terça-feira, agosto 14, 2007

À Memória de Manuel Lopes



…Hoje fui andar na lancha. A Lancha FÉ EM DEUS. O mesmo nome em memória da ultima Lancha do Alto Poveira. O sonho tornado realidade do Manuel, fomos frente à barra da Póvoa cambar a vela e gritar ALA ARRIBA! ALA ARRIBA! ALA ARRIBA! Ali no imenso azul onde as suas cinzas se confundem com a imensidão do mar e as lágrimas dos pescadores Poveiros.
Escutei poesia declamada com fervor enquanto a lancha altiva vogava com a sua enorme vela acariciada pelo vento sul. O dia parecia um Outono cheio de saudade. Regressei comovido e saciado do mar da Póvoa.
... O Manuel só morre se deixarmos morrer a memória….

A este meu insignificante canto das memórias, achei por bem trazer as palavras da homenagem feita aquando da realização do VIII Encontro de Embarcações Tradicionais da Galiza, realizados na Cidade de Ferrol no dia 7 de Julho passado. Encontros em que a Lancha sempre participou, de uma forma singela magnífica e imponente, a perpetuar a nossa memória de marinheiros.

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"Povoa, espera dos Barcos", óleo sobre tela, Sousa Pinto, 1881

O Homem

Manuel Ferreira Lopes nasceu na Póvoa de Varzim em 1943.

Iniciou a carreira como bibliotecário na Biblioteca Pública da Póvoa de Varzim, instalada no centro histórico da cidade, no rés-do-chão do edifício dos Paços do Concelho.

Revolucionário antifascista, já antes do 25 de Abril de 1974, nunca perdeu esse espírito incansável de paladino dos mais desfavorecidos.

Director da Casa da Cultura, projecto que incluiu uma nova Biblioteca instalada num edifício construído de raiz (a Biblioteca Municipal Rocha Peixoto) e a requalificação do Museu Municipal de Etnografia e História da Póvoa de Varzim, que em 1980 recebeu o Prémio Europeu para a melhor exposição especial com a exposição Siglas Poveiras, de que foi autor.


Lancha Poveira ao largo de Montedor (Carreço) Viana do Castelo. 2004
Apaixonado pela cultura poveira, intimamente ligada à pesca, com as suas siglas e com os seus inconfundíveis barcos à vela, os barcos poveiros, foi responsável pelo mais bem sucedido projecto nacional, de construção de uma réplica navegante à escala real, em 1991: a “Lancha Poveira do Alto”, baptizada Fé em Deus tal como a última Lancha.

Morreu em 14 de Agosto de 2006 com 63 anos de idade.


Andor da Senhora das Dores,
Póvoa de Varzim, 1990


A Póvoa de Manuel Lopes

A verdadeira “Fé em Deus” foi a última grande lancha da pesca do alto da comunidade piscatória poveira, símbolo de uma época única na história local, feita de fartura e de fome, de tragédias e de heroísmo.

Pela iniciativa de Manuel Lopes a Autarquia Poveira criou a colecção “Na linha do Horizonte”, edição de estudos e investigações sobre a cultura marítima da Póvoa de Varzim, a quem pessoalmente Manuel Lopes dedicou numerosos estudos, conferências, encontros, Exposições e projectos.

A Póvoa de Manuel Lopes era a enseada guardada pela Igreja da Lapa e os lavradores dos arredores em dias de Feira e de mercado, os turistas a banhos no Verão e os pescadores da sardinha e da pescada do alto, todo o ano.

A Póvoa piscatória fervilhava de homens e barcos na praia e mulheres a vender peixe a pé, de canastra à cabeça pelas ruas, acompanhadas pelos filhos pequenos, e só parava nos dias da Festa a S. Pedro (29 de Julho) e para ver passar a Procissão da Senhora das Dores, no 15 de Agosto.

A esta Póvoa dedicou um profundo amor e respeito.


Mulheres à espera das Lanchas do Alto.
Póvoa de Varzim, cerca de 1940

A obra

Homem de ideais, pensador e historiador, a sua obra é uma referência na cultura contemporânea poveira.

A sua obra escrita reúne-se em publicações monográficas, crónicas de jornais, artigos em revistas de cultura marítima, actas de encontros, jornadas de formação profissional, conferências, seminários e catálogos de exposição tendo como interesse a cultura marítima do norte de Portugal e da Galiza.

Dos projectos de referência contam-se no imediato os que desenvolveu na Póvoa de Varzim, com destaque para a “Lancha” , o “Museu” e a “Biblioteca” mas muitos são os projectos que a sua modéstia tornou desconhecidos do grande público, como a musealização do santuário de Nossa Senhora da Abadia, em Braga, e o apoio que deu na constituição de numerosos núcleos museológicos e museus municipais do norte de Portugal.
Ao longo dos últimos anos tornou-se uma referência nacional nos estudos da especialidade marítima e piscatória, construção naval e tecnologias de pesca tradicionais.


Alar uma catraia para o alto da duna.
Póvoa de Varzim, cerca 1940


Referência na cultura Marítima


A sua personalidade marcou gerações antes e depois do 25 de Abril de 1974 e continua a marcar mesmo após a sua morte.

Historiadores, investigadores, escritores e alunos sempre o tiveram como referência no estudo da etnografia e da antropologia das comunidades piscatórias do norte de Portugal e Galiza.

