quinta-feira, maio 28, 2009

do desencontro... VIII (continuação)




( Livro de contos)

Vou ter que lhe pedir desculpa pelos meus actos, espero que me perdoe, mas já não se podem remediar. Quando a encontrar logo verei o que dizer, o que vou sentir. Quem sabe é melhor assim esta espécie de preparação para a despedida, nas horas que faltam posso acalmar e habituar-me à ideia que Laura agora tem uma família e um mundo próprio do qual já não faço parte. Seria muito egoísmo da minha parte querer fazer parte de seu mundo, se eu optei por partir, se fui eu que renunciei e virei costas. Quando nos despedimos não disse uma palavra, ficou a olhar-me subir as escadas para bordo, enquanto os seus olhos me pareciam cada vez maiores e brilhantes. A Laura tem uns olhos fantásticos de belos. Afasto estes pensamentos da cabeça, acabo de beber o vinho do Porto de um gole. Armando está a conversar comigo há alguns minutos e não o escutei. Perdi-me. Fechei-me num mundo insonorizado por uns momentos. Volto à realidade da sala – perdão Sr. Armando, perdi-me por uns momentos. Voltando á minha vida no mar. Como pode imaginar quando acabei o curso tive a oportunidade de embarcar como 2º Imediato num cruzeiro que partiu de Lisboa para a costa leste da América, ora eu agarrei logo a oportunidade, até porque a companhia em questão também tem navios de longo curso e tinha a oportunidade de passar para essas rotas, o que aconteceu 4 meses depois.
Durante dois anos fiz o tirocínio como 2º e 1º Imediato, fui parar à Austrália, fiquei a viver em Sidney, uma cidade fantástica, tive a oportunidade de ingressar na Australian Sea, a Companhia marítima onde estou até hoje, nas rotas até à nova Zelândia, China, Japão, Indonésia, nunca vim para norte, para o hemisfério norte, nunca calhou…navego sempre no Indico e no Pacifico. Outros mares.

O estar cá hoje em Lisboa deve-se a alguns acontecimentos que ocorreram nos últimos tempos, acontecimentos dos quais eu sou parte interessada sem que o soubesse, pelo menos até seis meses atrás.

Somos interrompidos pela dona Rosália que nos chama para almoçar, e eu neste momento dou pela minha falta grave. - Perdoem, desculpem mas nem pensei na indelicadeza de aparecer agora á hora do almoço, estou a causar transtorno. – Ora essa! Exclama Armando, enquanto me dá uma palmada amigável nas costas. Sente-se aqui ao meu lado que assim podemos continuar a conversa.

Somos servidos pela senhora que me abriu a porta, espécie de governanta penso eu, e sou interrompido pela dona Rosário, – Fernanda este é o menino João é como se fosse da família, portanto nada de cerimónias. A senhora olha-me enquanto sorri e serve da terrina em porcelana a sopa fumegante á dona Rosário, um creme de legumes com um aroma fantástico. As saudades que eu tinha de uma comida assim, feita em casa, com todo o carinho e tempo dedicado. Cozinhar é uma arte que cada vez se perde mais em favor da comida industrial. Se temos uma boa coisa em Portugal é a comida. Das poucas vezes que comi aqui em cada dos pais de Laura sempre me senti bem. Não sei explicar, sempre me senti inglês, nasci em Londres, mas é em Portugal que me sentia bem. Até cerca de seis meses atrás não sabia explicar. Desde novo que aprendi a falar português porque a mãe me falava em português e fez questão de me matricular na escola Portuguesa. Hoje tudo faz sentido para mim. Se eu soubesse quando conheci a Laura quem sabe não tinha partido. Mas Portugal não era a minha pátria, não é ainda. Não sei verdadeiramente se sou de algum lugar em particular.

Provo a sopa, excelente. Excelente sabor. Difícil de encontrar palavras para definir, um creme aveludado de favas com pequenos cubos de pão alentejano frito em azeite, uma iguaria típica, que nunca como senão aqui em casa deles.
Parece que adivinharam que eu vinha, se há sopa que mais goste é desta que aqui provei pela primeira vez, um creme de favas divinal – Parabéns dona Rosário e parabéns também à dona Fernanda que é uma cozinheira impar.
O Armando sorri enquanto me serve um copo de tinto Periquita reserva, um vinho que aprendi a gostar e que não bebo faz anos. Na escola náutica quando saiamos para o mar, a bordo bebia-se Periquita, um vinho terras do Sado, península de Setúbal. Recordo-me em particular de uma das viagens a bordo do navio Polar uma Goleta de dois mastros, bonito veleiro onde naveguei durante o tempo que estive em Lisboa a acabar a especialização e onde o apreciei pela primeira vez a caminho dos Açores.

A dona Rosário fica a sorrir enquanto exclama, – coincidência João! Hoje são uma data de coincidências. Nunca nos passava pela cabeça que aqui pudesses estar hoje, mas ficamos muito contentes que estejas, acredita. Até parece que o almoço foi escolhido porque vinhas, diz a rir, já vais ver se tenho ou não razão.
Fernanda recolhe os pratos vazios da sopa, e eu bebo mais um pouco deste vinho suave e intenso.
Em casa dos pais de Laura sempre se sentiu, se respirou paz e harmonia. Equilíbrio. As coisas certas nos lugares certos, um culto do belo sem exageros, uma refinada mestria, o almoço ou o jantar sempre foram servidos e ainda hoje com regras de eficiência certas, nobres direi. Se eles fossem da nobreza. Penso, a mesa longa em madeira de carvalho, uma toalha em linho imaculada de branco, e as loiças, porcelana Vista alegre. O mesmo serviço ou parecido, os copos em cristal Atlantis vejo no copo alto de balão onde bebo, talheres em prata, os cabos trabalhados em baixos relevos, balanceados no peso, obras de arte autenticas, dá gosto comer assim aqui, qualquer simples comida aqui assume um sabor para lá do óptimo, esta casa, esta família emana um calor humano que nunca encontrei em lugar nenhum.
Mas sou eu que sou demasiado ausente, demasiado habituado a viver no mar, com os gestos automatizados e rotineiros. Agora tudo me parece um deslumbramento.

