
Chegaste agora.
O importante que é a tua chegada.
Perguntaste-me: - Então novidades?
-Novidades neste tempo em que estive ausente? E eu fiquei calado. Olhei-te nos olhos. Aprendo a olhar-te nos olhos. Não disse nada. Não existem novidades. Os dias correm iguais sobre 24 horas espaçadas.
Como dizer-te. E não digo. Remeto-me a um silêncio perturbador. O silêncio sempre, para dizer-te o que não se diz por palavras. Como dizer-te que contei os dias em que tu não estavas. Como dizer-te que percorri os mesmos caminhos ainda poucos por onde andamos juntos. Como dizer-te. Como dizer-te para que saibas que em mim ficou guardado na esperança do teu regresso, o calor das tuas mãos nas minhas por breves instantes. Um calor por entre os dedos que circula por dentro para que não se perca. E eu o guardo como um pouco de ti. Demasiadamente pouco de ti. E que fiquei sem noticias tuas, porque sabia que ias partir. Que ainda não estou preparado para a partida. Que me dói a ausência sempre, desde pequeno. Que a minha vida é feita de muitas ausências e de muitas outras coisas mais que sinto. E que sofro de uma espécie de nostalgia perene.
Como dizer-te tudo isto que sinto e penso sem que te apercebas nos momentos breves em que te olho de olhos nos olhos. Reprimo a vontade de te dar a mão, porque a magia que estava a habitar em nós se ausentou também. Foi contigo, e eu só, perco-me em pensamentos de solidão e abandono. Como dizer-te tudo isto que sinto sem te magoar a ti a quem aprendo a querer. Como dizer que agora retorno ao principio dos dias claros, porque os quero claros, azuis celestes, mas que por vezes me tenho de contentar com dias cinzentos, com chuva pelo meio e vento e frio. Autênticos dias de Inverno. Temporal no mar ao longe que escuto. E nestes dias especialmente me recolho na esperança vã de te encontrar e eu retornar a ti, a encontrar-te de novo. Como falar-te do dia anterior à tua partida. O dia anterior para mim. O dia em que cometi dois pecados seguidos. Pequenos eu sei. O terceiro pecado que não cometi, porventura o mais importante e mais desejado fica adiado ad infinitum.
Gostava de te escrever uma carta explícita mas não consigo. Estou como o dia cinzento, ainda no verão mas cinzento. Cinzento e ventoso. É Setembro mas não foi em Setembro que te conheci, não, mas é em Setembro que te recordo, me dou conta da tua falta em mim. Da complexidade dos dias, da complexidade da vida, da prisão dos sentimentos. Só o sonho é livre. Sou livre quando sonho contigo.
É madrugada, cinco e tal da manhã, a cidade deserta como eu gosto, pálida. A luz amarela dos candeeiros a meia potencia, Iluminam o suficiente e eu caminho pela avenida devagar. É assim que gosto desta cidade, vazia, em silêncio, interrompido só pelo chilrear assustado dos pássaros nas arvores, acordados pelo barulho de meus passos no granito velho da avenida. Sinto um cheiro no ar a pão cozido, e fica-me um sabor doce na boca, o desejo de comer pão quente e beber um café forte. Se fumasse com certeza para afastar o desejo acendia um cigarro, aspirarava o fumo de um trago, e nesta pausa de acender o cigarro, olhava ao redor. Mas não fumo. Assim desci a avenida abandonado, as mãos nos bolsos, o corpo frio, um estremecimento da pele arrepiada. Sinto a humidade nocturna e o sabor do pão quente nas narinas. Penso em ti de uma maneira que nunca tinha pensado, talvez por me encontrar só, com frio, nesta cidade deserta a descer a avenida principal em direcção ao rio. Penso em ti nua sob os lençóis na tua cama que não imagino. Não sonho a esta hora da noite tardia, ou do dia demasiado cedo. Não sonho com certeza mas penso em ti. Não devia a esta hora imprópria, mas és tu que estás em mim, plena. Não penso em ti de maneira pecaminosa, lasciva. O facto de te imaginar nua sob os lençóis, é assim que gosto de dormir, penso que será assim que gostas. Imagino-te portanto, nunca te perguntei como dormes, prefiro imaginar-te hoje enquanto o sol a nascente abre os olhos devagarinho. Penso em ti, a posição que ocupas na cama, os desenhos do teu cabelo solto na brancura dos lençóis. Tudo tem que ser branco na tua cama. Toda a roupa. É assim que te imagino. Pura! Branca! Diáfana! É importante o desenho dos teus cabelos na cama. A tua face bonita e serena, os olhos fechados, o respirar tranquilo, as tuas mãos abandonadas dormindo, como gosto das tuas mãos pequeninas. Como és na intimidade da noite dormindo. Desculpa estes meus pensamentos descabidos. Não são pensamentos impuros acredita. O amor é puro. Só não sei se sinto amor. Sinto a tua falta, já é um princípio e agora tudo é diferente, não sei porquê mas é assim que sinto, estamos diferentes, mais fechados em nós, protegidos. Não faço perguntas mas sei que ficam as dúvidas que persistem em mim. Socorro-me dos momentos breves em que estamos juntos para dissipar as incertezas. Na distância que medeia cada encontro, sonho. Nesses espaços sonho. Umas vezes nada. Outras contigo. Quase sempre sonho contigo, nunca o disse por palavras ou pessoalmente, não o sei dizer. Fica a perdurar o tal silêncio que se instala em nós e que diz tanto. Transparente, cristalino.
