sábado, maio 12, 2007


Deixo passar o tempo. Não penso. Vegeto nestes dias…
Ouço musica e sonho. Não sou eu nestes momentos. Há um mundo diferente, um outro universo de luz e som. Se abro os olhos estou só, por isso continuo de olhos fechados não importa até quando como ou porquê...Agora até as pequeninas coisas, o mais simples gesto me parecem maravilhas de arte, provas de que existe vida e corações. Parece que quero registar tudo em mim intensamente para depois da despedida poder recordar…


Será o acto final fechar os olhos?


…Hoje acordei deslocado no tempo, de cérebro vazio, ouvi na rádio darem as treze horas…todos os dias se fala do mesmo…


Imagino a última semana do juízo final. 7 dias para o apocalipse. 168 horas únicas. 10080 minutos supremos. Cada um, um pedaço de vida único…Começou a contagem!


…mas essas recordações nada contam.

Não preenchem o vazio que sinto.

A recordação que teima em não sarar…


Algures grita uma criança
Algures uma outra estende a mão magra
Algures uma outra ainda agoniza ao sol…
Ao longe num outro continente decorre uma festa
Ao longe come-se. Bebe-se. Divertem-se os inconscientes.
Ao longe planeia-se mais um fim-de-semana a dois.
Ao longe suas excelências os todos poderosos
Evitam falar nas crianças que estão algures morrendo
Distantes drogam-se os ociosos da vida
E eu?
Embriagado de angustias.

Persistentemente lúcido até á exaustão
Demasiadamente vivo até ao último suspiro
Estremeço com tudo isto.


*Este texto que encontrei esquecido no meio dos poucos livros que não se perderam numa das viagens, foi escrito algum tempo depois de ter entregue a farda. Lentamente refazia-me por dentro dos trinta meses de hospital militar…hoje fica aqui junto das memórias virtuais.


João marinheiro 20/09/84

7 comentários:

nena disse...

já sabes o quanto te adoro e admiro, tou de partida,não deixes nunca de dar a ler aos outros aquilo que tanto lhes dá prazer,1 abraço do tamanho do mar meu marinheiro preferido.smak!

Morgaine disse...

Palavras de valor incalculável estas que deixas hoje. Mais do que outras talvez.Porquê? Pelas circunstâncias. Pelo tempo que têm. Pelo que simbolizam e pelas lembranças que trazem, não só a ti mas também a outros.
Palavras que abracei ontem e hoje, como te abraço a ti.

Cláudia disse...

Lindo, lindo.Porque tem sentimentos profundos, porque me faz estremecer, e porque tiveste a generosidade de partilhar com todos.Obrigada...

APC disse...

Há quantos anos as escreveste!...
E, contudo, tão verdadeiras ontem quanto hoje. Hoje, mais tu!
Uma pérola!

Um abraço, miúdo!...

Bruna Pereira disse...

Marinheiro, militar, viajador de mundo:

Pensar de mais dói tanto como a bomba atómica. Só que as ideias explodem nos olhos.

Saudações marítimas...
:)

Maria disse...

Uma dor. Em cada palavra tua.
Uma dor, que pode ser de cada um de nós.
Porque pouca coisa mudou...

tb disse...

Momentos que se gravam a fogo no nosso sentir...
e como so sentes e descreves! Uma lágrima silenciosa dos dias passados, rola enquanto me transporto através das tuas palavras/imagens.
Agradeço-te a partilha