segunda-feira, julho 31, 2006













Conversar contigo hoje dói-me. E torno-me bruto nas palavras contigo. E tu não mereces que eu seja assim contigo. Mas hoje especialmente falar contigo dói-me. Porque sei que vais embora e eu fico aqui em suspenso. Porque sabe bem ter-te por perto, e já não estás nem perto nem longe. E fico em suspenso de ti por uma fracção de segundos, és minha e eu teu. E tinha um tempo um tempo antigo, que recordo, em que ficava em suspenso e era livre, e hoje recordo esses momentos da infância com uma nitidez que assusta. Voava na ponta do cais num mergulho perfeito, um acto temerário que só os mais fortes e ágeis executam, e nos segundos que antecediam a queda vertiginosa era livre e ficava em suspenso, é essa forma que fico agora entendes, é essa forma que gostava que entendesses quando te digo que fico em suspenso sempre que vais embora de mim. A diferença agora é tremenda, ao cair o chão é pedra e antigamente era uma água límpida e fria que fazia estremecer o corpo, despertar os sentidos. Gostava de mergulhar fundo até ao limite. Sempre gostei de ir ao limite no mergulho, os pulmões sufocados, o peito a arder. E eu ébrio da profundidade subia em flecha até sair fora de água, espécie de golfinho com braços…
Agora não faço isso, deixei de ser temerário, deixei de ser forte e ágil. Mas gosto de ti, e isso é um acto de coragem, o assumir esse gostar. Mas conversar, tentar conversar contigo hoje dói-me, e estou demasiado cansado para me proteger da dor. Não é uma dor física, uma ferida gotejando, é uma dor estranha de ferida interna, que mina as forças e a vontade.
Eu sei que amar é um acto egoísta. Quero-te só a ti.
Existem tantas pessoas carentes de amor e o meu é só teu. Porque te quero só minha.
Amar é ser egoísta. Porque te quero só minha. Gosto tanto de ti. Contento-me com tão pouco. Basta-me estar sentado numa mesa perto de ti olhando-te, mesmo que não dês por isso. Basta-me para me encher de amor por ti, encher de ti, da tua presença, do teu perfume, porque a fragrância perdura no ar…
Conversar contigo hoje dói-me, como me doía ontem que não estavas, ante ontem que continuavas a não estar, ou amanhã que não sei se estarás. E fico bruto comigo nas palavras contigo que escrevo agora, na esperança que um dia possas ler e saberes que aquele que estava sempre sentado a um canto no teu café preferido, estava à tua espera mesmo que nunca tenhas sequer olhado. Esperei-te sempre, dediquei-te a minha escrita, os meus versos pobres. E tu, cada vez mais bonita, e eu, cada vez mais desesperado por te amar assim. Que vai ser de mim agora que sei que partes. A quem dedico os meus versos? Estive sempre na esperança de um dia os leres, acho que não te interessa a leitura…
E conversar contigo hoje dói-me…

João marinheiro ausente 30/07/06
Fotografia Google

4 comentários:

tb disse...

Tanta coisa para aprender, João!...

Claudia disse...

Bruto? Não digas tal coisa! Nunca sucedeu tal coisa. Mais frio talvez, se bem que não chega a ser isso, pois não é por uma questão de sentimento que o fazes.
Simplesmesnte porque as saudades ainda aumentam mais com a minha breve partida. E dói. Sei que te dói. Sabes que me dói. Sabemos que nos dói e custa ainda mais, porque a ausência ainda é mais prolongada.

Mas gosto tanto quando afimas que é um acto de coragem, o dizeres que gostas de mim. E é mesmo sabes? Seria sempre. Mas ainda é mais porque se trata de ti. Tu, tímido, reservado, que não eras este, que não eras tu. Que não o afirmarias e agora fazes-lo. O ditado já o diz:"O amor move montanhas", e é verdade!

Eu percebo que me queiras só para mim assim como eu te quero só para mim. E nessa medida te deixo dizer que o amor é egoísta. Porque em tudo o resto, amor e sinónimo de altruísmo...

Ao contrário de ti, não me contento com pouco. É certo que a tua presença em mim, o teu olhar, a tua voz me enchem, de uma forma que quase me sinto a transbordar...Mas falta sempre algo. Quero sempre mais. Quero-te sempre mais um pouco. Com o simples gesto de olhar para ti, dou comigo perdida na tua boca, nos (a)braços, perdida...

Mas deixa-me corrigir-te quando dizes que eu parto. Parte quem não volta. E eu nem chego a saír. É o tempo de um acordar mais demorado...

Os teus versos? Vão ter o mesmo destino de sempre. Vão ser lidos. Inclusive, por mim. Mas, agora sim foste injusto. Como dizeres-me que não me interessa ler-te a ti? Ler muitas vezes a nós? Aí sim, foste injusto... Mas o amor tem destas coisas. Quando nos troca as voltas, por vezes também nos troca as palavras. Porque eu sei que não era isso que pensavas.

Assim, reune-os todos, para para ultrapassar a tal marca, para tudo passar com o tempo de uma onda, que tão depressa vem como já foi...

E conversar contigo hoje como sempre aquece-me por dentro...

Ana Luar disse...

Este texto fez-me lembrar o livro de Júlio Machado Vaz " Estes Difíceis Amores"
Por ser extenso... envio-te por mail uma parte fabulosa do livro que sei que vais gostar.

Su disse...

todos nós conhecemos a dor....mas há sempre dois pontos de vista....

jocas maradas de palavras gastas