quarta-feira, fevereiro 25, 2009

rumo a Oeste...




as velas prenhas de ventos e de ideais
o rasto nas águas frias do navio
uma ardência de fluorescências que desenham riscos de sal sobre as ondas breves

acabaram-se os ancoradouros antigos
os meus navios foram sempre uma miragem alucinada
um sonho por cumprir
demasiados naufrágios

morrem-me os dedos nas mãos vazias
e a pena perde o tino nas palavras
seca na folha amarelecida a tinta azul água
o diário de bordo de um capitão velho

rumo a Oeste de nada
uma carta náutica falsa, sem valor
as coordenadas imperfeitas
longitudes, latitudes, declinações magnéticas por corrigir

um imenso erro a escrita
dou-me conta
um marinheiro não pode ser poeta, ou o contrário
não existe poesia na rudeza do sentir no mar

as velas ainda se içam ao vento e enfunam
prenhas, redondas, alvas
é assim que as imagino
mas todo eu sou um engano…



João marinheiro Fevereiro de 2009
Fotografia de Barcoantigo em 2009

7 comentários:

Maria disse...

Mas há poesia maior do que a rudeza do sentir do mar quando beija a rocha ou abraça o areal, prenhe de ternura?

Um abraço, marinheiro poeta
(tanta saudade...)

Alex disse...

Quem disse?


O teu poema trai o teu pensamento. O que é um facto é que tu és um poeta, navegas no mar e nas palavras.

E não deve haver aqui ninguém que me desminta.

M. disse...

Quero o poema enrolado em pergaminho numa botelha e atirado ao mar para daqui a tantos naufragios seja recolhida algures num ancoradouro. O mundo lerá a doçura de quem soube sentir o mar nas letras.

Abraço.

Parapeito disse...

"um marinheiro não pode ser poeta, ou o contrário
não existe poesia na rudeza do sentir no mar..."
Lembrei de um velho marinheiro..que dizia odiar o mar...que não entendia como podiam pessoas escrever a enaltecer a sua beleza...que era cruel e mesmo quando manso...nunca era doce......mas sim cheio de sal de tantas lágrimas...

Gostei de passar por aqui..que os ventos possam soprar de feição...

darkinha disse...

Adoro ler t e confesso que tive saudades das tuas passagens no meu cantinho.. mas como regressei resolvidar-te um beijo

Anónimo disse...

Fiquei fascinada com a tua poesia. A minha inspiração vem do rio e do mar também.
Abraço,
Vitória

APC disse...

Existe sim, e a negação é uma defesa contra ela! :-)

E erros de trajectória, assim na terra como no mar...

Suscitou-me uma certa curiosidade indevida, aquele texto por debaixo da caneta, originário de terras de Vera Cruz. Que sentidos terá ele?|...

... E que sentido terá negar-se a poesia? Se tantas vezes os riscos do sal desenhados sobre as ondas breves terão sido os seus cabelos esvoaçando na brisa da espera...

;-)

Grande abraço para ti!