quarta-feira, março 13, 2013

murmurios...


Desacertas-me
Desconcertas-me
Apaixonas-me
E isso é que é complicado...
João Marinheiro 2013
Fotografia da Net

terça-feira, fevereiro 26, 2013

És uma especie de som uma brisa...



um som envolvente
um sopro
uma brisa
um desejo

anoitecer nos teus olhos...

sábado, janeiro 19, 2013

Nós somos impossíveis e no entanto estamos aqui...


 

Às vezes, penso que é impossível que entendas completamente aquilo que sinto”…

E esta frase anda de roda de mim, bailando devagarinho, rodopiando, insinuando.

Às vezes paro para a observar. Fico a olhar. Quer dizer. Finjo que não olho para que ela não se aperceba da importância em mim. Às vezes para mim, é impossível eu entender o que sinto. E ela anda de roda, volteia como uma pena que eu em miúdo atirava ao ar para ver cair rodopiando, uma e outra vez até ficar cansado. Estou exausto dou-me conta. A culpa não é tua. A culpa é só minha. E agora releio as palavras que me ofereceste, e demorei a responder porque preciso de as assimilar em mim, porque como tu, eu também não tenho palavras, e deveria ter, porque sou um homem de palavras. Era um homem de palavras…

Tu tens o dom de me tirar as palavras do pensamento e ele fica ocupado pela tua presença. Repara o importante que és em mim. A tua grandeza em mim. E eu sinto-me casa vez mais pequeno, a definhar nas palavras que já não sei dizer, porque se acabaram. És tu que ocupas o pensamento. Sei perfeitamente que és um beco sem saída uma rua de sentido único. Tenho de rever todo o código que aprendi faz muitos anos atrás. Não quero ser apanhado em contra mão. Quero só a tua mão na minha que é algo de completamente diferente e único. A culpa não é tua. Como diz o texto que me ofereceste, não existe culpa. Existimos nós, e quando existimos nós, tudo o resto é acessório, portanto dispensável. A mesa do café, o empregado que nos serve os cafés e os outros pequenos pecados. Tudo pode ser dispensado. É como se não existissem. Fica só porque eu não me importo e tu também não, o pequeno pardal novito que se aquece ao sol em cima do muro, e do qual te chamei a atenção. Ele pode ficar connosco porque também é puro.

Acredito que partilhamos palavras. Essencialmente palavras. As palavras que gostamos. As palavras que eu não sei e tu me ofereces, para que eu fique assim, demorado na resposta. Acho que fazes de propósito para que eu me revele. Não me importo, posso é demorar a resposta. Porque tem como todas as palavras que te digo de ser uma resposta sentida, vinda de dentro, e não apanhada num qualquer sítio, num qualquer livro.

O José Peixoto sabe dizer palavras porque as sente como eu, ou eu como ele. Ficam-me cá dentro como uma imagem projectada em ecrã plano as suas palavras que encerram e libertam tudo...” E podemos dizer essa palavra dentro de um beijo”...

Um beijo diz tanto. Um beijo diz tudo! Nós nunca dissemos tudo um ao outro. Na maioria das vezes, eu também te falo de memória, toco-te de memória, quero-te de memória, porque tu nunca estás, está a tua presença em mim. E todas as palavras não chegam para me dizerem o que sinto e não revelo. E tu insistes para que a revelação aconteça…

 E tu não tens culpa de nada, e eu não tenho culpa de nada. Acho que escolheste o texto correcto, exacto, frio. Que talha a golpes de navalha em nós o sentir. Que dilacera aos poucos. Por isso te disse que ficamos diferentes. Eu fico diferente, menos ousado, mais fechado em mim. A tal carapaça instituída. Socorro-me de novo das suas palavras:

 …” Nós somos impossíveis e, no entanto, no entanto, no entanto, estamos aqui…”

Nem sei porque não encontro palavras minhas, mas as do José Peixoto já dizem tudo, as minhas não diriam tanto, e eu quero que digam muito. Não existe culpa. As minhas palavras é que não são perfeitas. Por isso compro e leio muitos livros, destes escritores que agora aprenderam a escrever as palavras perfeitas, que dizem tudo em poucas palavras. Eu não sou assim. Acho que digo demasiadas palavras. Que ando com rodeios, volteando, rodopiando. Exactamente igual. Como o efeito da tal frase no início das palavras que te escrevo. Também ando às voltas…Um dia paro de dar voltas e das duas uma, ou desisto. Ou o tal passe de mágica acontece.

