quinta-feira, junho 07, 2007

Carta ridícula...


Às vezes escrevo cartas.
Gosto de escrever cartas sentidas e imaginar o efeito das palavras nas pessoas a quem são dirigidas. Na maioria não obtenho respostas, não sei o efeito, acho que o destinatário é um ser imaginado por mim. Por vezes brincamos com as palavras sem medir as consequências. Esquecemos que existem pessoas que estão do outro lado das palavras …
Mas escrevo cartas. Acho que vou sempre continuar a escrever cartas. Umas de amor outras de desamor outras de despedida, outras desesperadas de saudade.
Esta é uma carta ridícula a esta altura em que me sinto ridículo a escrever outra carta que eu não queria ridícula mas de saudade. Uma carta de saudade ridícula.
Esta é uma espécie de carta de amor. Breve.Vazia. Sem amor nenhum. Só saudade em cada letra. Saudade em cada palavra. Saudade em cada linha e em cada folha cheia de palavras a disfarçarem o amor, a tornearem a saudade, a fintarem o tempo. Esta é, afirmo, uma carta ridícula. Vazia de amor. Do nosso amor. Que posso fazer mais, além de não te deixar morrer por dentro, seco da sede de ti. Custava dares-me a mão e guiares-me nas noites frias ciclónicas, que enfrento em cada noite que te sonho e desejo. É que eu já não sei o que mais faça. Se desisto. Se me abandono. Se fecho os olhos definitivamente e deixe que as lágrimas brilhem exaustas da saudade.
Esta é mais uma carta, mais uma só a juntar a tantas outras que colecciono, uma colecção de saudades, de sentires angustiantes, de mortes. Morro em cada palavra que te escrevo vestida do negro da ausência.
Que me fizeste?
E eu que me parece, partiste ontem.


Peço-te um momento e ele é um momento do mundo sem tempo. Ficam as palavras de novo. Sempre as palavras. As palavras são assim espécies de rosas coroadas de espinhos em nós.
Hoje não me recomendo para companhia. Persegue-me a saudade como uma nuvem negra, espécie de bicho papão que me assusta.
Estou desesperado. Olho o telefone não sei quantas vezes ao dia na espera de noticias que já não chegam.
Liguei-te e atendeu o gravador frio a falar inglês. E eu fiquei mudo, parado, estático. Quantos anos se passaram.
E eu que me parece, partiste ontem…


Parti também. Fui atravessar o mar…
A última viagem foi difícil e longa.
Estremeço. Sinto o estremecimento do navio, e aqui no meio do oceano neste dia de fúrias e ventos e angustias e medo, é em ti que penso e no último acto antes de embarcar. Tenho mais medo do gesto simples de te ligar que enfrentar esta tempestade monstruosa que me quer engolir junto com o navio cansado. Fecho os olhos em cada investida. Sob os meus pés todo o navio estremece quando as vagas medonhas se abatem sobre nós. A máquina principal trabalha certa, alheia à fúria do mar. Gira precisa, e o navio avança por entre gritos, estilhaços de espuma, silvos do vento e muitos medos. Os nossos medos recolhidos que estão no corpo cansado. Na ponte atento, olho a agulha, os imensos mostradores, as coloridas luzes que piscam. O ecrã do radar descortinando o imenso vazio sem um eco, só o ruído do tempo. Aqui, longe de tudo de todos, os medos que sinto em terra, quando me perco pelas ruas do Porto em tua busca, imaginando que na próxima esquina te vou encontrar. Aqui despido das emoções e das ternuras, sou frio como o aço do casco e tento ser um só com o navio cansado e com a máquina/coração que nos leva singrando por entre a fúria. Tu não sabes da beleza que é o mar assim furioso. Não tenho palavras para te escrever disso, é preciso sentir entendes. Sentir na pele e no olhar este mar. Beber o sal, ficar ensalitrado até aos ossos. Os pulmões inebriados de maresias. Sou um lobo-do-mar solitário já. Só tu és plena na companhia que me fazes na memória. Por isso enquanto o navio avança te escrevo esta espécie de carta, confissão, desabafo para vencer o medo. Para te sentir próxima. Não te conto as novidades por não existirem e não te interessarem. Não pergunto por ti, por não obter resposta. Não sei de ti porque já partiste e não vou em tua demanda. Espero só que regresses, porque quando regressares eu estarei cá para te receber de braços abertos e o coração pleno do amor que juramos um dia.

João marinheiro 2007
Fotos de Geno

6 comentários:

Phoenix love you disse...

Ainda que quisesse libertar-me do fascínio que as palavras exercem em mim, tal tarefa revelar-se-ia ciclópica e quiçá, impossível. Elas tocam-me profundamente, sobretudo quando assimiladas de coração aberto.
São como uma viagem. Quantas vezes não queremos viajar para longe em busca de aventura, exotismo, silêncios…

Desconheço se a minha primeira carta chegou até ti mas algo me diz que sim. Talvez pela serenidade que me atingiu nos dias seguintes. Mas creio que a carta também passou por mãos alheias e quebrou-me o sossego. Toda a gente quer saber quem és,apesar de eu ter dito que és fruto da minha imaginação. Poderia se quisesse, dar-lhes razões de júbilo escrevendo tudo o que sei sobre ti, e nas minhas palavras só leriam o meu fascínio, a minha maravilha silenciosa e as virtudes com que foste coberto.
Mas não quero que sejas cobiçado.

És uma mente que fala à mente? Fitas o que não vês? Escutas o que não foi dito? Tens memórias com igual significado de todas as palavras comoventes que trocamos mesmo tu morando num mundo qualquer à parte e distante? É triste que os caminhos se tenham separado nas encruzilhadas.

E quem somos? Duas almas rolando pelo espaço sempre em desassossego até se unirem para formar um universo só delas. Que sonham com a evanescência e saboreiam a tolice das coisas. Que vivem em esperanças sufocadas pelo medo e por desejos que não ousam reconhecer...!

Um mundo como o meu privado da tua presença na minha mente é-me inconcebível. A ternura das palavras que me deixas serena-me, reconforta-me e restaura a minha autoconfiança. Não me desapareças, nunca...

tb disse...

Sim, as palavras que nos saltam do peito e tomam vida própria para ilustrar imagens belas de um mundo que vamos percorrendo de saudades...
Abraço saudoso

Marta disse...

Como é que se regressa se nunca se chega a partir? Como é que se chega se não se sabe o caminho?
Só o medo é ridículo, nunca o amor. Será o medo fruto de um amor tão desconhecido e intenso?
Duas almas em desassossego Poeta, melhores palavras não encontraria.
Perdoa invadir as tuas palavras mas encontro-me nelas, talvez a ternura das palavras seja tão rara que aportei em ti num último gesto de sobrevivência.
Um abraço de mar

Maria disse...

Perdi-me nas fotografias. Perdi-me.
e esqueci as palavras...
vou ler-te outra vez...

maresia disse...

às vezes também escrevo cartas. depois deito-as ao mar... se calhar é poluição mas, ali, sei que estão seguras.

Besnico di Roma disse...

Não haveria homens no mar, se não houvessem sereias em terra nos olhos de um marinheiro
Belas fotografias, magnificas. Excelentes textos.

Não sei se é loucura ou medo
o que nos faz andar no mar.
Sensatez é procurar a morte,
p’lo medo de não te encontrar.

Um abraço João