de bicicleta para eu não escorregar, e ficaram como as dele, e mercou-me uma samarra como a dele aos quadrados brancos e pretos e uma boina vasca como a dele, e quando a mercou, disse-me que já tinha sido em tempos contrabandista de boinas para Espanha, no tempo da guerra civil por lá, que as comprava numa fábrica que havia em Viana, e eu fiquei a saber o mesmo na altura, mas agora já não, porque sei o que foi essa guerra, e sei onde era a fábrica em Viana, e agora já não é porque a deitaram abaixo faz pouco tempo, porque estava abandonada, porque já não se usam boinas. E andamos às voltas na feira e depois fomos ver o gado, as vacas como as nossas, pretas e brancas chamadas vacas torinas holandesas, e outras grandes, com pelo castanho e uns cornos enormes que ele dizia serem piscas, mas eu hoje acho que não, que eram mirandesas, e os tourinhos e as tourinhas, e os porcos. O avô queria mercar outro porco porque o Ruço ia morrer estes dias para o natal. O Ruço era o porco, e era eu que dava os nomes aos animais, e na altura eram todos meus e o avô não se importava e dizia; – meu neto toma-me conta dos animais, e eu tomava conta. Também tive uma porca que se chamava dona Chica que também morreu e acabou em chouriças e presuntos.
Agora ainda uso uma boina como antigamente quando ando nos barcos e uns socos de madeira e couro. O avô andava sempre de socos no campo.

E um dia, antes da sexta feira antes do natal, aconteceu-me uma coisa com uma das vacas que o avô tinha, e que eu chamava de Preta, porque era toda preta, e era má pra mim, porque me olhava com olhos de poucos amigos, e eu gostava dela, e de lhe fazer festas como fazia às outras, e gostava de lhe tirar o leite como o avô me ensinou a fazer nas outras, mas às vezes dava-me cornadas e coices e dava-me com o rabo, e um dia pegou-me de lado pela roupa e voei, e cai na rigueira, e ia ficando afogado porque vi estrelas e terra e agriões de volta de mim, e fiquei todo molhado, e assustado, porque eu tinha a mania de me por às cavalitas das vacas, quando elas comiam dentro das rigueiras que traziam a água dos poços quando eles estavam cheios para o rio, e a Preta só me deixava fazer isso se eu fosse com a tal samarra aos quadrados, mas eu não sabia, mas descobri á terceira cornada, que foi a que vi as estrelas e os agriões na rigueira, e fiquei atordoado e ia morrendo, afogado porque fiquei tonto, e o avô deu com o cabo da enxada na vaca que a queria matar ali mesmo, e a bisavó veio aos gritos, e mais a avó, e mais as jornaleiras, e foi um burburinho, e eu todo molhado fui para casa no farol a correr, mas tive de voltar para a casa da avó, porque tinha saído de casa, e tinha levado a minha roupa toda que estava num molho, dentro da mala de cartão castanha que tinha feito a ultima viagem de Lisboa, o natal passado. Mas a mãe veio comigo. E o avô, neste entretanto deixou o trabalho do campo, pegou na bicicleta dele, uma Vilar de roda 28, e pedalou até às Marinhas a casa do Pastor, que era um homem que depois conheci, e que veio nessa noite buscar a Preta com um camião, e depois, uns dias depois, trouxe outra vaca pequenita que eu chamei de Tonicha, porque na altura havia uma cantora com esse nome e eu tinha visto na tv, porque o pai tinha comprado uma tv por trezentos escudos, o que era uma fortuna dizia a mãe. E o Pastor às vezes aparecia à sexta feira à noite, quando o bolo de sardinha saia do forno, e veio nesta sexta feira falar com o avô da troca das vacas, e comer bolo de sardinha, e foi quando eu fiquei a saber que a Preta tinha ido para o matadouro da Vila para morrer, e fiquei triste, só um bocado. Mas a Tonicha era mais bonita, e tinha uma estrela branca no meio da testa, que nas vacas é onde estão os cornos, e ficamos grandes amigos, porque ela não se importava que eu andasse às suas cavalitas, como via a moleira fazer à mula que trazia na sexta feira de manhã a farinha de milho à avó para cozer a broa.

