terça-feira, agosto 21, 2007

Resta-me a ilusão da tua existência


Resta-me a ilusão da tua existência.
Tenho de forçosamente que apagar-te da minha memória. Lentamente. Aos poucos. Cada dia. Cada gesto teu. Cada palavra tua. Cada beijo teu.
Apago-te.

Off!
Delete!
Como se isso fosse possível.
Fui à nossa cidade em tua busca. Os lugares, as ruas, os sons, os cheiros. A luminosidade do teu olhar em cada janela. Tão difícil de te decifrar já. Passa mais um ano na minha memória que queria esquecida de ti. É o mês das ferias e voltaste estranha. Demasiado estranha, a ires embora da tua breve ausência. Por onde andaste para ficares assim. Que te aconteceu? Deixei de saber de ti. Senti, sabes, aquela sensação amarga e fria por dentro, que te ias embora no teu regresso.
Resta-me a ilusão da tua existência.
Fomos um amor imperfeito, – não! Eu é que me convenci.
Não fomos amor nenhum! Eu é que me convenci que podíamos ser uma espécie amor-perfeito e colorido e redondo e grande. Eu, só! Acho que me iludi. Me perdi às voltas numa qualquer rotunda a imaginar-te e agora achei a nossa cidade invicta sem encanto. Faltas tu! Não sei porque me encantas ainda. Vejo-te a sorrir, o teu sorriso grande em cada montra, em cada grande vidro da cidade. O que me encanta em ti ainda? Porque me encantas tu? Verdadeiramente nunca soube quem eras. Se existes com alguma verdade por fora da minha memória, se as minhas mãos tocaram as tuas, se o meu corpo tocou o teu, se o olhar se encontrou agora que fico aqui nesta cidade demasiado grande sem ti. As ruas perdem a graça. As pessoas passam e não dão por mim. Não te reconheço em nenhuma delas.
– Imagino-te! – Imagino-te sempre!
Foste embora. Não deixaste nada. Uma palavra. Um gesto.
Não restou nada teu em mim.

Só este silêncio que me assusta.
João Praia de Fornelos 2007
Fotografia de Alina Andrei

8 comentários:

Azul disse...

Olá João!

Não estou certa de quando encontrei os teus blogs...nem como.

Passo desde então para te ler. Em silêncio, sem deixar sinal da minha passagem. Mas hoje... hoje este teu post reflete o que sinto... Resta-me a ilusão...

Parabéns João. Pelos textos repletos de sentimento.

Beijo
Azul

Maria disse...

Nós vemos o que queremos, João, e assim continuaremos. A ver sempre. O que queremos, o que desejamos ver.
Fazer delete? Ensinas-me?

Um abraço, daqui, com tempo instável

*Marta* disse...

Nínguém gosta de dizer adeus, não te esqueças.
Em terra firme para uma breve visita a quem merece, um abraço deste lado do oceano e desta ilha encantada! Beijo

mar... disse...

Um dia a reencontrará Poeta!

Deixará de vê-la no vazio... como sombra à preencher apenas as memórias

Um dia a reencontrará!...

tb disse...

Sempre a paixão da escrita carregada de significado.
Beijinho

Su disse...

sei bem o que isso é...entendo.o

imaginar o que nós queremos, o q somos, o q desejamos, o q fariamos......

mas na realidade tudo isso não passou "dum filme por nós realizado ",,,,,,,,,esteve sempre na nossa cabeça ..na nossa...não na do outro.....

a culpa só pode ser nossa na medida em que ne realidade gostariamos que o outro tivesse tido outra atitude........na verdade que tudo tivesse sido diferente, para termos conseguido esse tal de amor perfeito.......

sim....só......ficamos....somos...

jocas maradas de tempo....

AMMedeiros disse...

Há sempre um porto de abrigo que abriga o porto das desilusões e do silêncio... um porto de tempo e de espaço, um porto de resolução da dor, um porto que está em nós...

Um beijo

APC disse...

"Não fomos amor nenhum"...

Não me parece!