sexta-feira, março 20, 2009

dos oceanos a fio...



Gostava de te encontrar pela manhã dos dias azuis
Descias a ladeira que te trazia à vila
E eu, sabedor das horas anunciadas pelo sol madrugador esperava-te
Nunca deste por mim
Nunca te dirigi a palavra
Ficava-me a olhar-te graciosa enquanto caminhavas
Os teus cabelos esvoaçando na brisa que se sentia impregnada com o cheiro das camélias em flor.
Um dia não vieste
Soube que foste embora em busca do amor
Dei-me conta nesse dia que o meu tinha partido
Nunca deste por mim, ou pelo cheiro das camélias que já morreram
Cansado
Um dia parti também
Quis o destino pregar-me a partida, ou quem sabe
Reencontrei-te na cidade à beira mar onde habitas
Depois de atravessar oceanos durante anos a fio
E quase ter esquecido o cheiro das camélias.
Os dias madrugadores de cor azul
Ou a ladeira por onde caminhavas em direcção à vila.
Ficamos os dois parados, tolhidos pela surpresa súbita
A partida do destino
Então sorriste
E então falaste
Então sorri
E então falei-te
Palavras breves como os segundos que marcam os intervalos do tempo




João marinheiro 2009
Foto, Mara Mitchel

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

rumo a Oeste...




as velas prenhas de ventos e de ideais
o rasto nas águas frias do navio
uma ardência de fluorescências que desenham riscos de sal sobre as ondas breves

acabaram-se os ancoradouros antigos
os meus navios foram sempre uma miragem alucinada
um sonho por cumprir
demasiados naufrágios

morrem-me os dedos nas mãos vazias
e a pena perde o tino nas palavras
seca na folha amarelecida a tinta azul água
o diário de bordo de um capitão velho

rumo a Oeste de nada
uma carta náutica falsa, sem valor
as coordenadas imperfeitas
longitudes, latitudes, declinações magnéticas por corrigir

um imenso erro a escrita
dou-me conta
um marinheiro não pode ser poeta, ou o contrário
não existe poesia na rudeza do sentir no mar

as velas ainda se içam ao vento e enfunam
prenhas, redondas, alvas
é assim que as imagino
mas todo eu sou um engano…



João marinheiro Fevereiro de 2009
Fotografia de Barcoantigo em 2009

domingo, fevereiro 15, 2009

É de compreender que sobretudo nos cansamos


…Há um grande cansaço na alma do meu coração. Entristece-me quem eu nunca fui, e não sei que espécie de saudades é a lembrança que tenho dele.
Caí contra as esperanças e as certezas, com os poentes todos.

…Estou hoje lúcido como se não existisse. Meu pensamento é em claro como um esqueleto, sem os trapos carnais da ilusão de exprimir. E estas considerações, que formo e abandono, não nasceram de coisa alguma - de coisa alguma, pelo menos, que me esteja na plateia da consciência.

Talvez aquela desilusão do caixeiro da praça com a rapariga que tinha, talvez qualquer frase lida nos casos amorosos que os jornais transcrevem dos estrangeiros, talvez até uma vaga náusea que trago comigo e me não explico fisicamente…

Disse mal o escoliasta de Virgílio.
É de compreender que sobretudo nos cansamos.
Viver não é pensar…

In livro do Desassossego, Bernardo Soares
Imagem, Google

domingo, janeiro 04, 2009

Do desencontro...VII parte


( Livro de contos...)

Parece que apanhei um murro violento no estômago. Fiquei sem reacção sem forças, vazio por uns momentos demasiado demorados, parece que o tempo se esqueceu de mim e me deixou abandonado nesta aflição, este sufoco na alma, um arder por dentro. Cada vez estou mais angustiado e abismado, admirado com este homem misterioso a quem não pude olhar, a quem não pude chamar de pai.
De repente vem-me à ideia que não sei como é, nunca vi uma foto sua, não faço a mínima ideia de quem seja. Como é o seu rosto, a cor dos olhos, dos cabelos, se alto se baixo, nada! Tudo é tão estranho. Sinto-me preso a abafar sem reacção, o olhar inundado de sal. Batem à porta. Acordo, deve ser o que pedi para jantar, sinto uma fraqueza a invadir-me o corpo e a mente. Acordo deste torpor em que estava a submergir-me depois de ler a carta no pc. Abro a porta num gesto autómato, a funcionária com um sorriso avança com o carro bar com a refeição. Quase não lhe falo – entre, digo. Brinda-me com um sorrido simpático. Meigo, imagino que o seu sorriso é meigo porque os olhos são meigos, de um verde paz meigo. No espaço de segundos processo mil pensamentos ao observar esta jovem, reparo em pequenos detalhes, a cor das unhas, a forma como estão cortadas, a cor dos cabelos, o perfume suave e discreto que usa, o uniforme impecavelmente limpo a sua forma elegante, esbelta, não deve ter mais de vinte cinco, vinte oito anos, um metro e sessenta e cinco, tiro a medida da sua altura quando ela se volta para mim – desculpe, quer que sirva o jantar ou deixo ficar? – Importa-se? – Importa-se de me servir? Retorqui enquanto a observo, enquanto lhe descubro o nome na placa dourada no peito, mesmo por cima do coração – obrigado Esmeralda. Obrigado. Olho-a nos olhos. À quanto tempo não olho uma mulher nos olhos? Vejo um sorriso nos seus lábios, um rosto bonito. Vejo por instantes. Por instantes faço comparações. Olho as suas mãos, as unhas cuidadas. Verniz vermelho vivo. Obrigado digo outra vez, quase sem palavras. Num ápice dispôs o prato na mesa, bife com molho tártaro, legumes salteados e arroz com frutas secas, serviu o vinho, dispôs o pão, duas fatias de pão integral, colocou a sobremesa, os talheres impecavelmente dispostos, o guardanapo branco, arrumou o carrinho, e com o mesmo sorriso luminoso, – por favor quando terminar a refeição queira solicitar à recepção para podermos retirar o carro. Tenha um jantar agradável e disponha se precisar de mais alguma coisa. Obrigado Esmeralda falei outra vez, enquanto ela se dirigiu para a porta e a fecha atrás de si.
Estou de novo só. Por um momento pareceu-me que estava em casa, que tinha uma família, que tinha uma esposa que colocava a mesa com a habilidade característica das esposas. Por um momento só. Sento-me para jantar, mais logo ligo à mãe, ela fica acordada até tarde. Agora vou saborear este bife e o arroz com pinhões e passas. Faz muito tempo que não como assim uma refeição. Sorvo um pouco de vinho. Um tinto encorpado do Douro, bom vinho, demoro-me a ler o rótulo. Gostava de ter aqui uma companhia feminina com quem partilhar este vinho, com quem pudesse brindar a vida e também conversar. Preciso de uma companhia por perto. Ainda sinto o perfume de Esmeralda no quarto, ainda o sinto nas narinas, e isso excita-me e faz-me sentir desejo, e faz-me sentir saudade.
Janto a correr. Bebo dois copos deste vinho rubro forte, 14 graus e meio, sinto o seu efeito relaxante a entrar em mim lentamente. Não estou habituado já a beber vinho. Fecho os olhos por uns momentos a descansar, a recuperar as forças, pareço um navio adornado na tempestade, a não se deixar adormecer e vagarosamente retornar ao seu ponto de equilíbrio, à posição vertical para ganhar rumo de novo.
Estou em Lisboa faz quase um mês. Durante duas semanas aluguei um carro andei de um lado para outro ai pela costa, de sul para norte de este para oeste, sem rumo. Demorei tantos dias a decidir-me ir visitar o Capitão e aconteceram tantas coisas entretanto. Ainda estou estranho.

