domingo, agosto 05, 2007

Abro os olhos demasiado na escuridão…


Os barcos passam ao largo avisto-os daqui na quadratura da janela onde passo o tempo.
O mar hoje é um mar de prata plano e os barcos vogam rumo a todos os portos que não sei. Hoje estou só outra vez. De repente rumando a norte um pequeno avião rasga o céu e interrompe o meu silêncio contemplativo.
Recolho-me às palavras de novo. Às palavras que te queria dizer. Porque temos sempre palavras a dizer. E ficam sôfregas, estranguladas na garganta. E os olhos rasos de água salgada. E o mar aqui tão perto. Tão perto de nós. Se aqui estivesses pedia-te –Encosta-te a mim e deixa-te ficar. E eu adormecia nos teus olhos e dava-te as mãos. O momento das mãos fabuloso. Das minhas mãos nas tuas pequeninas.
Perdoa o meu divagar já, mas encontro-me perdido hoje. As horas são eternas, o sol demasiado quente e eu, aqui, preso a olhar os barcos que passam indiferentes no oceano mágico que observo da janela. Invento-te sempre. Invento o tempo que já não tenho junto de ti. Invento os minutos, as horas, os dias. Invento todo o tempo que quero viver contigo. Só tu te manténs em silêncio, um silêncio que me sufoca até quase sucumbir. Socorro-me dos anos de mergulho intenso e da experiência. O suster a respiração até ao limite. Vou sobrevivendo. Só a tua indiferença me tira as forças lentamente já.
Olho o céu em busca do pequeno avião que passou, é um ponto distante que brilha de encontro ao sol. Se aqui estivesses pedia-te, – não partas sem mim. É que eu já não sei. É que eu já não sei se és tu que vens pela madrugada quando durmo exausto de te buscar na memória. De te chamar com o pensamento, a voz embargada e rouca, as mãos vazias e frias de ti. Não sei se és tu que me atormentas o desejo pela madrugada quente enquanto nu, me deixo embalar abandonado no sono e procuro os caminhos que esqueci do sonho. Porque já não sonho? Porque deixei de sonhar desde que tu fechaste a porta e voaste sobre as águas do mar de prata de hoje. Queria ser o pequeno avião para ir ao teu encontro. Porque não vou? Porque já não vale a pena? Porque nunca atendes quando te ligo. E tenho um telefone com uma memória fantástica, mais de quinhentos números para onde posso ligar e só o teu me interessa sempre, e só o teu se mantêm em silêncio, sempre. E agora que faço no resto do dia que vai a meio. Se aqui estivesses pedia-te para me cantares a canção que me cantavas ao ouvido enquanto os teus braços me abraçavam o pescoço e eu com o coração aos saltos perdia as minhas mãos nos teus cabelos de olhos fechados a viajar no som da tua voz e a voltear nas palavras ditas. As saudades que tenho da tua voz. Do teu cantar terno. De ti inteira e por inteiro. As saudades.

Eu já não sei. Porque não sonho, mas o cheiro no quarto era o teu e o gosto na boca era da tua boca. Que me fizeste a noite passada? Hoje não durmo, vou fingir que durmo a ver se és tu que vens pela madrugada dentro no silêncio da alvorada fazer amor comigo. Hoje vou ficar desperto. Porque se foste sonho então aprendi de novo a sonhar contigo.
Vieste pela madrugada quente, eu abandonado no sono profundo, exausto. Deitaste-te sobre mim intensa, fresca, os teus seios nas minhas costas a acariciarem-me em arrepios de desejo. Abraçaste-me. Sim. Só tu me abraças desta forma sensual e intensa, só tu exalas o perfume do amor intenso que vivemos um dia.
Vieste pela madrugada a confessares ao meu ouvido num sussurro – Quero fazer amor contigo hoje! E eu aqui surpreso a sentir o peso do teu corpo em mim na penumbra do quarto rodo o corpo e és tu desnuda que me abraças, me ofereces os seios para beijar enquanto as tuas mãos se perdem no meu cabelo em carícias suaves de ternura. E a tua voz de novo – Quero fazer amor contigo hoje.
Abro os olhos demasiado na escuridão…

