segunda-feira, abril 10, 2006

AS PALAVRAS



Que confessam o meu amor por ti são um composto químico fora de validade
Uma mistura de emoção, fluidos e suor frio
As palavras simples de outrora já despiram a beleza
São cruéis, frias e solitárias no momento
Palavras de Inverno e temporal no mar
Mar salgado em lágrimas e prantos de naufrágios
Eu que fui um imenso barco de quatro mastros naufraguei hoje
Ao demandar a barra do Douro. Rio do meu desencanto
Inundado em fluidos do olhar que brotam
Lágrimas de saudade…Fora de validade!
Não é válido o nosso amor. É imaginação minha
Portanto um composto químico fora do corpo
O teu não existe
Sinto o meu preso no aço
A garganta envolta nas correntes que garroteiam a voz…
Nem me lembro da tua voz! Será que existe? Será que tem som? A tua voz!
Este foi um naufrágio doloroso
A dor de abandonar a Cantareira rumo ao sul
Para longe. O outro lado do mundo. Sempre uma direcção contrária
As palavras que confessam o meu amor por ti não têm letras
São folhas de papel em branco. O livro branco do desamor
Ou em última instância, no derradeiro fôlego
A ausência do amor
O nosso amor! O corpo preso na lâmina, o fio da navalha…
Toda a minha vida é um imenso fio da navalha, de ponta e mola!
E tu!
Degladias-te bramindo a lâmina no espaço, brilhando ao sol
O brilho ofusca o meu olhar
Assim cego
Tacteio as paredes húmidas do salitre que escorre lentamente bem por dentro.
Uma mistura perigosa de água e cloreto de sódio que corrói,
E envelhece o aço que aprisiona o corpo.
Confesso que um dia, corroídas que forem as grades prisão,
Vou de novo em tua busca. E ai sim.
Disfarçado de Arlequim ou Deus Apolo,
Levo comigo os trovões, o vento, as tempestades, o mar, as medusas, e os tritões.
Os bandos de gaivotas atrevidas.
As andorinhas do mar.
Os corvos negros, os mergulhões.
Todos os golfinhos, os arroazes e as toninhas.
Liberto das grades, a prisão esfera de aço.
Emergindo das profundezas, do silêncio azul retorno ao Douro,
Às pedras centenárias do cais na Cantareira,
Aonde me sentava contigo ao fim de tarde,
Onde as gaivotas e o por do sol, partilhavam os nossos beijos,
As juras eternas do amor que não existe.
Porque este não é o meu Douro ou o meu rio…
E os teus lábios estão cruelmente frios como o aço da lâmina!
Serei o Deus renascido, a Fénix, ou Ícaro?
E tu!
Continuas a rir, e a degladiares-te com a aflição que sinto.
Espécie de Minotauro em fascículos descontínuos…
Deixo que o barco se abandone à sua sorte numa praia qualquer.
A madeira minada pelo taredo, ferida de morte!
Aos poucos, lentamente larga a ossada, as cavernas desconjuntam-se.
A roda de proa tomba! Altivamente! Orgulhosamente! Heroicamente!
A amura descai, o través, a popa.
Uma dor que sinto, pedaços de mim à deriva.
O vento do norte junta-se ao festim e trás a areia que grão a grão,
Milhões de grãos, me dão a sepultura possível,
Longe do olhar dos homens que me abandonaram.
Eu que também fui homem e barco com alma.
Perdi a minha, no dia que confessei o meu amor por ti!
Morro só! Sem alma e só!
E tu!
Um dia quando tiveres tempo e te lembrares, ou releres a tua agenda.
Vais encontrar as folhas em branco, as nossas folhas…
Fora de tempo e sem validade.
Nesse instante!
Se ainda existir em ti um coração. Tenho essa esperança.
Vais sentir o sabor do meu mar.
O meu mar de salitre que corrói!
O meu mar salgado em lágrimas e prantos de naufrágio
O meu mar de negro!
Do crude pestilento!
O meu mar de luto!
O meu mar sem alma!
E eu vou estar bem no molhe Junto à Cantareira sentado.
Serei um dos velhos lobos-do-mar ao acaso descritos por Redol…
E por entre os clarões do farol,
Vou ver o brilho das tuas lágrimas assumidas como estrelas.
Lágrimas de saudade e da ausência consentidas!
A tua ausência.
À qual me habituei desde que me conheço.
Já não me vais reconhecer meu amor.
Sou todos os rostos dos velhos
Pintados num quadro, do pintor anónimo em fim de semana…
Confesso que tudo isto é confuso.
O amor. A saudade. O mar. A ausência de noticias. Ou imaginar-te.
O ser um barco dos antigos,
Com quatro mastros,
Mas sem as velas que me levem na brisa, ou me empurrem até ti.
As tuas lágrimas assumidas como lâminas.
Do punhal que me rasga a carne, e me faz sangrar.
Confesso que o coração ainda bate,
Leva nas artérias a dor, e trás nas veias a saudade…
Porque as palavras que confessam o meu amor por ti
Continuam um composto químico fora de validade…
Sem tempo!
João marinheiro ausente

domingo, abril 09, 2006

O MUNDO FORA DE TEMPO...