Queria escrever-te uma carta, a carta com as novidades mas não posso. As novidades não existem em mim, os dias são iguais, avizinha-se o Outono nas estações cíclicas e em mim, o mais não sei.
Cheguei entretanto ao fim da avenida, passo por um conjunto de táxis, vindo de um deles entoa uma música, fico atento. Reconheço. Acho que nos últimos tempos me persegue o ouvido, será um sinal? Não faço ideia, levo-a comigo agora também e sinto-me inexplicavelmente feliz…
“ Eu gostava de olhar para ti /E dizer-te que és uma luz
Que me acende a noite / Me guia de dia e seduz
Eu gostava de ser como tu / Não ter asas e poder voar /
Ter o céu como fundo / Ir ao fim do mundo e voltar
Eu não sei o que me aconteceu / Foi feitiço / O que é que me deu? Por gostar tanto assim de alguém / Como tu
Eu gostava que olhasses para mim / E sentisses que sou o teu mar / Mergulhasses sem medo / Um olhar um segredo / Só para te abraçar
O primeiro impulso é sempre justo / É mais verdadeiro / É o primeiro susto / Dá voltas e voltas / Na volta redonda de um beijo profundo…” *
Chego por fim à minha casa vazia de ti, fecho a porta atiro-me sobre a cama desfeita, adormeço. Baila em mim a musica como flocos de algodão doce. Por fim adormeço. A carta fica para uma outra altura …
João marinheiro ausente
O importante que é a tua chegada.
Perguntaste-me: - Então novidades?
-Novidades neste tempo em que estive ausente? E eu fiquei calado. Olhei-te nos olhos. Aprendo a olhar-te nos olhos. Não disse nada. Não existem novidades. Os dias correm iguais sobre 24 horas espaçadas.
Como dizer-te. E não digo. Remeto-me a um silêncio perturbador. O silêncio sempre, para dizer-te o que não se diz por palavras. Como dizer-te que contei os dias em que tu não estavas. Como dizer-te que percorri os mesmos caminhos ainda poucos por onde andamos juntos. Como dizer-te. Como dizer-te para que saibas que em mim ficou guardado na esperança do teu regresso, o calor das tuas mãos nas minhas por breves instantes. Um calor por entre os dedos que circula por dentro para que não se perca. E eu o guardo como um pouco de ti. Demasiadamente pouco de ti. E que fiquei sem noticias tuas, porque sabia que ias partir. Que ainda não estou preparado para a partida. Que me dói a ausência sempre, desde pequeno. Que a minha vida é feita de muitas ausências e de muitas outras coisas mais que sinto. E que sofro de uma espécie de nostalgia perene.
Como dizer-te tudo isto que sinto e penso sem que te apercebas nos momentos breves em que te olho de olhos nos olhos. Reprimo a vontade de te dar a mão, porque a magia que estava a habitar em nós se ausentou também. Foi contigo, e eu só, perco-me em pensamentos de solidão e abandono. Como dizer-te tudo isto que sinto sem te magoar a ti a quem aprendo a querer. Como dizer que agora retorno ao principio dos dias claros, porque os quero claros, azuis celestes, mas que por vezes me tenho de contentar com dias cinzentos, com chuva pelo meio e vento e frio. Autênticos dias de Inverno. Temporal no mar ao longe que escuto. E nestes dias especialmente me recolho na esperança vã de te encontrar e eu retornar a ti, a encontrar-te de novo. Como falar-te do dia anterior à tua partida. O dia anterior para mim. O dia em que cometi dois pecados seguidos. Pequenos eu sei. O terceiro pecado que não cometi, porventura o mais importante e mais desejado fica adiado ad infinitum.