Anoiteceu. O escuro da noite embrulhado numa neblina espessa e húmida. Anunciada. Sei sempre quando o tempo muda de humor. Sinto no corpo uma espécie de dor incomodativa quando a humidade chega. Coisa de marinheiro velho cheio de manhas e de tempos de espera contemplativa. Perco-me a olhar o mar infinito demasiado. E a imaginar-te e a pensar as palavras – gosto de ti! Gosto de ti pela madrugada quando te imagino. No brilho das estrelas no céu. És uma espécie de estrela Polar. Uma lua brilhante. Uma constelação de pérolas suspensas. Madrepérola em reflexos metálicos. Gosto de ti pala manhã. No alvor do dia que se espreguiça. Gosto de ti quando desfraldo as velas, solto as amarras rodo num golpe a roda de leme a barlavento e passo a linha divisória da bolina cerrada e volto de roda num bordo largo no mar nubloso hoje. Sinto o mar que estrondeia na costa em cristas de espuma branca.
Tudo mudou de repente pela calada da noite, chegou a força imensa deste mar profundo, mar de fora, mar de fundo que me faz ficar vigilante. Navego a duas milhas de terra, a costear. Uma navegação de cabotagem encoberta pela névoa deste Agosto que principia agora. Deste verão que anda louco. Eu sei que sou louco. Que agora navego só. Que te invento em cada manobra. Que te imagino em cada refrega do vento. Em cada vaga cavada. Em cada retesar dos cabos. Em cada ranger do casco. E não me importo de te imaginar desta forma pessoal e louca. De te amar assim de uma maneira húmida e salgada e fria e enevoada e…

Eu sei que sou louco. Que posso fechar os olhos e pensar só em mim. Mas não consigo. O meu pensamento és tu. Porque eu já não penso. Já não vivo. Já não sei. Sobrevivo no mar de prata enevoado agora. Espero.
Espero.
Espero que o sol vença e acorde e abra os braços, e então eu, em tronco nu, ao leme como o capitão destemido navego por dentro de ti. Navego na memória tua inventada agora. Inventada ontem, inventada amanhã e nos dias todos que se seguirão na viagem rumo a sul do desespero.

Este é um tempo sem tempo. Sem marinheiros. Sem palavras. Só barcos desnudos de velas rasgadas como feridas abertas nas mãos que seguram a roda do leme em espasmos de graus, de rumos incertos, desconhecidos. Rotas. Derrotas. Estimas. Latitudes. Longitudes. Um imenso roteiro submerso de singraduras no tempo e na névoa que hoje teima em ficar abraçada ao mar. E eu atento, vigilante, canso o olhar tão gasto já, atento aos sons deste mar, ao restolhar das vagas de espuma na costa, lentas precisas, cadenciadas. Navego. Uma navegação abandonada. A agulha a cento oitenta graus libertos. Sul pleno. Tu ficas sempre a norte de mim. Demasiado a norte de mim. Não consigo a manobra perfeita para aportar em ti. As coordenadas na carta. O rumo certo. Um tempo estimado de chegada. Porque foges sempre que navego ao teu encontro e te perco na imensidão atlântica? Porque és assim?
– Porquê?
Porque voltas quando queres pela madrugada plena, nos dias em que estou demasiado exausto para te receber de olhos abertos. De braços abertos, de coração aberto. Já não fecho as portas da casa onde habito, mantenho as janelas abertas na noite e entra a chuva e entra o frio e entra o vento, só tu não. Espero-te sempre.

As gaivotas em bandos rumam a norte vencendo o vento, gritam umas com as outras, neste anoitecer. Tu não sabes mas anunciam o temporal no mar que ai vem depois deste dia tão calmo, de um mar estanhado sem vento, de aventura. Um mar que apetece como o rio tranquilo a desaguar para a foz. Tu não sabes dos sinais da natureza que nos informa, numa linguagem própria, feita de códigos secretos e de olhares e de percepções, de sentires. Tu só sentes o coração. Eu não. Os meus sentires são internos e externos, uma aprendizagem a pulso, uma espécie de código de sobrevivência na vida. A vida no mar é demasiado dura e bela e intensa para te explicar por palavras como se aprende. Sente-se só. Ama-se só, sem explicação possível porque não encontro as palavras pare te dizer. Posso dar-te a mão e vires de novo comigo a navegar pela memória. Desta vez não deixo que te percas. Que caias ao mar e sucumbas no profundo atlântico.