Os dias estranhamente frios com a neve caindo
Bem no coração que bate apressado no peito
Porque te vi hoje
Neste Porto que percorro faz tempo em tua busca
Sinto que o coração se apressou teimoso batendo
Batendo forte, até não aguentar mais a dor, de te ver e não te escutar
Quis gritar
-Espera por mim!
Espera um pouco por mim
Mas o som não sai da garganta, abafado pelo pulsar do peito
Sinto-me sem forças e cansado.
Confesso que estou exausto de tanto percorrer as ruas deste Porto.
Tenho o olhar seco de contemplar as águas do Douro,
Esperando que tu, qual ninfa, possas vir caminhando imponente por sobre as águas
Nunca chegas!
Não posso chamar-te de meu amor!
E estou de novo só, com a minha eterna saudade
Do teu rir, do teu perfume, da tua companhia que me serena
Da tua presença que me completa
Sinto ao de leve nas entranhas
O frio da morte que se aproxima bem por dentro à mistura com a neve que cai
Tenho, já o sabes, o coração ferido
Uma ferida que sangra lentamente
Levando a saudade nas artérias e regressando nas veias.
Essa é a minha ruína ou perdição
Por isso hoje de novo estou aqui, expiando as culpas
Ou penitenciando-me da ausência que fui
E sou permanentemente, do tanto que te queria amar
Tanto por sentir
E porque te vi hoje, por instantes anónima na multidão neste Porto revisitado...
Caminhas sempre em passos curtos, nervosos
És saltitante como os pardais, apressada
Vais misturada com disfarces de Pais Natais e de espírito Natalício
Cheia de embrulhos, presentes de certeza, a partilhar
Nem me lembro já do natal confesso…
Não tenho por hábito presentes para trocar…
Sou um sem abrigo, anónimo de olhar baço
Não posso chamar-te de meu amor
Passaste de surpresa sem eu estar preparado para o reencontro
E eu fiquei assim
Uma dor no peito
Um nó na garganta
E no espanto, enquanto me recompunha, como surgiste desapareceste do sonho
Sim
Tens de ser um devaneio ou um sonho ingrato...
Quando acordei ao olhar em volta não te vi
Nem rasto de ti
Do teu perfume
Nem o som do teu riso ecoando nos vales
Profundos vales difíceis de transpor
Chamo por ti do alto da colina
Nem o eco me devolve, este mundo em mudança…
Por isso me ignoras
Tenho por ti um amor puro, saído de um romance clássico, ou de um drama
Espera por mim! -Espera!
Deixa que possa contemplar uma última vez teu olhar
E possa cerrar os olhos finalmente.
Desistindo!
Ou fechando as portas a ti, que continuas sonho e pesadelo
À mistura com a saudade e o desejo.
Vou solenemente devolver as palavras ao poeta meu amor
Não sei se é suicídio
Atirar-me do alto da ponte ao Douro numa noite de temporal e águas turbulentas
Deixar-me submergir de encontro ao fundo
Abraçar o lodo e as pedras e os godos
Permitir que os caranguejos me levem barra fora…
Um dia retorno.
Diferente.
Mais velho ...
Outros serão os tempos.
Outro o amor…
Porque este é um sacrifício permanente
O sacrifício da escrita…
O sacrifício da ausência
O sacrifício do delírio
O sacrifício do mundo em mudança climática…
Faz frio no meu coração
Tenho uma casa vazia de ti
E uma lareira apagada faz tanto tempo que já perdi a conta
Já não sei sentir o fumo da madeira a arder, o crepitar do fogo
As castanhas que assávamos em Novembro ao borralho
As histórias que ouvíamos contarem, noite dentro
E nos enchiam de medo e aventura enquanto o pão cozia no forno
Saboreávamos o bolo de sardinha e o vinho tinto
Assim retemperados, a fome saciada
Ternamente chegávamo-nos um ao outro abandonados no velho sofá
E então adormecíamos abraçados em silêncio
Este um outro tempo
Tempo do amor imaginado
Agora viro costas, deixo de escrever…
Já fiz a entrega das palavras ao poeta
Já te vi uma última vez!
Num flash, ou de esguelha. Não importa, pois não passas de imaginada
Aqui
Confinada às palavras escritas que são o que são!
Simples palavras escritas
O resto é saudade.
Ou o sentimento que escondo à flor da pele…
João marinheiro ausente

