Mas já não sei. Por vezes fecho os olhos e o pensamento é todo teu, espécie de mundo redondo onde as tuas palavras ecoam. Já não sei se são as tuas palavras a chamarem por mim ou tudo é um eco perdido na névoa espessa onde me perco nas navegações estimadas e cegas.
Rumo a norte de novo, aproveito o vento, aproveito a noite que se aproxima para me recolher em memórias enquanto as velas prenhas de vento deslizam a empurrarem o velho veleiro que hoje é só uma silhueta entre mim e a ilha a bombordo de ti. Espero que o velho farol acenda e me ilumina. Vou imaginar que são os teus lábios em mim a provocarem clarões de luz. As tuas mãos, os teus braços abertos num abraço, espécie de lais de guia que me prende o coração.
Regressas lentamente e eu estive sempre esperando por ti. Sempre a navegar no oceano da memória, na vazante do rio, na enchente do mar, em cada maré viva, em cada tempestade, em cada fúria do mar, em cada naufrágio onde me despedaço de encontro às rochas frias.
É importante o teu regresso em mim.
Estou atento ao vento e ao frio que chega húmido a anunciar a noite, ligo o piloto automático, as velas estão afinadas, cheias de vento, e a proa corta as vagas pequenas. Seis nós. Faltam duzentas milhas para entrar na tua cidade outra vez. Imaginar-te na cantareira sentada à minha espera como fazias no tempo antigo. Mais de trinta horas de viagem, se o vento se aguentar. Seis nós, é uma boa velocidade neste velho veleiro feito de sonhos, memórias e tantas viagens de ausências. Sento-me no banco cansado a observar o lume azul no fogão bamboleante enquanto aguardo que a sopa aqueça na lata em banho-maria, não sei porque lhe chamam banho-maria, para mim é só água a aquecer uma lata de sopa pronta, feita de modo industrial para enganar o estômago. Olho pela escotilha o farol da Berlenga ao longe que já acendeu e o do Cabo a piscar em vermelho fogo, e sinto o fogo em mim a matar-me lentamente.
Rumo a norte de novo, aproveito o vento, aproveito a noite que se aproxima para me recolher em memórias enquanto as velas prenhas de vento deslizam a empurrarem o velho veleiro que hoje é só uma silhueta entre mim e a ilha a bombordo de ti. Espero que o velho farol acenda e me ilumina. Vou imaginar que são os teus lábios em mim a provocarem clarões de luz. As tuas mãos, os teus braços abertos num abraço, espécie de lais de guia que me prende o coração.
Regressas lentamente e eu estive sempre esperando por ti. Sempre a navegar no oceano da memória, na vazante do rio, na enchente do mar, em cada maré viva, em cada tempestade, em cada fúria do mar, em cada naufrágio onde me despedaço de encontro às rochas frias.
É importante o teu regresso em mim.
Estou atento ao vento e ao frio que chega húmido a anunciar a noite, ligo o piloto automático, as velas estão afinadas, cheias de vento, e a proa corta as vagas pequenas. Seis nós. Faltam duzentas milhas para entrar na tua cidade outra vez. Imaginar-te na cantareira sentada à minha espera como fazias no tempo antigo. Mais de trinta horas de viagem, se o vento se aguentar. Seis nós, é uma boa velocidade neste velho veleiro feito de sonhos, memórias e tantas viagens de ausências. Sento-me no banco cansado a observar o lume azul no fogão bamboleante enquanto aguardo que a sopa aqueça na lata em banho-maria, não sei porque lhe chamam banho-maria, para mim é só água a aquecer uma lata de sopa pronta, feita de modo industrial para enganar o estômago. Olho pela escotilha o farol da Berlenga ao longe que já acendeu e o do Cabo a piscar em vermelho fogo, e sinto o fogo em mim a matar-me lentamente.
Mais logo vou dormir no convés a sentir a noite. Vou olhar as estrelas a ver se uma cadente rasga o céu e lhe peço um desejo.
Estou muito cansado. Demasiado cansado. O mar entranha-se em mim como uma maldição. Precisava do teu regaço para descansar a cabeça e fechar os olhos. Depois podia morrer.
João marinheiro 2008
Fotografia de Barcoantigo em 2008