Levo o meu pensamento a mais de mil processamentos de informação por segundo, é um tropel de recordações de sensações de emoções esquecidas, adormecidas em mim que regressam todas de uma vez, tantas que me fazem ficar ausente por breves momentos que se notam sempre.

Fernanda regressa com uma travessa fumegante. Cabrito assado no forno com batatas que coloca frente a dona Rosário, regressa com outra pequena travessa de arroz seco alourado no forno e uma salada envolta num molho de maionese aromática. Fico a olhar meio surpreso. Devo ter feito uma cara de espanto porque a dona Rosário começou a gargalhar, – não te disse João que hoje o almoço era uma data de coincidências. Como sabia que vinhas? E como sabia que estes são os pratos que aprecias? – Não sabia! Mas o facto é que aqui estamos hoje, e como tal aproveitemos o momento.
Diz enquanto me serve um naco de cabrito suculento e algumas batatas.
Aguardo que todos se sirvam para provar o cabrito, está excelente.
– Então! Gostas? Que tal está de sabor, interroga a dona Rosário, enquanto Armando me enche de novo o copo, e eu começo a sentir o efeito do vinho em mim a amaciar-me os sentidos, a folgar os músculos, a abaixar a tensão dos nervos.
– Como calcula não tenho palavras dona Rosário. Tudo aqui está perfeito, direi demasiado perfeito para a vida a que estou habituado.

Armando retoma a conversa de novo – Então andas pelos mares do Pacífico? Questiona. Mas isso é muito longe. – Olha lá, e esses mares não são perigosos com os temporais que por lá andam? Costumamos ver nas notícias, ainda á uns anos, lembras, o Tsunami que varreu as costas da Indonésia com aquela devastação toda, por onde andavas?

Claro que lembro Armando. Nessa altura estava em Melburne.
A navegação agora é mais segura, temos sempre informação meteorológica ao momento, rotas, tempos, ventos, tudo. Os satélites vigiam lá de cima, temos de ser atenciosos ás informações que chegam e decidir da melhor forma. Agora não se navega à aventura, temos prazos a cumprir, planos rígidos de segurança, tempos de chegada e de partida, os navios valem milhões, e no fundo tudo é um negócio, e os negócios tem de ser rentáveis para valerem a pena. Por isso os capitães dos navios são quase todos europeus, porque estamos habituados a navegar e não facilitamos, só os tripulantes são naturais dos países das cercanias, Singapura, Paquistão, Indonésia, Malásia, uma mistura de raças e de credos que é preciso saber gerir com muito cuidado a bordo. Costumo fazer equipa com um imediato canadiano, o chefe de máquinas é alemão assim como o primeiro maquinista, todos os oficiais que navegam comigo são ou europeus ou americanos.


Já naveguei com alguns marinheiros portugueses e brasileiros também, mas em viagens de um lado a outro. As tripulações estão sempre em mudança, o que por vezes se torna muito difícil de gerir. Acontecem por vezes falhas a nível de segurança a bordo em algumas aflições por que passamos por falta de prontidão e preparação da tripulação. Mas é tudo uma opção das companhias. Baixos salários e baixa preparação dos marinheiros, alguns nunca andaram no mar, e os barcos são a porta de saída para fugirem à miséria nos seus países de origem.


( Continua)
Fotografia de Barcoantigo em 2008

domingo, maio 24, 2009

Do desencontro...VIII parte...


( Livro de contos...)


Tenho de reorganizar as ideias. Sábado quero estar em Londres, mas primeiro vou resolver os assuntos que estão pendentes por cá. A casa no Porto, os pertences do pai, e principalmente quero resolver o meu envolvimento com Laura. Toda a noite estive acordado a pensar a repensar, acho que não posso exigir nada a Laura, não acho tenho a certeza, aqui quem se portou mal fui eu, que fui atrás de um sonho de um projecto de realização profissional onde ela não teve lugar, errei, fui demasiado egoísta e ciumento. Verdadeiramente não tínhamos um compromisso assumido, éramos só dois bons amigos, mas ambos sabíamos que a nossa amizade estava muito para alem dos actos e dos afectos, era amor que sentíamos um pelo outro, mas não quisemos assumir o compromisso, sempre disse a Laura que estava de passagem, que a minha vida era em Londres e a dela em Lisboa, sorria e dizia-me que a vida dela seria onde o coração se sentisse bem, fingi sempre não perceber as suas palavras…que egoísta fui. Que procuro agora? Como vamos reagir no momento em que nos encontremos? Bem tenho de me deixar de suposições e resolver logo de uma vez o assunto. Não posso viver agarrado a expectativas e lembranças passadas porque o mundo avança e o coração das pessoas muda, tem que mudar para melhor, acho que o exemplo do capitão Júlio me serve de lição, um amor único para toda a vida em pleno século XXI não resulta pelo menos se não for correspondido, partilhado em todos os momentos. Tenho as mãos vazias e o coração abandonado e carente, cheio de pequenas recordações cada vez mais escassas e longínquas.


