sábado, junho 10, 2006

ESTOU EM SILÊNCIO
















Estou em silêncio
De olhos fechados
Medito ou alheio-me do mundo
Escuto a melodia dos pássaros matinais
É a mais bela orquestra tocando nesta manhã de Outono que desponta
Um dia cinza e azul, com chuva miudinha
Faz uns momentos que despertei
De olhos fechados, abandonado ao calor apetecido dos lençóis
Vou adiando a jornada
As horas correm, tenho um intervalo de tempo cada vez menor
Num repente salto da cama que tinha por companhia e parto
Enfrento de novo o mundo e as noticias que escuto na rádio
Acidentes, desastres, tremores de terra, mortes, guerras…
Assim reconfortado, pelas noticias que ouço
Acelero a fundo, de novo em corrida com os traços descontínuos da estrada
Desta estrada rotineira da minha vida presa, e em círculos de volta da memória
E enfrento a obrigação de mais um dia de trabalho
Então despido da armadura que me protege
Sou um imenso operário em construção
Despido de mim mesmo, ou em conflito permanente
Com o operário e o patrão
Ligo a máquina ruidosa
O imenso forno em brasa
O balancé ou o torno. A imensa serra de longos dentes cariados…
O maçarico de corte. E corto de cima a baixo, e separo
As entranhas deste imenso navio que sou
Milhares de tubos, rebites, chaminés, vigias, mastros, e paus de carga
A carga imensa de um dia de trabalho intenso, e de suores frios
Correntes de ar, poeira e fumos. Imensos fumos matinais
Dos cigarros caídos nos lábios roxos
Nas mãos gretadas, calejadas
Nos sulcos das rugas no rosto velho
Na barba cinza por fazer, no desalinho dos cabelos oleosos
No olhar. No olhar parado. Finito no tempo!
O olhar sem brilho, do brilho de outrora
Na sabedoria dos anos que passam
Então convencido pelas evidencias
Sou um imenso operário especializado
Em nada!
E no intervalo da vida, pelas dez e trinta certas ao tocar a sirene, paro!
Sento-me, fico em silêncio
E em silêncio desperto desta nostalgia ou do torpor que me consome
Desta maquinaria imensa e exacta de ruído febris
Das conversas, do futebol, das mulheres dos outros, dos engates…
Desconheço-me de novo, e ando sempre à descoberta de mim…
E deixo o corpo, este de carne e osso e prisão
E então vagueio elevo-me e pairo, bem por cima das cabeças que pensam, dos outros
E escuto, e ouço o que se diz, e concluo
Nem sempre o que se diz é o que se sente, ou a verdade, mas isso é segredo meu…
E assim, possuidor do segredo ou da verdade revelada, compreendo
A falta de brilho nos olhos
Ou a ausência do sorriso
O porquê das rugas
O cansaço permanente
Então maquinalmente, pelo hábito, ou impelido por estranha força
Desligo as máquinas
Paro o torno que girava em contínuo
Ou o balancé, que sempre iguais, cunhava as mesmas peças. Milhares!
Verto a última gota de metal líquido, um bronze para a imortalidade
Do operário ilustre, mas desconhecido
E penso, e olho, e beijo
Estas minhas mãos de operário
Que cansadas, doridas, gretadas e gélidas
Constroem, fabricam ou reparam, as obras-primas, eternas, anónimas
Mãos instrumentais ou apêndices, ou obra suprema da natureza.
Mãos de manualidades empíricas, que abraçam um mundo todo
E que afagam, acariciam, ajudam o filho nos primeiros passos
Vestem, arranjam, alimentam e carregam
Todo este imenso silêncio, nesta manhã
Onde os pássaros entoam uma musica de orquestra à mistura com chuva miudinha
Ou ao domingo, na missa instituída na família, desde os primórdios do tempo
As mesmas mãos pedem perdão a Deus e imploram
E assim famintas desse perdão ou desse amor divino
Sacam do bolso o lenço amarrotado e limpam as lágrimas
Que correm bem por dentro como um rio frio
E transpondo a fronteira do olhar assomam e rolam na face velha
Em mim
Ou
No mendigo que à porta estende a mão e pede esmola. E sem olhar
Entoa uma ladainha repetida, mono silábica domingo a domingo
Cabisbaixo, ausente de si e da vergonha!
Que o século é vinte e um
E à fome, e à guerra!
E eu maquinalmente sem me importar com a sua história
O seu drama, ou a sua vida, ou as suas lágrimas que correm
Saco do bolso a moeda esquecida e de mão fechada
Para que não se veja o gesto ou a quantia
Rápido atiro a dádiva ou a migalha e fico em paz
Comigo, ou com o Deus que observa silencioso o gesto, e o reprova
E parto de encontro ao restaurante
Para me degladiar com as iguarias ou o pecado da gula
Quero lá saber que se morra de fome em Africa!
Ou quero lá saber do mendigo
Assim saciado e farto
Regresso a casa, ao conforto ou ao silêncio
Ou vindo de um dia de trabalho cansado
Lavo as mãos, abandono-me num sofá velho e fecho os olhos
Assim neste ir e vir o dia passa e envelheço
E não querendo já saber de noticias ou de desgraças
Descalço-me, jogo fora as meias que me oprimem os pés
E deixo os sapatos abandonados num qualquer canto
Apago a luz
Despeço-me de mim e adormeço

João marinheiro ausente
Fotografia de Barcoantigo

20 comentários:

Claudia disse...

