segunda-feira, abril 07, 2008

Desejo...


Queria continuar a amar-te. Mas não consigo já. O tempo cobre de ferrugem o sentir. Fico frágil. Diria velho. Demasiado velho.
Queria continuar a amar-te. Mesmo que este amor que sinto tenha morrido à sede. Verdadeiro deserto de nós. Queria porque a querer vivo ainda. Mesmo que desdenhes do meu sentir e me chames louco. Loucos são os que não amam. Queria olhar-te uma outra vez. Porque o olhar é importante e nos diz tanto. Sei que já não é possível. Não me olhas. Não te olho. Os meus olhos fecharam-se à luz, e todo eu sou só trevas negras como o breu com que quereno o casco velho, também, do navio onde embarco sempre a demandar o mar teu, todo, no olhar salgado das lágrimas de saudade que és ainda hoje.


Um dia destes imaginei-te próxima de mim. Escutávamos palavras e música. Imaginei-te demasiado próxima. Quase a sentir-te. O calor teu, o perfume teu, o brilho teu, a voz tua a entrar em mim. Fechei os olhos para o breve momento se tornar eternidade. Quase me atrevia a dar-te a mão. As minhas têm tantas saudades das tuas. Não consegui vencer a distância do gesto. As mãos continuam distantes e demasiado frias em nós.
Todos os gestos se tornam penosos. Demasiado sofridos, demasiado contidos. Modero-me sempre para que não saibas. Escondo as mãos nos bolsos, desvio o meu olhar de ti, finjo-me distante. A ir sempre embora. Uma partida que eu não quero. Nunca. Mas não sei de outra forma.


Queria continuar a amar-te. Não sou capaz e não me perdoo a falta, a desistência de ti. Todo este tempo passado. Todas as palavras. As cartas escritas na tentativa vã, de ter as noticias tuas que nunca chegaram. Eu sei que não existes. Que te invento para sobreviver ainda. Que sou demasiado louco e velho, cansado. Foi o tempo. Foi o tempo que me envelheceu o corpo. Foi a tua ausência que me endoideceu o espírito. Só o coração bate ainda da mesma forma rítmica, balançada, a dizer que te ama. Mas só eu sei disso. O sangue a passar nas válvulas musculadas com a mesma cor vermelho viva, a mesma força a dizer-me que só assim o amor se alimenta. Um querer para sempre. Para lá do tempo que não temos. Para lá de nós.

Queria saber amar-te da forma que tu querias que eu te amasse, no tempo dos amantes, na primavera do amor. O tempo da luz e das flores.
O tempo cobre de óxidos o sentimento e eu resignado viro costas, largo as amarras a terra e saio barra fora a sentir o mar no corpo. O olhar perdido na linha do horizonte imaginário, enquanto as velas alvas se afeiçoam ao vento que vem de leste, hoje, incerto a rodar em saltos que fazem cambar as velas e o barco avançar aos soluços sobre as águas do mar da Póvoa rumo a sul. Não tenho coragem ainda de rumar a norte ou a oeste de ti.


Somos três hoje nesta manhã esplendorosa de primavera. Eu, o barco e o mar. Faltas tu para me completar, e enquanto navego, o barco com a borda metida na água, a roda do leme a fazer força, as minhas mãos cerradas a agarrarem o rumo certo a cento oitenta graus, o vento aparente endurece os brandais e a genoa se retesa, a vela grande se espelha perfeita, o barco obediente vencido pela vontade do capitão voga numa arribada a sotavento. Eu ali, parado no meio do mundo aquático, salgado. Parece que te vejo ainda a subir as escadas do poço com a minha camisa de xadrez a cobrir-te os seios perfeitos, redondos, perfumados, as tuas mãos abertas à luz, os cabelos a brilharem e os teus olhos sobre mim aniquilam-me todas as vontades de fugir.

