Sexta-feira, Março 21, 2008


Da tua história não sei. Conta-me só as coisas boas de ti
João marinheiro
Fotografia de Barcoantigo 2008

Quinta-feira, Março 20, 2008

Apenas...


Apenas um beijo daqueles cheio de vento salgado...
João marinheiro 2008
Fotografia de Buldog

Terça-feira, Março 18, 2008

Amar-te é uma derrota minha...


Amar-te é uma derrota minha. Só minha.
Acordei tarde e repeti-me de novo a olhar o mar na pequena praia onde existo
Tudo permanece igual a ontem
Podes vir
Podes vir e alojar-te de novo em mim como fazes sempre
Já não me importo com as dores na pele, as dores nos ossos, as dores em mim
Já não me importo
Amar-te é um desnorte, um desacerto no rumo
Uma declinação da agulha
Um rasgar de velas
Um partir de mastros
O navio demasiado cansado a desarvorar e a borda a orçar, a amura a descair no mar
Somos um naufrágio de sentires os dois só
Só!
Imagino-te tanto
O meu mar dos sonhos
O meu mar de anseios e desvarios
Espécie de eco na neblina cerrada
- Mar!
- Mar!
- Mar!
Eu sei que te invento
Que os breves momentos em que existimos não existem e que os invento para sobreviver
Invento-te
A cor dos olhos negros na noite
A cor dos cabelos negros na noite
O cigarro na mão na noite
Tu na noite eu na noite perdido em ti
O navio que parte
O farol de braços abertos de luz branca a rodar
O rio que vaza a maré toda para o mar de sal
O mar aqui, a enseada redonda batida do vento, áspera
Toda tu és mar
Sabes a sargaço
Flor do sal
Algas vermelhas
Como me liberto de ti?
Se me estás nos poros da pele
No ar que respiro
O olhar
Amar-te é uma derrota minha. Só minha
O vento de norte chega agora
As palmeiras agitam-se dançando

Tudo permanece igual a ontem…

joão marinheiro 2008
Fotografia de Barcoantigo2008

Domingo, Março 16, 2008

É uma varanda...


É uma varanda de 5 por 1 metro, uma janela e uma porta que dá para o mar em frente.
À direita duas palmeiras resistem à força do vento norte. Sete candeeiros completam a vista a romperem a noite. Só um é de luz branca mesmo, e perto de mim os outros são amarelo sódio de alta pressão as lâmpadas. Só um é vapor de mercúrio branco, como se isso fosse importante. Importante é o som forte do mar, um rugido impressionante, baixo persistente de pedras a chocarem, a sentir-se vir da profundeza, a entrar em mim, a estremecer-me o corpo em calafrios de medo. Aqui o mar é sempre assim quando o vento sopra de norte, forte como hoje, e o vento sopra quase sempre de norte aqui neste pedaço de costa aberta recortada pela penedia e o alcantilado de tojo baixo e forte onde sobressai a torre do sinal sonoro que agora, faz anos, se mantêm em silêncio, como se o nevoeiro de hoje não fosse uma cerração de névoa espessa à vista, perigosa para os marinheiros, para os barcos que demandam a costa ainda indiferentes a mim e à pequena varanda por onde me passeio a sentir o mar.
Olho o céu nesta madrugada e a lua meio encoberta pelas nuvens brilha em branco prata, espécie de queijo redondo como eu lembrava que seria em menino, e as nuvens correm ligeiras tocadas pelo vento. A chuva tarda. Se calhar já não vem, e eu aqui entretenho-me a matar o tempo com o telemóvel a inventar relatórios do estado do tempo e a enviar para números ao calha a dizer:

- Relatório do estado do tempo das 22 horas:
Céu nublado
Vento de noroeste seco
Algumas nuvens
Estrelas no céu.