Com um interesse pessoal pela cultura no geral e em particular a poveira, sempre abraçou projectos ousados. Desde 1993 que levou a Lancha Poveira aos Encontros da Federação Galega pela Cultura Marítima e Fluvial. Em 1997 a Lancha entrou no estuário do Rio Cávado e homenageou os pescadores de Esposende que a receberam de lágrimas nos olhos num momento inesquecível. Em 1998 levou a Lancha para a EXPO Universal de Lisboa onde teve a honra de estar em permanência. Em 1999 foi a vez do Festival dos Oceanos em Lisboa (onde ele próprio teve um grave acidente que lhe retirou autonomia e o debilitou definitivamente). Em 2003 entrou no estuário do Rio Ave e comoveu a vizinha comunidade de Vila do Conde, ancestral inimiga, que assim se rendeu à majestosa embarcação. Em 2004 levou mais uma vez a Lancha à Galiza.

Manuel Lopes tornou-se por direito próprio uma figura nacional e uma referência incontornável na cultura marítima do norte de Portugal e Galiza.

Tributo

Conhecemos o Manuel Lopes desde crianças.
O nosso pai era Faroleiro, um guardião dos perigosos nevoeiros e da noite…

Fomos por essa circunstância criados junto ao mar, ou melhor, aos mares. Mares diferentes, na fartura do peixe e na morte nos naufrágios de Inverno.

Mares de Caminha, de Vila Praia de Âncora, de Montedor, de Viana do Castelo, do Castelo do Neiva, de Esposende, da Póvoa de Varzim e de Matosinhos, aqui no norte. Mares da Ilha da Berlenga e do Cabo Carvoeiro, em Peniche, no centro. Mares da Ilha de Santa Maria, de Olhão, da Fuzeta e de Vila Real de Santo António, no sul. A costa toda… Mares onde o barco e as pessoas são entidades, com vida depois da vida.

Essa influência da cultura marítima, fez com que nunca acreditássemos que a Vida se esgotava no vazio da nossa morte. Tal como os velhos pescadores da Póvoa, comunidade onde vivemos durante mais tempo, sempre tivemos aquela Fé, sem ciência, que nos faz acreditar ingenuamente que os nossos mortos só morrem, verdadeiramente, quando os esquecemos.

Manuel Lopes. Entrevista à Radio Póvoa. Encontro de Embarcações.
Poio. Galiza, 2004

À Memória

“Só a memória enriquece e alimenta.
Não há pedra que mais sangre nem asa que mais nos liberte.
Talvez por isso os Saberes da memória respirem um tempo e um espaço muito próprios.

A morte, que tudo transfigura, pratica as artes supremas da imprevisibilidade. E, nesta imprevidência se compraz, irremediavelmente, a nossa humana condição.

Manuel Lopes
“O Barco Poveiro”, Prefácio, 1995


João e Ivone
Ferrol 7 de Julho de 2007

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Declamado hoje na Biblioteca Municipal Rocha Peixoto , Póvoa de Varzim pelo autor


Para a vida, Manuel Lopes


“Perturba-me a ideia de faleceres”
- Disse-lhe um dia. Respondeu-me:

é como queiras; a morte é igual à vida
silenciosamente “a gente”há-de amar noutra quietude, noutro
espaço…
não te importes, a chuva cairá e
tu escreverás versos até morreres, também.
da janela do meu quarto avisto tudo
como se quisesse abraçar num novelinho
os dias brancos de todos os meus anos
espanta-me o segredo da morte, sabes?,
e levedar lânguido de vénias terrestres
não é bem para o meu jeito
custa-me a andar, é o mistério do voo
que anda agora a apaixonar-me. livre
como aquela gaivota que sobrevoa o mastro,
o que eu quero, de facto, é o azul e o mar,
lá me encontrareis sempre, depois de enviar
as cartas aos amigos que as merecem.
quanto ao mais, continuai a lutar, a guerra…
porque é de cinza a leveza do meu corpo
e não quero restos a pesar a ninguém,
só quero o vento e o mar…,

- “peito em quilha!, ó Homem de leme!”
Respondi-lhe eu, para não chorar…

Poema de Aurelino Costa, 14 de Agosto de 2006

João marinheiro 2007

6 comentários:

Anónimo disse...

Arrepiou-me e comoveu-me esta tua homenagem. És uma pessoa admirável e não fico nada surpreendida pelo que encontrei aqui hoje, neste teu espaço tão especial. Um verdadeiro sentido à vida.
Um abraço
P.C.C

Maria disse...

Fizeste uma belíssima homenagem a este teu Amigo.
Que devia ser um homem com um coração do tamanho do mundo.
De quem eu nunca tinha ouvido falar, mas que agora me parece ter conhecido sempre.
Obrigada, João. És de uma ternura e partilha imensa...

Um abraço, daqui

Ana disse...

Um mar de memórias João... És um mar de saudade... Ctg as memórias são eternas.

Su disse...

gostei de saber/conhecer

li e reli a parte final sobre a morte.......continuo re.lendo...


jocas maradas de tempo

tb disse...

Uma homenagem merecida, porque sentida pelo teu enorme coração, tão grande como esse mar que amamos.
Abraço

APC disse...

Eis um hino à vida! À vida de quem foi e de quem fica.

António Lobo Antunes (acabei agora mesmo de ler) diz dos seus que "estão dentro de mim até eu acabar".

A Ana disse que "contigo as memórias são eternas". E eu acho que ela o disse lindamente.

Tu escreveste lindamente.
E és... Lindamente!

Um abraço amigo.