sábado, abril 08, 2006

ESTA É A DESPEDIDA POSSÍVEL



Recolhidas que foram as palavras já mortas faz tempo despeço-me de ti
Assim em silêncio, eternamente só com a minha saudade
Foste a última esperança de vida
A minha vida por caminhos abandonados
Foste a última claridade no entardecer deste Inverno
As nuvens alvas ou o meu céu azul
A luz do olhar onde me perdia ao final da tarde
Esta é a despedida derradeira, uma morte anunciada faz tempo
Inevitável.
Já não sei quem és
Já não sei teu nome
Deixei de percorrer as ruas da nossa Lisboa na esperança inútil de te encontrar
Foste o meu segredo agora revelado
Tardiamente dei-me conta
As palavras que trocava-mos reparo com mágoa, escondiam todo um mundo por viver São como folhas do livro que queria escrever e não consigo
Estão sós
Terrivelmente sós!
Abandonadas ao sentimento ou à sua ausência
Tornam-se paredes frias, onde as lágrimas escorrem devagarinho meu amor
Permite que te chame ainda. - Meu amor
São as palavras com sentimento que me restam
Quando elas também se forem, iniciada que está, a despedida.
Tudo termina
Vou finalmente fechar os olhos e remeter-me, enfim, ao silêncio
Fico em paz.
Comigo.
Contigo.
Ou com o Deus que me guia
Esta é uma partida inadiável
Viagem sem regresso
Com bilhete só de ida
Tenho a plena consciência dos actos assumidos
Repetia a minha vida de novo contigo ao meu lado por companhia
Sei que tudo ficou por dizer e por fazer
Quando te recordo num esforço imenso, apagas-te mais um pouco na memória
Temos uma vida plena por caminhos opostos
No momento, somos completamente estranhos
Não existimos!
Tu não existes!
Eu não existo!
Mas existe uma parte de mim que incessantemente foge em tua busca
Será loucura? Será saudade?
Existe uma parte de mim abandonada pelo corpo
Existe uma parte de mim, o pensamento que é teu
E temos um mundo em luta permanente, iniciada que foi a despedida
Passaste a fronteira para lá do tempo presente
Já não escutas minha voz, te importas comigo, ou imaginas que vivo
Faz tempo que não te ouço
Faz demasiado tempo já
Só consigo conversar contigo em pensamentos, cada vez mais espaçados
São as palavras que nunca te direi, mas que guardo como tesouros
Os meus monólogos dedicados a ti
Em tua memória
Monólogos de surdo, ou de homem doido
Faz tempo que me acompanhas diariamente, meu anjo guardião
E mesmo em silêncio, sabendo que estás ai, porque te sinto
Ganho forças, para vencer mais um dia da jornada imensa
Tornas-te o meu anjo luz, sorris-me à noite nas estrelas
Finalmente no regresso a casa
Percorro a Alameda até ficar cansado, sempre a descer
Parto perpetuamente rumo ao sul, e chego ao Tejo
Sem a esperança, a luz, ou o segredo que foste e carrego comigo
Ali, frente à imensidão, aos sonhos
Não vislumbro já as velas das caravelas
Este será sempre o meu Tejo que amo, sulcado por fragatas e varinos de memórias Despido dos ideais, abandonado pelas Tágides, sem inspiração aos poetas
Viro a página em branco diária do caderno que me ofereceste
Enxugo as lágrimas das palavras feridas, com cuidado extremo
Porque te escrevo sempre?
Milhares de palavras reunidas, escolhidas a dedo, no sentimento
Todas mortas, moribundas
Retiradas em braços das águas. Náufragos nas lágrimas do rio que nos separa Escrever, sinto. É um acto de coragem ou de enorme lucidez
Perdi a minha!
Assim febril. Doente
Já não escrevo!
Tornam-se lamentos tristes os escritos
Gritos das entranhas ou das aves no céu
Lentamente, a voz enrouquece
Sem forças fecham-se a boca e olhos
Nossos lábios jamais se vão encontrar. Já não desejo teu corpo, o calor de tuas mãos Esqueci, faz tempo
A música do teu rir, o brilho do teu olhar, o perfume que ainda usas
Nunca te tive minha, desejei-te só, sem que disso te importasses
Vou em Paz
Finalmente liberto
Os olhos enevoados, marejados pelo sal das lágrimas escondem o amor saudoso
Foste embora assim
Nem teu nome me deixaste e eu esqueço-o na dor!
Fiquei de mãos vazias, e esta sensação forte da tua ausência
Hoje, porque partiste?
Partiste num repente
E em mim ficou o calor de teu corpo
A magia de teus seios de encontro ao meu peito desnudo
O teu perfume que me persegue e me excita
Foste embora de mim
E contigo foram as certezas de um amor forte. Imenso
As mil e uma noites intimas, partilhadas em rios de sémen gastos e de suores…
De cama desfeita e cabelos em desalinho
Carícias e beijos húmidos profundos
Lutas da junção de dois corpos que se amam e se completam
Partiste
Aventura de um dia, ou horas que valem pela vida fora na eternidade do mundo Marcada a fogo e sentimento
Saíste porta fora
Como ténue claridade raiando para lá das montanhas cobertas de neve alva
Como alva é a pureza de teu corpo
Ou a pureza de teus lábios, que fui descobrindo e violando
Numa ânsia febril de um consentimento consentido e ávido, húmido e lânguido Prazenteiro
De uma entrega a medo consentida, terna e violenta em simultâneo
O amor de dois corpos que se descobrem e se desfrutam…
Mas partiste
E atrás de ti fechas-te a porta!
Assim como surgiste na minha vida
Num repente!
Ou sonho, ou desejo guardado
Tu, meu amor!
Com toda a gentileza e a ousadia de teu corpo jovem, faminto de emoções
Partiste!
Ainda não me habituei
Já não te revejo…
Como me custa!
Como dói, esta dor estranha e nova que não sinto!
Esta ausência imensa de ti!
Este amargo de boca e este rolar na cama insatisfeito!
Como me dói, dou agora conta!
Partiste!
E na partida
Em mim ficou só à flor da pele, teu cheiro, teu perfume
E teu riso de criança grande e rebelde desvanecendo-se diariamente
Se nem teu nome me deixaste
Fiquei com as mãos vazias, e esta sensação estranha de ausência, que não finda…
…Espero um dia reencontrar-te por instantes
E então lembrar teu nome que gravei um dia a fogo no coração
E nas tábuas do nosso banco
No jardim público onde meus lábios encontraram os teus…
João marinheiro ausente