Mas hoje é sexta feira antes do natal e vou ajudar o avô a trazer lenha grande para acender o forno e ajudar a avó a amassar a farinha de milho e fazer bolos de sardinhas e de tarrotes, e um bolo que eu vou fazer é para ele, porque eu fico contente quando ele depois, de tudo feito, tira os bolos do forno e os coloca sobre uma toalha na mesa, e a bisavó os cobre para não arrefecerem enquanto a avó com a gamela, volteia a massa para fazer as broas, e a coloca em cima da pá de meter ao forno, e lhe faz com a mão em cutelo um corte ao comprimento e as benze em cruz, enquanto o avô, certeiro, num movimento rápido as coloca dentro do forno vermelho de calor, enquanto a cora de brasas na soleira, não deixa o calor sair, e eu espero para fazer a minha broa também, porque tenho uma pá feita pelo avô que era carpinteiro e agora não, mas tem as ferramentas e me fez uma, e um banco como o dele para tirar o leite às vacas, e um sacho, para o ajudar a sachar o milho, e um ancinho para o ajudar no campo e na eira a virar o milho. E no fim da broa toda botada ao forno e a porta em ferro selada com massa do pão, o avó arruma as pás e o esfregão de pano de limpar o forno e arruma as brasas da cora no borralho e senta-se na mesa e diz um Avé Maria, e depois passa a mão, grande, pelo cabelo com umas grandes entradas na testa como eu tenho, porque pareço-me com ele, dizem, e enche uma malga branca com riscas azuis de vinho da caneca que o tio Passos foi encher à adega e começa a refeição. Começamos todos, e começa pelo bolo que eu lhe faço, pequeno, fininho tostado, com quatro tarrotes colados na massa e umas tiras de toucinho entremeado da barriga do porco salgado, e depois da primeira dentada diz sempre que o mimo que o neto lhe fez sabe bem, e eu fico com os olhos brilhantes de alegria porque gosto destes mimos com o avô. E depois de comermos os bolos de sardinha e os bolos com os tarrotes, e de a avó ter mandado bolos de sardinha embrulhados numas toalhas brancas, que eram de linho, e eu não sabia para as irmãs, numa ceira que é uma cesta de junco de antigamente, pelos meus tios que vão e vem a correr nas bicicletas deles, ficámos ali ao calor do forno e do borralho da lareira, que é onde se cozinha, nas panelas grandes e negras do lume, e onde um pote de três pernas gordo, com tampa fumega sempre com água quente, que o avô e a avó e a bisavó usam para lavarem os pés quando vem do campo, e é a bisavó que trata do lume.
A bisavó é uma velhinha mais velha que os outros todos, mas muito rija, e que tem uma cara feia, mas é bonita por dentro, porque é muito minha amiga, e eu sou o bisneto mais velho cá, porque ela tem outros no Brasil, mais velhos que eu. Ela tem uma cara feia porque tem o nariz torto, de uma operação mal feita, porque neste tempo as operações nunca são bem feitas. Eu até achava que ela não tinha nariz, mas tem, porque eu muitas vezes dormia com ela, e às vezes de noite dava um peido fedorento e ela dava por ele, e dizia-me logo, Paulinho isso não se faz, atão que falta de respeito pela bisavó, e de castigo lá tinha eu de rezar o terço outra vez. Rezava sempre o terço com ela antes de dormir, às vezes até ela ficar a dormir de tantos terços rezados seguidos, e um dia pensei que eram terços a mais, porque ela tinha um terço preto pra rezar todas as noites, e resolvi esconder o terço, mas não deu resultado, porque ela sabia de cor a ladainha e continuava a rezar o terço e a dizer que não sabia onde tinha guardado o terço. A bisavó era sábia também como o avô. E tinha um cabelo muito bonito, muito comprido e preto que amarrava num picho na cabeça, e tinha uns brincos grandes em ouro, e andava sempre descalça, e um dia muito tempo depois era eu grande, morreu também, como morrem os velhos da minha família.

Gostava de me sentar ao colinho da avó e depois quando estava cansado e com sono passava para o colo da bisavó que me levava para dormir com ela na casa de baixo. Mas antes de dormir nas sextas-feiras em que se cozia o pão, o avô contava histórias da África, e eram histórias com leões gordos, e homens pretos que eu nunca tinha visto e viagens de barco, uns barcos grandes que tinham de sair de Lisboa chamados Paquetes, e a mim metia-me confusão, porque o Paquete que eu conhecia era um pescador da Vila que tinha um barco parecido com o barco vermelho que o avô tinha para ir ao sargaço na praia de Fão, ou à botelha nas pedras do rio, para dar aos porcos. Depois ele explicou-me que não eram a mesma coisa, e fiquei a perceber. O avô explicava-me sempre muitas coisas. Gostava das histórias do Brasil, o avô trabalhou na construção de barragens no Brasil e falava-me das cobras enormes que lá havia que podiam comer um homem. Eu sabia de uma grande que andava no poço de cima e tinha a toca no meio das lousas, deixei de ir ao poço de cima não fosse a cobra comer-me também. Mas o avô um dia explicou-me que aquela cobra não fazia mal, que era uma cobra de água inofensiva que só crescia um metro e meio no máximo, mas mesmo assim já era maior que eu, e que as cobras do Brasil eram jibóias gigantes com mais de vinte metros, que andavam nos rios de lá, fiquei assustado com aquilo, eu gostava de andar no rio aos irões, e se me aparecesse uma cobra daquelas em vez de um enguio. Durante uns tempos deixei de ir só ao rio aos irões, e depois vi na tv em casa que aquelas cobras grandes não existiam por cá e deixei de ter medo de ir aos enguios nas poças do rio.

E nesta sexta feira também brinco com os tios às escondidas, e vamos até à praia até perto de rio de moinhos pela beirada da água, porque ás vezes encontramos pranchas de madeira grandes, que caem dos navios dizem eles, e cabos e bóias, e às vezes vemos se o rio trouxe gravalha para o lume, que é uma espécie de lenha miudinha, feita de ramos partidos, e de pedaços de vinhas e de juncos que seco arde muito bem.


E um dia cresci e fui embora como o avô me tinha dito que os filhos tinham feito, e quando voltei o avô já tinha morrido de velho, e a bisavó já tinha morrido de velha, e a avó já tinha morrido de velha, e a mãe também morreu, e o campo já não existe, e a casa já não existe, nem o forno nem nada, e esta historia já foi há mais de quarenta anos e eu não sei se aconteceu...



João marinheiro Natal 2007
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4 comentários:

Maria disse...

... e como tu escreves....

Beijo

M. disse...

É tão bonita!

M. disse...

Li metade e sabes que volto sempre para ler tudo. E que te leio sempre a sorrir porque estas são memórias tuas e eu tranformo-as em minhas também, noutros lugares, noutras pessoas. É o que o teu "memórias" tem de grande valor. E porque é hoje, quer queiramos ou não, Feliz Natal meu querido marinheiro!

PS: estou a ver que vou passar uma eternidade a mudar de nick..

Anónimo disse...

Oh João

Está tudo tão verdadeiro.

E tão vivo ainda...

Beijo da

Pi