Deixo-me ficar mais um pouco, a noite iluminada por uma luz baça entra pela janela do meu quarto esbatida. Daqui deste oitavo andar olho o casario velho de Lisboa os telhados cinzentos e negros e ao fundo, a silhueta da Ponte a piscar. Vejo também o Tejo a luzir, as luzes a espelharem-se nas águas escuras no rio das mil descobertas. Andei a caminhar estes dias pela beira Tejo junto à Praça do Comercio. Faltam as colunas. O Cais das colunas desapareceu. Mutilam a cidade branca e ninguém se importa.
Aqui impera o quase silêncio, quase, porque se escuta ainda um ruído abafado e distorcido do movimento de carros na avenida. A cidade prepara-se para adormecer, para fingir que dorme, é uma espécie de movimento perpétuo. Lisboa não pára nunca. Parece que adormece mas não pára. Só eu me sinto cansado e a parar. Gostava de olhar outra vez a funcionária do hotel. Ver o verde paz dos seus olhos. Sentir desejo outra vez. Sonhar outra vez. Gostava de conversar. De escutar uma voz de mulher durante um bocado a conversar comigo. No fundo é isso, é um vazio que existe em mim, um fosso difícil de encher agora. Sou um turista em Lisboa, sou um estranho em Lisboa. Um numero de estatística turística. Na Escola Náutica já não conheço ninguém do meu tempo, e era a única ligação que tenho a Lisboa, quase a única. Vim cá acabar a especialização durante um ano. Apaixonei-me. Depois parti, não devia ter partido, é esse ano que me falta. Sou um parvo. Um doido por estar a pensar estas coisas a esta hora. Ligo para a recepção – Por favor podem dizer à senhorita Esmeralda do restaurante que pode vir levantar o carro com o jantar.
– Obrigado!
– Espero! Espero!
É o que tenho feito este tempo todo, esperar. Espero que a Laura ainda more no mesmo sítio; Rua Brancamp Freire.
Espero. Espero que esteja em casa.
Espero. Espero ter coragem de tocar à campainha, e subir até ao terceiro andar direito do seu prédio e tocar.
Espero. Espero que seja ela a abrir a porta. Que ainda ali more.
Espero tanta coisa adiada. É um ano que falta na minha vida. Insubstituível porque não posso voltar atrás.

Olho a noite, tenho a janela aberta e a cortina corrida a um lado. Gosto de ver o sol nascer, mas estou de costas para ele. Sinto-me nervoso a andar de lado para lado aqui. Os meus passos são abafados pela alcatifa vermelho escura. Olho pela primeira vez com atenção a decoração do quarto, uma pequena suite, casa de banho, sala de estar e quarto. Olho pela primeira vez os quadros na parede. Janelas. Janelas de Maluda a pintora das janelas de Lisboa. São, bonitas. Copias a enquadrarem no papel de parede branco, branco sujo e ondulações ocres e pardas. A mobília em negro wengué e vidro vermelho fogo, a alcatifa a condizer. Acolhedor o sitio.
Ainda sinto o perfume, ou sou eu que o imagino. Só pode ser. Costumo guardar pequenos detalhes durante anos na memória. Ouço bater na porta. Abro, é ela, venço a minha falta de palavras – olá Esmeralda bem vinda de novo! – Entre! – as minhas recomendações ao chefe de cozinha, o jantar estava muito bom. Olha para mim a sorrir, não diz nada, percebe que quero meter conversa. Claro! Deve estar farta de ser assediada, é uma mulher muito formosa. Apetecível. Sinto o seu cheiro e involuntariamente aspiro prolongadamente a entranhar em mim o seu perfume, para me ficar dentro a durar tempos. Arruma num ápice toda a mesa, aspira as pequenas migalhas de pão com um pequeno aspirador portátil, tudo pensado ao pormenor, eficiente. É assim que gosto de saber as pessoas, eficientes e competentes. Acabou. Olha para mim outra vez – o Sr. comandante João deseja mais alguma coisa? Fico surpreso, sabe o meu nome e profissão, esboço um sorriso, e toda a tensão que senti ao longo do dia se desvanece diluída pelo som da sua voz. O pequeno gesto de me tratar pelo nome, de falar comigo, não me tratar como um turista, um estranho na nossa cidade. Demoro a responder enquanto me olha, olhos nos olhos a desafiar, de frente, com personalidade. O que eu penso ao milionésimo de fracção de segundo. Respondo calmo
– Obrigado Esmeralda! Posso tratar assim, Esmeralda? – Não preciso de mais nada por hoje vou descansar que tive um dia complicado, demasiado emotivo. Gostei que me tenha tratado pelo nome. Demonstra muito profissionalismo de sua parte e da equipa do hotel, afinal já cá estou quase há um mês hospedado, e estava a sentir-me um estrangeiro. Um turista na minha terra.
– Obrigado. Não disse mais nada. Sorrindo dirigiu-se para a porta com o carrinho, olhou-me uma ultima vez a sorrir, sempre a sorrir. Tenha uma noite descansada Sr. Comandante. Amanhã o pequeno-almoço é das sete às 10 horas na sala Oriente. E saiu.
Fiquei a sorrir também. A imaginar que por um momento era a Laura que ali esteve comigo a falar-me a olhar-me. Por um momento lhe senti o cheiro, quase o sabor da pele, a textura das mãos, o desenho dos lábios…

