quinta-feira, julho 13, 2006

III

Perdoas-me?
É importante saber pedir perdão. É importante saber que me perdoas.
Mas a tua memória dói-me. Entendes. Dói-me. Lateja dentro, e fico furioso comigo mesmo. Perdoas as minhas palavras agressivas de há pouco, a minha raiva a minha fúria, foram saudades impotentes. Tu já não estás…e eu ainda não me habituei completamente a isso, ainda olho o teu retrato junto da jarra de cristal, lembras? Que tiramos em Santa Luzia, um dia que fomos ao norte, naquele fotografo que até já falou na Tv., por ser o único fotografo à lá minuta, ficaste bonita sentada no cavalinho de pau e eu perco-me a olhar para os teus olhos que brilhavam. Já te disse que gostava dos teus olhos de olhar doce. -Já? Nem sei se te disse. Agora digo e não escutas o que te quero dizer…
A vida tem destas coisas. Não sei o que me custa mais no momento, a saudade ou a ausência tua. Sim. Porque nunca estás. Já não estás. Nunca estiveste verdadeiramente comigo.
Essa a realidade a que tenho de me habituar. A tua ausência dói-me.

Como te reencontrei. Como te revi. Lembras amor. Posso chamar-te ainda de amor? És sempre o meu amor que guardo no coração, disse-te um dia quando te despediste, és o meu amor ainda, por isso te chamo de meu amor, se não gostares paciência, o que está feito está feito. Gosto de te rever assim, gosto de te falar assim… Mesmo não sabendo onde te encontras faz tanto tempo. Demasiado já
Lembras como te reencontrei. Lembras? – Diz-me que ainda te lembras!
E tinha passado já tanto tempo. Um, dois anos? Não sei. O importante foi que me reconheceste, guardo as tuas palavras: – Obrigado por me salvar de ser atropelada na passadeira. Recorda-se? No porto junto à foz, que pena já não se lembra…
Como não lembrar-me. Como não? Não acreditava que te tinha ali, e perseguiste-me a memória. As voltas que dei na tentativa vã de te encontrar, corri não sei quantos dias a foz de trás para diante de diante para trás… Sei agora porque nunca te encontrei, sei. Tu disseste porquê…

O mundo gira redondo exacto. Inevitavelmente podia acontecer, aconteceu.
Eras tu. És tu! Demorei a raciocinar. O pensamento parado, branco. O cérebro em off tolhido pela surpresa. Eras tu a mulher dos olhos doces que eu fitei um dia.
Como te procurei na nossa cidade grande. Nunca te encontrei, e agora passado este tempo estás ai na minha frente sorrindo.
Quem és? Olho. Preciso saber quem és. Dizer-te que desde o dia em que vi na passadeira vives por dentro de mim. Preciso de ti… A tua ausência é uma ferida aberta ainda que sangra ao menor esforço. Não tenho já maneira de estancar o sangue que brota em lágrimas escorrendo, não tenho já um sulfamidas milagroso para cicatrizar o que sinto.
Perdoas as minhas palavras de ontem?
É importante saber perdoar, é importante saber. Fico com o coração reconfortado mesmo não sabendo já de ti. Tenho sempre a esperança de te encontrar de novo na foz, passeio-me por lá mas tu nunca estás. Não sinto o teu perfume no ar. Não escuto o teu riso ao longe, os que escuto e são muitos, não são o teu riso, tens um riso inconfundível com sinos e brisas que ressoam por dentro como o som da água na cachoeira, reconheço-te entre mil. Pena que nunca te escute. E a tua vos meiga serenava-me até adormecer nos teus braços. Como te quero…
João marinheiro

4 comentários:

tb disse...

Às vezes passamos pelas coisas sem as vermos...

Ana Luar disse...

Não peças perdão...

para quê teimar
se recordar demais
é dar em louco
melhor é não viver
do que sofrer assim
de corpo inteiro..

Beijos João com o carinho que me conheces.


Está lindoooo esse teu momento descrito em palavras.

Claudia disse...

Quero dizer-te uma coisa simples como a tua ausência dói-me.

Esta frase não me larga, nem a ti, nem a nós...

Esta palavra. Ausência. Dói.

Bonitas as tuas palavras em jeito de história!

Beijo

cinza disse...

Empolgante e de uma voracidade... uma descrição simples e tão recheada... Optei por comentar aqui... o continuar do texto é persuasivo e belo...
Ah lobodomar, lobodomar, vês que ainda há muito mais para soltar antes de encerrar o blog precipitadamente?

Cumprimentos