sexta-feira, abril 07, 2006

ESTOU AQUI



Sentado neste jardim deserto a esta hora tardia sem um pensamento definido
Não penso em nada no momento
Descanso
Tudo o que pensei manhãzinha
Ao recordar-te enquanto conduzo nesta estrada da minha vida
Vem sempre dar ao mesmo sítio
Sou uma imensa rotunda com vias em sentido único que desaguam em mim
Qual foz de um rio imaginado em lágrimas
Onde me sinto um barco sem leme ou governo
E os mastros partidos pelo peso das velas e da força do vento
Repousam sobre o convés num acto de destruição e amor
Como o que sinto por ti e não confesso
Por isso escrevo
Poesia sem graça
És a minha eterna namorada de todos os dias
E eu
Ciclicamente, manhãzinha
Dou-te os bons dias e digo-te adeus despedindo-me
Até que regresses de novo em força, na saudade
E eu aqui sentado sem um pensamento definido
Esperando que as horas passem depressa
E te extingas como o brilho do cigarro que tinha esquecido entre os dedos
Porque confesso, tenho medo de pensar ou de sonhar
Porque se penso, sou como o rio que corre sempre para o mar
E tu és o meu mar salgado
Feito em prantos, onde me afogo
Envolto no abraço terno das sereias
Que povoam os oceanos e os sonhos dos marinheiros
E eu, por assim me sentir marinheiro, mas ausente
Deixo que elas me conduzam no sonho
Para mais tarde ser arrolado a terra numa praia qualquer
À mistura com o alcatrão negro e as aves mortas, petroleadas
O argaço putrefacto, e os peixes esventrados
Mais tarde, quando me recompuser desta viagem imaginária e então acordar
Vou despertar na nossa praia de rochas e búzios no cabo do mundo
Um lugar mágico onde se escuta o canto das sereias
Vou então regressar à estrada e conduzir novamente em direcção a uma rotunda
Um dia encontro uma saída que me leva até ti…
Não sei se lá estarás à minha espera
Mas tenho a esperança. De te encontrar, minha eterna namorada
E assim surpresos, vamos inevitavelmente ficar parados
Vamos escutar o murmúrio dos nossos corações batendo descontrolados
E então sorrimos vencida que há-de ser a timidez inicial
Nossas mãos tocam-se
E de mãos dadas regressamos a casa
Lentamente, levo-te ao colo como uma primeira vez
E então beijo-te
Sacio a fome que sinto de teus lábios
Mostro-te a casa que comigo partilhaste no sonho
A cama onde dormias ao meu lado, a minha cama vazia
A tua almofada
Com a forma da tua cabeça impregnada do teu perfume inconfundível
A jarra com as flores que um dia te ofereci
Desculpa por as ter deixado morrer
Desculpa-me também, por te ter deixado ir no sonho
Ou nas asas das andorinhas do mar
Ou por te ter amado um dia, com o lado errado do coração
Continuo aqui sentado neste jardim deserto, é quase noite
A humidade fria está chegando, sinto-a nos pés gelados
Lentamente as árvores despedem-se das suas folhas castanhas
Os bandos de pardais já não se ouvem
As pombas, tantas outrora, já não existem
E eu aqui surpreso ao me dar conta da sua falta tardia descanso da jornada
Procuro na madeira do banco o teu nome que gravei faz anos, e não encontro.
Andei perdido. Se calhar
Quem sabe, não me dei conta
João marinheiro ausente

quinta-feira, abril 06, 2006

JÁ ME HABITUEI À TUA AUSENCIA...


Ao silêncio do telefone
À caixa de mensagens vazia de notícias tuas
Aos poucos vai a tua imagem desvanecendo-se
Não sei se fico feliz ou triste…
Já me habituei a sintetizar as palavras
Deixei de falar ou escrever-te
Sempre que te recordo faço um esforço, cada vez és mais difusa e distante
Resumida a um nome que soa estranho
Quero lá saber que não te importes de mim
Quero que te sintas feliz onde te encontras
Tudo o mais são reflexões ou pensamentos ténues. Nunca fizeste parte de mim Renasci quando te encontrei, mas disso só eu me dei conta
Um dia escrevi que nos tínhamos encontrado na encruzilhada da vida
Uma linha em curva descendente ou em cruz
Hoje não sei quem és
E teimosamente porfio em que sejas sonho, e esqueça o sabor de teus lábios suaves
O brilho de teu olhar,
O perfume de teus cabelos
A tua voz
A leve tremura de teu corpo quente
Deixo de emoldurar o teu rosto com minhas mãos
Já não nos fitámos de olhos nos olhos
O importante que era escutar a tua voz!
Não o murmúrio constante no vento, imaginando que és tu
Não uma espera de noticias do outro lado da linha
Esta é, dou-me conta, uma linha paralela em todo o comprimento…
Jamais nos vamos encontrar…
Teimosamente
Guardo-te com religiosidade assumida
Num dos compartimentos do cérebro onde a ciência não chegou ainda
Assim este lugar mágico é só meu, unipessoal, sem número de contribuinte
Virgem
De neurónios em alvoroço ou nervos à flor da pele
Pouco me resta já, que não este desabafo
Estás diluída na luz e no tempo meu amor
E confesso, este não é o meu tempo
Pois que passo pela vida sem me dar conta ou me importar
O meu cérebro treinado vai ciclicamente apagando os registos dolorosos
Espécie de ordenador onde um anti-vírus, de vez em quando
Faz as reparações necessárias
Guardo só em lugar de acesso com password, a confissão do que sinto
Foste o meu anjo luz, que me ofuscou com a frescura da novidade
O renascer
Não foste a cura da ausência, mas o unguento que atenua a dor que sinto
Tudo o mais são palavras escritas disfarçando o sentimento…
Eu, estúpido!
Teimosamente sinto-me triste e escrevo em tua memória
Não sei se mereces que te guarde na memória
Tu não tens memória
Não és nada dentro e fora de mim
Afora isso és todos os desejos que sinto
Todas as pulsões do sexo e da lascívia Imaginadas
Numa viagem por mares de gelo e ventos frios
Ai sim!
Teus cabelos finalmente soltos
Podem espalhar o perfume e suavizar a agrestia do lugar
Já não sei se cheiram a jasmim, ou ao feno dos prados
Não sei se habitas um bosque ou uma cidade em betão
Mas diz-me!
Que eu ainda assim, quero mudar-me
Para um sítio onde sinta o cheiro de teus cabelos
Ou em última instância, um lugar onde o cheiro me leve até ti!
Sabes que gosto das planícies disse-te ao ouvido um dia
Sabes que gosto dos lugares distantes e de ouvir os grilos no calor do verão
De colher cerejas ou apanhar castanhas no Outono
Sabes mas não te importas, por estes gostos simples não fazerem parte de ti…
És uma espécie de monumento em granito e bronze na minha vida
Feito de materiais nobres. Portanto eterna. Acompanhas-me em todos os momentos
Já te deste conta do importante que és!
Não paras um minuto sequer para pensares ou me dedicares o momento
Não sou nada
Dentro e fora de mim
Como diz o Poeta…”Aparte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”…
Mas meu amor, nunca eu fui poeta
Nem ouso ser, estou portanto em desvantagem
Mas sinto como Ele. O seu amor por Ofélia contido
O seu amor desespero. O Amor suicídio.
Pena não te chamares Ofélia. Ou eu não ser guarda-livros...
No momento invento as palavras. Sintéticas. Não te amo
Mas sinto a tua ausência confesso
Acusas-me de andar constantemente a repetir-me no que sinto
Penitencio-me
Tenho de pedir desculpa
Não encontro sinónimo para o amor, ou a sua ausência, ou o que sinto
A sua dolorosa ausência, pois o que tenho pleno, não me chega por não ser o teu
Tenho eu culpa de não encontrar palavras?
És, sabes disso, já to disse ao ouvido, a minha eterna namorada
Assim escrevo-te estas letras, quando quero desabafar
Uns dias triste, outros alegres
Na maioria dos dias acompanhas-me nas viagens que faço Porto-Lisboa-Porto Quilometro após quilómetro
Eu deixo-me ir abandonado neste lugar de segunda classe
Desperto em sobressalto, pelo som sempre igual das rodas em aço nos carris
Este é o comboio Diesel que me tem levado em viagem
Um imenso inter-rail sempre em direcção ao sul…
Dou-me conta tardiamente que o comboio me afasta de ti
Vai na direcção errada
Mas tu não te importas, ou não te dás conta, ou disfarças a lágrima…
Já não sei verdadeiramente quem és
E interrogo-me?
Porque continuas a ocupar os outros trinta por cento do meu corpo?
E eu aqui!
Teimosamente de roda das palavras procurando disfarçar o que sinto
Escrevendo-te este monólogo que nunca vais ler, por ser um monólogo
Interrogo-me?
Porquê tu?
Já não sei teu nome
Por onde andas. Quem amas
Porquê tu?
Espécie em extinção. Aventura dos livros ou dos sonhos.
Pintura de artista anónimo em nu artístico
Onde reconheço as curvas de teus seios e o azul do teu olhar…
Estranha ausência de mim…
João marinheiro ausente

