domingo, agosto 27, 2006


Ás vezes deixo-me estar afundado neste velho sofá. Desligo-me do mundo. Fecho os olhos. Sonho meio a dormir meio acordado. Então tu chegas. Sinto o teu peso pluma sobre o meu corpo abandonado no velho sofá que me acompanha no descanso. Sinto-te. Fico feliz por estares. Desperto um pouco deste torpor que me tira as forças. Escuto na tv ligada a um canto. Não tinha dado por ela. Uma música do André Sardet. Acordei com as palavras,” …Eu não sei o que me aconteceu. Foi feitiço. O que é que me deu para gostar tanto assim de alguém…”
Sorrio por dentro de mim, o aconchego dos teus seios pequenos no meu peito transmitem o calor gostoso e minhas mãos afagam as tuas costas quentes. Estremeces ao tacto excitada. Beijas-me o pescoço. A tua língua faz maravilhas em mim. Estremeço por dentro como um choque eléctrico. Descarga e oásis de luz.
--Tu sabes! – Tu tentas-me! Gosto-te. Adoro-te. Venero-te. Quero-te! Deixo-me ficar mais um pouco. As forças abandonaram-me e eu descanso. A minha vida não faz sentido sem ti. És a chave. O segredo. O código secreto. A minha ligação à terra. Tu és o cheiro a terra lavrada que se sente molhada nos dias de chuva. Um campo imenso onde os bandos de pardais brincam ao apanha apanha. E ás vezes partes. Partes como os pardais em bandos de emoções. Espécie de andorinha negra que anuncias a primavera poisada nos fios dos telefones velhos que nos guiam as conversas ao destino. E vais. E demoras a chegar. E eu já devia de saber que és assim espaçada como as andorinhas ou os estorninhos, ou um qualquer pássaro migrante. Tenho de me desligar do mundo, morrinhar neste velho sofá quase desfeito para te ter. E ele é como eu, velho, usado, fora de moda. Só eu o uso já, afeiçoei-me a ele, ao seu jeito desconjuntado e frágil. Só assim te sinto já sobre o meu peito. Tu toda por inteiro. Completa. Quente. Gulosa. Adoras chocolate. Tenho pena de não ser um chocolate espesso.
Ás vezes afundo-me neste velho sofá. É assim que fico. Afundado mesmo. O pobre sofá perdeu a força nas molas, desconjuntaram-se. Fecho os olhos, desligo-me. Quem nunca fez uma coisa assim? Quem nunca sonhou? Quem nunca amou? Quem nunca sofreu a saudade?
Aprendi a sentir a saudade ainda não tinha sete anos. Demasiado cedo para carregar este fardo que mais parece um fado. Estranho isto de ser português e sentir a saudade. Dizem que só nós a sentimos, não sei se é verdade. E custa a saudade. Estranha forma de fado-lamento-trinado da guitarra triste dedilhada.
Ás vezes não sou eu aqui exposto nestas palavras que escrevo numa ânsia imprecisa. Tanto que te queria dizer. Tanto! E vivo com tão pouco. Quem nunca ficou assim? Cheio de nadas! As mãos nos bolsos e os bolsos vazios.

Ás vezes persegues-me a memória. Tento ligar tudo a todo o momento. Espécie de processador com não sei quantos gigas de velocidade. Não sei se é assim que se diz? E tenho falhas. Bloqueio. Apago-me. Adormeço. Não sou uma máquina fria, impessoal, feita de microprocessadores e circuitos impressos. Tenho um sangue quente circulando nas artérias, tu sabes disso, és uma espécie de glóbulo branco gigante. Espécie de luz na noite, uma lua em noite de aurora boreal que entra em mim e me faz sentir-te. Gosto de te sentir. Fico vivo, fortalecido. Renasço em ti, como quando me vinha em ti quando fazíamos amor. Sonho com isso. Já não sei distinguir se existe uma verdade. Se fazíamos amor. Se te imagino por desejar-te, por querer fazer amor contigo. Ainda quero! Acho que fazíamos amor. Já não sei o que é o amor?