E depois envio 1 beijo deste lado a rematar a mensagem, mas este lado não existe. O relatório não interessa a ninguém, porque ninguém olha o mar a esta hora da noite com os meus olhos, e o telemóvel moderno que podia ser a minha ligação ao mundo continua dolosamente em silêncio. Aqui só se escuta o mar. Faço relatórios do estado do tempo ainda. Mania que ficou dos anos embarcado a atravessar oceanos. Faço relatórios do estado do tempo e não sei do estado em que estou, ébrio de saudade, ébrio do desassossego que sinto. Diariamente enlouqueço. Diariamente mato-me na mentira. Então os dias ficam parados e eu espero.
Conto as vagas que chegam a espumarem de raiva salgada de encontro às pedras negras que se erguem dos fundos aqui na reentrância de costa a fazer uma praia numa baia cercada por camboas onde se fazia a despesca até aos anos quarenta, quando por decreto, se proibiu este modo de pesca e se mandou destruir os muros que a vista atenta descobre em ruínas. Testemunho de um tempo de fome e de angustias passadas. As vagas chegam ritmadas, cíclicas, em grupos espaçados de sete seguidas e depois uma ligeira acalmia até chegarem de novo, era neste espaço de tempo de acalmia precária que se saia ao mar nas pequenas catraias nesse tempo em busca da sardinha e do pilado para matar a fome. Nem sei porque me lembro destes tempos de miséria mas tão puros na essência. Tão verdadeiros na fraternidade, na palavra dos Homens de Respeito.
A varanda de 5 por 1 metro é fria a esta hora da noite, a caleira arruinada pinga lágrimas da chuva que escorre do telhado negro, lágrimas de alguma água atrasada que ficou a despedir-se sei lá do quê e para quê, e eu caminho de ponta a ponta a contar os mosaicos velhos do chão a disfarçar, a imaginar que o tempo passa mas não passa. Aqui junto do mar cada dia tem vinte e quatro horas de angústia uns a seguir aos outros. Já não sei da coragem para morrer. Já não sei dos dias. Quem sou?

João marinheiro, praia de Fornelos 2008
Fotografia de Barcoantigo2008

Sexta-feira, Março 14, 2008

Adormecer...

Domingo, Março 09, 2008

VI carta...


Quatro e trinta e cinco da madrugada.
O relógio do pequeno rádio pisca em vermelho vivo a dizer-me que é tarde. Não me importo. O vento forte e frio e húmido entra pelas aberturas na porta e faz estremecer as paredes. As portas do sotão nos esconsos fazem um ruído que assusta de batidos incertos conforme a força do vento. Eu estou aqui. A janela sem as cortinas corridas aberta para a noite fria e ventosa por onde espreito a chegada da maré viva à praia deserta de nós. Imagino-te outra vez. Desejo-te outra vez e afogo-te em mais gole deste vinho ácido que me queima por dentro e me faz estar assim, velho, inútil, abandonado, bêbado nesta hora aqui a olhar o mundo deste pedaço de quarto onde habito agora. As noites desde que me mudei para aqui são dolorosas, em vigília sem sono, sofro de alucinações que me fazem ver cabos e velas rasgadas nas paredes, e ventos furiosos e temporais e gritos e naufrágios e companheiros que desaparecem borda fora numa volta de mar e tenho medo. Medo sim de estar aqui preso inválido sem forças, vencido por uma saudade silenciosa que me rouba a vontade e não me permite ir ate à praia de novo em busca dos restos de ti. O teu naufrágio doloroso em mim. A carcaça só navio, imponente que foste por dentro de mim. O mar onde naveguei temerário a desafiar as tempestades a desafiar os medos a desafiar os dias cíclicos e o sentir. Sinto-te. Sinto-te como quando tinha trinta anos e estava convencido que numa mão virava o mundo todo porque te amava. Agora já não. Tenho medo. Estou velho e só aqui, e a minha história de vida é desconhecida para aqueles que não sabem quem sou e não suspeitam do amor que guardo puro e níveo e inocente em mim. Espécie de segredo amaldiçoado que me persegue.

Quatro e quarenta da madrugada.
Passaram cinco minutos que me parecem um século inacabado pesado plúmbeo. Estremeço. Levanto-me para afastar os temores e vou à janela minúscula quase uma fresta na muralha que construí para me proteger do universo e aspiro com dificuldade o ar frio da noite a aragem marítima da pequena praia que vejo, o meu pedaço de mundo de imaginar, respiro numa hiper ventilação como fazia há cinquenta anos atrás nos tempos do mergulho, no principio dos tempos do mergulho a inebriar-me, a oxigenar-me de mar e imaginar que és tu que entras por dentro de mim, o sal escorre nos olhos velhos enevoados a fugirem a não verem já de forma precisa a tua silhueta a esta hora da madrugada na pequena praia deserta daqui, da janela, do meu humilde quarto que escolhi para me despedir da vida toda que tive e viver só da memória cada vez mais escassa em mim, e em ti, por ti a partir de ti hoje e ontem e seguramente amanhã.