Estou doido. Antes de me deitar tenho de ligar à mãe, quem sabe se ainda hoje me sinto com coragem e ainda vou descobrir mais segredos no pequeno pc do capitão.

(Continua...)
Fotografia de Ana Guerreiro, www.olhares,com

quinta-feira, dezembro 25, 2008

Do desencontro... VI parte



(livro de contos)


Vou para o hotel, está decidido. Falei com o Dr. Ernesto e todos os pertences do pai vão ficar aqui guardados, os mais pessoais, os livros vão para Londres para casa da mãe, eu também vou, quero com calma mergulhar dentro deles colher palavra a palavra a tentar conhecer este homem, a tentar conhecer esta parte da vida desconhecida da mãe. Agora vou para o hotel, levo o computador portátil do capitão. Mais logo pela noite no sossego da madrugada vou ver o que encerra, o que me deixou escrito, as pistas, ainda me parece que tudo isto é um jogo, uma espécie de jogo virtual do qual não sei as regras, onde não conheço os adversários. Tenho momento que penso, nada disto está a acontecer, depois dou-me conta que tudo é demasiado real, demasiado forte, demasiado grande para estar a acontecer agora. Mas está, acontece, por vezes demasiado rápido para o entendimento, por vezes demasiado lentamente. Espécie de filme de imagens paradas, fotograma a fotograma, uma nitidez impressionante de arrepiar, que assusta. Tudo aqui foi pensado para a minha vinda, tudo aqui foi pensado para a morte, tudo aqui foi pensado com tempo. Todo o tempo do mundo. Num repente um flash de luz na minha cabeça, foi isso, eu vi o livro pousado na secretária, marcado, um marcador em couro, uma tira com um monograma dourado, é isso o livro, “ Todo o tempo do mundo” instintivamente dirijo o olhar para lá, a secretária. O livro permanece no mesmo lugar, pego-lhe e abro na página marcada, um poema sublinhado, demoro a ler:

Espero-te ainda

Tu não sabes que do outro lado do mundo eu penso em ti
Que te sinto em cada batida do coração a ressoar por dentro dolorido
Que te desejo intensamente. Um vazio estremo
E que o olhar morre lentamente
As palavras dão á costa naufragadas na memória
E que já não tenho memoria do tempo dos amantes de uma noite


Não podes saber que as noites agora são sombrias
Os braços de luz do farol se apagaram
O rio secou assoreado nas lágrimas salobras
O mar recolheu a uma terra estranha
E a linha de costa
É uma beira-mar juncada de sargaço morto
E que eu estou aqui ainda
Sentado na beira-rio esperando por ti
Enquanto o frio me invade os sentidos
O mar se recompõe da noite longa e acorda em maresias de sal
A névoa se instala abraçando o mundo
E eu cego, tacteio o rumo que me afasta de ti
Espécie de suicídio negro na estrada

Tu não sabes
Da minha vontade de escutar a tua voz
De te sentir no olhar
De te amar outra vez
Tu não sabes porque és espécie de andorinha que partes
Porque o Verão é doido e parece Outono e te desnorteias
E assim inicias o regresso sempre
E eu fico aqui no outro lado de mim a olhar o mar na noite e o rio e a foz
E o farol apagado que me guiava até ti na lonjura da memória dos tempos…


Um poema que fala da memória dos tempos. Um poema a sentir-se a imaginar-se, quase um grito de desespero, estranho, a provocar um ardor por dentro. Folheio mais um pouco o livro e cai uma folha seca, esquisito, uma folha dentro de um livro de um homem do mar, agacho-me para a apanhar. Seca. Arroxeada. Parecia uma folha, não é, pego-lhe com cuidado, um amor-perfeito, é isso, a flor é um amor perfeito, pouso o livro e folheio a tentar descobrir onde estava, descubro a forma impressa na folha parda de papel, o lugar violado por mim, entro num espaço do tempo esquecido quase a medo, as palavras a bailarem vertiginosamente na frente dos meus olhos, quase um balanço brusco do navio. As palavras sublinhadas, e escrito a lápis em baixo uma nota de rodapé:

“Foste a flor mais perfeita, o amor-perfeito em mim, és ainda, só secas, só morres quando eu morrer em ti e tu em mim.
Amo-te Beatriz.”

Sinto-me a mais aqui, quase um ladrão a roubar os segredos, o lado mais íntimo do sentir, o pensamento, a emoção, o amor, não sei explicar o que sinto. Fecho o livro, levo-o comigo agora e o portátil, saio porta fora em direcção à porta principal, os corredores em silêncio na penumbra. Aqui o tempo passa demasiado devagar ou sou eu que me sinto a ficar sem forças, sem ar, um nó na garganta sufoca-me. Dou-me conta que este pai me fez sempre falta. Dou-me conta que sou como ele, cópia perfeita. Dou-me conta que foi isso que ele descobriu. Tenho de abrir o pc. Tenho de apanhar um táxi já e refugiar-me no meu quarto no hotel a ler. Vou ligar para a mãe a avisar que vou para Londres que levo os livros e os cadernos do pai, levo também o seu fato de capitão. O resto fica aqui guardado. Vou providenciar para que a casa do Porto seja arranjada de imediato, depois levo tudo para lá, e levo a mãe, quero regressar às origens, espécie de regresso ao ventre materno.

