quinta-feira, novembro 08, 2007

Segunda carta a ti…Ou não sei...


Tenho tantas saudades tuas
E cada dia que passa é mais um a juntar ao sonho.
Estou aqui, altas horas da noite em vigília, como sempre faço, quando tenho saudades e o sono não chega, e o corpo demasiado desperto do desejo teu. Olho o telefone e afasto a vontade de te ligar. Nunca atendes e eu já não sei se o número que guardo religiosamente é o teu ou ainda existe fora da minha agenda telefónica.

Esta é uma cidade grande, estranha nos primeiros dias, e eu tenho dificuldade em a compreender, e compreender a correria a que vive esta cidade. Esta noite é uma noite cheia de irlandeses bêbados, seguidores do Glasgow Rangers, amanhã há jogo com o Barça, e eles acompanham o clube, chegaram mais de 20.000 de avião. Sequiosos, ruidosos, libertos. O futebol tem destas coisas. Pena que eu não goste de futebol e goste de barcos. Velhos, antigos, abandonados. Sem multidões, sem espectáculo. Cheguei, faz pouco ao hotel. Fui andar a caminhar nas Ramblas, desisti do passeio e de me afastar de copos vazios e de latas de cerveja abandonadas e de gritos que mais parecem brados de guerra, de guerreiros vestidos de azul e pele branca e demasiado gordos a cheirarem a cerveja. Fico a pensar até onde vamos ter de chegar. Afasto o pensamento, estas reflexões enquanto caminho distraem-me de poder ver, poder olhar. Alheio-me também do cheiro intenso a batatas fritas e hambúrgueres, e das miúdas latino americanas que me dão o braço a convidar a uma noite de sexo fácil e rápido. Indolor, digo eu. Não sei se a vida é um negócio demasiado breve?

Desço ao metro, movimento-me nas entranhas da cidade demasiado apressada, aqui tudo é organizado, é fácil perceber como funciona. As pessoas correm, algumas sobem de dois em dois os degraus das escadas rolantes, sempre a correr, os minutos contados. O dia não deveria ter só vinte e quatro horas, porque decididamente não chegam. Aqui, no metro, enquanto ele rápido e frio avança estação a estação, eu olho as paredes do túnel, demasiado negras, escuras. Fora das estações tudo é negro. Não sei porque pintam assim as entranhas da cidade. Sentado junto a uma janela que é negra, olho as pessoas à minha volta. As pessoas não. Alheias á cor das paredes, são de todas as raças, e cores e sorrisos. Escutam música nos ouvidos, compacta, em formato mp3, falam ao telemóvel línguas estranhas, outras dormem, o sono que lhes foge na noite. Conversam. Os grupos de jovens com os seus risos contagiam, multiplicam-se os sorrires nos rostos diferentes. Eu observo maravilhado, e às vezes, dou por mim a olhar o rosto de uma mulher que por qualquer motivo me leva a ti. Imagino-te ao meu lado, sentada, enquanto o metro avança de encontro à próxima estação. O pensamento é demasiado breve, dois, três, quatro minutos no máximo, só o tempo da mulher que eu olhava e me fazia recordar de ti sair na estação desejada. Pestanejo. Acordo. Saio porta fora sem olhar para trás. Fico com o pensamento interrompido e sem querer, acho que é sem querer, começo de novo a procurar outra, onde possa pousar o olhar, a descansar a memória. Um retrato. Um rosto a imaginar que és tu. Sei que não és, que nunca és, descubro, passado que são, os breves momentos em que fixo os olhos e me lembro do teu rosto, por comparação com o rosto que vejo agora. A forma dos lábios não é igual, os teus são mais bonitos, a forma das sobrancelhas não são iguais, as tuas eram um risco a negro bonito, os brincos nas orelhas também não são iguais, tu usavas uns pequenos brincos discretos, e a tua pele brilhava de pura, e esta não, brilha do creme usado a disfarçar a idade penso eu.
Dá por mim a mulher e sorri, e eu, descoberto, desvio o olhar. Invento-te, e são estas pequenas invenções da memória, forçada, na comparação com o rosto de outras mulheres, que me permitem saber de ti, em detalhes, que só eu sei e percebo.
Desta vez, atravessei meia península para te inventar nesta cidade que fervilha de vida e de gente que sorri. Só não encontro o teu sorriso, porque já não me lembro dele. Podes perdoar-me um dia esta falta da minha memória?