Olho a rua quase nada mudou nestes últimos cinco anos na Brancamp Freire, só a porta de entrada do prédio de Laura é agora moderna em alumínio, olho os botões da campainha dos andares, tenho o peito a bater forte, a respiração apressada, imagino-me no meio de um temporal no Cabo Horn, não posso vacilar, tenho de ser frio como uma máquina e raciocinar ao milionésimo de segundo, sou o capitão do navio, sou o responsável supremo aqui nesta minúscula imensidão do oceano, não posso falhar, não devo falhar, carrego no botão terceiro direito. Espero, não acontece nada, espero, agora o coração quase que para, a respiração quase que para, os olhos fixos ali, o botão redondo cromado em latão, o cromado comido pelo uso, as letras gravadas em baixo relevo quase sem tinta preta. E se não habita ninguém já aqui? Lisboa tem mais de um milhão de habitantes, como faço? Sinto-me por momentos um náufrago abandonado numa pequena balsa no oceano sem fim. Mecanicamente toco de novo, mais demorado desta vez, olho o relógio no pulso, doze e dezassete minutos, hora de almoço, hora de estar alguém em casa, o trinco eléctrico interrompe os meus pensamentos com o seu barulho metálico vibrante, empurro a porta, entro, transponho esta espécie de fronteira e o coração dispara de novo, e as pernas tremem e sinto-me aflito, com medo, respiro fundo, olho para cima a clarabóia em vidro branco a iluminar as escadas em madeira velhas, impecavelmente lavadas, são três andares, seis lances de escadas, coloco a mão no corrimão em madeira polida, lembro-me das vezes que temerário e doido o descia sentado, com a Laura a correr escada abaixo aflita atrás de mim. Que doido era. Subo mais um lance, aqui junto a este vaso com esta avenca viçosa dei o primeiro beijo à Laura. Estas recordações tem a faculdade de me acalmar e de me decidir a continuar. Hoje vou em busca do ano que falta na minha vida, ou o encontro ou o perco para sempre. O sol incide na clarabóia, sinto o seu calor apaziguador, e o coração a acelerar outra vez, bato à porta, ouço o som de um rádio ou televisão, espero, é a espera que me angustia, mesmo breve é sempre demasiado longa. Abrem a porta, não conheço a senhora. – Perdão, gostaria de falar com a menina Laura é possível? Olha-me com surpresa, murmura – um momento e encosta a porta. Penso nem sei quantas possibilidades de combinações possíveis nesta fracção de tempo, pareço um imenso cubo mágico. Sinto de novo passos em direcção à porta, fico expectante controlo-me. Quem abre é a mãe de Laura, a mesma senhora linda e de olhar azul, que fica surpresa a olhar-me de olhos arregalados durante uns momentos que me parecem outra vez demasiado longos de transpor. Tudo me parece demasiado longo vagaroso hoje. – Olá João Pedro, que surpresa nos pregou o menino, entre, entre, diz de rompante como se eu ainda ontem lá estivesse estado. Obrigado dona Rosália murmuro enquanto avanço pelo pequeno corredor em direcção à sala ao fundo. – Armando, olha quem nos veio visitar, entro na sala o pai de Laura estende-me a mão com um sorriso a cumprimentar-me.


- Então João Pedro o que é feito de si? Pelo que vejo a vida corre-lhe, de perfeita saúde, moreno e elegante como sempre. Não me passava pela cabeça encontrá-lo de novo. Mas sente-se, vamos para aqui para a salinha. Olhe fica para almoçar, e não admito uma nega, fica e pronto, temos muito para conversar, é para conversar que cá veio não é? Para conversar e saber da Laura. Sente-se, que já colocamos a conversa em dia.
Fiquei sem reacção. O Sr. Armando armado com o peso dos anos a experiência da vida nem me deixou murmurar uma sílaba. Dei dois passos, autónomo, em direcção ao sofá que me indicou com a mão, e deixei-me literalmente cair, com todo o peso a afundar-me na almofada macia. A dona Rosália dirige-se a mim de braços abertos, levanto-me de novo e deixo que me abrace, enquanto me murmura baixinho, quase um sussurro ao ouvido – o menino foi um doido e agora já não tem remédio…
Fiquem aqui a conversar que vou colocar mais um prato na mesa, diz enquanto me larga e se afasta. Que surpresa! Que surpresa o menino João aqui! Que surpresa vai ser logo! Escuto a querida senhora falando baixinho enquanto entra na cozinha. Olho a sala está tudo na mesma, só os móveis são diferentes mais claros, modernos, a sala de jantar com as paredes pintadas numa cor diferente a condizer com a mobília. As coisas que me passam na cabeça num repente, espécie de flashes, de clarões da memória que julgava perdidos, sem importância. Demoro o olhar na estante dos livros. As fotos expostas dos pais da Laura e da Laura, observo uma em particular, a Laura vestida de noiva, e outra, a Laura frente ao altar com o noivo. Começo a sentir uma espécie de agonia, um nó no estômago, o coração a descompensar. O Sr. Armando dá conta, e exclama. Então João o mundo avançou, são fotos da Laura sim, do seu casamento. Olhe, mais logo ela vem cá visitar-nos, se quiser pode ficar e também a cumprimenta e fica a conhecer toda a família. Não sei se o Francisco, o seu marido vai vir, ele está cá em Lisboa num congresso, é médico neurocirurgião. A Laura também está em medicina embora agora esteja em casa.

Mudemos de assunto. Fale-me de si que tem feito? Vais fazer 6 anos que o João foi embora de viajem não é verdade? Pergunta enquanto me serve um cálice de Porto vintage.

- Sim vai fazer 6 anos que comecei a viajar exclamo enquanto cheiro o vinho do porto. O melhor vinho do porto que bebi em toda a minha vida foi aqui em casa dos pais de Laura, o Sr. Armando tem uma colecção excelente de vinhos do porto.
Sempre excelentes os vinhos por cá, exclamo enquanto bebo um pouco. Armado esboça um sorriso, e eu penso numa fracção de segundo como resumir todos estes anos da minha vida de forma coerente, quando o que eu queria era saber pormenores da vida da Laura e que os ponteiros do relógio galgassem as horas que faltam e que ela entrasse pela porta. Para que eu a pudesse ver uma última vez, e depois ir embora fechar esta porta este capitulo ainda em rascunho na minha vida. Vem-me à memória um verso que escutei estes dias numa música da Mafalda e que me ficou a bailar dentro do corpo.

