terça-feira, abril 10, 2007

Qual foi a manhã....



Qual foi a manhã que deixaste de falar comigo
Qual foi?
Continuo a estar cada vez mais só. Demasiado só.
As pessoas são momentos breves que desiludem.
Resta-me o sabor do fel
E o calor do aço
O ar viciado para me encher o peito
Adormeço todos os dias numa espécie de narcose
Já não tento substituir-te.
Sei que todas as mulheres que amo são sempre mulheres que partem
Só tu ficas alojada por dentro como uma farpa de madeira rubra.

Continuo a escrever-te. A dedicar-te as palavras
Às vezes escrevo a outras mulheres as palavras
Mas não é a mesma coisa
Não me entendem. Acabam por partir
Só tu permaneces.
Escrevo eu. Um sobrevivente das palavras
Eu sei que já não és
Que já partiste
Que habitas algures a meio da travessia nas profundezas atlânticas
Eu sei
Mas é como se estivesses aqui comigo
Não me importa que a tua ausência seja uma ferida. Quero-te à minha beira
Desejo-te à minha beira
Preciso de ti entendes. Para me sentir lúcido ainda.

Como é que faço a peregrinação dos lugares sem ti
Como é que faço?
Morro de saudade tua.
Lembras
Aquele restaurante junto ao mar na Afurada onde íamos comer um peixe assado
Já fechou.
Agora como faço a peregrinação dos lugares onde fomos felizes os dois?

Sabes.
O que me assusta é não conseguir ver já o teu rosto
Mesmo de olhos fechados a rebuscar a memória
Já não vejo o teu rosto
A linha dos teus lábios
A cor dos teus olhos
A forma da cicatriz que tinhas no sobrolho do tempo que usaste um percing
E isso assusta-me
Envelheci.
Perco a memória
E eu prometi que nunca te esqueceria
Perdoa por não o conseguir cumprir. Eu tento
Tento.
Mas às vezes surges como que rodeada de névoas, nem sei se és tu
Eu é que teimo e imagino que sejas.
Mas podes ser uma qualquer que passa por mim na rua
Já te falei que às vezes olho as mulheres na rua a ver se me lembro de ti
Mas nunca és no rosto delas nunca és.

Morro aos poucos como aquela árvore que dava sombra no jardim Constantino
Lembras?
O banco onde nos sentávamos. Onde gravei o teu nome na tábua.
Morro aos poucos sequioso de saudade. Sequioso da fonte dos teus lábios.

Às vezes penso que já não vou escrever-te mais. Porque me violento ao escrever
Porque estremeço por dentro
Porque te amo ainda.
Mas as saudades dão à costa
E eu como o náufrago reúno de novo as palavras dispersas à deriva
E volto a ti.


João marinheiro 2007
Fotografia Google

18 comentários:

Bruna Pereira disse...

"As pessoas são momentos breves que desiludem"

Se não te importas, vou escrever esta frase no meu livro de citações.... Não lia nada tão real há muito tempo.

:)

Miriam5 disse...

Gosto muito, desta prosa/poema, que faz sentir, que faz pensar. "as saudades dão à costa, e eu como naufrágo reúno de novo as palavras dispersas à deriva, e volto a ti", lindo, lindo, lindo

Quando o Teu Corpo e o Meu... disse...

Horas profundas,lentas e caladas
Feitas de beijos sensuais e ardentes,
De noites de volúpia, noites quentes
Onde há risos de virgens desmaiadas…


Ouço as olaias rindo desgrenhadas…
Tombam astros em fogo, astros dementes.
E do luar os beijos languescentes
São pedaços de prata p’las estradas…


Os meus lábios são brancos como lagos…
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras…


Sou chama e neve branca misteriosa…
E sou talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras!

nena disse...

E nós somos tristes amor..
tão tristes, tão tristes, tão tristes..
que até parece que os ciprestes foram plantados
em nossos beirais de incertezas.

Morgaine disse...

Que linda prosa João.. muito forte sabes? Não devias ter cuidado? É que não sei se mais uma vez te apercebes do poder das tuas palavras.
Abraço-te deste lado.. há tempos que não te vejo.

Maria disse...

Qual foi a manhã em que nos perdemos?
Qual a manhã em que nos deixámos?

***********************
E eu não quero escrever mais.
Porque não posso.
Porque te amo.
Ainda.

Desculpa, João, mas foi o que as tuas palavras despertaram em mim... sentimentos sempre presentes... de alguém ausente...

Um beijo

Angela disse...

Costumo passar por aqui e ler as suas palavras no silencio de um sentimento que, apesar de diferente, tem algo que me faz prender nessas palavras que me recordam de tudo o que tento apagar de mim...
Escreve com uma profundidade que me toca a alma...
Parabéns

nena disse...

fogo!..fica-se com o coração tão apertadinho ao ouvir-te, que fiquei 2 dias sem saber o que te dizer..(e continua....
a doer.. )

isabel mendes ferreira disse...

____________________
____________________


a ler.te.


na certeza de que nunca és uma desilusão.

__________________.


beijo.

Crystal disse...

Fiquei com a garganta seca...Ai!!!

Não é possivel! Como pode alguém escrever assim e tocar tão fundo no coração de quem não o conhece?

Mágico, magnifico, sublime!

Agora calo-me, porque vou ler outra vez...

Menina dos olhos de água disse...

"Como é que faço a peregrinação dos lugares sem ti. Como é que faço?" Li e reli o texto e esta pergunta continua a ecoar-me na cabeça. Ainda não encontrei a resposta.

Lindo, um texto lindo.

Olá, já agora :)

Ana Luar disse...

"Porque me violento ao escrever?"

Não acho que o faças Marujo!
Escreves porque o sentimento habita dentro de ti.

É isso que te faz diferente dos demais!:)

algevo disse...

João,

ler-te é encontrar-me a mim mesma nas tuas palavras e perder-me nos teus sentimentos.

Um beijo, agora sem dúvida, de onde o rio se encontrou, definitivamente com o mar.

I

tb disse...

É sempre um prazer vir até cá rever-te na força das palavras. Gosto das imagens que desenhas com as letras, como da que escolheste para ilustrar.
Abraço daqui :)

APC disse...

Às vezes penso que já não vou escrever-te mais. Porque me violento ao escrever
Porque estremeço por dentro
Porque te amo ainda.


Magnífico!!!

Um abraço saudoso a um menino especial. O Porto estava lindo!!!
:-)

Maria disse...

Recebi outras nomeações dos "blogs que me fazem pensar", e desta vez escolhi blogs masculinos.
Foste um dos escolhidos, mas não tens que fazer nada, eu avisei quem me nomeou que apenas iria dar conhecimento aos meus nomeados.

Um abraço apertado

Anónimo disse...

fantástico post escritor...
por favor participe em www.luso-poemas.net. é um cantinho de literatura onde todos podem mostrar o seu dom, conversar com artistas com o mesmo gosto, trocar ideias e assim contribuir para que a chama fantastica da nossa cultura se mantenha em cada um de nós.

de uma visita e se quiser participar, seria uma honra para nos ter tremendo artista no nosso cantinho.
grande abraço. luso poemas

APC disse...

Voltei. Para tomar de novo este poema para mim; para o recortar daqui e dá-lo a ler a alguém especial. Para deixar mais um beijo a outro alguém especial: Tu!