Ganho-te aos pontos numa coisa, ao contrário do José Peixoto sou eu que te ganho ao falar de mar, porque indiscutivelmente sei mais de mar que tu. Eu, é que sou o João marinheiro. Mas não me importo, ensino-te a saberes de mar e tu ensinas-me a saber de palavras.

Por falar em palavras, recordo o início das nossas breves conversas, como gostava de ler um livro na tua companhia. O sítio. Porque para se ler um livro é preciso um sítio. O sítio. Sei de memória onde será. Na casa de chá, sobre os rochedos com a lápide em mármore e as frases do António Nobre gravadas nas pedras em frente. Já não recordo o que diziam, mas irei rever, assim como o mar da larga janela, e tem que ser num dia de Inverno ou de Outono com chuva e vagas de espuma branca. O livro escolhes tu. Porque tu é que sabes as verdadeiras palavras que me trazes a conhecer. Confio em ti na escolha.

E continuamos a não ter culpa de nada. Cada vez nos desencontramos mais. Rareamos a escrita. Deixamos de ter tempo para nós. Dedicamos o tempo aos outros, e, no final estamos demasiado cansados para nós. Mas nós é que somos verdadeiramente importantes. Demasiado importantes. Tu para mim és! E um dia sem ti, é um dia triste. E não gosto dos dias tristes. Gosto de ti. O que revelo mesmo sem querer. Mas dei-me conta, estou na tal rua sem saída. E agora que já sabes, faz o favor de me fazer feliz com a tua presença, porque sou feliz com pouco. Assim fui habituado de pequenino e não é agora com esta idade que irei mudar e querer muito. Acho que muito é demasiado e o que é demais estraga-se, ou tem tendência a deteriorar-se.

E corro sempre o risco de usar as palavras dele que me trouxeste para ler, e que motivam esta nova carta, para te falar de mim ou de nós, porque a carte tem remetente e destinatário, e toda ela se destina a ti, mesmo que fique sem resposta. Já te disse que me contento com pouco. E saber que a recebes já me faz feliz. Agora se me quiseres mais feliz ainda, responde. É que eu já escrevi muitas cartas sem resposta. Acho, fico na duvida, se o destinatário existiu alguma vez, ou se tudo não passa de imaginação minha.

Tenho uma imaginação atribulada e se eu te contar o que imagino, não sei se me respondes, ou te enfadas comigo, ou se me compreendes. Mas estou habituado a só eu próprio me compreender. Quer dizer, eu tento. Na maioria das vezes desisto por ser missão impossível. Mas não é impossível tu responderes a esta carta que demorou a ser escrita a ti. Para ti. Dedicada a ti. E não te chamas Margarida, porque as Margaridas são outras, e tu és Cláudia e esta carta é para ti.

Agora vou, e vou com as tais palavras que me trouxestes a fazerem um bailado no meu pensamento, enquanto escuto a música da Teresa que pergunta: …”Onde é que está o meu amor… Onde é que está o meu amor…o meu amor onde é que foi…”.

E vou com um sorriso nos lábios. Aprendo cada dia devagarinho.

 

Excerto de,  Cartas a Cláudia VI 2006
 
João Marinheiro

Fotografia de Barcoantigo em 2008

 

terça-feira, dezembro 25, 2012

Da nossa memória...

 

As heras cobrem lentamente as paredes escondendo as pedras. Os degraus pendem alquebrados, já não sentem o pisar dos pés das crianças, só o peso do tempo os sobrecarrega e desequilibra.