…“Era uma vez um pensamento teu
Quase podia ser segredo meu e teu
Era quem sabe um tempo de inventar
Subir o teu corpo
Cair do teu sonho
E ficar em nós”…




(continua...)


Fotografia de Barcoantigo em 2008

sábado, abril 25, 2009

abril...

abril

25

tomo a liberdade nas mãos
e armado de papel e pena
escrevo-te
espécie de libertação
fingimento de revolução a dizer-te da saudade tua que sinto hoje
e dos cravos vermelhos que oferecemos um dia um ao outro
enquanto a rua se enchia de gritos e bandeiras e gente e revolução

era em Abril

25

era eu
eras tu
e o Rossio ainda sem Pessoa imortalizado no bronze

é Abril ainda

25

e o coração deserto…



João marinheiro 25 Abril 2009

domingo, abril 19, 2009

foto...


E como gosto de te sentir a minha miúda bela e forte ao meu lado. Como gosto da tua presença em mim. Como gosto do teu sabor em mim. A tua paz em mim. Tu em mim! E como gostava de te ter em meus braços, e não ser a fantasia, o sonho o delírio, ou o devaneio do homem disfarçado em poeta maltrapilho. E porque os meus gostos não passam mesmo disso, gostos, meras palavras que provocam a arritmia incerta quando me olhas. Vou eu entender o porquê! Beijo-te à minha maneira. E fecho os olhos porque te sinto pulsar com desejo assumido e quente. E porque gosto do teu desejo forte intenso como o meu, de olhos fechados adormeço embalado em ti, e perco-te no sonho...
Já não sei sonhar a dormir, então acordo aflito, em tua busca de novo, não te encontro no momento, e fica perene no tempo a fragrância do corpo teu que venero, como um perfume testemunha da tua passagem por mim. Aprendo a querer-te, a vencer medos, quem sabe a ser ousado ou louco...
...Porque no momento vais comigo
João marinheiro, palavras soltas 2007
Foto da Net- Fotografos Latinos

sexta-feira, março 20, 2009

dos oceanos a fio...



Gostava de te encontrar pela manhã dos dias azuis
Descias a ladeira que te trazia à vila
E eu, sabedor das horas anunciadas pelo sol madrugador esperava-te
Nunca deste por mim
Nunca te dirigi a palavra
Ficava-me a olhar-te graciosa enquanto caminhavas
Os teus cabelos esvoaçando na brisa que se sentia impregnada com o cheiro das camélias em flor.
Um dia não vieste
Soube que foste embora em busca do amor
Dei-me conta nesse dia que o meu tinha partido
Nunca deste por mim, ou pelo cheiro das camélias que já morreram
Cansado
Um dia parti também
Quis o destino pregar-me a partida, ou quem sabe
Reencontrei-te na cidade à beira mar onde habitas
Depois de atravessar oceanos durante anos a fio
E quase ter esquecido o cheiro das camélias.
Os dias madrugadores de cor azul
Ou a ladeira por onde caminhavas em direcção à vila.
Ficamos os dois parados, tolhidos pela surpresa súbita
A partida do destino
Então sorriste
E então falaste
Então sorri
E então falei-te
Palavras breves como os segundos que marcam os intervalos do tempo




João marinheiro 2009
Foto, Mara Mitchel

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

rumo a Oeste...




as velas prenhas de ventos e de ideais
o rasto nas águas frias do navio
uma ardência de fluorescências que desenham riscos de sal sobre as ondas breves

acabaram-se os ancoradouros antigos
os meus navios foram sempre uma miragem alucinada
um sonho por cumprir
demasiados naufrágios

morrem-me os dedos nas mãos vazias
e a pena perde o tino nas palavras
seca na folha amarelecida a tinta azul água
o diário de bordo de um capitão velho

rumo a Oeste de nada
uma carta náutica falsa, sem valor
as coordenadas imperfeitas
longitudes, latitudes, declinações magnéticas por corrigir

um imenso erro a escrita
dou-me conta
um marinheiro não pode ser poeta, ou o contrário
não existe poesia na rudeza do sentir no mar

as velas ainda se içam ao vento e enfunam
prenhas, redondas, alvas
é assim que as imagino
mas todo eu sou um engano…



João marinheiro Fevereiro de 2009
Fotografia de Barcoantigo em 2009

domingo, fevereiro 15, 2009

É de compreender que sobretudo nos cansamos


…Há um grande cansaço na alma do meu coração. Entristece-me quem eu nunca fui, e não sei que espécie de saudades é a lembrança que tenho dele.
Caí contra as esperanças e as certezas, com os poentes todos.

…Estou hoje lúcido como se não existisse. Meu pensamento é em claro como um esqueleto, sem os trapos carnais da ilusão de exprimir. E estas considerações, que formo e abandono, não nasceram de coisa alguma - de coisa alguma, pelo menos, que me esteja na plateia da consciência.

Talvez aquela desilusão do caixeiro da praça com a rapariga que tinha, talvez qualquer frase lida nos casos amorosos que os jornais transcrevem dos estrangeiros, talvez até uma vaga náusea que trago comigo e me não explico fisicamente…

Disse mal o escoliasta de Virgílio.
É de compreender que sobretudo nos cansamos.
Viver não é pensar…

In livro do Desassossego, Bernardo Soares
Imagem, Google

domingo, janeiro 04, 2009

Do desencontro...VII parte


( Livro de contos...)

