domingo, março 09, 2008

VI carta...


Quatro e trinta e cinco da madrugada.
O relógio do pequeno rádio pisca em vermelho vivo a dizer-me que é tarde. Não me importo. O vento forte e frio e húmido entra pelas aberturas na porta e faz estremecer as paredes. As portas do sotão nos esconsos fazem um ruído que assusta de batidos incertos conforme a força do vento. Eu estou aqui. A janela sem as cortinas corridas aberta para a noite fria e ventosa por onde espreito a chegada da maré viva à praia deserta de nós. Imagino-te outra vez. Desejo-te outra vez e afogo-te em mais gole deste vinho ácido que me queima por dentro e me faz estar assim, velho, inútil, abandonado, bêbado nesta hora aqui a olhar o mundo deste pedaço de quarto onde habito agora. As noites desde que me mudei para aqui são dolorosas, em vigília sem sono, sofro de alucinações que me fazem ver cabos e velas rasgadas nas paredes, e ventos furiosos e temporais e gritos e naufrágios e companheiros que desaparecem borda fora numa volta de mar e tenho medo. Medo sim de estar aqui preso inválido sem forças, vencido por uma saudade silenciosa que me rouba a vontade e não me permite ir ate à praia de novo em busca dos restos de ti. O teu naufrágio doloroso em mim. A carcaça só navio, imponente que foste por dentro de mim. O mar onde naveguei temerário a desafiar as tempestades a desafiar os medos a desafiar os dias cíclicos e o sentir. Sinto-te. Sinto-te como quando tinha trinta anos e estava convencido que numa mão virava o mundo todo porque te amava. Agora já não. Tenho medo. Estou velho e só aqui, e a minha história de vida é desconhecida para aqueles que não sabem quem sou e não suspeitam do amor que guardo puro e níveo e inocente em mim. Espécie de segredo amaldiçoado que me persegue.

Quatro e quarenta da madrugada.
Passaram cinco minutos que me parecem um século inacabado pesado plúmbeo. Estremeço. Levanto-me para afastar os temores e vou à janela minúscula quase uma fresta na muralha que construí para me proteger do universo e aspiro com dificuldade o ar frio da noite a aragem marítima da pequena praia que vejo, o meu pedaço de mundo de imaginar, respiro numa hiper ventilação como fazia há cinquenta anos atrás nos tempos do mergulho, no principio dos tempos do mergulho a inebriar-me, a oxigenar-me de mar e imaginar que és tu que entras por dentro de mim, o sal escorre nos olhos velhos enevoados a fugirem a não verem já de forma precisa a tua silhueta a esta hora da madrugada na pequena praia deserta daqui, da janela, do meu humilde quarto que escolhi para me despedir da vida toda que tive e viver só da memória cada vez mais escassa em mim, e em ti, por ti a partir de ti hoje e ontem e seguramente amanhã.

Cinco horas da manhã.
A chuva anunciada chegou violenta. Hoje tudo é violento aqui. Forte a encharcar num repente o ar frio, as paredes, a rua velha, os candeeiros públicos a serem trespassados por pingos grossos, bagas de água pura dos céus que se abatem a esta hora do dia que ainda não acordou. Queria dar-te notícias de mim para me sentir vivo ainda e já não sei. Cada vez sei menos de notícias de mim e novas de ti. Cada vez sei menos, e é este silêncio sepulcral que me assusta, me faz retrair a emoção, as palavras, o querer, porque já nada vale a pena. O amor, a saudade, a vontade. Só a tua ausência me marca e me desfalece sempre. Já não existes. Não tens nome. O nome pequenito que pronunciava de duas letras do tamanho do universo todo, porque ele eras tu, toda, graciosa, a cheirar a perfume de flores e vida e emoção no olhar e eu que sempre me perdia nos teus olhos porque só a ti olhava de olhos nos olhos verdadeiro e sem medo. Anos mais tarde tentei fazer isso a experimentar o olhar de outras mulheres mas fiquei magoado porque partiram com medo do meu olhar que revelava a saudade tua sempre tua eternamente e nunca pude ser delas todo livre como o queriam porque o amor tem de ser todo pleno livre exclusivo de uma forma só esculpido a golpe de navalha nas tábuas do casco do navio que sulca os mares da emoção toda no oceano de tremuras e sal e ventos.
Sinto a pele fria o corpo pesado a cabeça toldada pelo vinho tinto que me fez a companhia possível esta madrugada enquanto esperei que regressasses pela maré-cheia e a lua prateada na pequena praia que me faz companhia agora. Eu sei que já não voltas que podes ter morrido já ou que podes ser feliz numa cidade qualquer distante amada por outro que não um marinheiro errante sem porto seguro e sem navio para governar, sem velas para desfraldar, a brisa sem proa para dar à vaga alterosa, eu sei. Mas só assim te perpétuo dentro de mim. A memória escassa do tempo que fomos demasiado breve. Espécie de horas de descarga no velho cais onde indiferentes os navios acostam e os homens pisam terra a esquecer o mar. Foste uma espécie de terra desconhecida que pisei com o coração, esse o erro, em nós marinheiros a terra não se deve pisar com o coração porque o coração atraiçoa e prende e depois perdemos ferro e correntes e barco e tino e destino e a agulha desnorteia e as marcas na carta deixam de ser marcas no papel para serem marcas na pele espécie de tatuagem invisível só visível por olhos experientes e treinados nas lides do horizonte do mar e das luas e das estrelas cadentes que num lamento mergulham no mar como que a pedir perdão do erro cometido. Foste o meu erro que repetia de novo e de novo. Porque o amor é assim feito de erros após erros. Aprendizagens a dois. Certezas e incertezas. Perguntas e duvidas e caminhares de mãos dadas pelas ruas da vida e pelas estradas do mundo. Tínhamos todo o tempo do mundo pensava. Afinal não era verdade, sempre tive pouco tempo no mundo que construi contigo, porque o mundo sempre foi um mundo de sonho paralelo à margem do Douro por onde passeávamos. E ficou tanto prometido e ficou tanto sentido e ficou tanto por dizer e demasiado por fazer. Tudo adiado ad eternun.