O amor é fodido diz o Miguel. Não gostava do tipo. Pronto confesso! Passei a gostar. As pessoas mudam. Eu mudei, e acho que tem toda a razão, passei a admirar a sua determinação, a sua escrita critica, sentida.
Estou fodido com o amor que sinto por ti!
Desculpa. Nunca falei mal. Não falo mal, não digo palavrões, mas saiu assim, é assim que me sinto, ou já não sinto nada e continuo fodido e deixo-me estar aqui neste velho sofá que range a cada movimento do corpo. Parece que estamos fazendo amor os dois e o sofá reclama dos movimentos rítmicos. A porra do sofá que está contra mim! E faz barulhos estranhos como que a desmoronar-se de todo de uma vez. É o meu velho sofá onde me deito ao comprido rodeado de pequenas almofadas cor de trigo que me amparam e escudam as traves que já se sentem por o sofá estar completamente afundado em si, espécie de barco só com o casco por fora e vazio por dentro.
Ás vezes. Ás vezes sinto-te em mim, e quando acordo não me lembro rigorosamente de nada. Assim acho que te estou esquecendo mentalmente mas, num passe de mágica, o tal milagre que tenho falado ou imaginado aconteceu. As palavras ficam e surgem umas a seguir às outras nestas folhas em branco no início. Prova de que penso em ti. Prova de que és real e existes em algum momento em mim. Espero acordar deste descanso merecido e mágico e reter-te. Não uma prisão que te prenda. És livre, viva, solta. Retenho-te só aqui no tal mundo redondo, no tal amor redondo que falei um dia. As palavras são um alfabeto finito, feito de símbolos. És um símbolo em mim, caracteres manuscritos a lápis no momento, é assim que te retenho em mim, um imenso alfabeto de letras juntas. Palavras reunidas em redondo à volta do tal mundo fechado onde habito. E o céu por lá é azul, e existe uma ilha só minha, que não a ilha do Farol da minha juventude que essa já não está igual, mas penso que pode ser na minha ilha das Berlengas com os Farilhões a piscarem uma luz na noite para que saibamos que estão lá, e a da Velha aquele pedaço redondo por baixo da ronca que tocava nos dias de nevoeiro, um grito agudo, longo, reconhecível na névoa pelos entendidos e por mim que por ali brincava. Pode ser a Berlenga com o castelinho, o carreiro do mosteiro, ou o carreiro dos cações, ou a quebrada. O Ruço. Um burro infeliz e só… Os sardões, os coelhos, os ratos. Os milhares de gaivotas. As galhetas que na noite parece que falam dizendo repetidamente o numero oito, oito, oito, oito, e a tal baleia que vi um dia a emergir da água pela primeira vez. Podes ser tudo. A minha infância. A adolescência. O primeiro beijo. O primeiro amor. Ou a saudade. No momento és a saudade. A saudade que tenho de ti, e a falta de coragem de ir em tua procura. Deixo sempre que venhas ter comigo quando durmo neste velho sofá. Nunca gostaste dele. Dos barulhos estranhos que fazia como que a lamentar-se de ti, da tua falta de carinho por ele, da tua falta de festas a ele. Só a mim me reconhece. Só ele me acompanha noites a fio. Os dois juntos e uma garrafa de whisky que fui esgotando aos poucos com gelo. Passou tanto tempo. Não importa. Estava dormindo e estavas comigo e o milagre aconteceu. Ficam as palavras a ti…

Hoje já não te quero. Estou curado de ti. Não te amo já. A revelação é simples e branca como a neve. Fria como o gelo. Já não estás! O mais sou eu a tentar enganar o sangue nas artérias, a desviá-lo do coração para que ele desfaleça e te renegue. Renegando-te nego-te. Negando-te não existes. Não existindo tu fico eu só.
O amor é fodido!
O Miguel tem razão.
Estou fodido!

João marinheiro
Praia de Fornelos , Agosto de 2006
Fotografia de Barcoantigo

7 comentários:

Lumife disse...

Uma visita que já tardava. Um bom texto para começar e agora vou pôr o resto da escrita em dia.

Um abraço.

A. disse...

João,
sem porquê decido vir aqui...começo a ler-te...ao mesmo tempo esta música de A.S.começa a tocar na Rádio...há coisas realmente arrepiantes.




Achei maravilhoso teres nas tuas memórias a Ilha do Farol.
Não é a minha Ilha...mas como sabes os passeios são imensos naquelas praias desertas.

Não sei bem bem como estás,é sempre difícil desvendar-te...enteder se é apenas um texto...se é também o teu coração.
A C. voltou...uma alegria,espero.