quarta-feira, abril 05, 2006

MEU CÉREBRO


É um emaranhado de compartimentos ou prateleiras catalogadas
De dias ininterruptos que por mim passam lado a lado
Porque penso em ti
E ocupas oitenta por cento da actividade cerebral
Deixo de pensar em mim
Assim absorto, surpreso, dou por mim e desnorteio-me
Fico perdido na tua saudade
Como não existes em carne e osso
Não passas de um holograma
Ou milhões de pontos no computador que tenho por cérebro
Assim,
Quando domino esta técnica, e me canso do jogo
Fecho-te num dos compartimentos da memória, catalogada na prateleira dos sonhos
Quando me lembro
Ou a saudade me dá a mão num passeio pela beira-rio
Vou buscar-te, e revejo como num filme em câmara lenta
O teu andar
O teu riso
Ou simplesmente a tua presença
A companhia que me fazias nos dias longos do silêncio
Ou o olhar de interrogação que me dirigias
Quando eu desajeitado, não sabia onde vagueava, ou perdia o norte.
Assim meu cérebro
Obra-prima da engenharia humana, ou da procriação
De vez em quando tem falhas
Ou lapsos
Ou faltas de espaço na memória do disco da vida
E eu, grotesco, armado em adolescente
Continuo a escrever-te, ou a tentar insistentemente
Porque já não te falo.
Assim escrevo desta forma dolorosa
Um parto difícil, a conjugação das palavras e dos verbos
Ou o sentido do que te quero dizer
E não confesso, mas está explicito
Porque já não te amo, ou nunca amei
E só sonhei contigo
E se és um sonho, ou te imagino
Inevitavelmente continuas a ocupar oitenta por cento da actividade cerebral
O meu cérebro, é ainda um gigantesco motor eléctrico em serviço contínuo
Guarda todos os registos da tua memória
Um imenso ordenador
Metódico!
Catalogado e arrumado!
Em gavetas compartimentadas e estanques!
…Assim, passas a ser um imenso número
Simples código de barras, num simples registo, à distância de um clic
Recordo-te quando quero, e esqueço-te quando não quero
Aparte isso, caminhas sempre ao meu lado por Lisboa.
João marinheiro ausente

terça-feira, abril 04, 2006

DUAS E TAL DA MADRUGADA



O silêncio impera na cidade grande
Ecoa o grito do cacilheiro despedindo-se
Vai na última viagem para a outra margem.
Deixo que o pensamento o acompanhe nas águas frias do Tejo…

Saboreio um whisky lentamente
Tenho o pensamento já vazio nesta hora, e o corpo cansado.
Tento descansar afundado neste sofá.
Hoje embebedo-me
Não me embebedo com qualquer bebida rasca
Eu gosto das coisas boas
Não me serve uma bebida qualquer
Bebo whisky de quinze anos preferencialmente
Com gelo, duas pedras. Nem mais nem menos!
Neste intervalo leio o Livro do Desassossego de Bernardo Soares
Leio em voz alta, para não estar só, o trigésimo texto
E fico espantado!
Em voz alta ganha vida!
Faço parte dele e assusto-me!
Sou todo o livro nas suas palavras
Como te compreendo companheiro de letras…

Entornei mais um copo
O terceiro
Duas pedras de gelo
Larguei o livro e arrependo-me!
Sinto-te aqui!
Arrependo-me de não te ter tomado em meus braços
Não ter roubado o sabor desses lábios rubros
Sentir a dureza quente desses seios encantados de encosto ao meu peito
Num abraço terno e rude
Desesperado!
Sentir-te tremer ofegante
E arrependo-me de não me ter perdido em teu corpo
Deixar passearem minhas mãos
Meus lábios,
E meus olhos
Por teus caminhos, descobrindo teus desejos carnais e íntimos
Meus desejos de sonhos tantas vezes, a realizarem sempre
Mas sempre
No amanhã.
A infância pura que se foi
O doce sabor a mel de teus lábios virgens...

