sábado, julho 15, 2006

IV

Quero dizer que te amo.
Para que saibas. Que te amo. Não me importa o que penses já.
Quero dizer-te só isto. – Que te amo
Como te quero…
Agora que recordo o reencontro de ti e as saudades dilaceram por dentro. Agora que sustenho as lágrimas teimosas. Agora que me dou conta da dor da tua ausência. Porquê agora tão tarde para nós? Demasiado tarde para mim. Sinto-me cansado e velho por dentro. O olhar fina-se sem brilho sem o fulgor de outrora quando tu de olhos nos olhos me dizias que era o teu amor, já nem sei se alguma vez o disseste ou se invento tudo, tenho uma cabeça confusa. Mas a dor que sinto por ti. Dás-te conta da intensidade da dor que sinto?
Porque te foste embora prometendo regressar. Porque deixaste de me falar. Confesso, senti que te perdia na gare daquele imenso aeroporto quando passaste a porta sem olhar para trás. E eu perdido na esperança da tua volta, fui ficando esquecido. - Olha o resultado!
O importante foi reencontrar-te. A maneira como te reencontrei, estava escrito nos astros, nunca o imaginei, nunca me tinha passado pela cabeça, e estavas ali. Eras tu! Levei um tremendo choque, quase me caiu o coração aos pés, eu que sou um homem habituado a emoções, confesso que não estava preparado. Amei-te mais ainda naquele momento em que te vi.

Encontrei-te por acaso. Podia ter sido ontem, ou um dia qualquer igual, o destino não quis assim. Foi hoje, ao final da tarde, davam-se os últimos retoques para a exposição das jornadas que nos tinham levado ali. Tu uma primeira vez, soube depois. Eu passados vinte anos, mais ano menos ano, à terra onde tinha vivido. Ainda me sentia em casa, embora a casa estivesse arrumada de maneira quase irreconhecível, o betão deu lugar ao pinhal, os antigos espaços enormes desapareceram, estavam entalados em ruas e prédios com uma estética de mau gosto…
Nem de propósito. O motivo que nos levou ali, património e urbanismo, qualquer coisa como jornadas ao redor do tema.

À última da hora resolvi ir, não que este tipo de tema me fosse interessante. O meu património é mais barcos e água. Sou um marinheiro ausente, pois o mar não é a minha profissão, mas o meu imaginário…
Não conhecíamos ninguém. Isto, o princípio é assim difícil, no princípio o desconhecimento é total. Desconhecia-te portanto, nunca tinha escutado a tua voz.
O Xico, o homem das jornadas salvou a situação fazendo as apresentações, soube assim que tinhas tinha vindo de fora: uma estrangeira? Por isso nunca te encontrei pelo Porto….
Achei interessante esta perspectiva de vida, uma outra cultura, uma outra civilização, um outro modo de viver a vida, um olhar diferente das coisas.
Todas estas interrogações não passaram de flashes que me ocorreram ao pensamento à velocidade de um comboio rápido. O importante no momento era descobrir quem eras, ou melhor, verificar se falavas por detrás do teu sorriso terno. O mesmo sorriso que me perseguiu a memória desde aquele dia na foz…
Falar, falavas. Pouco de cada vez. As frases sintéticas e resumidas, davam azo a que se imaginasse um mundo novo ou um mundo de mistério à tua volta.
E isso era interessante. Apelativo. Eu tinha de saber quem eras. Como te chamavas, o que fazias, porque estavas ali. Necessitava urgentemente de saber e tu sentiste algo em mim, pressentiste isso. Muitas perguntas me passavam num repente pelo pensamento, porque sou assim, um tipo de muitos pensamentos, muitas interrogações. Mas tu sentiste. Porque sorriste e me disseste. - Eu conheço a sua cara. Obrigado por me salvar de ser atropelada….E eu surpreso, disparei em piruetas por dentro, tu deste por isso, tu descobriste o meu segredo e jogaste a teu favor…Lembravas-te de mim este tempo passado.
E ainda dizes que já não sou o teu amor…não te importas que te guarde cá dentro, que envelheça diariamente na ausência de noticias tuas…
Já não queres saber de mim…
Já não existes. Sobrevives em mim porque te amo ainda. É essa a minha realidade pessoal e intransmissível
Sobrevives em mim…


João marinheiro ausente

7 comentários:

tb disse...