E tenho tantas saudades tuas.
E cada dia que passa é mais um em que te invento cada vez menos. E depois ando na rua a olhar as pessoas, mas é como se não andasse, e que não estivesse aqui tão longe da nossa praia onde fui feliz com a tua companhia. Tão longe do por do sol e do cheiro do mar.
Aqui não consigo ver o por do sol, nem o mar como no nosso tempo. Acreditas que tivemos um tempo que era só nosso?
Ainda não fui ver o mar, e os barcos estão todos, quase todos, de velas içadas na esperança que chegue o vento e a água. Mas não navegam aqui, e deixam que as mãos curiosas das pessoas, os toquem, para que os sintam, e as crianças sobem a bordo, e são marinheiros, e piratas, e corsários por breves momentos, nos sonhos secretos que povoam a sua imaginação inocente e pura ainda. E os barcos contam-nos as histórias, revelam a alma, e às vezes, eu, conto a história dos barcos e das gentes dos barcos, porque lhes entendo a alma e a fala secreta. É por isso que estou aqui hoje com os barcos. A tentar contar a história para que não se perca a memória, já me basta perder a tua memória.
Tu, um dia, disseste-me que me conhecias como o homem do património marítimo. Que era assim que me ias recordar sempre. Lembras-te? Já não sei. Será que ainda gostas dos barcos que eu gosto, velhos, a desmantelarem-se. Poucos já, demasiado poucos na beirada do mar.
Aflige-me não saber e ficar com esta dúvida aqui, a minar, como a ferrugem mina o aço do costado do meu navio onde corri mundo.
Também já não sei para que escrevo a tentar falar-te. A inventar uma conversa contigo. Um dia escrevi para ti. Uma carta ridícula. Acho que era ridícula pois que era uma carta a disfarçar o amor de ti. As cartas de amor tem de ser ridículas dizia o Poeta, acredito nas suas palavras ainda. Era uma carta a falar-te da minha lembrança de ti, porque nessa altura também estava só, também demasiado longe, mas via o mar e o por do sol e sentia o vento e cheirava a maresia. Atravessava o atlântico, uma das minhas ultimas viagens a comandar o navio. Reformou-se. Tu não sabes. Estava demasiado velho, e lento, e obsoleto. O casco, demasiado carcomido do sal vertia demasiadas lágrimas de ferrugem. O progresso condenou-o, já não era rentável. Agora, depois de derretido e fundido, quem sabe, é parte de algum destes carros que aqui andam velozes e modernos, e eu, como não me pude fundir para reciclar, para algo mais moderno, fiquei junto ao cais da reforma, que é uma espécie de morte dos homens que já não fazem falta por terem sido ultrapassados pela idade o único tesouro que guardamos está na memória do saber-saber, aquele saber que não se aprende na escola mas com os dias que a vida nos ensina. Não quis governar um navio sem roda de leme, sem alma para o sentir, sem lhe ver a proa e o mar. Os navios de agora governam-se, com um joy-stick, uma espécie de jogo computorizado. A minha cabeça já não dá para essas modernices.

Estava em casa à espera dos dias monótonos. Falaram-me de vir aqui a falar dos barcos antigos. Aceitei. Afinal estava com todo o tempo do mundo e na nossa cidade já não te encontro. Gostavas de viajar, gostavas de Barcelona, de passear pelas Ramblas, vim à tua procura, um dia disseste-me que vinhas aqui muitas vezes, e que quando deixasses de leccionar era aqui que querias viver. Vim à tua procura. Agora já sabes. Não sabes, mas estou aqui meio perdido no Bairro Gótico a ver se te encontro. Por vezes passa uma mulher que me lembra o teu andar, mas ela não és tu, só uma semelhança, e eu que estou velho e lento deixo o poeta escrever estas coisas, porque imagino que vais ler um dia as minhas memórias póstumas.

A cidade é demasiado grande sem ti e eu confesso que me sinto perdido.


João marinheiro

Barcelona Novembro de 2007
Fotografia de Barcoantigo

3 comentários:

Maria disse...

Excelente texto, João.
Não conheço ninguém, do mar, que goste tanto de barcos como tu...

Um abraço daqui, enquanto não volto para te reler...

Andreia Ferreira disse...

A saudade que sangra pela ausência. Especialmente que fica desconhecido.

(Um abraço de quem pensa ainda perceber cada uma destas linhas...)

***

Bichinho disse...

Beijo fantasma.