Afundo-me no sofá!
Afundo-me em recordações
Estou a andar para trás no tempo
O meu primeiro amor… Orquídea de seu nome… Recordo-te hoje
Saudade lusitana! Saudade que dói sem se sentir…

Continuo só
O coração apertado numa dor que não se explica, uma insatisfação perene
É um facto. Triste e só. Não sei já que é feito de ti?
Dou por mim olhando a existência
E tudo não passam de sombras imprecisas na memória
Não existem raízes ou memórias…
Sou um imenso monumento memorial feito de lapsos
Momentos de luz
E espaços em branco...

A minha rudeza sensível, apurada pelo álcool
Está vindo ao de cima, qual maré negra peçonhenta. Qual “Prestige”
Afundado finalmente nas profundezas oceânicas
Afundado bem dentro de mim
Assim permaneço também, afundado no sofá
Saboreio o último trago da garrafa vazia
Já sem gelo
Assim estático…

Revejo mais uma vez, o teu amor por mim
Estás aí e aqui,
Sempre de roda de mim omnipresente
Com um inexplicável medo no olhar e nos actos
Ou se calhar no pensamento
Eu já não fujo
Perdi o momento, ou a causa deixou de ter efeito
Quando penso em virar costas sinto-me cansado
Deixei que o pensamento fosse na última viagem do velho cacilheiro
E quando reparo no caminho que faço diariamente, instituído e rotineiro
Tarde da noite, abandono-me e adormeço desfalecido
As mãos cansadas, o cérebro exausto, já não sonho
Assim repetitivamente, vou adormecendo e acordando em sobressaltos
Altas horas da madrugada, e desconheço-me
Perco-me do sítio onde estou
Então
Porque já te encontras ao meu lado dormindo tranquila, fico em paz.
Devagar
Lentamente, viro costas e fecho os olhos
Dentro de nada toca o despertador, e inicio mais um dia já cansado
Maquinalmente levanto-me, lavo a cara com água fria, estremeço
Enfrento mais um dia de luta, e envelheço!
joão marinheiro ausente

domingo, abril 02, 2006

ESCUTA!


Se um dia partir
Não quero que chores por minha causa
Sabes que és um capítulo da minha vida…
Ou a outra parte de mim por caminhos diferentes
Se um dia partir
Vais saber sempre onde me encontrar
Ou os caminhos que cruzo
Porque tudo gira em volta de ti ou de mim
Tudo gira
Quais rotundas onde as avenidas de um sentido desaguam apinhadas
Pedes-me que volte
Mas ainda não parti, e adiei a viagem
Pedes-me que fique
E eu ainda por aqui estou ás voltas…
Há tanto tempo que por aqui ando, e ainda me pedes que fique?
Já te deste conta?
Ou só agora, que estou preparando o barco
Remendando as velas, calafetando os rombos, mas adiando a partida, te dás conta? Mais dia, menos dia parto, meu amor
Consequência cíclica dos dias cíclicos
Ou então, dos actos cometidos
Porque, não sendo já o mesmo, Inocente, ou casto, ou puro
Desfraldo as velas, esperando que a corrente me afaste do cais
E a brisa quente, enfune o pano, de proa à barra e ao mar azul
Vou fazer a viagem rumo ao desconhecido ou desistindo…
E se calhar
Se o tempo ou o vento de feição o permitirem
Um dia volto
Se entretanto as tempestades não arrancarem os mastros
E rasgarem as velas do barco antigo que sou…
Ou porque se em outro porto, me acoste ao cais
E assim protegido das tempestades, ou dos ventos ciclónicos
Reconstrua de novo o barco, ou remende as velas, ou enfurne os mastros
Ou me deixe estar por ali
Como o marinheiro bêbado
De taberna em taberna, fitando o mar e revivendo, ou recordando
Ou deixando que a lágrima role
E inunde o rosto velho correndo pelos sulcos das rugas…
Os anos passam
A pouco e pouco vou deixando os projectos, as ideias, abandonando a luta…
Já não penso. Que esse acto cansa
E eu estou permanentemente cansado no momento
Hoje contemplo a beleza
A tua ou outra
Que a tua fere, pela indiferença
Outra beleza cobiçada ao pormenor, Imaginada anos atrás…
Pudera eu rebobinar a vida
Outro caminho escolhia de certeza
Que este não me realiza ou satisfaz
Outra beleza escolhia, Interior ou exterior, não sei
Mas não tu!
Que não me entendes!
Ou me queres!
Ou me amas!
Mas não tu!
Definitivamente!
Sei que os anos passam…
O rosto que vejo no espelho lentamente, desvenda-se em rugas novas todos os dias
O cabelo loiro intenso outrora, está coberto pela neve cinza da idade
Em pinceladas primorosamente executadas pelo pintor natureza
Os dias surgem ininterruptos, ora comuns ora bissextos
Nem um a mais nem um a menos
Sei que vou partir
Não é a partida que me mete medo ou mágoa
Não é o fechar os olhos, abandonados finalmente
Os anos passam
Sinto que passam e pesam no meu corpo
Penso
Repenso
Dói só! Tanto que ficou por cumprir ou por sonhar…
Ao acaso escolho-te na rua
Sei perfeitamente que não estas mais comigo
Apenas viverei o suficiente para te esquecer
Fora isso
Carrego em mim perpetuamente todos os sonhos envoltos em lágrimas e em flores
Fechaste a porta
E eu só!
Percorro esta ladeira íngreme de pedras que ferem o coração.
Chego finalmente ao cais onde embarco para o outro lado do mundo
Vou só!
E tu!
Um dia acordas!
És o meu mar salgado feito em prantos à mistura com o alcatrão negro
E as aves marinhas mortas
As palavras continuam o que são na eternidade
Simples!
À parte isso
Trago comigo todos os traumas, de todos os heróis mortos perfilados em Nassíria Envoltos em lágrimas e em flores nas notícias globais em prime time
Sei repetidamente que não estás mais comigo
Apenas viverei de novo, uma outra vez, o suficiente para te esquecer
Confesso mas não me importo já
Na nossa cidade branca, vejo da minha janela um por do sol de névoas
Os autocarros laranja continuam ainda apinhados de gente nas horas de ponta
Compreendes agora os olhares sem brilho?
És anónima na multidão apressada
Vais continuar assim por muito tempo escolhida ao acaso
E nas ruas molhadas pela chuva miudinha que cai como um choro comovente
As sirenes das ambulâncias gritam de dor, e passam velozes
Incomodado
Viro-me para o outro lado da cama e espero
Que o sono me leve para o abismo ou a morte redentora me chame
Tenho a leve esperança adiada, sei que sim
Invades o meu sono
Espero e quero ouvir-te
Fala-me de amor ao ouvido!
Como só tu sabes!
Assim, adormeço, um sono pesado