Cinco horas da manhã.
A chuva anunciada chegou violenta. Hoje tudo é violento aqui. Forte a encharcar num repente o ar frio, as paredes, a rua velha, os candeeiros públicos a serem trespassados por pingos grossos, bagas de água pura dos céus que se abatem a esta hora do dia que ainda não acordou. Queria dar-te notícias de mim para me sentir vivo ainda e já não sei. Cada vez sei menos de notícias de mim e novas de ti. Cada vez sei menos, e é este silêncio sepulcral que me assusta, me faz retrair a emoção, as palavras, o querer, porque já nada vale a pena. O amor, a saudade, a vontade. Só a tua ausência me marca e me desfalece sempre. Já não existes. Não tens nome. O nome pequenito que pronunciava de duas letras do tamanho do universo todo, porque ele eras tu, toda, graciosa, a cheirar a perfume de flores e vida e emoção no olhar e eu que sempre me perdia nos teus olhos porque só a ti olhava de olhos nos olhos verdadeiro e sem medo. Anos mais tarde tentei fazer isso a experimentar o olhar de outras mulheres mas fiquei magoado porque partiram com medo do meu olhar que revelava a saudade tua sempre tua eternamente e nunca pude ser delas todo livre como o queriam porque o amor tem de ser todo pleno livre exclusivo de uma forma só esculpido a golpe de navalha nas tábuas do casco do navio que sulca os mares da emoção toda no oceano de tremuras e sal e ventos.
Sinto a pele fria o corpo pesado a cabeça toldada pelo vinho tinto que me fez a companhia possível esta madrugada enquanto esperei que regressasses pela maré-cheia e a lua prateada na pequena praia que me faz companhia agora. Eu sei que já não voltas que podes ter morrido já ou que podes ser feliz numa cidade qualquer distante amada por outro que não um marinheiro errante sem porto seguro e sem navio para governar, sem velas para desfraldar, a brisa sem proa para dar à vaga alterosa, eu sei. Mas só assim te perpétuo dentro de mim. A memória escassa do tempo que fomos demasiado breve. Espécie de horas de descarga no velho cais onde indiferentes os navios acostam e os homens pisam terra a esquecer o mar. Foste uma espécie de terra desconhecida que pisei com o coração, esse o erro, em nós marinheiros a terra não se deve pisar com o coração porque o coração atraiçoa e prende e depois perdemos ferro e correntes e barco e tino e destino e a agulha desnorteia e as marcas na carta deixam de ser marcas no papel para serem marcas na pele espécie de tatuagem invisível só visível por olhos experientes e treinados nas lides do horizonte do mar e das luas e das estrelas cadentes que num lamento mergulham no mar como que a pedir perdão do erro cometido. Foste o meu erro que repetia de novo e de novo. Porque o amor é assim feito de erros após erros. Aprendizagens a dois. Certezas e incertezas. Perguntas e duvidas e caminhares de mãos dadas pelas ruas da vida e pelas estradas do mundo. Tínhamos todo o tempo do mundo pensava. Afinal não era verdade, sempre tive pouco tempo no mundo que construi contigo, porque o mundo sempre foi um mundo de sonho paralelo à margem do Douro por onde passeávamos. E ficou tanto prometido e ficou tanto sentido e ficou tanto por dizer e demasiado por fazer. Tudo adiado ad eternun.

Seis e meia da manhã.
Clareia por cima dos telhados e das antenas a nascente o novo dia. Não o vejo daqui mas imagino porque tem de ser assim cíclico porque a natureza repete-se a horas certas, cíclicas, só nós não. A claridade avança a diluir a luz amarela da noite e as gotas de água ganham uma vida nova nas vidraças, como pérolas que brilham frescas e puras, macias, a recortarem o caminho nas janelas em direcção ao chão escuro de asfalto velho e paralelos gastos dos anos e do tempo.
Olho o copo de vido grosso que me tem acompanhado estes dias e num lampejo sinto saudade do velho serviço de chá que deixei abandonado. O velho sofá o relógio na parede. O tempo. Sei que não devo ser assim que o meu tempo já não é, que não existo. Sou um número estatístico num lar. Um velho sem vida abandonado que interessa só para fins estatísticos à segurança social, à misericórdia, sei lá. Não me interessa. Aqui não adormeço só quando quero dormir e sei que se não acordar alguém vai cuidar do corpo. E em casa já não, porque estava completamente abandonado e só, e tu não fazes ideia da solidão que é por dentro quando estamos assim desta forma arrumados para morrer.
Amo-te ainda.
Dói-me pronunciar estas palavras agora. Parecem um pecado que cometi, que me persegue até à expiação dos dias. Ontem foi dia da mulher, estive a ler no jornal, lembro-me de uma vez te ter oferecido uma Gerbera vermelha a simbolizar o nosso amor, espécie de sol rubro num malmequer gigante. Já não sei da flor. Já não sei de tantas coisas. Em que ano estamos?

Ontem estava aqui a olhar o mundo e observei um homem, acho que era um homem parado a olhar a casa durante um pedaço de tempo agarrado às grades que limitam o jardim. Fiquei a cismar que o conhecia. Aquela silhueta, mas é alucinação minha. Aqui ninguém sabe que existo e vim para morrer.

João marinheiro, praia de Fornelos 2008
Fotografia de Barcoantigo em 2008