Isto que sinto já não é amor. Nem desejo nem audácia em revelar o que penso. É exaustão. Fadiga do corpo, espécie de osmose que tenho a corroer a pele crestada do sal. Morte. Falamos de morte, seca ao sol deste Abril que se queria revolucionário, perfumado, rubro dos cravos, de primavera, onde tardam as andorinhas e tu também tardas em corpo físico. Invento-te outra vez, e socorro-me de certos olhares, de certos encontros rápidos para te aperfeiçoar. Tens que ser como o barco, perfeita, pronta a zarpar, obediente ao sinal do leme, só eu sou completamente imperfeito, cheio de erros, de desejos que não passam disso mesmo desejos inconfessáveis, de vontades prenhas que abortam sempre sem gestação. Só eu.

Queria amar-te sempre. Para sempre. A palavra parece-me a esta hora da madrugada demasiado expressiva. Demasiado oblonga. Demasiado eterna. Só a luz é eterna e o vento. Acredito que o amor seja o parente da luz e do vento e se torne eterno em nós, e eu me aperfeiçoe com o tempo e atinja o patamar supremo da perfeição luminosa, e te ame, de verdade, como tu sempre quiseste e imaginaste, e então, depois de navegar rumo a sul e a norte de nós, te encontre e abra os olhos e te enlace pela cintura, o teu corpo aconchegado ao meu, e me aqueças, o teu olhar me olhe verdadeiramente, e os teus lábios calem a minha boca, num beijo sôfrego de náufragos presos ao fio final de vida num sopro de vento a rondar, um salto de trinta graus, que me obriga a afinar outra vez as velas a cassar as escotas a olhar a agulha, a fixar um ponto imaginário no horizonte de água espelhada onde teu rosto me sorri. Não sei ser-te de outra forma que não água. Fria. Tonificante. Não sei sentir-te de outra forma que não mar. O verdadeiro amor que tenho. Sem invenções, sem imaginações, só verdade. Só verdade.

Queria amar-te sempre. Não consigo. Amo-te quando sinto saudades. Quando deixo que elas entrem em mim, quando me esqueço de estar vigilante, de guarda aos sinais do coração que abranda as batidas obediente a uma parte escondida do cérebro onde te guardo, e que de tempos a tempos se manifesta em explosões vulcânicas adormecidas que gritam o teu nome. Rapidamente corrijo a falta, o erro e te apago da memória vigilante, não posso fechar os olhos para não te imaginar por dentro de mim, e fico dias e dias acordado com medo de me magoar. A tua ausência magoa-me de verdade.
Fico frágil. Diria velho. Demasiado velho.

Não queria amar-te já.


João marinheiro, Praia de Fornelos Abril 2008

Fotografia de Floris Andreia

7 comentários:

Bichinho disse...

Queria amar-te ontem, para esquecer a Saudade que sinto de Ti hoje...beijo fantasma.

Ana Luar disse...

No amor os unicos quereres são os do coração... e o teu é feito deles... por isso nunca serás velho muito menos cego para o amor.

Gosto muito... de ti e do teu coração. :)

Andreia Ferreira disse...

Não forces o que já não existe. E procura outras marés :) Beijinho

M. disse...

E eu queria comentar-te desde o primeiro dia em que li este demandar de desejo em prosa quase inacreditável por me lembrar o verdadeiro tempo [para trás do tempo] do João Marinheiro. Talvez esperasse apenas pelo dia. E o dia que veio em que voltei a ver os olhos, as mãos e os lábios a falar só me trouxeram a certeza de que tu és de facto aquilo que te leio. Em versão não-dorida.

Um abraço João de quem gostou tanto de te voltar a ver.

© Piedade Araújo Sol disse...

sempre fiel ao seu estilo.

beij

Su disse...

gostei.muito

jocas maradas...sempre

Mag disse...

Que lindo teu blog João, conseguiu me prender aqui te lendo hrs, e sentindo cada palavra que escreveu..algumas poesias parecia que tinha sido escritas para mim..parabens!!
Um bju enorme!