Lentamente, porque o Inverno se aproxima
As árvores despedem-se das folhas secas
E nós aqui. Surpresos!
Sem nos darmos conta da sua vinda
Ou das árvores assim desnudas
Não nos importamos com o que se passa do outro lado do mundo
A nossa história interrompida! Um deserto de sentidos!

As areias deste deserto magoam-nos a pele e ferem o olhar
Estão seguros os estandartes, e as flâmulas ondeiam ao sol e aos ventos
As espadas, e as lanças, brilham ao sol
O sangue rubro mancha as mãos com o pecado original
Já não existem Virgens, e as Burcas escondem o medo como cortinas
Então pela TV, entram-nos em casa os heróis mortos nas notícias
As bombas passeiam nas ruas com as crianças
As pedras lançadas. Os gritos os clamores
O Deus estranho! Que desconheço. Mas omnipresente!
As palavras deixam de ser simples ou inocentes
Nenhuma palavra é inocente!
Finalmente passaste o cabo das tormentas
Vencido que foi o Adamastor
Ironia do destino ou predestinação das almas
O mar continua o mesmo. Misterioso e salgado!
E se de novo ao acaso te escolher na rua
Repetitivamente num acto de busca ou procura premeditada
Não vires costas desagradada
Pára um instante e vem comigo
Já não precisas de me dar a mão
Somos finalmente dois desconhecidos, e somos os únicos no momento…
Este é um jardim deserto onde me encontro
Dos bancos onde me sentava
Do banco onde um dia gravei teu nome nada existe
As árvores estão em silêncio mortas
Os pássaros partiram
Arrumei o amor num qualquer compartimento obscuro do cérebro
Deixei de me preocupar que a tua voz num repente deixasse de procurar a minha Deixei de pensar em ti ao meu lado
Fartaste-te de mim?
Do meu corpo cansado?
Das minhas mãos que te envolviam e adiavam a despedida
O nosso amor; – Só sexo!
Esta é, uma frase que lembra um romance condensado
Sem prólogo, epílogo ou emoção
Conto barato
Estou a aprender a viver sem ti
Ou sobrevivo
Apareces no meu sono
Invades o meu sonho, e então acordo em sobressalto
Sentir o cheiro e o calor do teu corpo.
És mestra no disfarce
Descobriste as passwords de acesso directo ao cérebro
E estás ai como uma tela de ecrã plano nas paredes
Já não te peço para que fiques comigo hoje
Enfrento o frio sozinho e nem a lareira acendo desta casa em pedra prisão
Fazes-me falta porra!
Cheguei de uma viagem dolorosa e tardia, demandando a barra traiçoeira
O barco cansado e velho acostou ao cais imenso desta ribeira
E tu!
Já não estavas aí à minha espera
E eu que tanto sonhei o momento, não desembarquei
Tu!
És o meu mar salgado feito em ondas de saudades,
Que carrego como mendigo num saco velho cheio de segredos
Estrelas-do-mar, cavalos-marinhos, corais brancos
Tesouros que te queria dar
Contar a história verdadeira de cada um ao pormenor, detalhadamente
Esta é mais uma noite fria sempre igual
Onde num gesto de rotina, leio um livro noite dentro
Sentado aqui
Recolhendo o calor das cinzas desta lareira apagada
Deixando que o espírito liberto e em paz acompanhe o pensamento
E porque o pensamento voa só, liberto, atravessa um mar atlântico em fúria
E perde-se em tua busca
Eterna é a busca
Eterno é o sonho
Este é um dia frio em que penso em ti
O coração gela
Já não sei se existes?
Este é um mundo de impulsos, ou de pulsões
Quero-te!
Não te quero!
Quero-te de novo!
Abandonas-me!
E eu vou na correnteza do rio
Mas sei nadar
E não me importo que as águas traiçoeiras me engulam nos redemoinhos
E as cachoeiras de espuma gritem um som húmido
Abafado e líquido
Onde o meu grito por ti se confunda e se perca infinito
Num clamor de peixes cor de prata que brilham ao sol
Por entre nenúfares, libélulas, e os jacintos de água...
João marinheiro ausente

sábado, abril 01, 2006

EXISTE...



