terça-feira, maio 20, 2008

Depois podia morrer...


Mas já não sei. Por vezes fecho os olhos e o pensamento é todo teu, espécie de mundo redondo onde as tuas palavras ecoam. Já não sei se são as tuas palavras a chamarem por mim ou tudo é um eco perdido na névoa espessa onde me perco nas navegações estimadas e cegas.

Rumo a norte de novo, aproveito o vento, aproveito a noite que se aproxima para me recolher em memórias enquanto as velas prenhas de vento deslizam a empurrarem o velho veleiro que hoje é só uma silhueta entre mim e a ilha a bombordo de ti. Espero que o velho farol acenda e me ilumina. Vou imaginar que são os teus lábios em mim a provocarem clarões de luz. As tuas mãos, os teus braços abertos num abraço, espécie de lais de guia que me prende o coração.

Regressas lentamente e eu estive sempre esperando por ti. Sempre a navegar no oceano da memória, na vazante do rio, na enchente do mar, em cada maré viva, em cada tempestade, em cada fúria do mar, em cada naufrágio onde me despedaço de encontro às rochas frias.
É importante o teu regresso em mim.

Estou atento ao vento e ao frio que chega húmido a anunciar a noite, ligo o piloto automático, as velas estão afinadas, cheias de vento, e a proa corta as vagas pequenas. Seis nós. Faltam duzentas milhas para entrar na tua cidade outra vez. Imaginar-te na cantareira sentada à minha espera como fazias no tempo antigo. Mais de trinta horas de viagem, se o vento se aguentar. Seis nós, é uma boa velocidade neste velho veleiro feito de sonhos, memórias e tantas viagens de ausências. Sento-me no banco cansado a observar o lume azul no fogão bamboleante enquanto aguardo que a sopa aqueça na lata em banho-maria, não sei porque lhe chamam banho-maria, para mim é só água a aquecer uma lata de sopa pronta, feita de modo industrial para enganar o estômago. Olho pela escotilha o farol da Berlenga ao longe que já acendeu e o do Cabo a piscar em vermelho fogo, e sinto o fogo em mim a matar-me lentamente.

Mais logo vou dormir no convés a sentir a noite. Vou olhar as estrelas a ver se uma cadente rasga o céu e lhe peço um desejo.

Estou muito cansado. Demasiado cansado. O mar entranha-se em mim como uma maldição. Precisava do teu regaço para descansar a cabeça e fechar os olhos. Depois podia morrer.

João marinheiro 2008
Fotografia de Barcoantigo em 2008

5 comentários:

M. disse...

De um querer enxotar de memórias quase inconsciente o marinheiro volta a querer o regresso das mesmas. A esperança aportada num cais qualquer é antídoto que o mantém vivo. Nunca quererá morrer no regaço. Apenas dormiria extasiado o tempo do descanso, porque no fundo todas as fibras do corpo pertencem ao mar. E só no mar afoga toda a saudade.

Justine disse...

O poema-prosa seduz-nos como um canto de sereia, enrolando-nos nas sua metáforas de solidão e ausência, de desejos imensos, semelhantes a horizontes. E aí vamos nós, contigo, até que descanses.
Muito belo.

Aninhas disse...

Conheço este lugar, este sentir...
Procuro velejar ao contrário do que sinto. Procuro não chegar a lado nenhum.
A propósito. Lembrei-me do "Marinheiro de Gibaltrar" de M. Duras.
Até à próxima.

Maria disse...

Já sabes o que terei dito quando abri o blogue...
...é tão linda...
Faço a viagem contigo. Com o mar assim calmo é um instante. Mas faço a viagem ao contrário. Volto sempre à ilha. Para descansar e fechar os olhos. Para sempre...

Um abraço, enquanto me preparo para a travessia

inominável disse...

"estou só e cansado e a vida pesa tanto" (vergílio ferreira)

não é uma contribuição tão brilhante como a que me deixaste, mas eu sou de poemas curtos e de frases curtas... apesas da meia dúzia de postes mais longos...

tem um blogue fenomenal!