Que lindo, João!
Começa a fazer-se luz!
Beijos com flamingos em voo livre...

Mendes Ferreira disse...

olá marinheiro....sobrevivente...



deixo um sorriso a navegar....enquanto me ausento uns dias....


volto depois. para este porto que espero seguro...:))))

free emotions disse...

estas cartas de amor são necessárias para seguirmos em frente!
a tua alma de marinheiro deve possuir mares que merecem ser navegados
bjs

Ana Luar disse...

Lavas as palavras pinta-las de cores diferentes... mas continuas repetitivo... digo isto... e vou dizer-te sempre, até que encontres as palavras que ontem me disseste que já não tens...

Mas admito que continuam lindas as cartas que escreves aos teus amores.

Ou não fosses tu marinheiro... um amor em cada porto...
:)

Ás vezes pergunto-me em qual papel te enquadrarás melhor...se no de "marinheiro"...se no "vendedor de sonhos"... como um dia te chamei.

Beijo-te meu querido amigo... na esperança, que encontres o sonho... E o vivas!

Claudia disse...

E porque eu não quero que sobrevivas em mim...mas sim que vivas em mim, estou aqui, como sempre estive. Nunca te deixei. Tu é que o sentiste assim... Porque as saudades tropeçam-nos e transformam-se em ausência, mesmo quando essa ausência não existe.
E não existe. Porque eu estou aqui. Para ti. Como eu sei, que tu estás aí para mim...

Beijo João enquanto renascemos juntos

Poesia Portuguesa disse...

Por um breve momento ao iniciar a ler-te, as palavras levaram-me para campos obscuros da minha memória...
E, recordei um Poeta que tão bem descreve o Amor, real ou não, sentido ou não... deixo-te aqui um dos Poemas que mais gosto dele...com um abraço de amizade...;)

"Aqui te amo.
Nos sombrios pinheiros desenreda-se o vento.
A lua fosforesce sobre as águas errantes.
Andam dias iguais a perseguir-se.

Desaperta-se a névoa em dançantes figuras.
Uma gaivota de prata desprende-se do ocaso.
Às vezes uma vela. Altas, altas estrelas.
Ou a cruz negra de um barco.
Sozinho.

Às vezes amanheço, e até a alma está húmida.
Soa, ressoa o mar ao longe.
Este é um porto.
Aqui te amo.

Aqui te amo e em vão te oculta o horizonte.
Eu continuo a amar-te entre estas frias coisas.
Às vezes vão meus beijos nesses navios graves
que correm pelo mar aonde nunca chegam.
Já me vejo esquecida como estas velhas âncoras.
São mais tristes os cais quando fundeia a tarde.
A minha vida cansa-se inutilmente faminta.
Eu amo o que não tenho. E tu estás tão distante.
O meu tédio forceja com os lentos crepúsculos.
Mas a noite aparece e começa a cantar-me.
A lua faz girar a sua rodagem de sonho.

Olham-me com os teus olhos as estrelas maiores.
E como eu te amo, os pinheiros no vento
querem cantar o teu nome com as folhas de arame."

(Poema de Pablo Neruda)

A. disse...

João...vou andando.
está na hora de descansar.está na hora do sol e de mar...está na hora da pele se sentir quente e queimada.tentativa de olhar o mundo com olhos mais simples e nítidos.um silêncio...um limpar de coração.

Vou para a ilha...aquela que lá está.cores lindas e um mar quase tão quente como o sol.

Um beijinho para vocês os dois.
Para ti e para a C.

;)