sábado, dezembro 06, 2008

Do desencontro...V parte


( livro de contos)

Volto á habitação do capitão Júlio percorrendo de volta os mesmos corredores, trago na mão o envelope. Não o quis abrir ali na frente do Dr. Ernesto, prefiro estar recolhido ali no seu aposento, o seu sítio. A minha cabeça fervilha de pensamentos. Em cada passada, em cada metro que venço a encurtar a distância ao quarto do Comandante Júlio, o meu corpo começa a ficar em alerta. Que trago nas mãos? Que papeis são estes. Que carta. que noticias? Afasto por uns momentos da ideia as perguntas. Traço um plano mental. Hoje vou arrumar todas as coisas e levar as importantes para o hotel, amanhã ou depois irei ao Porto, quero de novo ver a casa, depois vou para Londres ter com a mãe. Sim será o plano mais acertado. Organizar as coisas. Preparar tudo. Quem sabe estou a fazer um temporal para nada. Abro a porta. Olho de novo o pequeno quarto, abro a janela e sinto a aragem fresca a entrar, uma espécie de vento a saber a maresia. Fico a pensar. Que espécie de homem era ele para até nas pequenas coisas insignificantes nos surpreender sempre, como sabia que aqui desta janela o vento trás o sabor do mar, o cheiro do sargaço. Nunca vou saber a resposta. Não é importante já. Agora vou ler a carta, aqui na sua secretária. Isso o importante agora. Quero saber o que nos queria dizer. Tremem-me as mãos ao abrir a carta.
Duas folhas manuscritas a tinta azul.

…” Espero que me perdoes. Eu tenho quase a certeza que vais ser tu que vens cá à minha procura, senti isso quando recebi a carta da Beatriz. Com tempo vais saber as respostas todas. A tua mãe, a Beatriz vai contar-te tudo. Não é uma história bonita. Foi uma história de amor sem amor. Impossível, por erro meu. Fracassei no destino que escolhi. Não fui um bom namorado. Não fui um bom marido. Não fui, soube agora, um bom pai, isso não me perdoo. Peço-te é perdão pelos erros cometidos. Por nunca ter sabido da tua existência, pelo tempo que não tivemos. Pelo colo que não te dei, os mimos, os afectos. Tolda-se-me a vista como uma névoa quando penso em tudo o que poderíamos ter sido como pai e filho, e nunca fomos. Nunca te olhei, nunca escutei a tua voz, não sei rigorosamente nada de ti, e ao pensar nisso, metade de mim afunda-se num sorvedouro, um redemoinho de sentimentos. Fui um doido orgulhoso porque cedi ao orgulho em vez de ceder ao amor que tinha pela tua mãe, virei-lhe costas zangado por ela ter ido embora, iludi-me durante anos, iludi a minha memória, enganei o meu coração, tentei apaga-la, sem nunca o conseguir, eu sempre soube que era única. E quando regressei quase não reconhecia o meu Portugal, e depois era tão tarde, o tempo foi um carrasco que me aprisionou. Tive medo. Tive medo de ir à procura da tua mãe e ela não me reconhecer. Não me querer ver. Tive medo de ser rejeitado, e então fiquei por cá por Lisboa. Deixei a casa do Porto abandonada. Custava-me lá ir. Parece que a via sempre, a olhar-me, uns olhos acusadores. Deixei de olhar as pessoas frontalmente com o tempo, confesso. Deixei de me interessar pelas pessoas. Os barcos eram a minha paixão, foi por eles que troquei o amor, foi por eles que fiquei só, o coração amargurado de arrependimento. Mas já não posso voltar atrás ou reescrever a história. Depois vim para aqui para São Martinho e como já não tinha amigos fazia muitos anos ninguém deu pela minha falta.

Espero que me perdoes.

Não sei se vais ler esta carta no meu quarto, gostava que o fizesses, mas se o estás a fazer como eu penso, como eu pressenti que farias, olha então ao teu redor. Não são muitas coisas. Mas todas têm um lugar e uma história. Um tempo. Na secretária tens um pequeno computador, onde está tudo o que escrevi. Quero que o ligues Foi com ele que durante os últimos anos aqui neste lar substitui o mundo lá fora. As pessoas. Foi o meu confidente e companheiro dos dias felizes e dos dias tristes. As travessias longas e penosas. Os ventos ciclónicos e as calmarias. É teu. Aceita-o como uma forma de perdão, de me redimir da ausência. Dentro descobres que quase só escrevi a ausência, o amor ausente, a saudade. Não sou e não fui um escritor, ou um poeta do mar, como algumas pessoas me disseram. Pessoas com quem conversava por lá pela Internet. Fui um marinheiro de porto em porto como os barcos que comandava. Também tens aqui os meus livros e mais alguns pertences, são teus por direito, faz com eles o que muito bem entendas. Existe também uma conta bancária, tens tudo ai no computador, no banco tem instruções para quando os contactares. A Internet é prodigiosa, tratei de tudo por aqui para poder partir em paz.