Da memória sobram ruinas em pedra. O musgo verde do tempo e um vazio inexplicável.
Resta-nos o silêncio. Por vezes o chilrear dos pássaros misturados com o som da água que escorre pelas fragas da serra.
 
 


São Paio de Antas 25 Dezembro 2012
Fotografias de Barcoantigo 2012

segunda-feira, dezembro 10, 2012


 
...Apenas em cada manhã nascem nevoeiros a sul do nosso porto de abrigo!
Fotografia de Barcoantigo Itapema 2012

sábado, dezembro 01, 2012

11.25h


11.25h

Está calor
Bebo uma água fresca enquanto a brisa quente seca os corpos morenos estendidos neste pequeno pedaço de praia de areia fina e águas verdes esmeralda.
A mesa onde escrevo é plástica. Amarela. Cheia de pequenas frases que me  distraem um pouco a tentar decifrar o que encerram por dentro.
Esta noite foi a última aqui deste lado do mar.
Não sei se volto. Possivelmente volto. Tenho de voltar a este lado do mar a sul e a oeste de todos os meus portos de abrigo para aprender. Aprender no pouco tempo que me resta ainda por cá, porque estou de passagem na curva descendente da vida.
Volto para conhecer barcos e velas e mareações. Sentir o vento quente misturado com o sal. Navegar de encontro ao por do sol…
Os minutos passam demasiado lentos e duas pombas percorrem o chão de cimento aos meus pés em busca de pequenos pedaços de alimento sem medo.
Uma cigana, deve ser uma cigana, com o seu vestido Baiano lé a sina e inventa um futuro risonho às mulheres do grupo sentado na minha linha directa do horizonte de mar.
Sente-se o cheiro a peixe frito. Os petiscos saborosos que por cá se fazem em qualquer lugar. A vida fervilha, sente-se. Gosto de provar os sabores.

11.36h
Escuto o som de uma radio misturada com a batida baiana em fundo notícias do dia. Aqui não se sente tristeza. Todos vivem sorrindo. É o sol e o vento quente que lhes molda o espirito e o jeito de ser.
Continuo sentado numa esplanada frente à praia e espero que algo aconteça.
Amo-te.

Fortaleza  Novembro 2012

Fotografia de Barcoantigo 2012

quarta-feira, novembro 28, 2012

abstração...


 
Espero pacientemente enquanto o avião atrasado se aproxima
Corpos de mulheres baianas passeiam
Exibindo o jeito do samba nos corpos morenos
E o calor da paixão brilhando sobre a pele
O branco das vestes, colares danças e rituais…
Espero
O pequeno aeroporto vive
Cheio de imagens e gente e sons e cheiros a canela e coco e café
Enquanto eu estranho escuto música e me tento abstrair do local
Não sou daqui
Não sou de lugar nenhum
Espero só a ligação aérea para outro lugar quente
Porque o mundo e o meu lugar é e não é
Estou de passagem por cá
Terra Património berço de Amado
De pelourinhos e Senhor do Bonfim.
Promessas por cumprir quase sempre
Terra da baia de todos os santos das igrejas de fé
Onde os homens desde sempre pedem perdão
E espiam os pecados cometidos e todos os outros que vão cometer
Esta é a terra de mar azul e vento quente carregado do sal
Que tempera o corpo arredonda as formas
Corrói por dentro o coração.

O avião continua atrasado

E eu aqui espero…
 
João Marinheiro. Salvador da Bahia Novembro 2012

Fotografia de  Vicente A. Queiros

sexta-feira, novembro 23, 2012

pela madrugada...

lentamente as horas avancam na madrugada e foste a companhia desejada, quem sabe ainda escrevemos uma historia bonita de madrugadas com amor dentro...

sábado, outubro 27, 2012

Queria de ti...




