segunda-feira, abril 21, 2008

VIII Carta...

Ontem foi 1 de Abril dia das mentiras.
Acho que esta carta é uma mentira. Uma partida que alguém me pregou, quem sabe o Zé das Areias meu amigo dos anos de mar que sabe os meus segredos me fez esta partida. Não sei. A letra é tua, perfeita. Fui procurar as tuas cartas guardadas. Tu não sabes que as guardo. Ainda as guardo. Espécie de tesouro que são para mim, palavras de verdade, palavras de amor. Palavras de sentir que eram as nossas cartas escritas, faz tantos anos.

Esta carta queima-me os dedos. Disse que ia dormir mas não consegui, só o corpo vencido pelo cansaço acalmou, os olhos se cerraram vencidos pelo escuro do quarto, foi como se estivesses aqui. Sentada no velho sofá a olhar-me na noite.
A letra é tua e a tinta da caneta é a mesma, se calhar ainda usas a mesma caneta Parker que te ofereci um dia ainda namorávamos, numa caixinha azul, acho que é a mesma porque a forma da tinta é igual às cartas que guardo tuas.

Vou tomar o pequeno-almoço lá abaixo à sala grande de jantar, um refeitório com janelas grandes a darem para o jardim. Chove, hoje chove uma chuva forte, fria, espessa, e faz vento, um vento de redemoinhos que entra pela alameda e faz as arvores tremerem, as folhas partirem voando a cobrirem o chão de saibro. Depois vou ler as tuas palavras com calma. O coração hoje acho que aguenta. Vai aguentar. Tem que aguentar. Porque te desejo ainda e esperei todo este imenso tempo por notícias tuas. Tenho de ler depressa, afinal podes estar a dar-me noticias importantes a quereres uma resposta a elas e a carta demorou tantos meses a chegar às minhas mãos. Não quero pensar que pensas que não te quero dar noticias minhas, se quiseres saber de mim. Se é isso que a tua carta diz, se são essas as tuas palavras escritas. Saber de mim da forma que eu sempre quis saber de ti.

Vou ler, se estivesse sol e se as minhas pernas aguentassem o caminho ia até à praia ler. Para te sentir mais próxima, mais mar a entrar em mim, o cheiro a maresia liberta. Ler-te a sentir o mar na areia, as gaivotas batendo asas, a linha do horizonte de nós na distância onde a terra se abraça ao mar.

Queria abraçar-te, queria tanto. Não sei se quererias já um abraço meu. De um velho marinheiro cheio de saudade, esquecido aqui, sem ninguém a quem falar. Escrevo-te. É a forma de te falar. Escrevo-te em voz alta para sentir as palavras. O eco das palavras em mim e imaginar que estás ai de olhar reluzente e sorriso nos lábios a escutar as minhas palavras. Acho que tenho uma doença incurável. Terminal. Tu és o remédio para a doença de amor que padeço. O amor. O meu amor por ti é uma doença, mas é uma doença bonita, grande, que me faz brilhar a alma, acelerar o coração, embargar a voz quando murmuro baixinho o teu nome todos os dias antes de adormecer a dar-te as boas noites.

1 comentário:

M. disse...

Fossem as doenças assim bonitas. fossem todas de fazer aguentar os corações.

Cartas belíssimas, fortes, intensas, vividas.

Quem não há-de querer abraçar o velho marinheiro?