Seis e meia da manhã.
Clareia por cima dos telhados e das antenas a nascente o novo dia. Não o vejo daqui mas imagino porque tem de ser assim cíclico porque a natureza repete-se a horas certas, cíclicas, só nós não. A claridade avança a diluir a luz amarela da noite e as gotas de água ganham uma vida nova nas vidraças, como pérolas que brilham frescas e puras, macias, a recortarem o caminho nas janelas em direcção ao chão escuro de asfalto velho e paralelos gastos dos anos e do tempo.
Olho o copo de vido grosso que me tem acompanhado estes dias e num lampejo sinto saudade do velho serviço de chá que deixei abandonado. O velho sofá o relógio na parede. O tempo. Sei que não devo ser assim que o meu tempo já não é, que não existo. Sou um número estatístico num lar. Um velho sem vida abandonado que interessa só para fins estatísticos à segurança social, à misericórdia, sei lá. Não me interessa. Aqui não adormeço só quando quero dormir e sei que se não acordar alguém vai cuidar do corpo. E em casa já não, porque estava completamente abandonado e só, e tu não fazes ideia da solidão que é por dentro quando estamos assim desta forma arrumados para morrer.
Amo-te ainda.
Dói-me pronunciar estas palavras agora. Parecem um pecado que cometi, que me persegue até à expiação dos dias. Ontem foi dia da mulher, estive a ler no jornal, lembro-me de uma vez te ter oferecido uma Gerbera vermelha a simbolizar o nosso amor, espécie de sol rubro num malmequer gigante. Já não sei da flor. Já não sei de tantas coisas. Em que ano estamos?

Ontem estava aqui a olhar o mundo e observei um homem, acho que era um homem parado a olhar a casa durante um pedaço de tempo agarrado às grades que limitam o jardim. Fiquei a cismar que o conhecia. Aquela silhueta, mas é alucinação minha. Aqui ninguém sabe que existo e vim para morrer.

João marinheiro, praia de Fornelos 2008
Fotografia de Barcoantigo em 2008

3 comentários:

M. disse...

"Não confies no coração de um marinheiro" - disseste-me tu.

Entendo.

Reina uma saudade de pedra nesse teu cais.

Ana Luar disse...

Vou transcrever uma conversa nossa que tem já algum tempo mas sensivel como és, perceberás a razão de estar neste texto.

As tuas palavras tem o gosto amargo de outras palavras.... estranhas a nós e ao mesmo tempo tão familiares que chegam a dar medo. Arranham-me a garganta e a consciência como se me confrontasses com o espelho onde deixei um dia a inocência... Dizes-me que "As palavras não são inocentes" Tinhas razão marujo, não o são e é por não o serem que todos os dias desistirmos de observar imagens viciadas daqui ou de acolá para acabarmos a fugir de ou para alguém. Não importa a pele, não importa a dor, não importam as palavras desde que não sejam as nossas.

Fiquei a cismar na absolvição do erro cometido... e cheguei à conclusão de que o único erro é aquele que por medo deixamos de cometer.

Dsc a extensão das palavras... mas sabes que quando começamos o fio perde-se por aí....................................................................................
Beijos em ti meu querido amigo

Su disse...

gostei de ler---apesar de toda a saudade presente......

jpcas maradas