Parece que apanhei um murro violento no estômago. Fiquei sem reacção sem forças, vazio por uns momentos demasiado demorados, parece que o tempo se esqueceu de mim e me deixou abandonado nesta aflição, este sufoco na alma, um arder por dentro. Cada vez estou mais angustiado e abismado, admirado com este homem misterioso a quem não pude olhar, a quem não pude chamar de pai.
De repente vem-me à ideia que não sei como é, nunca vi uma foto sua, não faço a mínima ideia de quem seja. Como é o seu rosto, a cor dos olhos, dos cabelos, se alto se baixo, nada! Tudo é tão estranho. Sinto-me preso a abafar sem reacção, o olhar inundado de sal. Batem à porta. Acordo, deve ser o que pedi para jantar, sinto uma fraqueza a invadir-me o corpo e a mente. Acordo deste torpor em que estava a submergir-me depois de ler a carta no pc. Abro a porta num gesto autómato, a funcionária com um sorriso avança com o carro bar com a refeição. Quase não lhe falo – entre, digo. Brinda-me com um sorrido simpático. Meigo, imagino que o seu sorriso é meigo porque os olhos são meigos, de um verde paz meigo. No espaço de segundos processo mil pensamentos ao observar esta jovem, reparo em pequenos detalhes, a cor das unhas, a forma como estão cortadas, a cor dos cabelos, o perfume suave e discreto que usa, o uniforme impecavelmente limpo a sua forma elegante, esbelta, não deve ter mais de vinte cinco, vinte oito anos, um metro e sessenta e cinco, tiro a medida da sua altura quando ela se volta para mim – desculpe, quer que sirva o jantar ou deixo ficar? – Importa-se? – Importa-se de me servir? Retorqui enquanto a observo, enquanto lhe descubro o nome na placa dourada no peito, mesmo por cima do coração – obrigado Esmeralda. Obrigado. Olho-a nos olhos. À quanto tempo não olho uma mulher nos olhos? Vejo um sorriso nos seus lábios, um rosto bonito. Vejo por instantes. Por instantes faço comparações. Olho as suas mãos, as unhas cuidadas. Verniz vermelho vivo. Obrigado digo outra vez, quase sem palavras. Num ápice dispôs o prato na mesa, bife com molho tártaro, legumes salteados e arroz com frutas secas, serviu o vinho, dispôs o pão, duas fatias de pão integral, colocou a sobremesa, os talheres impecavelmente dispostos, o guardanapo branco, arrumou o carrinho, e com o mesmo sorriso luminoso, – por favor quando terminar a refeição queira solicitar à recepção para podermos retirar o carro. Tenha um jantar agradável e disponha se precisar de mais alguma coisa. Obrigado Esmeralda falei outra vez, enquanto ela se dirigiu para a porta e a fecha atrás de si.
Estou de novo só. Por um momento pareceu-me que estava em casa, que tinha uma família, que tinha uma esposa que colocava a mesa com a habilidade característica das esposas. Por um momento só. Sento-me para jantar, mais logo ligo à mãe, ela fica acordada até tarde. Agora vou saborear este bife e o arroz com pinhões e passas. Faz muito tempo que não como assim uma refeição. Sorvo um pouco de vinho. Um tinto encorpado do Douro, bom vinho, demoro-me a ler o rótulo. Gostava de ter aqui uma companhia feminina com quem partilhar este vinho, com quem pudesse brindar a vida e também conversar. Preciso de uma companhia por perto. Ainda sinto o perfume de Esmeralda no quarto, ainda o sinto nas narinas, e isso excita-me e faz-me sentir desejo, e faz-me sentir saudade.
Janto a correr. Bebo dois copos deste vinho rubro forte, 14 graus e meio, sinto o seu efeito relaxante a entrar em mim lentamente. Não estou habituado já a beber vinho. Fecho os olhos por uns momentos a descansar, a recuperar as forças, pareço um navio adornado na tempestade, a não se deixar adormecer e vagarosamente retornar ao seu ponto de equilíbrio, à posição vertical para ganhar rumo de novo.
Estou em Lisboa faz quase um mês. Durante duas semanas aluguei um carro andei de um lado para outro ai pela costa, de sul para norte de este para oeste, sem rumo. Demorei tantos dias a decidir-me ir visitar o Capitão e aconteceram tantas coisas entretanto. Ainda estou estranho.

Deixo-me ficar mais um pouco, a noite iluminada por uma luz baça entra pela janela do meu quarto esbatida. Daqui deste oitavo andar olho o casario velho de Lisboa os telhados cinzentos e negros e ao fundo, a silhueta da Ponte a piscar. Vejo também o Tejo a luzir, as luzes a espelharem-se nas águas escuras no rio das mil descobertas. Andei a caminhar estes dias pela beira Tejo junto à Praça do Comercio. Faltam as colunas. O Cais das colunas desapareceu. Mutilam a cidade branca e ninguém se importa.
Aqui impera o quase silêncio, quase, porque se escuta ainda um ruído abafado e distorcido do movimento de carros na avenida. A cidade prepara-se para adormecer, para fingir que dorme, é uma espécie de movimento perpétuo. Lisboa não pára nunca. Parece que adormece mas não pára. Só eu me sinto cansado e a parar. Gostava de olhar outra vez a funcionária do hotel. Ver o verde paz dos seus olhos. Sentir desejo outra vez. Sonhar outra vez. Gostava de conversar. De escutar uma voz de mulher durante um bocado a conversar comigo. No fundo é isso, é um vazio que existe em mim, um fosso difícil de encher agora. Sou um turista em Lisboa, sou um estranho em Lisboa. Um numero de estatística turística. Na Escola Náutica já não conheço ninguém do meu tempo, e era a única ligação que tenho a Lisboa, quase a única. Vim cá acabar a especialização durante um ano. Apaixonei-me. Depois parti, não devia ter partido, é esse ano que me falta. Sou um parvo. Um doido por estar a pensar estas coisas a esta hora. Ligo para a recepção – Por favor podem dizer à senhorita Esmeralda do restaurante que pode vir levantar o carro com o jantar.
– Obrigado!
– Espero! Espero!
É o que tenho feito este tempo todo, esperar. Espero que a Laura ainda more no mesmo sítio; Rua Brancamp Freire.
Espero. Espero que esteja em casa.
Espero. Espero ter coragem de tocar à campainha, e subir até ao terceiro andar direito do seu prédio e tocar.
Espero. Espero que seja ela a abrir a porta. Que ainda ali more.
Espero tanta coisa adiada. É um ano que falta na minha vida. Insubstituível porque não posso voltar atrás.