Queria de ti o amor, só o amor
Extraído à força, decantado no sentir, curtido, de sabor intenso
Um trago de vinho rubro a correr por dentro
Um perfume de sangue nas veias
Como as ruas da cidade tua onde passeio hoje como estranho acossado
Porque estou de passagem aqui e não sou nada…
Acordei nos teus braços um dia
Beijei teus seios fartos
E hoje sinto um vazio tão grande
A imensidão imensa de não ser nada.
Porque estou de passagem aqui e não sou nada
Queria de ti o amor, só o amor
Impossível. Impossíveis somos
Porque os olhos já não dizem nada
O que dizem os teus olhos hoje?
Resta-nos a ausência como uma despedida
E eu caminho nesta avenida pela primeira vez
E  tu podias ser a mulher que caminha na minha frente esbelta
a qual observo enquanto vamos na mesma direcção
 simbiose perfeita dos passos com a beleza do corpo. A elegância.
E se és tu imaginada que caminhas há minha frente sem rosto, os cabelos esvoaçando
Eu já não sei nada
Queria de ti o amor, só o amor
 
São Paio de Antas Outubro de 2012

domingo, setembro 16, 2012

Estavas ai...


Uma janela onde escuto o som do mar perturbado pelo som
abafado de uma máquina de lavar loiça que escuto monótona a fazer o ciclo de
lavagem.
Penso.
Uma janela onde agora me sento a contemplar o mar e a ver os
barcos passarem. Veleiros, pequenos barcos de pesca, traineiras ao final do dia
para a pesca da sardinha no acejo da noite frente ao farol de Montedor, duas
milhas mar adentro.
Imagino-te na linha de costa distante do mar, cercada pelas
planícies e montes do Alentejo profundo quase na Raia, e recordo quando vivia
no sopé da serra as saudades do mar que sentia, e de como me deixava ficar pela
manhã a contemplar o horizonte ao longe, enquanto a cidade, Portalegre abria os
olhos embrulhada num manto espesso de algodão branco formado por nuvens.
O meu olhar espraiava-se aflito a tentar descortinar ao longe
os navios da minha infância, e imaginava-os, silhuetas de pedra recortadas na
penedia ao longe.
Há tempos regressei aesses lugares de infância onde fui feliz. A Quinta da Conceição onde Vivia, a Quinta da Saúde ali ao lado, onde costumava ir com o Pai ao domingo quando ele
ia tomar café. Passei a velha escola primária que não existe transformada em
Restaurante, subi ao alto da Serra. Viagem tantas vezes feita com o Pai, no
jipe, a caminho das antenas que nos traziam a modernidade nas comunicações
telefónicas. Durante três anos foi o trabalho do pai, montar o sistema de
feixes radioeléctricos e as parabólicas que traziam mais rápidos os telefonemas
distantes. Durante esse tempo, o meu mar era um mar de ausências e um mar
imaginado nos tanques e represas de água onde me banhava no verão de calor
forte e abrasador.
Hoje estou aqui, já se passou mais de um quarto de seculo no
tempo que temos, a olhar por uma janela de onde escuto o mar e lhe sinto o
aroma a sargaço forte arrolado na areia na última maré viva a noite passada e o
pensamento livre vai até ti. Por onde andas agora, que fazes, que sentes…
Gostava da tua voz, ainda gosto. De te escutar a cantar as
tuas canções inventadas no momento. As tuas melodias favoritas. E as melodias,
sim, as melodias são balsamos de essências primaveris ao ouvido como o escutar do
mar pela manhã, ou o chilrear dos pássaros de volta da cerejeira que existia
frente à janela do meu quarto.
Gostava da tua voz…
No momento é uma máquina de lavar loiça a cumprir a missão
para que foi construída que interrompe a minha contemplação estática do mundo,
com o seu ruido abafado e circulante de água quente a sobrepor ao som do mar
que me chega.
Estavas ai, no cruzamento das linhas. No cruzamento das
brisas, no brilho do sol a aquecer as gotas do teu orvalho perfumado por jasmim
e madressilvas, e eu, se me habituo aos teus beijos de orvalho o que vai ser de
mim…

São Paio de Antas 15 Setembro 2012
Fotografia de Barcoantigo