Já não sei. Sinto fome. Vou preparar um almoço solitário, um almoço feito de nadas. Liofilizado. De juntar só água. Plástico, sem sentimento, sem carinho, sem amor. Almoço moderno, destes tempos modernos. Uma sopa em meio litro de água. Um pacote dissolvido e dez minutos de lume. Um lume bamboleante, um púcaro bamboleante. O meu andar é bamboleante a bordo, espécie de bêbado no mar. Sou assim. Quando regresso a terra demoro a reencontrar o equilíbrio precário. Dizias-me nas poucas vezes que passeei contigo na beira Douro que o meu andar era estranho, que pisava a medo as pedras centenárias da Ribeira. Não sei, falta-me o balanço do barco. Andar descalço na rua como no convés. Sentir a tremura do casco em mim como sentia a tua quando te beijava. Já não sei.

Navego frente à barra do Douro e não olho para terra. Sigo rumo a sul. Engulo de um trago esta espécie de refeição que é sopa moderna, quente, a queimar por dentro e fico aflito. Quase de lágrimas nos olhos. Estava distraído a imaginar-te no pequeno restaurante onde costumávamos almoçar os robalos grelhados acompanhados de cerveja preta gelada. Ali perto de Lavadores. Nunca te disse mas agora o restaurante está fechado. Perdi a tua memória por lá. Fui em tua busca. A fazer a peregrinação dos lugares como costumo fazer às vezes quando fico aflito. As portas estavam fechadas. E agora como faço?
Volto para trás vencido pela evidência. Onde vou buscar a tua memória agora? Volto ao mar. Ao barco onde navego. Aqui recolhido no espaço confinado encontro-te sempre. Imagino-te sempre.
Amo-te ainda.

Quero confessar-te uma coisa. Sou-te fiel. Sou-te fiel como fiel é a bóia que amarra o longo aparelho do trol. Das redes imensas a pescarem no profundo. Da retenida que fecha a rede do cerco da sardinha. Espécie de cabo o meu amor fiel. Espécie de linha de vida que me liga a ti. Onde amarraste a ponta de mim? – Onde? – Onde? Farto-me de recolher cabo até ficar com as mãos em sangue e a ponta que chega é uma ponta interrompida, cortada de um golpe. Suspensa no vazio profundo do azul imenso que me aflige. O meu coração está velho já. Sou um velho lobo-do-mar louco de saudade. Louco de amor. O amor que confessei um dia. Já não sei. Não sei se o dia existiu ou tu exististe ou eu existo para além do poeta que te inventa. O navegador solitário e temerário das palavras por dizer ainda. Por inventar ainda. Por declamar ainda. O importante que era escutar a tua voz no meu ouvido durante o dia diferente da madrugada onde eu exausto me abandono num sono de sobressaltos e esperas e…

Reconheço-te por algumas marcas no corpo, és assim como as marcas que faço a terra, as marcas aos sítios do peixe os pesqueiros que são sítios secretos marcados pelos enfiamentos. A torra da igreja, o morro a norte, o bico do telhado que me indica o Parcel, o sítio onde pesco as fanecas á linha. Só, ali numa fraga do mar. Reconheço-te na penedia. Na linha de costa. No recortado de terra avistado do mar. E de noite. Reconheço-te no piscar das luzes. Na claridade da cidade grande, amarela na noite. As torres da refinaria a piscarem vermelhas. A chama na chaminé como tocha acesa.
Os braços de luz da Boa Nova, o relâmpago de Esposende, o abraço de Montedor. Brancos. As luzes aqui são brancas da cor do amor que sinto. As outras cores confundem-me, espécies de farolins de enfiamento nos molhes verdes e vermelhas a piscarem como luzes de néon na noite.
Reconheço-te pela constelação de sinais no braço esquerdo, espécie de Ursa menor, de estrela polar que exibes. Reconheço-te pelo sinal na tua nádega desnuda na madrugada quando a penumbra impera e a imaginação anda solta. No redondo dos teus seios, na aureola dos bicos duros do desejo que sinto em ti quando eroticamente te roças em mim num bailado de carícias. Os seios como dedos a percorrerem as minhas costas e eu arrepiado do frio húmido da névoa no mar do desejo que tenho de ti, de te amar. De fazermos amor agora neste momento. Hoje. Aqui no poço do barco que navega indiferente ao meu dilema, ao meu desejo, ao meu querer. Porque me atormentas o corpo?