Olho a noite, tenho a janela aberta e a cortina corrida a um lado. Gosto de ver o sol nascer, mas estou de costas para ele. Sinto-me nervoso a andar de lado para lado aqui. Os meus passos são abafados pela alcatifa vermelho escura. Olho pela primeira vez com atenção a decoração do quarto, uma pequena suite, casa de banho, sala de estar e quarto. Olho pela primeira vez os quadros na parede. Janelas. Janelas de Maluda a pintora das janelas de Lisboa. São, bonitas. Copias a enquadrarem no papel de parede branco, branco sujo e ondulações ocres e pardas. A mobília em negro wengué e vidro vermelho fogo, a alcatifa a condizer. Acolhedor o sitio.
Ainda sinto o perfume, ou sou eu que o imagino. Só pode ser. Costumo guardar pequenos detalhes durante anos na memória. Ouço bater na porta. Abro, é ela, venço a minha falta de palavras – olá Esmeralda bem vinda de novo! – Entre! – as minhas recomendações ao chefe de cozinha, o jantar estava muito bom. Olha para mim a sorrir, não diz nada, percebe que quero meter conversa. Claro! Deve estar farta de ser assediada, é uma mulher muito formosa. Apetecível. Sinto o seu cheiro e involuntariamente aspiro prolongadamente a entranhar em mim o seu perfume, para me ficar dentro a durar tempos. Arruma num ápice toda a mesa, aspira as pequenas migalhas de pão com um pequeno aspirador portátil, tudo pensado ao pormenor, eficiente. É assim que gosto de saber as pessoas, eficientes e competentes. Acabou. Olha para mim outra vez – o Sr. comandante João deseja mais alguma coisa? Fico surpreso, sabe o meu nome e profissão, esboço um sorriso, e toda a tensão que senti ao longo do dia se desvanece diluída pelo som da sua voz. O pequeno gesto de me tratar pelo nome, de falar comigo, não me tratar como um turista, um estranho na nossa cidade. Demoro a responder enquanto me olha, olhos nos olhos a desafiar, de frente, com personalidade. O que eu penso ao milionésimo de fracção de segundo. Respondo calmo
– Obrigado Esmeralda! Posso tratar assim, Esmeralda? – Não preciso de mais nada por hoje vou descansar que tive um dia complicado, demasiado emotivo. Gostei que me tenha tratado pelo nome. Demonstra muito profissionalismo de sua parte e da equipa do hotel, afinal já cá estou quase há um mês hospedado, e estava a sentir-me um estrangeiro. Um turista na minha terra.
– Obrigado. Não disse mais nada. Sorrindo dirigiu-se para a porta com o carrinho, olhou-me uma ultima vez a sorrir, sempre a sorrir. Tenha uma noite descansada Sr. Comandante. Amanhã o pequeno-almoço é das sete às 10 horas na sala Oriente. E saiu.
Fiquei a sorrir também. A imaginar que por um momento era a Laura que ali esteve comigo a falar-me a olhar-me. Por um momento lhe senti o cheiro, quase o sabor da pele, a textura das mãos, o desenho dos lábios…

Estou doido. Antes de me deitar tenho de ligar à mãe, quem sabe se ainda hoje me sinto com coragem e ainda vou descobrir mais segredos no pequeno pc do capitão.

(Continua...)
Fotografia de Ana Guerreiro, www.olhares,com

quinta-feira, dezembro 25, 2008

Do desencontro... VI parte



(livro de contos)


Vou para o hotel, está decidido. Falei com o Dr. Ernesto e todos os pertences do pai vão ficar aqui guardados, os mais pessoais, os livros vão para Londres para casa da mãe, eu também vou, quero com calma mergulhar dentro deles colher palavra a palavra a tentar conhecer este homem, a tentar conhecer esta parte da vida desconhecida da mãe. Agora vou para o hotel, levo o computador portátil do capitão. Mais logo pela noite no sossego da madrugada vou ver o que encerra, o que me deixou escrito, as pistas, ainda me parece que tudo isto é um jogo, uma espécie de jogo virtual do qual não sei as regras, onde não conheço os adversários. Tenho momento que penso, nada disto está a acontecer, depois dou-me conta que tudo é demasiado real, demasiado forte, demasiado grande para estar a acontecer agora. Mas está, acontece, por vezes demasiado rápido para o entendimento, por vezes demasiado lentamente. Espécie de filme de imagens paradas, fotograma a fotograma, uma nitidez impressionante de arrepiar, que assusta. Tudo aqui foi pensado para a minha vinda, tudo aqui foi pensado para a morte, tudo aqui foi pensado com tempo. Todo o tempo do mundo. Num repente um flash de luz na minha cabeça, foi isso, eu vi o livro pousado na secretária, marcado, um marcador em couro, uma tira com um monograma dourado, é isso o livro, “ Todo o tempo do mundo” instintivamente dirijo o olhar para lá, a secretária. O livro permanece no mesmo lugar, pego-lhe e abro na página marcada, um poema sublinhado, demoro a ler:

Espero-te ainda

Tu não sabes que do outro lado do mundo eu penso em ti
Que te sinto em cada batida do coração a ressoar por dentro dolorido
Que te desejo intensamente. Um vazio estremo
E que o olhar morre lentamente
As palavras dão á costa naufragadas na memória
E que já não tenho memoria do tempo dos amantes de uma noite


Não podes saber que as noites agora são sombrias
Os braços de luz do farol se apagaram
O rio secou assoreado nas lágrimas salobras
O mar recolheu a uma terra estranha
E a linha de costa
É uma beira-mar juncada de sargaço morto
E que eu estou aqui ainda
Sentado na beira-rio esperando por ti
Enquanto o frio me invade os sentidos
O mar se recompõe da noite longa e acorda em maresias de sal
A névoa se instala abraçando o mundo
E eu cego, tacteio o rumo que me afasta de ti
Espécie de suicídio negro na estrada

Tu não sabes
Da minha vontade de escutar a tua voz
De te sentir no olhar
De te amar outra vez
Tu não sabes porque és espécie de andorinha que partes
Porque o Verão é doido e parece Outono e te desnorteias
E assim inicias o regresso sempre
E eu fico aqui no outro lado de mim a olhar o mar na noite e o rio e a foz
E o farol apagado que me guiava até ti na lonjura da memória dos tempos…


Um poema que fala da memória dos tempos. Um poema a sentir-se a imaginar-se, quase um grito de desespero, estranho, a provocar um ardor por dentro. Folheio mais um pouco o livro e cai uma folha seca, esquisito, uma folha dentro de um livro de um homem do mar, agacho-me para a apanhar. Seca. Arroxeada. Parecia uma folha, não é, pego-lhe com cuidado, um amor-perfeito, é isso, a flor é um amor perfeito, pouso o livro e folheio a tentar descobrir onde estava, descubro a forma impressa na folha parda de papel, o lugar violado por mim, entro num espaço do tempo esquecido quase a medo, as palavras a bailarem vertiginosamente na frente dos meus olhos, quase um balanço brusco do navio. As palavras sublinhadas, e escrito a lápis em baixo uma nota de rodapé:

“Foste a flor mais perfeita, o amor-perfeito em mim, és ainda, só secas, só morres quando eu morrer em ti e tu em mim.
Amo-te Beatriz.”

Sinto-me a mais aqui, quase um ladrão a roubar os segredos, o lado mais íntimo do sentir, o pensamento, a emoção, o amor, não sei explicar o que sinto. Fecho o livro, levo-o comigo agora e o portátil, saio porta fora em direcção à porta principal, os corredores em silêncio na penumbra. Aqui o tempo passa demasiado devagar ou sou eu que me sinto a ficar sem forças, sem ar, um nó na garganta sufoca-me. Dou-me conta que este pai me fez sempre falta. Dou-me conta que sou como ele, cópia perfeita. Dou-me conta que foi isso que ele descobriu. Tenho de abrir o pc. Tenho de apanhar um táxi já e refugiar-me no meu quarto no hotel a ler. Vou ligar para a mãe a avisar que vou para Londres que levo os livros e os cadernos do pai, levo também o seu fato de capitão. O resto fica aqui guardado. Vou providenciar para que a casa do Porto seja arranjada de imediato, depois levo tudo para lá, e levo a mãe, quero regressar às origens, espécie de regresso ao ventre materno.

Estou meio doido com tudo. Depois vou fazer uma visita a uma pessoa, vou tentar que me receba. Espero que me receba. Não adianta telefonar-lhe que não atende. Não responde às mensagens, mas tem toda a razão, fui eu que fui embora sem uma palavra, éramos só amigos, eu pensava assim ela não, era amor que sentia, eu não sabia, não queria saber, fingia não querer saber não me queria prender, depois dei-me conta da sua falta em mim.
– Que porra! Fiz exactamente como o pai. Como pode ser possível? Como?
Tenho de mudar de rumo, tenho de traçar uma nova rota a aportar ao coração dela, lá é o meu porto seguro. Se me receber, se me quiser, se me amar. Se não tiver já o coração ocupado. Sinto um calafrio a percorrer a espinha, o meu corpo, uma espécie de choque eléctrico. Sou um homem parvo, nunca me tinha passado pela cabeça que ela pudesse ter o coração ocupado. Que pode ter o coração ocupado. Casada. Uma família e filhos. Sinto o mundo a cair em cima de mim. Os sonhos, espécie de castelos de areia a desfazerem-se nas ondas do mar furioso. O medo apodera-se de mim e o desassossego. Uma tristeza instala-se por dentro a minar-me as forças, um sobressalto. Acho que a perdi no dia que fui para o mar. No dia em que embarquei para a minha primeira travessia. Já passaram cinco anos meu Deus. Tão rápido o tempo. Tão voraz a girar.

O táxi deixa-me na porta do hotel. Não dei pela viagem de quase uma hora, saio a correr e subo as escadas como se uma matilha de lobos esfaimados estivessem quase a ferrar as presas em mim. Subo. E enquanto o elevador sobe ao oitavo piso tento acalmar, respiro devagar, pausadamente a desacelerar o coração descompassado. Como é possível nunca ter pensado. Como?
Abro a porta do quarto retiro o pc da mala de transporte e ligo. Enquanto se inicia, sinto um desconforto interior, o estômago a roncar baixinho com fome. Dou-me conta que hoje não almocei, não jantei, não comi nada. Olho as horas dez e doze minutos, pego no telefone e peço à recepção alguma coisa para comer aqui no quarto. O pc abre e inicia automático, uma imagem do por do sol no mar. Um único ícone no ambiente de trabalho. Clico em cima.
Lentamente abre uma pasta:

Carta do Pai Júlio para ti meu Filho

Estremeço, sinto-me num turbilhão de emoções. O mar assoma aos meus olhos, inunda-me a alma, afoga-me o coração.