Estou meio doido com tudo. Depois vou fazer uma visita a uma pessoa, vou tentar que me receba. Espero que me receba. Não adianta telefonar-lhe que não atende. Não responde às mensagens, mas tem toda a razão, fui eu que fui embora sem uma palavra, éramos só amigos, eu pensava assim ela não, era amor que sentia, eu não sabia, não queria saber, fingia não querer saber não me queria prender, depois dei-me conta da sua falta em mim.
– Que porra! Fiz exactamente como o pai. Como pode ser possível? Como?
Tenho de mudar de rumo, tenho de traçar uma nova rota a aportar ao coração dela, lá é o meu porto seguro. Se me receber, se me quiser, se me amar. Se não tiver já o coração ocupado. Sinto um calafrio a percorrer a espinha, o meu corpo, uma espécie de choque eléctrico. Sou um homem parvo, nunca me tinha passado pela cabeça que ela pudesse ter o coração ocupado. Que pode ter o coração ocupado. Casada. Uma família e filhos. Sinto o mundo a cair em cima de mim. Os sonhos, espécie de castelos de areia a desfazerem-se nas ondas do mar furioso. O medo apodera-se de mim e o desassossego. Uma tristeza instala-se por dentro a minar-me as forças, um sobressalto. Acho que a perdi no dia que fui para o mar. No dia em que embarquei para a minha primeira travessia. Já passaram cinco anos meu Deus. Tão rápido o tempo. Tão voraz a girar.

O táxi deixa-me na porta do hotel. Não dei pela viagem de quase uma hora, saio a correr e subo as escadas como se uma matilha de lobos esfaimados estivessem quase a ferrar as presas em mim. Subo. E enquanto o elevador sobe ao oitavo piso tento acalmar, respiro devagar, pausadamente a desacelerar o coração descompassado. Como é possível nunca ter pensado. Como?
Abro a porta do quarto retiro o pc da mala de transporte e ligo. Enquanto se inicia, sinto um desconforto interior, o estômago a roncar baixinho com fome. Dou-me conta que hoje não almocei, não jantei, não comi nada. Olho as horas dez e doze minutos, pego no telefone e peço à recepção alguma coisa para comer aqui no quarto. O pc abre e inicia automático, uma imagem do por do sol no mar. Um único ícone no ambiente de trabalho. Clico em cima.
Lentamente abre uma pasta:

Carta do Pai Júlio para ti meu Filho

Estremeço, sinto-me num turbilhão de emoções. O mar assoma aos meus olhos, inunda-me a alma, afoga-me o coração.

Meu filho querido. Não estranhes ao ligar o computador esta mensagem assim. É propositada. No fundo eu sabia que virias. Que um dia virias à descoberta de mim, mas o corpo alquebrado pode não ter tempo para esperar o tal todo o tempo do mundo. Deves saber como é, um corpo velho como um casco de bacalhoeiro na última viagem, está meio carcomido pelo sal, encostado ao cais para morrer alquebrado, a ser engolido pelo lodo do rio, ou arder no inferno do fogo lentamente.
Chega de falar de mim. Esta mensagem que te deixo aqui neste pequeno computador ao qual me fui afeiçoando, e que me permitiu viajar pelo mundo nestes três últimos anos, tem cá dentro toda a história e as respostas que vinhas à procura. Estão aqui para o caso de te atrasares. De não apanhares um bom ventinho favorável. Em pequenas pastas arrumadas. Com tempo faz a viagem se quiseres, a descobrires quem está na origem das palavras.

Que digo eu, nem sei a tua ocupação ao certo. A tua mãe a minha queridíssima Beatriz escreveu-me uma carta que recebi faz pouco, atrasada, a falar-me de ti, a dizer-me que eras marinheiro. Não sabes a alegria que me dás saber-te marinheiro também. Vais entender-me porque os marinheiros têm a alma do mundo, o sangue dos oceanos a correr nas veias, o olhar do sol e da lua e dos vendavais. Vais entender-me.
Aqui encontras todas as respostas às tuas perguntas. Principalmente a explicação do amor que sempre senti pela tua mãe.
Único!
Puro!
Branco!
Como eu costumava dizer. Como se o branco fosse a cor a pintar o amor. Não sei. Acho que confundi a cor com a cor dos cascos dos bacalhoeiros daquele tempo. Pode ser isso.
A Beatriz na carta contou-me que tu fizeste como eu, que largaste a mulher que amavas e que partiste. Disse-me que estava a ver o mesmo erro em ti, uma espécie de alucinação do passado a repetir-se, mas que não te quis contar da minha existência. Que Morris era para todos os efeitos o teu pai de verdade, o único que conhecias. Ela fez bem, acho que sim. Mas agora peço-te que não cometas o mesmo erro que eu. Vai até onde te leva o teu coração. Se amas, segue o que ele diz. A tua mãe contou-me na carta que seguiste como eu o mesmo rumo. O mar, só o mar. Não faças isso! Se amas não troques o amor pelo mar, completa o amor com o mar, mas nunca o substituas. Olha o erro tremendo que eu cometi. Não o faças. Promete! Promete! Nenhum mar merece a troca do amor de uma mulher por ele. Nenhum mar, por mais que nos corra no corpo, por mais que esteja entranhado na pele. Nunca! O amor é insubstituível, e a saudade tão conhecida dos portugueses é um veneno que nos mata lentamente, nos suga a memória, nos embacia o olhar, nos tira o brilho, nos rouba as forças. Ficamos cinzentos, sombrios, assustadores, estranhos. É verdade meu filho, ficamos como lobos, lobos-do-mar solitários, sem alcateia, sem covil. À mercê de um tiro misericordioso que nos acabe o sofrimento. Os lobos são uma espécie protegida, assim o sofrimento será longo e penoso. O meu durou cinquenta anos, meio século de saudade e de ausência e de angústia. Fiquei com o coração avariado, destroçado completamente.
Estou cansado. Foge-me a vista, acho que agora posso dormir nos braços do mar finalmente. Se tu conseguisses imaginar o que me custaram estes cinquenta anos de solidão sem o abraço da Beatriz. Se tu conseguisses imaginar o doloroso que foi tudo. Saber que existias só agora tão tarde. Imaginar que nos podemos ter cruzado no oceano sem saber que éramos a mesma carne – Meu filho! Fico com o coração enorme no peito a dizer a palavra. Os olhos rasos de água ainda. Eu que pensei não ter já lágrimas. Mas estas são de comoção, de amor. São lágrimas verdadeiras de pai.