Estou de novo só. Não sei se finalmente só. Definitivamente só. Demasiado só.
Porque me atormentas o corpo?
Porque me atormentas o desejo?
Porque me atormentas a memória?
E porque não falas mais comigo?
Que fiz de tão grave e errado?

Não deveria ter olhado para ti. Não deveria ter-te imaginado. Não deveria.
Os marinheiros são loucos e saudosos e amam. Não te dás conta do amor que tenho ao mar repartido contigo. Aos poucos dou-me conta que não me podes amar, porque não podes partilhar-me com o mar. Queres-me todo por inteiro para ti, – Como faço? Se o mar me está nas veias como o sangue. Que sem ele não sou nada e não vivo. Queres um amor morto no viver? Quero-te quando vens ter comigo, só. Nos outros dias não és minha, és como a gaivota, a andorinha-do-mar livre de voar. És minha quando pousas a bordo, porque queres. Recebo-te de braços demasiado abertos e se os fecho tens medo de ficar presa e bates asas e voas de novo e partes. Como queria ser o pequeno avião e seguir-te no voar.
Porque me apaixonei por ti. Porque não acreditas nas minhas palavras, nos meus gestos de adolescente, de miúdo a descobrir o amor como uma primeira vez, sempre. Porque te amo. E as palavras não chegam para te dizer o que me vai por dentro porque não consigo dizer nas palavras. Eu preciso sentir, entendes. Imagino-te. Imagino-te enquanto a tarde avança.
Vou para sul, passo ao largo da Murtosa, não sei se arribe à Figueira para passar a noite ou te espere no alto mar pela madrugada para vires fazer amor comigo. Vou esperar-te pela madrugada. Preciso de ti entendes. Para me sentir lúcido ainda. Sem ti como ocupo o tempo?

O mar cresce, a maré sobe. Em terra o sol espreita por entre as nuvens carregadas de cinza. Amanhã chove de certeza. Amanhã deixo as lágrimas caírem no rosto misturadas com a água da chuva e diluírem-se do sal que tenho entranhado no rosto e no corpo. Preciso da chuva em mim como dádiva de vida. A minha vida já não faz sentido. Tu não sabes que trouxe para bordo um cd do Jorge Palma que vou escutando até as baterias a bordo ficarem vazias ou o aero-gerador parar de cansado, e a musica que me acompanha, porque gosto de musica a acompanhar-me pela vida para não me sentir só em demasia, é uma musica repetida sempre uma e outra e outra e ainda outra vez. Uma espécie de sonho na “casa do capitão”que me acalma, porque o som do piano dedilhado e do acordeão me abrem as portas da euforia, alegria do viver e sonhar. Se estivesses comigo agora beijava-te e saberias que te amo.

João, praia de Fornelos 2007

Fotografia de Barcoantigo

6 comentários:

tb disse...

:) E que bom viver por dentro de nós ao som dessa música...
Palavras intensas que nos conduzem ao andar leve pelas memórias de uma ausência sempre presente porque viva!
Abraço enquanto escuto a música fechando os olhos, dando-te a mão e bailando ao cimo desse mar prata!

Maria disse...

As saudades....
Também hoje não consegui dormir.
Mas não navego... revolto os lençóis e tenho um frio ao meu lado...
As saudades... agora salgadas...

Um abraço, João

© Piedade Araújo Sol disse...

Comovente...

Anónimo disse...

Misturas as pessoas misturas os sentimentos... Falas de quem ou para quem afinal??? Não falas para ninguém porque este não és tu, é somente o João Marinheiro a divagar, a navegar...
Conseguiste que percorrece um texto do inicio ao fim, e conseguiste que gostasse....
Beijo com saudades... saudades de ti... saudades dele... saudades do que eras quando estavas comigo e olhavas para mim olhos nos olhos como nunca te vi fazer com ninguém....

*Marta* disse...

Eu li-te todo do princípio ao fim. Já passou um tempo e volto, e releio. Conheço já tão bem a língua em que escreves a tua alma João e tens ainda tanto para dizer; estas palavras não chegam ainda. Nunca chegam. Há muito por dizer nas palavras que ainda não existem. Há muito pensamento a rodopiar em ti. Demasiado até. Demasiado desejo para a tua serenidade. Não faço perguntas. Sinto. E conheço-te que baste.

Su disse...

gostei de ler

reli
gostei

jocas maradas