domingo, janeiro 04, 2009

Do desencontro...VII parte


( Livro de contos...)

Parece que apanhei um murro violento no estômago. Fiquei sem reacção sem forças, vazio por uns momentos demasiado demorados, parece que o tempo se esqueceu de mim e me deixou abandonado nesta aflição, este sufoco na alma, um arder por dentro. Cada vez estou mais angustiado e abismado, admirado com este homem misterioso a quem não pude olhar, a quem não pude chamar de pai.
De repente vem-me à ideia que não sei como é, nunca vi uma foto sua, não faço a mínima ideia de quem seja. Como é o seu rosto, a cor dos olhos, dos cabelos, se alto se baixo, nada! Tudo é tão estranho. Sinto-me preso a abafar sem reacção, o olhar inundado de sal. Batem à porta. Acordo, deve ser o que pedi para jantar, sinto uma fraqueza a invadir-me o corpo e a mente. Acordo deste torpor em que estava a submergir-me depois de ler a carta no pc. Abro a porta num gesto autómato, a funcionária com um sorriso avança com o carro bar com a refeição. Quase não lhe falo – entre, digo. Brinda-me com um sorrido simpático. Meigo, imagino que o seu sorriso é meigo porque os olhos são meigos, de um verde paz meigo. No espaço de segundos processo mil pensamentos ao observar esta jovem, reparo em pequenos detalhes, a cor das unhas, a forma como estão cortadas, a cor dos cabelos, o perfume suave e discreto que usa, o uniforme impecavelmente limpo a sua forma elegante, esbelta, não deve ter mais de vinte cinco, vinte oito anos, um metro e sessenta e cinco, tiro a medida da sua altura quando ela se volta para mim – desculpe, quer que sirva o jantar ou deixo ficar? – Importa-se? – Importa-se de me servir? Retorqui enquanto a observo, enquanto lhe descubro o nome na placa dourada no peito, mesmo por cima do coração – obrigado Esmeralda. Obrigado. Olho-a nos olhos. À quanto tempo não olho uma mulher nos olhos? Vejo um sorriso nos seus lábios, um rosto bonito. Vejo por instantes. Por instantes faço comparações. Olho as suas mãos, as unhas cuidadas. Verniz vermelho vivo. Obrigado digo outra vez, quase sem palavras. Num ápice dispôs o prato na mesa, bife com molho tártaro, legumes salteados e arroz com frutas secas, serviu o vinho, dispôs o pão, duas fatias de pão integral, colocou a sobremesa, os talheres impecavelmente dispostos, o guardanapo branco, arrumou o carrinho, e com o mesmo sorriso luminoso, – por favor quando terminar a refeição queira solicitar à recepção para podermos retirar o carro. Tenha um jantar agradável e disponha se precisar de mais alguma coisa. Obrigado Esmeralda falei outra vez, enquanto ela se dirigiu para a porta e a fecha atrás de si.
Estou de novo só. Por um momento pareceu-me que estava em casa, que tinha uma família, que tinha uma esposa que colocava a mesa com a habilidade característica das esposas. Por um momento só. Sento-me para jantar, mais logo ligo à mãe, ela fica acordada até tarde. Agora vou saborear este bife e o arroz com pinhões e passas. Faz muito tempo que não como assim uma refeição. Sorvo um pouco de vinho. Um tinto encorpado do Douro, bom vinho, demoro-me a ler o rótulo. Gostava de ter aqui uma companhia feminina com quem partilhar este vinho, com quem pudesse brindar a vida e também conversar. Preciso de uma companhia por perto. Ainda sinto o perfume de Esmeralda no quarto, ainda o sinto nas narinas, e isso excita-me e faz-me sentir desejo, e faz-me sentir saudade.
Janto a correr. Bebo dois copos deste vinho rubro forte, 14 graus e meio, sinto o seu efeito relaxante a entrar em mim lentamente. Não estou habituado já a beber vinho. Fecho os olhos por uns momentos a descansar, a recuperar as forças, pareço um navio adornado na tempestade, a não se deixar adormecer e vagarosamente retornar ao seu ponto de equilíbrio, à posição vertical para ganhar rumo de novo.
Estou em Lisboa faz quase um mês. Durante duas semanas aluguei um carro andei de um lado para outro ai pela costa, de sul para norte de este para oeste, sem rumo. Demorei tantos dias a decidir-me ir visitar o Capitão e aconteceram tantas coisas entretanto. Ainda estou estranho.