Promete que vais em busca do teu amor. Sei que irás. Eu sei que sim. Bastei eu para errar e para aprender com o erro.
Um homem do mar não erra duas vezes.
Ficas com as respostas.
A historia de amor sem amor nenhum que eu fui.
Um velho lobo-do-mar com o coração naufragado de saudade.
Dá um beijo à mãe, a minha Beatriz

Teu Pai Júlio

São Martinho, Novembro de 2007

(continua)

Fotografia de Barcoantigo em 2008

quinta-feira, dezembro 18, 2008

incomunicáveis...

Incomunicáveis


Incomunicáveis


Incomunicáveis !!!


Uma memoria cheia de ventos e de maresias que cabem num saco feito de velas rasgadas
Este sou eu
Um marinheiro fracassado, espécie de naufrágio em água revolta, fria, negra sem glória sem lembrança
Uma memória branca por dentro. Quem me mandou enfrentar as tempestades, se o coração vacila, o corpo pende curvado, a imitar a quilha alquebrada do navio que trago no coração.
Depois o sal
Sempre o sal
Espécie de cristal maravilha que faz bater o músculo vermelho
Depois a sede
Depois
Depois
Depois....

A morte
Ronda-me a morte.

Partiram as aves todas
O mar é um imenso vazio aos meus olhos
Onde estão as silhuetas dos barcos e as velas?
Partiram-se os mastaréus e as enoras agora são buracos sem fundo
Um barco sem mastros é como um corpo sem braços
Decepado
É isso que se respira aqui
Um decepar de memórias
Uma angustia

Renego-te. Vou pra sul !


João marinheiro, palavras ditas 2007

sábado, dezembro 06, 2008

Do desencontro...V parte


( livro de contos)

Volto á habitação do capitão Júlio percorrendo de volta os mesmos corredores, trago na mão o envelope. Não o quis abrir ali na frente do Dr. Ernesto, prefiro estar recolhido ali no seu aposento, o seu sítio. A minha cabeça fervilha de pensamentos. Em cada passada, em cada metro que venço a encurtar a distância ao quarto do Comandante Júlio, o meu corpo começa a ficar em alerta. Que trago nas mãos? Que papeis são estes. Que carta. que noticias? Afasto por uns momentos da ideia as perguntas. Traço um plano mental. Hoje vou arrumar todas as coisas e levar as importantes para o hotel, amanhã ou depois irei ao Porto, quero de novo ver a casa, depois vou para Londres ter com a mãe. Sim será o plano mais acertado. Organizar as coisas. Preparar tudo. Quem sabe estou a fazer um temporal para nada. Abro a porta. Olho de novo o pequeno quarto, abro a janela e sinto a aragem fresca a entrar, uma espécie de vento a saber a maresia. Fico a pensar. Que espécie de homem era ele para até nas pequenas coisas insignificantes nos surpreender sempre, como sabia que aqui desta janela o vento trás o sabor do mar, o cheiro do sargaço. Nunca vou saber a resposta. Não é importante já. Agora vou ler a carta, aqui na sua secretária. Isso o importante agora. Quero saber o que nos queria dizer. Tremem-me as mãos ao abrir a carta.
Duas folhas manuscritas a tinta azul.

…” Espero que me perdoes. Eu tenho quase a certeza que vais ser tu que vens cá à minha procura, senti isso quando recebi a carta da Beatriz. Com tempo vais saber as respostas todas. A tua mãe, a Beatriz vai contar-te tudo. Não é uma história bonita. Foi uma história de amor sem amor. Impossível, por erro meu. Fracassei no destino que escolhi. Não fui um bom namorado. Não fui um bom marido. Não fui, soube agora, um bom pai, isso não me perdoo. Peço-te é perdão pelos erros cometidos. Por nunca ter sabido da tua existência, pelo tempo que não tivemos. Pelo colo que não te dei, os mimos, os afectos. Tolda-se-me a vista como uma névoa quando penso em tudo o que poderíamos ter sido como pai e filho, e nunca fomos. Nunca te olhei, nunca escutei a tua voz, não sei rigorosamente nada de ti, e ao pensar nisso, metade de mim afunda-se num sorvedouro, um redemoinho de sentimentos. Fui um doido orgulhoso porque cedi ao orgulho em vez de ceder ao amor que tinha pela tua mãe, virei-lhe costas zangado por ela ter ido embora, iludi-me durante anos, iludi a minha memória, enganei o meu coração, tentei apaga-la, sem nunca o conseguir, eu sempre soube que era única. E quando regressei quase não reconhecia o meu Portugal, e depois era tão tarde, o tempo foi um carrasco que me aprisionou. Tive medo. Tive medo de ir à procura da tua mãe e ela não me reconhecer. Não me querer ver. Tive medo de ser rejeitado, e então fiquei por cá por Lisboa. Deixei a casa do Porto abandonada. Custava-me lá ir. Parece que a via sempre, a olhar-me, uns olhos acusadores. Deixei de olhar as pessoas frontalmente com o tempo, confesso. Deixei de me interessar pelas pessoas. Os barcos eram a minha paixão, foi por eles que troquei o amor, foi por eles que fiquei só, o coração amargurado de arrependimento. Mas já não posso voltar atrás ou reescrever a história. Depois vim para aqui para São Martinho e como já não tinha amigos fazia muitos anos ninguém deu pela minha falta.