Meu filho querido. Não estranhes ao ligar o computador esta mensagem assim. É propositada. No fundo eu sabia que virias. Que um dia virias à descoberta de mim, mas o corpo alquebrado pode não ter tempo para esperar o tal todo o tempo do mundo. Deves saber como é, um corpo velho como um casco de bacalhoeiro na última viagem, está meio carcomido pelo sal, encostado ao cais para morrer alquebrado, a ser engolido pelo lodo do rio, ou arder no inferno do fogo lentamente.
Chega de falar de mim. Esta mensagem que te deixo aqui neste pequeno computador ao qual me fui afeiçoando, e que me permitiu viajar pelo mundo nestes três últimos anos, tem cá dentro toda a história e as respostas que vinhas à procura. Estão aqui para o caso de te atrasares. De não apanhares um bom ventinho favorável. Em pequenas pastas arrumadas. Com tempo faz a viagem se quiseres, a descobrires quem está na origem das palavras.

Que digo eu, nem sei a tua ocupação ao certo. A tua mãe a minha queridíssima Beatriz escreveu-me uma carta que recebi faz pouco, atrasada, a falar-me de ti, a dizer-me que eras marinheiro. Não sabes a alegria que me dás saber-te marinheiro também. Vais entender-me porque os marinheiros têm a alma do mundo, o sangue dos oceanos a correr nas veias, o olhar do sol e da lua e dos vendavais. Vais entender-me.
Aqui encontras todas as respostas às tuas perguntas. Principalmente a explicação do amor que sempre senti pela tua mãe.
Único!
Puro!
Branco!
Como eu costumava dizer. Como se o branco fosse a cor a pintar o amor. Não sei. Acho que confundi a cor com a cor dos cascos dos bacalhoeiros daquele tempo. Pode ser isso.
A Beatriz na carta contou-me que tu fizeste como eu, que largaste a mulher que amavas e que partiste. Disse-me que estava a ver o mesmo erro em ti, uma espécie de alucinação do passado a repetir-se, mas que não te quis contar da minha existência. Que Morris era para todos os efeitos o teu pai de verdade, o único que conhecias. Ela fez bem, acho que sim. Mas agora peço-te que não cometas o mesmo erro que eu. Vai até onde te leva o teu coração. Se amas, segue o que ele diz. A tua mãe contou-me na carta que seguiste como eu o mesmo rumo. O mar, só o mar. Não faças isso! Se amas não troques o amor pelo mar, completa o amor com o mar, mas nunca o substituas. Olha o erro tremendo que eu cometi. Não o faças. Promete! Promete! Nenhum mar merece a troca do amor de uma mulher por ele. Nenhum mar, por mais que nos corra no corpo, por mais que esteja entranhado na pele. Nunca! O amor é insubstituível, e a saudade tão conhecida dos portugueses é um veneno que nos mata lentamente, nos suga a memória, nos embacia o olhar, nos tira o brilho, nos rouba as forças. Ficamos cinzentos, sombrios, assustadores, estranhos. É verdade meu filho, ficamos como lobos, lobos-do-mar solitários, sem alcateia, sem covil. À mercê de um tiro misericordioso que nos acabe o sofrimento. Os lobos são uma espécie protegida, assim o sofrimento será longo e penoso. O meu durou cinquenta anos, meio século de saudade e de ausência e de angústia. Fiquei com o coração avariado, destroçado completamente.
Estou cansado. Foge-me a vista, acho que agora posso dormir nos braços do mar finalmente. Se tu conseguisses imaginar o que me custaram estes cinquenta anos de solidão sem o abraço da Beatriz. Se tu conseguisses imaginar o doloroso que foi tudo. Saber que existias só agora tão tarde. Imaginar que nos podemos ter cruzado no oceano sem saber que éramos a mesma carne – Meu filho! Fico com o coração enorme no peito a dizer a palavra. Os olhos rasos de água ainda. Eu que pensei não ter já lágrimas. Mas estas são de comoção, de amor. São lágrimas verdadeiras de pai.

Promete que vais em busca do teu amor. Sei que irás. Eu sei que sim. Bastei eu para errar e para aprender com o erro.
Um homem do mar não erra duas vezes.
Ficas com as respostas.
A historia de amor sem amor nenhum que eu fui.
Um velho lobo-do-mar com o coração naufragado de saudade.
Dá um beijo à mãe, a minha Beatriz

Teu Pai Júlio

São Martinho, Novembro de 2007

(continua)

Fotografia de Barcoantigo em 2008

quinta-feira, dezembro 18, 2008

incomunicáveis...

Incomunicáveis


Incomunicáveis


Incomunicáveis !!!


Uma memoria cheia de ventos e de maresias que cabem num saco feito de velas rasgadas
Este sou eu
Um marinheiro fracassado, espécie de naufrágio em água revolta, fria, negra sem glória sem lembrança
Uma memória branca por dentro. Quem me mandou enfrentar as tempestades, se o coração vacila, o corpo pende curvado, a imitar a quilha alquebrada do navio que trago no coração.
Depois o sal
Sempre o sal
Espécie de cristal maravilha que faz bater o músculo vermelho
Depois a sede
Depois
Depois
Depois....

A morte
Ronda-me a morte.

Partiram as aves todas
O mar é um imenso vazio aos meus olhos
Onde estão as silhuetas dos barcos e as velas?
Partiram-se os mastaréus e as enoras agora são buracos sem fundo
Um barco sem mastros é como um corpo sem braços
Decepado
É isso que se respira aqui
Um decepar de memórias
Uma angustia

Renego-te. Vou pra sul !


João marinheiro, palavras ditas 2007