Gostava de te escrever uma carta explícita mas não consigo. Estou como o dia cinzento, ainda no verão mas cinzento. Cinzento e ventoso. É Setembro mas não foi em Setembro que te conheci, não, mas é em Setembro que te recordo, me dou conta da tua falta em mim. Da complexidade dos dias, da complexidade da vida, da prisão dos sentimentos. Só o sonho é livre. Sou livre quando sonho contigo.
É madrugada, cinco e tal da manhã, a cidade deserta como eu gosto, pálida. A luz amarela dos candeeiros a meia potencia, Iluminam o suficiente e eu caminho pela avenida devagar. É assim que gosto desta cidade, vazia, em silêncio, interrompido só pelo chilrear assustado dos pássaros nas arvores, acordados pelo barulho de meus passos no granito velho da avenida. Sinto um cheiro no ar a pão cozido, e fica-me um sabor doce na boca, o desejo de comer pão quente e beber um café forte. Se fumasse com certeza para afastar o desejo acendia um cigarro, aspirarava o fumo de um trago, e nesta pausa de acender o cigarro, olhava ao redor. Mas não fumo. Assim desci a avenida abandonado, as mãos nos bolsos, o corpo frio, um estremecimento da pele arrepiada. Sinto a humidade nocturna e o sabor do pão quente nas narinas. Penso em ti de uma maneira que nunca tinha pensado, talvez por me encontrar só, com frio, nesta cidade deserta a descer a avenida principal em direcção ao rio. Penso em ti nua sob os lençóis na tua cama que não imagino. Não sonho a esta hora da noite tardia, ou do dia demasiado cedo. Não sonho com certeza mas penso em ti. Não devia a esta hora imprópria, mas és tu que estás em mim, plena. Não penso em ti de maneira pecaminosa, lasciva. O facto de te imaginar nua sob os lençóis, é assim que gosto de dormir, penso que será assim que gostas. Imagino-te portanto, nunca te perguntei como dormes, prefiro imaginar-te hoje enquanto o sol a nascente abre os olhos devagarinho. Penso em ti, a posição que ocupas na cama, os desenhos do teu cabelo solto na brancura dos lençóis. Tudo tem que ser branco na tua cama. Toda a roupa. É assim que te imagino. Pura! Branca! Diáfana! É importante o desenho dos teus cabelos na cama. A tua face bonita e serena, os olhos fechados, o respirar tranquilo, as tuas mãos abandonadas dormindo, como gosto das tuas mãos pequeninas. Como és na intimidade da noite dormindo. Desculpa estes meus pensamentos descabidos. Não são pensamentos impuros acredita. O amor é puro. Só não sei se sinto amor. Sinto a tua falta, já é um princípio e agora tudo é diferente, não sei porquê mas é assim que sinto, estamos diferentes, mais fechados em nós, protegidos. Não faço perguntas mas sei que ficam as dúvidas que persistem em mim. Socorro-me dos momentos breves em que estamos juntos para dissipar as incertezas. Na distância que medeia cada encontro, sonho. Nesses espaços sonho. Umas vezes nada. Outras contigo. Quase sempre sonho contigo, nunca o disse por palavras ou pessoalmente, não o sei dizer. Fica a perdurar o tal silêncio que se instala em nós e que diz tanto. Transparente, cristalino.
Queria escrever-te uma carta, a carta com as novidades mas não posso. As novidades não existem em mim, os dias são iguais, avizinha-se o Outono nas estações cíclicas e em mim, o mais não sei.
Cheguei entretanto ao fim da avenida, passo por um conjunto de táxis, vindo de um deles entoa uma música, fico atento. Reconheço. Acho que nos últimos tempos me persegue o ouvido, será um sinal? Não faço ideia, levo-a comigo agora também e sinto-me inexplicavelmente feliz…
“ Eu gostava de olhar para ti /E dizer-te que és uma luz
Que me acende a noite / Me guia de dia e seduz
Eu gostava de ser como tu / Não ter asas e poder voar /
Ter o céu como fundo / Ir ao fim do mundo e voltar
Eu não sei o que me aconteceu / Foi feitiço / O que é que me deu? Por gostar tanto assim de alguém / Como tu
Eu gostava que olhasses para mim / E sentisses que sou o teu mar / Mergulhasses sem medo / Um olhar um segredo / Só para te abraçar
O primeiro impulso é sempre justo / É mais verdadeiro / É o primeiro susto / Dá voltas e voltas / Na volta redonda de um beijo profundo…” *
Chego por fim à minha casa vazia de ti, fecho a porta atiro-me sobre a cama desfeita, adormeço. Baila em mim a musica como flocos de algodão doce. Por fim adormeço. A carta fica para uma outra altura …
João marinheiro ausente
Fotografia Google
* Poema de André Sardet