Espero que me perdoes.

Não sei se vais ler esta carta no meu quarto, gostava que o fizesses, mas se o estás a fazer como eu penso, como eu pressenti que farias, olha então ao teu redor. Não são muitas coisas. Mas todas têm um lugar e uma história. Um tempo. Na secretária tens um pequeno computador, onde está tudo o que escrevi. Quero que o ligues Foi com ele que durante os últimos anos aqui neste lar substitui o mundo lá fora. As pessoas. Foi o meu confidente e companheiro dos dias felizes e dos dias tristes. As travessias longas e penosas. Os ventos ciclónicos e as calmarias. É teu. Aceita-o como uma forma de perdão, de me redimir da ausência. Dentro descobres que quase só escrevi a ausência, o amor ausente, a saudade. Não sou e não fui um escritor, ou um poeta do mar, como algumas pessoas me disseram. Pessoas com quem conversava por lá pela Internet. Fui um marinheiro de porto em porto como os barcos que comandava. Também tens aqui os meus livros e mais alguns pertences, são teus por direito, faz com eles o que muito bem entendas. Existe também uma conta bancária, tens tudo ai no computador, no banco tem instruções para quando os contactares. A Internet é prodigiosa, tratei de tudo por aqui para poder partir em paz.

Sei que já não posso esperar por ti, nem pela Beatriz, o meu tempo chega ao fim. Não julgues mal a tua mãe, fez o que achou melhor na altura. É uma grande mulher, eu compreendi o seu gesto e perdoei-lhe logo de seguida, mas o orgulho cega o coração e tolda-nos o pensar. A tua mãe na carta que recebi diz-me que tu também partiste para o mar que deixaste tudo e todos. No computador tem um texto pequenito escrito quase uma carta, a pedir-te algumas coisas, são uma espécie de lamentos sei lá, uma remissão dos pecados avalizados pela minha experiência, pelos meus erros. Lê com atenção e faz o que o teu coração te aconselhar.

Pronto agora já tens aqui as orientações todas. Perdoa-me mais uma vez não ter sabido cuidar de ti, de te ensinar a cresceres na minha companhia. O destino assim o quis.
Acabei também de escrever uma longa carta de despedida para a Beatriz, mais uma, confesso que lhe escrevi uma data de cartas que nunca enviei porque não sabia para onde enviar. Não sei porque o fiz, quando me dei conta era para ela que escrevia a fazer renascer a memória, a faze-la renascer na memória. Só a memória alimenta e produz e nos permite saber de onde vimos e para onde vamos, só ela. Comecei a escrever e publicar na Internet as palavras, acalentava a infantil ideia que ela a Beatriz ia ler e me encontrar, como se isso fosse algum dia possível. Todos os dias, religiosamente abria o computador no meu sítio a ver se ela lá estava. Nunca esteve.
Depois as palavras começaram a rarear em mim na mesma proporção que as forças se iam embora, e a vista, e o coração maltratado ia baixando o ritmo, baixinho cada vez mais. Hoje em que te escrevo as derradeiras e ultimas palavras quase não o sinto no peito a bater, amanhã ou depois pára, é como um velho motor sem concerto, fatigado.
Deixo-te mil abraços e beijos, para ti e para a mãe, a valerem todo o tempo do mundo.
Dá-lhe um abraço por mim.
Faz isso.

Teu pai

Capitão João Júlio

São Martinho, Novembro de 2007



Tenho as mãos a tremer e o coração apertado. Por uns momentos fecho os olhos e escuto o murmúrio do mar o som do oceano e compreendo as palavras dele e entendo a sua dor. Que espécie de homem era para me surpreender em cada descoberta, como sabia que eu iria aqui ler a sua carta. Não sei se tenho coragem de ligar agora o computador, ou o leve comigo para o hotel e depois de andar um pouco, de arejar as ideias, então sim o ligue e possa entrar no seu mundo de memórias.


Logo tenho de ligar à mãe a dizer que cheguei tarde, que o capitão faleceu. Que não cheguei a tempo de o abraçar. Agora sinto-me como um saqueador de naufrágios à espreita que os despojos dêem à costa. O coração amarfanhado também…
(continua)
Fotografia de Sofia Trincão 1997

sábado, novembro 08, 2008

a última carta...

( livro de contos)


Beatriz.