Um computador que me remexe o cérebro desmembrando em ti
As partes íntimas do ser
Existe a solidão
Composta de milhares de bites em pastas ou ficheiros anexos
Imensos equívocos em branco
Apagados
A reciclar posteriormente
Um poderoso anti vírus que te percorre
Corrige os erros
Repara os danos no disco duro
E irremediavelmente me apaga da tua memória
Dei-me conta que um computador me vasculhava o cérebro
E as passwords secretas
De acesso directo a ti, que esqueci faz tempo, por serem já inúteis
Porque me bloqueaste com o anti vírus da memória
A tua também se apagou
Estamos esparsos em pequenos pedaços de tempo
De memórias e de imensa saudade
A nostalgia eterna que me acompanha
Fragmentos fechados no espaço
As partes intimas do ser
Hoje autómato, percorro os mesmos lugares em tua busca
Nunca sei os endereços electrónicos onde te encontrar
Nunca estás do outro lado do monitor
E ele trémulo sem brilho ou vontade grava e apaga os milhares de bites
Não consigo dirigir-te palavra
Mas sonho contigo, porque ciclicamente uma janela abre-se na tela vazia
Deixo de me preocupar e penso que é defeito da máquina
Fecho a janela que trazia o frio gelado e me entorpecia os dedos
E escrevo-te uma carta de amor
Que guardo em ficheiro anexo para mais tarde matar saudades, ao reler
Imaginando que estás ai escutando
Enquanto música ecoa nas colunas e me distrai
Existe a solidão
E eu qual palhaço num circo imenso
Tento numa magia inútil
O equilíbrio mágico das palavras que nos separam
E elas, as palavras
Por ironia começam todas pela letra D:
Dor
Distância
Desamor
Desistência
Destino desencontrado…

Temos a plena consciência
Tu!
Não vales o esforço tremendo que faço diáriamente
Para que sejas num passe de mágica em equilíbrio precário o meu segredo
Confundimos o amor com sexo e a amizade com o amor
Assim confusos
Dispersos em conversas banais de final de tarde ou nem mesmo isso
Ficamos sem espaço para as palavras queridas
De olhos nos olhos
Faladas com o coração
E os sentidos apurados do sangue quente correndo no corpo
Os sentimentos são resumidos à ilusão do circo efémero da vida
A nossa vida
Um etéreo circo, Onde os trapezistas voam no espaço seguindo as palavras
Por entre aplausos
Em actos de amor seduzido mecanicamente
Os trapezistas voam sempre em directo, assumindo o acto, meu amor
O fazer amor contigo manhãzinha
Dar-te os bons dias com um beijo longo de língua
Ou trazer-te o café à cama
Onde tu
Mimada
Espalhas os cabelos por entre os lençóis
Não passam de números do circo virtual do qual fazemos parte
Ensaiados vezes sem conta para que saiam perfeitos
Voamos no trapézio sem rede meu amor
Quando caímos
Demoramos a retomar a consciência
Geralmente sobrevivemos à queda e somos então uns valentes vencedores
Assim
Deste modo doloroso
Caindo e levantando, crescemos aprendemos a lição
Tornamo-nos lutadores em competição
Deixamos de lado a amizade ou o amor, pois importa sobreviver
Somos os dois
Finalmente
Um imenso naufrágio sem mar salgado
As lágrimas resumidas à função inicial, humedecem a vista limpando o pó da íris
Não importa que o olhar brilhe, vermelho do sal
Ou as pálpebras fiquem cheias com a dor
As lágrimas meu amor
São água e cloreto de sódio.
Existe a solidão
E um computador
Onde escrevo e apago as palavras ternas, que te queria dizer ao ouvido
Assim construo o livro por escrever ou editar
Feito de folhas em branco e de espaços com milhares de bites inúteis
Onde confesso o meu amor por ti, repetitivo
Porque é assim desde os princípios dos tempos
Quando não existiam computadores, e se escreviam cartas à mão
Em papel pardo
E a pena manchava as palavras por excesso de tinta
Emoção, ou falta de jeito do escritor
Porque lhe tremiam as mãos de te imaginar
A tinta soltava-se da pena e assim caía
Como lágrimas azuis, na folha de papel pardo fazendo um quadro de contraste
Linhas cheias com letras em frases alinhadas
E borrões esparsos como pedras que bloqueiam e emperram o sentir.
Existe a solidão
E este computador onde te apago da memória em ficheiro anexo
Desmembrando as partes intimas do ser.
Assim és finalmente
O livro branco de mármore frio tumular onde escrevo no epitáfio

“Ao meu amor
Memoria e eterna saudade ”

…As lágrimas vão continuar água e cloreto de sódio…
Existe a imensidão...
João marinheiro ausente
Excerto de Dez contos, um livro escrito um dia...

O FIO DA NAVALHA…


Estamos sentados no fio frágil da navalha
E custa segurar-te porque me fazes sangrar as mãos
E sinto os dedos cansados.

Perdemos o encanto lentamente.

Quero-te aqui!
Fazer amor contigo pela madrugada
Fazer amor contigo de manhãzinha

Custa segurar-te
És uma linha divisória pelo meio de mim
O outro gume da navalha
O espelho de sangue rubro que sinto nos dedos

Porque te quero eu
Neste momento de solidão
Porque te escrevo de novo
Foges por fora de mim novamente
Um traço descontinuo numa estrada de nada!
E eu perdido acordo cansado

Não durmo

Procuro-te por todos os lugares possíveis
Os sítios imaginados e por imaginar
Encontro sempre a tua sombra recente
A tua marca subtil, um cheiro ao teu perfume,
Um eco do teu riso a ecoar ao longe
Nunca te encontro
Que se passa
Por onde caminho desencontrado
Divides-me ao meio com esse fio invisível

O fio da navalha…
João marinheiro ausente