Deixo-me ficar mais um pouco, a noite iluminada por uma luz baça entra pela janela do meu quarto esbatida. Daqui deste oitavo andar olho o casario velho de Lisboa os telhados cinzentos e negros e ao fundo, a silhueta da Ponte a piscar. Vejo também o Tejo a luzir, as luzes a espelharem-se nas águas escuras no rio das mil descobertas. Andei a caminhar estes dias pela beira Tejo junto à Praça do Comercio. Faltam as colunas. O Cais das colunas desapareceu. Mutilam a cidade branca e ninguém se importa.
Aqui impera o quase silêncio, quase, porque se escuta ainda um ruído abafado e distorcido do movimento de carros na avenida. A cidade prepara-se para adormecer, para fingir que dorme, é uma espécie de movimento perpétuo. Lisboa não pára nunca. Parece que adormece mas não pára. Só eu me sinto cansado e a parar. Gostava de olhar outra vez a funcionária do hotel. Ver o verde paz dos seus olhos. Sentir desejo outra vez. Sonhar outra vez. Gostava de conversar. De escutar uma voz de mulher durante um bocado a conversar comigo. No fundo é isso, é um vazio que existe em mim, um fosso difícil de encher agora. Sou um turista em Lisboa, sou um estranho em Lisboa. Um numero de estatística turística. Na Escola Náutica já não conheço ninguém do meu tempo, e era a única ligação que tenho a Lisboa, quase a única. Vim cá acabar a especialização durante um ano. Apaixonei-me. Depois parti, não devia ter partido, é esse ano que me falta. Sou um parvo. Um doido por estar a pensar estas coisas a esta hora. Ligo para a recepção – Por favor podem dizer à senhorita Esmeralda do restaurante que pode vir levantar o carro com o jantar.
– Obrigado!
– Espero! Espero!
É o que tenho feito este tempo todo, esperar. Espero que a Laura ainda more no mesmo sítio; Rua Brancamp Freire.
Espero. Espero que esteja em casa.
Espero. Espero ter coragem de tocar à campainha, e subir até ao terceiro andar direito do seu prédio e tocar.
Espero. Espero que seja ela a abrir a porta. Que ainda ali more.
Espero tanta coisa adiada. É um ano que falta na minha vida. Insubstituível porque não posso voltar atrás.

Olho a noite, tenho a janela aberta e a cortina corrida a um lado. Gosto de ver o sol nascer, mas estou de costas para ele. Sinto-me nervoso a andar de lado para lado aqui. Os meus passos são abafados pela alcatifa vermelho escura. Olho pela primeira vez com atenção a decoração do quarto, uma pequena suite, casa de banho, sala de estar e quarto. Olho pela primeira vez os quadros na parede. Janelas. Janelas de Maluda a pintora das janelas de Lisboa. São, bonitas. Copias a enquadrarem no papel de parede branco, branco sujo e ondulações ocres e pardas. A mobília em negro wengué e vidro vermelho fogo, a alcatifa a condizer. Acolhedor o sitio.
Ainda sinto o perfume, ou sou eu que o imagino. Só pode ser. Costumo guardar pequenos detalhes durante anos na memória. Ouço bater na porta. Abro, é ela, venço a minha falta de palavras – olá Esmeralda bem vinda de novo! – Entre! – as minhas recomendações ao chefe de cozinha, o jantar estava muito bom. Olha para mim a sorrir, não diz nada, percebe que quero meter conversa. Claro! Deve estar farta de ser assediada, é uma mulher muito formosa. Apetecível. Sinto o seu cheiro e involuntariamente aspiro prolongadamente a entranhar em mim o seu perfume, para me ficar dentro a durar tempos. Arruma num ápice toda a mesa, aspira as pequenas migalhas de pão com um pequeno aspirador portátil, tudo pensado ao pormenor, eficiente. É assim que gosto de saber as pessoas, eficientes e competentes. Acabou. Olha para mim outra vez – o Sr. comandante João deseja mais alguma coisa? Fico surpreso, sabe o meu nome e profissão, esboço um sorriso, e toda a tensão que senti ao longo do dia se desvanece diluída pelo som da sua voz. O pequeno gesto de me tratar pelo nome, de falar comigo, não me tratar como um turista, um estranho na nossa cidade. Demoro a responder enquanto me olha, olhos nos olhos a desafiar, de frente, com personalidade. O que eu penso ao milionésimo de fracção de segundo. Respondo calmo
– Obrigado Esmeralda! Posso tratar assim, Esmeralda? – Não preciso de mais nada por hoje vou descansar que tive um dia complicado, demasiado emotivo. Gostei que me tenha tratado pelo nome. Demonstra muito profissionalismo de sua parte e da equipa do hotel, afinal já cá estou quase há um mês hospedado, e estava a sentir-me um estrangeiro. Um turista na minha terra.
– Obrigado. Não disse mais nada. Sorrindo dirigiu-se para a porta com o carrinho, olhou-me uma ultima vez a sorrir, sempre a sorrir. Tenha uma noite descansada Sr. Comandante. Amanhã o pequeno-almoço é das sete às 10 horas na sala Oriente. E saiu.
Fiquei a sorrir também. A imaginar que por um momento era a Laura que ali esteve comigo a falar-me a olhar-me. Por um momento lhe senti o cheiro, quase o sabor da pele, a textura das mãos, o desenho dos lábios…

Estou doido. Antes de me deitar tenho de ligar à mãe, quem sabe se ainda hoje me sinto com coragem e ainda vou descobrir mais segredos no pequeno pc do capitão.

(Continua...)
Fotografia de Ana Guerreiro, www.olhares,com

4 comentários:

Crystal disse...

Uns olhos verde paz no apagar de um dia de emoções fortes, a fragilidade humana, o derreter do coração salgado pelo mar...Hoje soas-me a esperança. O mundo renasce aos olhos do comandante, o Tejo assiste, em Paz. Eu vou dormir, a sorrir-te.

Beijo

Maria disse...

Quando publicas este conto?
Nem sei se deveria fazer esta pergunta, mas apeeceu-me. Queria tanto...

Um abraço, com o Bugio em frente

M. disse...

Apanha lá esse pc do capitão todinho.. a abarrotar de segredos por desvendar.

Beijo

Cristina Silva disse...

Fiquei sem palavras, talvez porque te conheço tão pouco...quase nada...
Tanta emoção,tanta paixão,tanto amor guardado no fundo do coração...

Só os cascos envelhecem, como os corpos que habitamos...
A alma mantem-se jovem e o coração bate mais forte, sempre que esperança adormecida acorda na tentativa de viver a emoção que ficou para trás...