Perdoa-me.
Não pude esperar por ti.
Hoje é o último dia, vou embora, morre-me o corpo. A alma, essa fica à tua espera. Mas o corpo está demasiado carcomido, demasiado curvado, demasiado usado. Dou-me conta que te esperei toda a vida. Foi a espera de ti que permitiu não ter sucumbido aos naufrágios. Não ter desistido de viver, como tantas vezes pensei. Desiludido com tudo, desiludido comigo. Foste tu, sempre, que ao meu lado permaneceste a dar-me a mão. A amparares-me. A acariciar-me no sono. A dar-me alento todas as noites. A ensinar-me o caminho de regresso. Ao navio que substituiu a casa anos a fio. Perdoa-me não ter sabido amar-te com todas as letras. Não saber olhar-te de olhos verdadeiramente abertos e ver por dentro dos teus. Por ter sido egoísta. Só pensar em mim, na minha vontade, deixar o nosso sentir para trás e partir sempre à aventura, partir para o fascínio, o feitiço do mar. O gosto do desconhecido. Partir como os antigos descobridores. Nada disso era importante dou-me agora no fim conta. Agora que ajusto as minhas contas com Deus. Sim o tal Deus que parece que existe em cada um de nós, cada qual à sua maneira, uma fé sempre diferente. Nestes últimos 3 anos tenho tido tempo para reflectir. Estou recolhido do mundo. Recolhido á espera da morte. É hoje o último dia, já me foi revelado, não te sei explicar. É hoje que me liberto deste corpo velho e irei visitar-te. A alma libertada. A minha tão maltratada pelo arrependimento. Não fazes ideia da dor que eu tenho sentido por te ter magoado estes anos todos. Por me ter magoado também estes anos a fio. Nunca consegui amar uma mulher além de ti. Foste única, és única e omnipresente em mim e tudo isso foi um suplício, um castigo. Amar-te foi um castigo. Ainda o sinto no corpo. Ainda te amo, mas é tarde para voltar atrás. Para parar o tempo. Só me resta morrer e renascer um dia outra vez. Então sim, retomar o caminho ao teu lado. Ou com outra que sejas tu renascida também. Estás a ver como sou doido em escrever-te estas palavras, logo eu que não acreditava em nada para alem da morte, logo eu, mas é a ultima restea que tenho de esperança, de te poder encontrar, te poder rever. Deixas que continue a amar-te? Mesmo para além da morte? É que não sei fazer outra coisa. E nenhuma mulher é suficientemente mulher como tu, ou se assemelhe a ti para que eu lhe possa dedicar o amor que te dedico. Sou um velho doido. Transformei-me num velho doido e inútil, por isso parto esta noite. Só tu sabes que parto. Não tive coragem de dizer a ninguém. A ti digo-te porque te falo com o pensamento. Sempre te falei com o pensamento, mas estás longe, muito longe. Mas agora sei onde estás. A tua carta fez-me renascer a alma, só o corpo eu não consigo que renasça. Só pela purificação da morte física. É essa a porta de entrada, a porta de saída. A salvação onde posso expiar todas as falta, os pecados cometidos. Não fiques triste. Não deves ficar. Depois de receber a tua carta pensei muito. No princípio quando a recebi, fiquei estranho, até pensei que o coração me atraiçoasse. Portou-se bem. Mas depois da tua carta, a ânsia que carregava por dentro de mim, o vazio da tua presença, a angustia de te amar, de amar uma recordação difusa, tudo isso se dicipou, e acalmei. Eu acho que foi o destino que nos pregou uma partida. No fim, cada um de nós, fomos felizes à nossa maneira. Dentro das nossas possibilidades. Eu cumpri o sonho de ser capitão na marinha. De ter o mar por companhia, de ir, como os navegadores mar adentro sempre. Tu não cabias no meu sonho. E quando partiste foste atrás do teu sonho. Eu não cabia dentro do teu sonho. Tivemos de nos afastar para se cumprirem os sonhos de cada um. Juntos não poderíamos voar como as gaivotas. Não poderíamos ter sido felizes. O amor de um ia prender o amor do outro. Um dia, com toda a certeza iríamos jogar à cara, um ao outro, essa prisão. Iríamos desbaratar. Iríamos maltratar. Iríamos aniquilar o amor grandioso no coração um do outro. Iríamos desmoronar, vencidos. E tu não querias que isso acontecesse um dia pois não? Eu sei que não. Penso que ainda me amas um bocadinho, um amor suave, tranquilo, um amor levezinho. Eu sei, sinto que sim. Já não vou dizer mais que te amo porque sempre foi assim. Quando adormecer o sono último e profundo, és tu que me vais dar a mão e me embalar até partir. Sei que irei em paz comigo, contigo e com o mundo. Que mais posso querer agora que sei de ti. Que estás bem. Que temos um filho. Gostava de dar um abraço aos dois, não vou a tempo. Perdoa-me por não poder esperar mais.
Esta carta não lhe posso chamar carta, é mais um desabafo, não gosto de despedidas, é um até logo, um até sempre. Não sei se vais ler estas palavras são as minhas ultimas palavras para ti. Depois é o silêncio profundo sem retorno sem eco, um vazio completamente asséptico. Já tenho tudo tratado para a última viagem, poupo-te os pormenores, não são importantes. Importante foi saber de ti.
Vou com um sorriso nos lábios, que mais posso querer se já tive tudo, quase tudo. A nossa historia de amor. Não posso parar o tempo nem a história, não a posso reescrever, nem voltar para trás. É o tempo das partidas. Cada um de nós foi feliz e cumpriu o destino. O destino é um livro em branco como o amor que eu falava. As folhas vão sendo preenchidas e ganham cor, ganham vida. Mas algumas permanecem fechadas demasiado tempo e amarelecem com a humidade dos dias. Outras transformam-se em histórias que atravessam o tempo, contadas, recontadas, escritas, reescritas. O meu livro não sei dele. Nunca soube, não me dei conta da importância de ter um livro em branco, branco da cor do amor. Não me dei conta do amor quando o tinha ao meu lado. Precisei de uma vida toda para acordar do erro e remediar o destino, só o livro não consigo já abrir. A humidade nas folhas estragou tudo. O coração, o corpo, a vista, as pernas. O tempo em mim no esplendor máximo. A punição da metamorfose das células.
Desculpa o que estou para aqui a falar, doideira é isso. Não te interessam os meus pensamentos últimos, e não eram estes que te queria deixar. Gostava de ter mais tempo para conversar aqui contigo, por isso invento conversas sem nexo a fintar o tempo. Não vou ter tempo de te enviar esta carta que não é carta, fica junto de todas as outras cartas que não são cartas que nunca te enviei, à espera das tuas mãos se um dia as receberes. Quem sabe todas juntas se transformam no tal livro do destino branco como o amor que eu julgava.


Guarda-as, são as minhas memórias.

Deixo-te um beijo e um sorriso nos lábios.