Gostei muito do conteúdo. Acho mesmo que é muito bom. Mas não sei se funciona enquanto poema.

Vês?Podia dizer mais. Mas não é assim que eu nos vejo. A falar dos teus poemas desta forma tão impessoal. Porque assim, não percebes pela minha voz, pelo jeito do meu sorriso, pelo brilho dos meus olhos, tudo aquilo que não está dito, aqui nestas palavras estáticas, sem alma...

Mas,
"Nem sempre o que se diz é o que se sente, ou a verdade, mas isso é segredo meu..."

Agora já não é só segredo teu...Convém lembrar-me às vezes.
Porque como te disse penso que da primeira vez, "o poeta é um fingidor!"

Beijo enquanto tento que o sono chegue

tb disse...

Em silêncio aprecio esse imenso mar percorrido pela força e brilho das tuas palavas que me maravilham!
Este texto está sublime!
Como gostaria de ser autorizada a levar daqui este teu mar e desviá-lo um bocadinho para o poder mostrar a outros, com a devida vénia, pois que merecedor é!
Será que mo podes emprestar?
Abraços com várias ondas

joão marinheiro disse...

OLá TB, claro que sim, podes levar emprestadas as minhas palavras, e se elas servirem de algo para alguem tanto melhor. Costumo dizer, afirmo mesmo, que não sei o efeito das palavras nas pessoas...
Abraço com mar e tudo...

A. disse...

...shiuuuuu.deixa-te estar.

Menina_marota disse...

"...Sou um imenso operário em construção..."

...e as tuas obras são arte...mesmo que as partilhes anonimamente...

Um abraço e bom fim de semana ;)

tb disse...

Obrigada!
Beijos

Claudia disse...

Não sei porque vim, até onde vou, com quem vou ou porque vou...
Sei que quero que escrevas...Que o cansaço cesse. Para aí te poder dizer o eco que as tuas palavras têm em mim...
Quero...

Claudia disse...

O poeta renasceu hoje...
e não vai só!

lazuli disse...

Não sei o efeito das palavras nas pessoas, está escrito aí em cima.
Também não sei descrever o efeito..pelo menos neste momento. Quando se descobre algo inesperadamente bonito, não se sabe descrever. Sente-se e basta, e com isto tudo agradeço aos chips, às webs, aos logaritmos, seja o que for que me tenha trazido até aqui.

Não desci ainda aos outros degraus, ainda estou neste..a reler, a reler.

Claudia disse...

Tenho que te deixar este poema que acabei de ler...é...sente tu...

Preguiça

Sou o chão para onde olhas
quando, na cama, um breve cansaço
te enche de esquecimento; e a incerteza
do que somos faz-me olhar para ti,
e ver o céu onde uma nuvem de linho
se desfaz, para que o teu corpo
ocupe todo o horizonte.

E de novo sorris, voltando
a pôr os teus braços na mesa do amor,
para continuar a refeição que a vida
nos oferece: a mim, o chão onde pousas
os pés, como se aprendesses a andar;
e a ti, o céu para onde me dirijo,
aprendendo a voar.

Nuno Júdice

Mendes Ferreira disse...

estrondoso silêncio.


assim.



sabe bem ouvir-te. em silêncio. é recompensador....


sobretudo depois de tanto ruído estúpido que por aí se ouve....


OBRIGADA.

abraço.

Poesia Portuguesa disse...

Espero que não se importe que publique o Poema retirado deste Blog, con os devidos créditos.
Como não tem email indicado no Blog, faço referência aqui. Peço que me desculpe.
Só estou á espera de autorização do autor da imagem que escolhi para ilustrar o seu tema. De princípio, será colocado na próxima 4º. feira...
Grata pela partilha das suas palavras...

Um abraço ;)

jorgesteves disse...

Pelos dedos-conselhos de uma amiga comum, desaguei neste cais...
Fiquei em silêncio a imaginar que, algures nos sons da memória, algum operário morreu na contramão...
Foi-me agradável passar aqui!

abraço,
jorgesteves

Torrão de Açucar disse...

Gostei de passar por aqui, velho lobo do mar. Voltarei

maat disse...

aqui fica uma abraço,

gostei deste espaço, barco antigo.

***maat

an ordinary girl disse...

tão bonito!!!
parabéns.

Stella disse...

parabens pelas belas palavras que consegues escrever com sentimento!!!***

Sophie disse...

O silêncio, guardo-o como luto fechado em meu peito, amarrado com tristeza e saudade.
Beijos
Sophie

Sophie disse...

Gostei do teu blog.
O meu é:
www.eco-de-mim.blogspot.com

passa por lá.
Beijos
Sophie

Su disse...

gostei gostei gostei

jocas maradas