Um beijo enorme.

Monica disse...

Sim, o Miguel tem razão, mas tu também a tens. Não te deixes afundar no sofá. Adorei a flor.
Bjs

marakoka disse...

gostei de ler.te
tantos sentires...
jocas maradas de tempo

Claudia disse...

É incrível como descobriste isso, eu sou como as andorinhas! Sim! Isso não era tão fácil. A parte do chocolate sabes de cor e salteado que eu não passo sem ele! E prefiro começar a falar do chocolate, para não começar da forma triste com que acabaste o teu bonito texto. E se eu não servir para mais nada, deixa-me ter a pretensão de te dizer que gosto (ainda) mais das tuas palavras agora, que têm um pouco de mim...
Provavelmente, deveria responder-te no teu/nosso outro blog, mas acabei de ler e tinha que te responder. E afinal foi aqui que escreves-te. Aqui, onde tudo começou...

Devias de saber que há alturas em que sou, ou que tenho que ser como as andorinhas... Porque a liberdade é tão difícil de conquistar, e cada vez parece mais difícil... Mas voltei, não parto de vez. É certo que ainda não assentei, se é que alguma vez o farei, mas voltei. Tens que dar tempo para a andorinha se reajustar ao ninho, que infelizmente não tem chocolate!
E sabes João? Podes ter muitos mais anos que eu é certo, mas isso não faz com que eu não saiba o que é ter saudade, ou sonhar ou amar como tu...

Dizes que já não distingues se existe uma verdade. Ora João... Toda eu sou verdade. Nós sempre o fomos e seremos, seja sempre de que maneira for. E se tu não és uma máquina fria, que não és, eu muito menos, e sabes bem disso. Conheces-me melhor que isso, para saber que toda eu transbordo emoções, que sou quente, sol que te aquece...nos aquece.

"És livre, viva, solta." Sou. Mas não tanto quanto gostaria e isso acaba por se reflectir e tu sabes isso melhor que eu! Talvez aqui a tua idade em relação a mim seja uma mais valia. E porque infelizmente não vivemos na nossa ilha, onde tudo seria tão diferente... E como não é aí que vivemos, temos muitas vezes que nos adaptar a tudo o que nos rodeia. E mais uma vez, tens noção que não é fácil, se é que é alguma vez exequível...

Porém, nem a minha ausência, a esperada e a inesperada, nem a minha aparente apatia te permitem retirar certas ilações. Sabes que gosto de ti. Isso é um dado aduirido, há muito. Que sinto a tua falta, das nossas conversas, desde as mais sérias, àquelas em que só servem para estarmos mesmo a conversar! E é óbvio que tenho saudades tuas! não devias de ter dúvidas acerca disso. Tudo o resto sucede por algum morivo. Porque assim tem que ser. Porque não pode ser de outra forma simplesmente.

E assim sei hoje que já não me queres... Curado? De todo? Não punha as minhas mãos no fogo... Desde que não te tenhas curado de gostar de tudo de mim e que continues a gostar de algo. Mas há uma série de falhas no teu silogismo que não o é...
Porque eu continuo a existir e tu não ficas só, nem eu deixava, gosto demais de ti para isso...

Beijo enquanto tento regressar desta ausência forçada e difícil...

Ana Luar disse...

João o amor é um movimento perpétuo a três tempos: ilusão-desilusão-ilusão... porque o amor não é uma linha recta mas antes um círculo. A ilusão do amor acaba com a desilusão mas se era ilusão, não era real.
O amor é um círculo de renovação, um circulo aberto porque é nas ilusões e desilusões que vamos apurando as lentes do amor para poder ver o amor real quando ele chegar.
Pode parecer uma visão muito romântica do amor (e até é), contudo, há experiências dolorosas inevitáveis que vêm apenas tornar-nos melhores pessoas além de aperfeiçoar a nossa busca e reencontro com o amor que vem de nós e que poderá depois plasmar-se no outro... completando-nos.
Mas concordo que o amor é fodido... e mesmo sabendo que não apreciavas o Miguel... tens de admitir que é uma pessoa consciente da realidade, a mesma que nos afecta a todos.

O texto é Belíssimo como sempre meu querido.

bjs........................

Sophie disse...

Não desistas João... luta por aquilo que queres SEMPRE!
Beijinho
Ana