João Júlio

São Martinho Novembro de 2007
Fotografia de Barcoantigo em 2004

terça-feira, novembro 04, 2008

Do desencontro... IV parte

(Livro de contos)

Tudo começava a ser confuso para mim. Um mistério que se adensava a cada passada. Até a enorme mansão, os corredores compridos com o seu silêncio impecavelmente limpos e arrumados me intimidavam. O Dr. Ernesto ao meu lado em passos rápidos, sem uma palavra conduzia-me pelo labirinto. É isso estou num labirinto. Quem foi o capitão Júlio. Que espécie de homem? Porque tenho a sensação que planeou tudo, a morte, a minha chegada, o meu assombro, o meu medo. É isso! O meu medo neste momento. Que estaria na carta escrita. Que estaria guardado no quarto, que mais parece um camarote de navio. Agora enquanto caminho e os meus passos ressoam no chão limpo e se perde o eco nos corredores dou-me conta que o quarto cheirava a mar. Estranho. Como o conseguiu. Como é possível sentir o cheiro da brisa, o cheiro do sargaço ali, um quarto fechado na penumbra. Não sei. São já demasiadas perguntas que faço a mim próprio e para as quais não vou com toda a certeza obter resposta nunca. Chegamos, parece que acordo de uma espécie de êxtase. O Dr. Ernesto abre a porta. – Faça favor de entrar, e sente-se enquanto vou buscar os documentos que Sr. capitão Júlio me confiou.
Sento-me, obediente, sem acção, sem raciocinar, num gesto automático a responder a uma ordem. Que se passa comigo? Olho em volta. É uma sala ampla duas enormes janelas com sacada. Mentalmente faço um exercício de localização onde me encontro. Onde o Norte? Os homens do mar são assim, temos por dentro uma espécie de agulha magnética que nos orienta, como as aves marinhas, pode ser isso, mentalmente na minha cabeça surge a imagem da mansão, é isso! As duas janelas com as sacadas viradas à alameda. é aqui o escritório virado a nascente, é aqui que os antigos fidalgos apreciavam o nascer do sol. Pormenores da arquitectura do tempo. Importantes, nem eu sei. É um escritório esta sala agora, mas com toda a certeza seria a biblioteca, a sala de estudo. As enormes estantes em carvalho velho até ao teto repletas de livros antigos. O enorme quadro do visconde a observar-me desde a parede. Os meus olhos como um radar preciso e rápido a dar-me a informação possível. Uma enorme lareira impecavelmente limpa e arrumada com as ferragens de bronze reluzentes. Demoro o olhar ali, preso na cor amarelada do bronze e fico a pensar nos velhos veleiros. Os barcos que o capitão Júlio tanto defendia. E fico a lembrar o nosso navio Sagres, com os bronzes impecavelmente polidos, motivo de orgulho e de vaidade das tripulações. O meu tempo a bordo como Cadete. O inicio das minhas viagens no mar. Volto à sala. Um grande sofá em couro escuro, dois mais pequenos, também uma mesita com um livro poisado, a pequena mesa toda trabalhada em talha, uma obra de arte, aqui tudo é de estremo bom gosto. Um piano de cauda, Alemão penso. Percebo pouco de instrumentos musicais, mas o nome, C. Bechestein incrustado, não me deixa grandes dúvidas. O Visconde na parede ainda sentado a olhar. A cadeira parece a mesma que está junto ao piano. Com certeza era nela que se sentava para escutar o piano. Tocado por quem? Nunca o vou saber. Respira-se aqui um misto de passado e de modernidade, o computador na enorme secretária é a prova da modernidade instalada. Mas o cheiro é uma mescla a madeiras e ceras difícil de encontrar já.
– Ora aqui está toda a documentação, escutei. Por uns momentos esqueci-me do motivo que ali me tinha levado. Esqueci completamente o Dr. Ernesto. Era eu a vaguear no tempo. Regresso de repente. – Desculpe estava aqui a admirar a sala, retorqui.
– É uma bela sala, tentamos na recuperação manter a traça o mais fiel possível, mesmo o mobiliário aqui ainda é o original, só as acomodações para os residentes foram alteradas. Mais modernas. Com as comodidades que a lei exige e mais algumas que achamos estas casas devem ter para proporcionar aos nossos idosos, a melhor qualidade de vida e a tranquilidade possível nesta ultima etapa que enfrentam.

Como lhe disse há pouco, isto é uma missão, chamemos-lhe assim, é uma missão estar aqui ao lado deles, acarinha-los, escuta-los suprir todas as suas necessidades transpor as limitações que o tempo lhes impõe. Por exemplo o capitão Júlio, estava muito limitado já das pernas, nunca quis deslocar-se em cadeira de rodas, nem com o auxílio das canadianas. Os últimos meses quase não saia do quarto. Passava o tempo a escrever e a ler, muitas vezes a olhar a baia da janela, às vezes nos dias bons levantava-se de madrugada e vinha lentamente até ao refeitório pela manha cedo ainda antes do pessoal da cozinha chegar, e depois ia até ao jardim, caminhava muito lentamente. Dizia-me que tinha tempo. Que toda a vida andou demasiado depressa, que assim conseguia absorver os aromas da terra, as cores do dia, os sons. Que ao caminhar lentamente tinha tempo para dar valor a tudo, às pequenas coisas, ao caminhar da formiga, ao saltitar dos pássaros, às gotas de orvalho na relva, às flores nos canteiros.

Gostava muito de conversar com ele já lhe disse. Mas vamos ao que interessa. Aqui estão as cartas que lhe falei dentro deste envelope, as cartas e as instruções para o caso de alguém vir à sua procura e chegar tarde como é o caso. O Sr. João Pedro desculpe-me a crueza das palavras mas é a realidade, aqui temos de ser prático acima de tudo. (continua)
Fotografia de Mariah

quarta-feira, outubro 29, 2008

hoje...

nos amaríamos

apenas isso

incondicionalmente

sem reservas

assim seria a entrega

verdadeira

sem medos sem pressas

hoje mais do que nunca seria

pq já existimos um para o outro.

o mistério esta lá fora

acreditas?

acho q sim

e não dentro de nós mesmos .

dás-te conta da beleza destas palavras hoje


tudo entre nós é belo... um cheiro de inocência