quinta-feira, outubro 11, 2007

Da ultima vez...


Da última vez, quando vim embora. Regressei triste. Despediste-te de mim. Sabia que ias partir. Vi nos teus olhos nublados a tua partida breve, e eu, impotente, não tinha palavras para te convencer a ficar, aqui, na distância das minhas mãos, no calor do meu corpo, no estremecer dos sentidos.
Da última vez, o beijo breve fugidio que demos na face, foi um beijo de despedida, ácido, a queimar por dentro, e todo eu tremia, um arrepio frio no corpo.
Não deste por isso, porque tu, lentamente, também fechaste a emoção no quarto escuro do coração. E depois olhamo-nos longamente. Como que, a querer ver a eternidade possível que ainda resiste em nós. Segurei a tua mão durante um momento que me pareceu demasiado breve. Deste-me um abraço. Como só tu me sabes dar. Um abraço pleno a aninhar-me em ti, de encontro ao teu peito. Quase não falamos… Já não consigo olhar-te de olhos nos olhos como me ensinaste a fazer, quando eu te dizia, que tinha medo de olhar, olhos nos olhos a revelar-me. Já não consigo. E tu partes. Vais pela pequena rua deserta da tua cidade demasiado grande em mim. Fiquei aqui a ver as águas do braço da ria que escorrem. Dentro em pouco tomo o rumo da estrada para me afastar de ti e nem consigo dizer-te adeus.
Nem sei porque vim
Não sei para onde vou agora, assim, triste.
Já não sei de nós.
Só esta tristeza a minar o corpo. A entorpecer os sentires.
Da última vez, sabes, fui a medo ter contigo. Sentia-me estranho em mim e em ti, o medo de não te reconhecer. De não me quereres.
Não deveria ter ido.


João Outono 2007
Fotografia de Barcoantigo 2007

8 comentários:

Maria disse...

É quando olhamos olhos nos olhos que nos despimos de nós, de tão bem nos conhecermos.....

Um abraço, daqui...

Andreia Ferreira disse...

Pode ser que não tenha sido mesmo a última vez.. Não sei.. A vida está sempre a reservar-nos surpresas.
(Não gosto de despedidas)

Um abraço solidário.*

*Marta* disse...

Devias sim. Teres ido foi a melhor opção, e tudo se dá sem ser premeditado o que torna cada um dos instantes únicos; repetidos seriam um sinal de morte. Fizeste bem em ir. Mesmo que já nada reconheças, por uns momentos paraste o duelo contigo próprio.

Berta Helena disse...

Fiquei triste quando terminei a leitura. Mas acho que deveria ter ido, sim. opinião de quem está do lado de fora, claro. Quem sabe se não volta a alegria daquele abraço único?...

Um abraaço.

Aninhas disse...

A dúvida, a dualidade de sentires e quereres é o pior que pode acontecer. Ou se está de cabeça ou então algo novo, muito de mansinho, está a acontecer. Só tu sabes...

Deste rio

Bruna Pereira disse...

Há sempre outra última vez... Todos os dias. Porque cada dia é o último. Sempre. É como as ondas do mar..... Vá, um mergulho em mar limpo. E feliz!

:)

APC disse...

Belo, esse terminar do texto, como que sonhando uma tentativa simbólica de evitar um adeus que estava escrito que o seria mesmo sem ser dito.
E depois olhamo-nos longamente. Como que, a querer ver a eternidade possível que ainda resiste em nós. - brilhante!

Bruxinha disse...

O abraço, aquele que eu sei, aquele que tu sabes... um dia vais aprender a dar esse abraço...