Sei que já não posso esperar por ti, nem pela Beatriz, o meu tempo chega ao fim. Não julgues mal a tua mãe, fez o que achou melhor na altura. É uma grande mulher, eu compreendi o seu gesto e perdoei-lhe logo de seguida, mas o orgulho cega o coração e tolda-nos o pensar. A tua mãe na carta que recebi diz-me que tu também partiste para o mar que deixaste tudo e todos. No computador tem um texto pequenito escrito quase uma carta, a pedir-te algumas coisas, são uma espécie de lamentos sei lá, uma remissão dos pecados avalizados pela minha experiência, pelos meus erros. Lê com atenção e faz o que o teu coração te aconselhar.

Pronto agora já tens aqui as orientações todas. Perdoa-me mais uma vez não ter sabido cuidar de ti, de te ensinar a cresceres na minha companhia. O destino assim o quis.
Acabei também de escrever uma longa carta de despedida para a Beatriz, mais uma, confesso que lhe escrevi uma data de cartas que nunca enviei porque não sabia para onde enviar. Não sei porque o fiz, quando me dei conta era para ela que escrevia a fazer renascer a memória, a faze-la renascer na memória. Só a memória alimenta e produz e nos permite saber de onde vimos e para onde vamos, só ela. Comecei a escrever e publicar na Internet as palavras, acalentava a infantil ideia que ela a Beatriz ia ler e me encontrar, como se isso fosse algum dia possível. Todos os dias, religiosamente abria o computador no meu sítio a ver se ela lá estava. Nunca esteve.
Depois as palavras começaram a rarear em mim na mesma proporção que as forças se iam embora, e a vista, e o coração maltratado ia baixando o ritmo, baixinho cada vez mais. Hoje em que te escrevo as derradeiras e ultimas palavras quase não o sinto no peito a bater, amanhã ou depois pára, é como um velho motor sem concerto, fatigado.
Deixo-te mil abraços e beijos, para ti e para a mãe, a valerem todo o tempo do mundo.
Dá-lhe um abraço por mim.
Faz isso.

Teu pai

Capitão João Júlio

São Martinho, Novembro de 2007



Tenho as mãos a tremer e o coração apertado. Por uns momentos fecho os olhos e escuto o murmúrio do mar o som do oceano e compreendo as palavras dele e entendo a sua dor. Que espécie de homem era para me surpreender em cada descoberta, como sabia que eu iria aqui ler a sua carta. Não sei se tenho coragem de ligar agora o computador, ou o leve comigo para o hotel e depois de andar um pouco, de arejar as ideias, então sim o ligue e possa entrar no seu mundo de memórias.


Logo tenho de ligar à mãe a dizer que cheguei tarde, que o capitão faleceu. Que não cheguei a tempo de o abraçar. Agora sinto-me como um saqueador de naufrágios à espreita que os despojos dêem à costa. O coração amarfanhado também…
(continua)
Fotografia de Sofia Trincão 1997

7 comentários:

Maria disse...

E eu continuo a ler-te. Aqui.
Esperando que um dia te possa ler em papel palpável...

Um abraço forte

Su disse...

aqui...........sinto.t


jocas maradas.de tempo

Su disse...

(tens prenda natalicia no marakoka)

tb disse...

e eu leio e gosto :)
beijo natalício

Sofia Trincão disse...

João Marinheiro!
Quem és tu? Quem é o João das memórias vituais?
Belas palavras.... alguém que deixa tudo por causa dos barcos...talvez como eu vá deixando os barcos por causa das pessoas!
Serás quem eu penso!
E porque escolhes-te a minha foto do painel da Teresa Patrício?
Era muito bonito, mas também foi demolido! Também por causa das pessoas!
Pois é, andava eu aqui nestas navegações virtuais, a ver se encontrava os festivais por onde os meus barcos virtuais andaram, quando te encontrei! Porque a foto tinha o meu nome!
Obrigada!
Será sempre preciso navegar!

Sofia Trincão disse...

João Marinheiro.
Afinal eras quem eu pensava!
Mas por momentos cheguei a imaginar ter descoberto mais um dos tão escassos marinheiros deste país!
Mas fico contente por seres tu o marinheiro poeta!
Talvez nos encontremos na Culatra!
Lindas fotos, triste realidade!
Um abraço.

Ps- Fica 1 link para "wooden boats"1 velho site que fiz na Noruega em 99, sobre o que esta/va a acontecer cá.Em Norway podes ver o Oselvar, o barco-"berço", o barco mais acolhedor que conheço!

joão marinheiro disse...

Olá Sofia, bem vinda a bordo efectivamente sou o João marinheiro que conheces.
Nunca me lembrei de te falar dos blogs.
Fico triste que o Painel da Teresa Patrício também tenha sido destruído. Ficam as fotos como memorias e a aventura de um dia as ter escutado na Antena 1 a falarem de barcos, e tudo o que se passou a seguir até percorrerem meio Portugal com os restos dos barcos da costa do Algarve para participarem no nosso segundo encontro de embarcações do Rio Cávado corria o ano de 97 antes da Expo.

Quantos barcos se perderam entretanto?
E quantas memórias?

Beijo daqui junto do mar a Norte enquanto tentamos salvar mais barcos.